cartografia

A cartografia é a ciência que trata da conceção, produção, difusão, utilização e estudo dos mapas geográficos, imprescindíveis, modernamente, para o estudo e governo de um território. Para o caso das ilhas, nos primeiros séculos das navegações e do povoamento, também era essencial para a sua localização. Este aspeto só veio a ser desenvolvido como o entendemos hoje com os trabalhos advindos das viagens de navegação dos sécs. XV e XVI, através da obtenção das coordenadas geográficas, pois que até então esses mapas se limitavam a dar localizações aproximadas, fornecidas por linhas de rumo a partir de uma ou mais rosas dos ventos.

Estes primeiros mapas marítimos, designados por “portulanos”, provavelmente por definirem os espaços geográficos pelos principais portos e pelas linhas de costa ou por um dos mais antigos autores destes instrumentos de navegação ter sido Angelino Dulcert Portolano, confirmam o conhecimento das ilhas atlânticas muitos anos antes das viagens oficiais dos navegadores do infante D. Henrique (1394-1460). Efetivamente, pelo menos em 1336, navios portugueses viajaram até às Canárias, o que logo foi registado num dos portulanos de Angelino Dulcert, datável de 1339, onde, para além desse arquipélago, se regista a localização da Madeira, do Porto Santo, inclusivamente dos Açores. A partir de então, muitos outros portulanos registam a localização aproximada da Madeira, nomeadamente no Portulano Mediceo Laurenziano, de 1351, no atlas catalão de 1375, atribuído a Abraão Cresques, no Libro del Conoscimiento, de 1385 a 1390, etc.

Deve-se ao cartógrafo Pedro Reinéis (c. 1462-c. 1542), o autor da primeira carta portuguesa assinada (1485), a introdução de latitudes, em 1504, pela primeira vez numa carta náutica. Os cartógrafos quinhentistas vão debruçar-se essencialmente sobre o Atlântico e a correção do desenho da ilha da Madeira e das restantes ilhas vai-se progressivamente aperfeiçoando. O conhecimento e o interesse sobre o Atlântico foi aumentando, como se comprova pelo célebre “manuscrito” do impressor alemão residente em Lisboa, Valentim Fernandes (c. 1465-1518/19), enviado para a Alemanha entre 1506 e 1510, com uma muito completa descrição dos descobrimentos portugueses e os desenhos de quase todas as ilhas atlânticas da coroa portuguesa, entre as quais a Madeira.

O interesse pelas ilhas do Mediterrâneo data do tempo das navegações gregas, com a descrição mais ou menos mítica das mesmas. Deste interesse nasceram os Isolarios, conjuntos de pequenos mapas de ilhas, por vezes com descrições, que se desenvolveram no quadro do Renascimento e dos Descobrimentos portugueses. Inicialmente eram dedicados às ilhas gregas, dentro do espírito humanista dos homens do Renascimento, mas em breve, e com as notícias chegadas a Itália sobre as navegações portuguesas, ampliaram-se a todo o mundo conhecido, ou que se imaginava conhecer. Se o mito da ilha grega inspirou as primeiras experiências dos isolários, as navegações portuguesas e castelhanas vão inspirar os seguintes exemplares renascentistas, como a série de desenhos enviada de Lisboa pelo impressor alemão Valentim Fernandes, com as primeiras representações da Madeira, dos Açores, de Cabo Verde, de São Tomé e outras.

Em breve, apareciam publicadas em Itália os isolários das ilhas de todo o mundo conhecido, primeiro por Benedetto Bordone de Pádua (1528), com tanto êxito que se repetem as edições ao longo do século XVI, seguindo-se muitos outros, já não com o pequeno formato inicialmente publicado, mas em folhas duplas de grande divulgação. O Isolario de Benedetto Bordone de 1528 é a primeira representação impressa que se conhece da ilha da Madeira. Igualmente a Bordone se ficou a dever a primeira representação oval do mapa-múndi como seria divulgada nos anos seguintes e até aos nossos dias. O interesse dos isolários manteve-se no século seguinte, ainda sendo publicado em 1693 o do frade franciscano Vincenzo Maria Coronelli (1650-1718), mas com representações da Madeira e do Funchal perfeitamente fantasiadas.

