casa de saúde câmara pestana

A partir de  9 de maio de 1925 as Irmãs Hospitaleiras  iniciaram a assistência psiquiátrica na Casa de Saúde Câmara Pestana em S. Gonçalo a 18 mulheres doentes  do Manicómio Câmara Pestana (1906-1925) que as Irmãs compraram à Junta Geral.  Admitiram mais 12 e de década para década  o número das enfermas cresceu sempre: em 1930 eram 103; 1940, 245; 1950, 274; 1960, 470; 1970, 679. Este aumento explica-se devido ao vazio de respostas, à regresso de doentes dos países de emigração, aos pobres e doentes da região e às correntes residuais  das teorias da degenerescência  da doença: Os grandes alienistas abraçavam no dobrar do séc. XIX para o séc. XX nos  quais se integra Miguel Bombarda  (1851-1910), e se prolongou  até  1970 mantinham que o doente uma vez doente o seria para sempre.

As novas correntes de psiquiatria emergentes:  porta aberta,  desinstitucionalização, porta giratória, anti psiquiatria, saúde mental comunitária, instituições para deficientes mentais e uso de novos psicofármacos reduziu os internamentos. Em 1980 reduziram para 474; e em 1990, para 389. O novo paradigma de reabilitação psicossocial e dos novos olhares sobre a saúde e capacidades preservadas dos doentes mentais, e o uso de psicofármacos de segunda e terceira geração   permitiram  continuar a reduzir as admissões, a dar alta às pacientes antes consideradas crónicas, a colocar as mais autónomas em unidades na comunidade e na família. Em 2000 as doentes baixaram para 305. Contudo,  novas instalações, a pobreza e o envelhecimento da população, aumentaram ligeiramente o número que  atingiu 329  em 2010 e se estabilizou à volta de 350.

Até 1940 predominavam os cuidados de higiene, alimentação adequada, as ocupações ergoterápicas e a animação social e pastoral. Os tratamentos eram à base de calmantes  e   convulsivantes: sistocardil, cardiozol, eletrochoque e insulinoterapia. As ocupações mais comuns eram as atividades domésticas e os ateliês de bordados em troca de compensações  gratificantes.  Nos últimos 25 anos foram incrementadas ações de treino de reabilitação psicossocial e psicofármacos de ação prolongada.

A Casa dispôs desde o  início dos serviços do João de Almada.  Já tinha sido diretor do Manicómio desde 1907 a 1925 em que pediu a demissão, sendo admitido pela direção da Casa de Saúde  nesse mesmo  ano e mantendo-se em funções até à morte em 1942. Sucedeu-lhe Aníbal Augusto de Faria de 1942  a 1969; e Armindo Saturnino Pinto Figueira da Silva  até 2005. O seu sucessor, José Vieira Nóbrega Fernandes, deixou  recentemente o cargo sucedendo-lhe Luís Filipe Fernandes. Os diretores clínicos sempre foram coadjuvados por outros clínicos. Atualmente, a Casa conta ao seu serviço seis psiquiatras,  um neurologista, três clínicos gerais, um dentista, um ginecologista e um oftalmologista.

As funções de enfermagem, administrativas e de coordenação dos serviços  até  aos anos oitenta do séc. XX foram exercidas quase exclusivamente pelas Irmãs. Nesse período a Casa começou a recorrer a enfermeiros leigos e outros técnicos. No presente trabalham na Casa cerca de 220 colaboradores, entre técnicos e auxiliares, incluindo 45 enfermeiros e 30 técnicos de várias áreas. Contando ainda com voluntários, adultos e jovens.

Todos os colaboradores e Irmãs participam em inúmeros encontros de formação e jornadas técnicas, na Madeira e no Continente,  incluindo, as dos 75 anos da Casa, ano 2000, em conjunto  com a Casa de Saúde S. João de Deus e as dos congressos de psiquiatria S. João de Deus para comemorar datas significativas dos dois institutos. A partir de 1980 as ações de formação para Irmãs, auxiliares e técnicos, cobrem as áreas da humanização da vida quotidiana, da animação pastoral, dos temas de liberdade religiosa e direitos das doentes mentais. A animação sócio educativa nas áreas da alfabetização, musicoterapia, psicomotricidade, em ateliês ocupacionais, saídas a passeio e à praia, são algumas das atividades  do dia a dia incrementadas nos últimos anos .

