carro de cesto do monte

A adaptação de uma corsa para transporte de passageiros, com um banco para duas pessoas numa leve estrutura de vime e dois carreiros para a sua condução nas inclinadas descidas do Monte para a baixa urbana do Funchal, deve ter ocorrido nos finais da década de 40 do séc. XIX. A necessidade de pessoal altamente habilitado para a condução em segurança de uma leve estrutura como esta levou à constituição de uma associação, os Carreiros do Monte, que funcionaria como tal a partir de 1850.

Os carros de cesto do Monte gozaram de imediato de uma enorme popularidade face ao ineditismo da vertiginosa descida da freguesia do Monte em poucos minutos, quando a subida levava horas. A primeira descrição parece dever-se a Isabella de França (1795-1880), em 1853, no seu Jornal de Uma Visita à Madeira, sendo depois sucessivamente descrita pelos inúmeros viajantes e escritores que passaram pela Madeira desde meados do séc. XIX. Em 15 de julho de 1954, por exemplo, passando pelo Funchal o escritor Ernest Hemingway (1899-1961), viria a referir ter sido “the basket-sledding down the mountain” uma das experiências mais fantásticas da sua vida (“Hemingway”, DN, Madeira, 16 jun. 1954, 1).

A descrição de Isabella de França da sua ida ao Monte, à então quinta do Prazer do cônsul inglês George Stoddart (cônsul 1838-1858), a 23 de agosto de 1853, debruça-se essencialmente sobre a descida em carro de cesto do Monte. O carro ainda era mais esquisito que o carro de bois para a autora, assemelhando-se a “um canapé muito curto”, feito de vimes, bem forrado e almofadado, o qual estava fixo a um trenó e ligado a cordas. Dois homens davam-lhe um empurrão e ele descia, acelerando a cada instante, “como uma bala”, a uma velocidade inconcebível, enquanto o guiavam fazendo o possível para evitar que se precipitasse. Isabella achava um verdadeiro mistério como os carreiros o manobravam, tão depressa e tão afastados dele, nunca perdendo o domínio do carro e conseguindo acelerar ou afrouxar à vontade.

A descida agradou-lhe profundamente, mas não pôde deixar de acrescentar que “quando a primeira vez me achei em locomotiva tão singular, não pude coibir-me de rir todo o tempo. Pode achar-se bem, como brincadeira de crianças, vê-las escorregar em sofá de vimes; mas ver gente adulta, um senhor e uma senhora, sentados lado a lado em tal veículo, que desce encostas a velocidades de comboio, com dois homens atrás (aparentemente arrastados por cordas e na realidade a conduzi-lo), isso então é sumamente ridículo”. Acontece que ainda se juntou um imprevisto, “para tornar a cena mais ridícula”: na descida, um rapaz que tocava rabeca aí na rua teve a ideia de vir atrás do carro de cesto tocando para os passageiros, levando a autora a acrescentar: “Até parecia um casamento de marinheiro!”. No entanto, achara a descida fácil e agradável, sendo das boas recordações que levava da Madeira (FRANÇA, 1970, 63-64)

As imagens da descida em carro de cesto foram desde sempre presença frequente na imprensa nacional e internacional e na blogosfera; uma das representações mais conhecidas deve ser a caricatura publicada por Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) sob o título “Visita às Ilhas. A Descida do Monte”, a propósito da visita régia de D. Carlos e D. Amélia às então ilhas adjacentes. O casal real não figura na ilustração, sendo substituído por um outro com a indicação de “Crise Vinícola” e “Credores Externos”, conduzindo o carro de cesto os ministros Hintze Ribeiro (1849-1907) e Mariano de Carvalho (1836-1905), à qual foi dada como legenda “Aguenta!” (A Paródia, 10 jul. 1901, 78).

O trajeto dos carros de cesto do Monte encontra-se hoje demarcado, e os carros continuam a ser conduzidos e controlados, como antigamente, por dois carreiros, trajados de branco e com chapéu de palha na cabeça, que, com perícia, utilizam as próprias botas, com grossas solas de borracha, como travões. A partida é feita da base da igreja do Monte e o trajeto, que utiliza o antigo caminho do comboio até ao Livramento, desenvolve-se num percurso de cerca de 2 km e realiza-se em cerca de 10 minutos, proporcionando aos seus utilizadores momentos de pura emoção. Os cestos, que antigamente vinham a ombro, como os representou várias vezes Max Römer (1878-1960), regressam hoje de viatura ao Monte.

Bibliog.: CAMACHO, Rui, et al., Funchal na Obra de Max Römer, 1922 a 1960, Funchal, Empresa Municipal Funchal 500 Anos, 2008; CARITA, Rui, História da Madeira, VII vol., O Longo Século XIX: Do Liberalismo à República. A Monarquia Constitucional, Funchal, SER/Universidade da Madeira, 2008; FRANÇA, Isabella de, Jornal de Uma Visita à Madeira e a Portugal, 1853-1854, com notas de Cabral do Nascimento e João dos Santos Simões, Funchal, Junta Geral do Distrito, 1970; “Hemingway”, Diário de Notícias, Madeira, 16 jun. 1954, p. 1; SILVA, António Ribeiro Marques da, Apontamentos Sobre o Quotidiano Madeirense (1750-1900), Lisboa, Caminho, 1994; SILVA, Fernando Augusto da, e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 3 vols., Funchal, 1940-1946; “Visita às Ilhas. A Descida do Monte”, A Paródia, 10 jul. 1901, p. 78.

Rui Carita

(atualizado a 12.11.2015)