Ao longo do séc. XVI os portugueses haviam desenvolvido importantes capacidades de representação cartográfica, como se comprova pelos trabalhos do mestre das obras reais Mateus Fernandes (III) (c. 1540-c. 1597), pelo menos na Planta do Funchal, que assina com sigla, tal como na Cosmographya de Toda a Ylha da Madeira, 1567 a 1570, que pertence ao mesmo álbum da Biblioteca Nacional do Brasil (Cartografia 1090202 e 1090203), com idêntica caligrafia, mas também idêntica à do cartógrafo Luís Teixeira (c. 1550-c. 1600). O conhecimento da configuração da Madeira, por esta época, era também vigente nas Canárias, fazendo parte da Descrição e História do Reino das Ilhas Canárias, Antes Denominadas de ‘As Afortunadas’, com o Parecer das Suas Fortificações de Leonardo Torriani (1559-1628), trabalho executado por 1592. No entanto, se a configuração da Madeira é aceitável, a do Porto Santo é perfeitamente conjetural, aparecendo quase circular.

O séc. XVII leva a um certo esmorecimento no cultivo da cartografia marítima na Península Ibérica, que se alarga então mais à cartografia continental e abandona um pouco a marítima, cujos principais centros de produção mudam para a Flandres, onde passam a ser impressos a maioria dos mapas, sendo um dos principais divulgadores o cartógrafo Pierre van der Aa (1659-1733), que trabalhava em Leiden. Existem, contudo, outros cartógrafos e impressores em França e na Alemanha, passando a trabalhar aí, também, cartógrafos formados em Lisboa, como, por exemplo, alguns dos elementos da família Teixeira Albernaz.

Em relação à produção regional, no entanto, comparando a qualidade da representação da Madeira executada em 1567/70 por Mateus Fernandes (III) com a executada pelo engenheiro Bartolomeu João em 1654, o retrocesso teria sido imenso. Há assim que separar a racionalidade renascentista da maneirista e barroca, onde os sistemas de representação mental e visual são diferentes, e o mesmo se passa a outros níveis e em outros locais, como a fantasiada representação da Madeira editada na Description de l’Univers, por Alain Manesson Mallet (1630-1706), em Paris, no ano de 1683, onde o autor se intitula “Ingeni des Camps et Armees du Roy de Portugal”, posto que nunca existiu. A contínua publicação de vistas e mapas mais ou menos fantasiados entre os meados e finais do séc. XVII, e mesmo nos inícios do XVIII, como as representações da Madeira e de um dragoeiro, ou uma vista do porto do Funchal, publicadas por Thomas Astley (fal. 1759) em A New General Collection of Voyages and Travels, 1745-47, em Londres, em 1752, não pretende uma representação fiel da realidade como a entendemos hoje, tendo que ser enquadrada num outro universo interpretativo.

A situação muda ao longo do séc. XVIII com a progressiva divulgação das ideias iluministas e a necessidade de informação da decisão régia. O principal motor desta alteração na cartografia e na fortificação foi o engenheiro-mor do reino Manuel de Azevedo Fortes (1660-1749), que editou um manual para os levantamentos cartográficos em 1722. O assunto tardou em chegar à Madeira e só se veio a colocar nos meados do século, com as obras do porto do Funchal e, mais especificamente, com a vigência do governador João António de Sá Pereira (1719-1804), entre 1766 e 1777. Foi nesse quadro, e no da reorganização do Exército Português, que por ordem do conde de Lippe foi enviado para o Funchal o Eng.º Francisco de Alincourt (c. 1733-1816). Veio em finais de 1767, como sargento-mor, com exercício de engenheiro e veio a montar o primeiro levantamento cartográfico científico da ilha da Madeira e da do Porto Santo.

Para o ajudar chegou, em meados de 1768, o ajudante Faustino Salustiano da Costa e Sá (c. 1745-c. 1820) (Costa, Faustino Salustiano da), discípulo extranumerário da Academia Militar da Fortificação da Corte, que acabou por ficar na ilha até janeiro de 1775. Um dos primeiros trabalhos de que estes engenheiros foram encarregados foi o do planeamento da levada do Rabaçal, em outubro de 1768, obra que se arrastaria pelo século seguinte com os engenheiros militares António Pedro de Azevedo (1812-1889) e Manuel José Júlio Guerra (1801-1869). Com estes engenheiros se deu início aos trabalhos da Escola de Geometria e Trigonometria do Funchal, onde as aulas tiveram início em outubro de 1768, tendo Francisco de Alincourt ido a Lisboa para recolher o material necessário, especialmente de topografia, vindo mesmo um “theodolito”.

Os trabalhos de levantamento da planta da ilha da Madeira devem ter iniciado também logo nos meados do ano de 1768 e, segundo as diretivas do governador António de Sá Pereira, deveriam começar na igreja de Santiago, no extremo da cidade e em direção à ponta de Leste. Em outubro estava já concluída a planta “provisional” da serra da Encumeada e “suas pertenças”, trabalho que se continuou nos seguintes anos de 1769 e 1771, nesse último ano só a cargo de Salustiano da Costa, dada a prisão do sargento-mor em dezembro do ano anterior, incriminado pelo governador numa série de prováveis fraudes.