As instalações foram renovadas e aumentadas progressivamente, sendo inauguradas a nova cozinha, despensa e a casa das Irmãs em 1970, seguidos de melhoramentos  noutros pavilhões e construído o pavilhão do S. Coração de Jesus e o bar. A partir  dos anos 90 do séc. XX a Casa iniciou planos de reconstrução total das instalações, sendo a primeira fase inaugurada  em 15 de dezembro de 2000 e a segunda em 15 julho de 2011; dos edifícios anteriores só ficou a igreja e a residência das Irmãs.

A reabilitação psicossocial deu lugar a comunidades redimensionadas com as doentes mais autónomas,  dentro e fora da instituição:  “Santa Luzia”  com cinco residentes em 2004; e a de “Santo Amaro” em 2008 também com cinco residentes. Desenvolveram-se ainda atividades das doentes na casa e fora dos muros  em passeios  pela ilha e ações de animação e lazer em parceria com outras instituições. As Irmãs ajudaram famílias e crianças pobres,  deram catequese, participaram na pastoral da saúde da diocese, etc. A Casa tem acolhido também milhares de familiares das doentes e visitantes que anualmente acorrem a  contemplar os  presépios e assistir a festas em que participam ativamente muitas doentes; e a associação das famílias, a “Âncora” que desde 2004 tem incrementado este intercâmbio com atividades próprias.

A Carta de Identidade da Instituição da Congregação da Irmãs Hospitaleiras afirma no n.º 46  a fidelidade à sua tradição e valores no «respeito absoluto pela dignidade da pessoa»,   considerando a «atenção integral pilar fundamental do processo terapêutico, o qual inclui o direito aos cuidados espirituais e religiosos».

A Casa de Saúde está certificada no âmbito do Modelo EQUASS, desde junho de 2014, com formação continuada ao nível dos serviços de psiquiatria e saúde mental, enfermagem, psicogeriatria, deficiência intelectual; serviço de admissão, serviços de apoio e suporte, serviços administrativos, recursos humanos, gabinete do utente, pastoral da saúde, serviços sócio-terapêuticos e socioculturais, serviços gerais, higiene hospitalar e de manutenção. esta certificação de qualidade é sinónimo de muito caminho  percorrido e de formação contínua em ordem à excelência.

Em 2014, centenário da morte de S. Bento Menni, criador de um novo modelo de casas de saúde de psiquiatria, a Casa integrou as ações celebrativas do fundador e patrono das Irmãs sob o lema: “Um coração sem fronteiras” e um programa de formação polifacetado sobre cuidados holísticos com ética e qualidade, ciência e humanização destinado a ultrapassar as barreiras dos estigmas, a inovar formas de cuidar e de pensar a saúde mental com criatividade e fidelidade ao carisma hospitaleiro do Fundador da Congregação.

Bibliog. impressa: RIBEIRO, João Adriano, A Casa de Saúde Câmara Pestana, percurso histórico da Obra Hospitaleira na Madeiram, in I Jornadas Hospitaleiras de Saúde Mental da Região Autónoma da Madeira….2000; GAMEIRO, oh Aires e Manuel Maria GONÇALVES, OH, História da Casa de Saúde S. João de Deus na Madeiravol. I, Os Irmão de S. João de Deus e os alienados. Dos antecedentes a 1960, Lisboa, 1914, Esfera do Caos editores, pp. 34-36; CASA DE SAÚDE CÂMARA PESTANA, Breve Historial,1925-2012; IRMÃS HOSPITALEIRAS, Casa de Saúde Câmara Pestana, 1925-2010; manuscrita: ARM, Livro 11, Correspondência Expedida, Cartas 308126.05.1924;42 20.12.1924; ARM Livro JGDFUN, Secretaria 2263 Sessão de 4 de junho de 1925 126v,127f e v e 128 f e v Contrato com as Irmãs; “Memórias” Crónicas Manuscritas das Irmãs Hospitaleiras” [Cronologia da Casa de Saúde Câmara Pestana] Arq. da Casa de Saúde Câmara Pestana.

Aires Gameiro

(atualizado a 22.08.2016)