Em 1768 os dois engenheiros tinham também levantado a planta da ilha do Porto Santo, que acompanhou uma interessante descrição daquela ilha mandada fazer a Alincourt pelo governador, planta depois repetida por Salustiano da Costa, em 1775, cujo exemplar chegou aos nossos dias, ao contrário do elaborado anteriormente. Foram estes engenheiros em serviço na Madeira que também levantaram uma planta do Funchal, pronta em abril de 1770, “desde Santiago até à ribeira de São João”, depois reformulada pelo comandante inglês Skinner, em 1775, e que veio a ser publicada em Londres, em 1791, com o trabalho Geo Hydrographic Survey of the Isle of Madeira, de William Johnston, datado de 1788. Esta planta seria ainda reelaborada, por volta de 1800, por Agostinho José Marques Rosa, que fora provido como inspetor de obras do Funchal e que tinha vindo em agosto de 1796, como tenente da companhia de Pontoneiros do regimento de artilharia da corte; o exemplar foi posteriormente depositado na Biblioteca Pública Municipal do Porto.

A partir dos finais do séc. XVIII, os ingleses levantaram cartograficamente quase o mundo inteiro, subsidiando-se dos elementos recolhidos pelos portos que iam frequentando, valendo-se dos trabalhos que foram encontrando, dos elementos fornecidos pelos seus ativos agentes consulares, trabalhando com elementos locais, vindo depois a editar muitos desses trabalhos, sem nunca citar quem lhos forneceu. Assim aconteceu com os trabalhos de Paulo Dias de Almeida (c. 1778-1832), com quem, durante a longa ocupação da Madeira de 1809 a 1814, sustentaram verdadeiras guerras pela posse dos levantamentos efetuados, voltando a acontecer o mesmo com o capitão António Pedro de Azevedo, que trabalhou cerca de um mês com o comandante Alexander Thomas Emeric Vidal (1792-1863) e demais pessoal do H.M.S. Stix, em 1840, sendo a planta da Madeira, Porto Santo e Desertas logo publicada em Londres, sob supervisão de James Wyld, “Geographer to Her Magesty, Charing Cross East”, em 1841, sem fazer qualquer referência aos elementos madeirenses que trabalharam no levantamento.

As décadas seguintes na Madeira serão lideradas pelo Eng.º António Pedro de Azevedo, que, em Lisboa, já como general, e à frente dos arquivos cartográficos do Exército, haveria de editar a mesma planta, em três folhas com quase dois metros de comprimento, com o pormenor estranho de citar que os trabalhos com o vapor de guerra britânico Stix, os quais estavam na base desta planta, tinham ocorrido entre 1842 e 1843. A quantidade de trabalhos assinados por António Pedro de Azevedo, mas feitos por uma vasta equipa, é verdadeiramente notável e marcaram não só a cartografia, como também a arquitetura militar e as obras públicas de todo o séc. XIX, século que em Portugal foi profundamente marcado pela ação dos engenheiros militares.

Bibliog. manuscrita: ANTT, Provedoria da Real Fazenda do Funchal, liv. 977, fl. 289; BNB, Cartografia 1090202 e 1090203; impressa: AZEVEDO, António Pedro de, Carta Geo-Hydrographica da Ilha da Madeira. 1879, folhas, 95 x 74 cm, Lisboa, 1879, ARM; CARITA, Rui, A Planta do Funchal de Mateus Fernandes de c. de 1570”, separata do Boletim da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra, vol. 37, Coimbra, 1982;., História da Madeira, 7 vols., Funchal, SRE, 1991 a 2008; Conhecimento e Definição do Território. Os Engenheiros Militares (Séculos XVII-XIX), catálogo de exposição com texto e fichas de Rui Carita, Direção dos Serviços de Engenharia e ANTT, Lisboa, 2003; CORONELLI, Vincenzo Maria, Isole Canarie: Isole e Mar delle Canarie Dette dagli Holandesi Kanaariche Eylander Posseduta da S. M. Cattolica (…), gravura aguarelada retirada de Isolario dell’Atlante, Veneto, Veneza, 1693, ARM; JOHNSTON, William, Geo Hydrographic Survey of the Isle of Madeira, 1788, ed. Londres, 1791, Casa-Museu Frederico de Freitas; MALLET, Alain Manesson, Isle de Madere, gravura retirada de Description de l’Univers, por Alain Manesson Mallet (1630-1706), Paris, 1683, ARM; WYLD, James (coord.), Geo-Hydrographic Survey of the Island of Madeira and his Dependencies, impresso sobre papel, recortado e colado em tela, 55, 5 x 75, 8 cm, Londres, 1841, ARM.

Rui Carita

(atualizado a 31.08.2016)