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Henrique Augusto Vieira de Castro nasceu na freguesia de São Martinho de Cedofeita, cidade do Porto, a 24 de junho de 1869 e era filho de Luís Lopes Vieira de Castro e de Carolina Cândida Vieira de Castro. Os avós paternos, Luiz Lopes Vieira de Castro e Emília Angélica Vieira de Castro, eram naturais de Fafe e os paternos, Albino Joaquim d’Oliveira e Sousa e Anna Amália de Sá Ferraz, do Porto. Faleceu numa casa de saúde à Rua Duarte Galvão, n.º 54, na freguesia de Benfica, em Lisboa, no dia 21 de agosto de 1926. A seu pedido, e como filho adotivo da terra onde viveu largos anos, o seu corpo foi trasladado para o Funchal.

Henrique Augusto Vieira de Castro foi para a Madeira como agente do Banco de Portugal em finais de 1893, indo viver para a R. das Cruzes, no Funchal. Casou-se no dia 1 de Fevereiro de 1897, aos 27 anos, com Alegria Adida (10/02/1882), de 14 anos e 10 meses de idade. A cerimónia realizou-se no Funchal, na R. das Pretas, n.º 42, na residência dos sogros, Abraham Adida, natural de Oram (África francesa), e Helena Leonor Gouvêa de Portugal da Silveira Adida, natural de Lisboa. Os avós paternos da noiva eram naturais de Gibraltar e os maternos de Lisboa.

Deste casamento nasceram dois rapazes e uma rapariga. Luiz Lopes Vieira de Castro, natural de São Pedro, nasceu no dia 10/05/1898. Foi advogado, casou-se com Lydia Buzaglo, a 12/05/1924, na 4.ª Conservatória de Lisboa, e faleceu em São Sebastião da Pedreira a 07/11/1954.

Seu irmão, António Manuel Lopes Vieira de Castro, nasceu em São Pedro a 25/03/1899, foi banqueiro e casou-se aos 25 anos, a 29/12/1924, com Clara Abudarham Bettencourt da Câmara. Morreu de síncope cardíaca, com febre tifoide, aos 34 anos, na sua residência ao Muro da Coelha, São Roque (Funchal), no dia 30 de Outubro de 1933. No inventário, iniciado, depois da sua morte, pela inventariante, sua mulher, são nomeados dois filhos, José Luís, de oito anos, e Isabel, com seis anos, e consta que não deixou bens.

A filha, Carolina Vieira de Castro da Rocha Machado, natural de São Pedro, nasceu a 06/07/1901. Casou-se aos 16 anos, a 06/06/1918, com Luiz da Rocha Machado, banqueiro, de quem enviuvou a 21/01/1973. Residiram na freguesia do Monte, no Funchal.

Note-se que tanto Henrique Augusto como os seus três filhos se casaram com pessoas oriundas de famílias ricas e influentes. Por outro lado, tal como outros empresários funchalenses da época, Henrique Vieira de Castro diversificou os seus investimentos (banqueiro, agente de navegação, diretor e/ou acionista de várias firmas do sector secundário) e procurou envolver-se em assuntos de interesse local, com o objetivo de garantir cargos para os dois filhos mais velhos, que viriam a ser, um diretor da Junta Autónoma das Obras do Porto do Funchal (JAOP), e o outro diretor de O Jornal.

Nos requerimentos entregues por Henrique Vieira de Castro no Governo Civil do Funchal a 29/07/1920, para obtenção de passaporte, conseguimos alguns dados da sua fisionomia. Tinha 1,69 m, rosto oval, olhos azuis, nariz regular e cabelo castanho. Só na primeira viagem teve a companhia da esposa (de cabelos pretos e olhos azuis) e pretendiam visitar Madrid e Paris. Residiam na rua de João Joaquim de Freitas, no Funchal. Nos anos seguintes, fez mais duas viagens, ambas a Espanha, França e Suíça. Em 1923 e 1924, voltou a requerer passaportes com o intuito de visitar a Espanha, França, Bélgica, Inglaterra e outros portos da Europa.

A atividade política de Henrique Augusto Vieira de Castro intensificou-se com a proclamação da república. Como defensor da monarquia, logo engendrou um processo que lhe permitisse combater o novo regime. Em carta dirigida ao redator principal do Diário de Notícias do Funchal, Cyriaco de B. Nóbrega, tentou mobilizar a opinião pública, aliciando aquele redator. O objetivo era divulgar o seu projeto de um Estado federal autónomo, com a criação de um partido que fosse a sentinela vigilante na defesa dos interesses da Madeira; seria um partido autonomista que, dentro das instituições vigentes, defenderia os legítimos interesses do arquipélago. Para o desenvolvimento económico da Madeira, propôs um plano, sobejamente debatido na sociedade madeirense, para a construção de uma série de infraestruturas. Algumas delas constavam nos vários estudos do eng.º Adriano Augusto Trigo, justificadas em “Breves considerações sobre as obras de que carece o porto do Funchal”, e estavam associadas à ideia do aformoseamento da cidade, com a construção da marginal e de obras de saneamento. Desse rol de propostas, destacam-se ainda as novas levadas para irrigação, o plano das estradas distritais, bem como a construção de bairros para pobres e beneficência pública, um aspeto que ele próprio ajudou a dinamizar. A terminar a carta, e para se incluir no projeto, sugeria que “a autonomia da Madeira seria um ideal pelo qual deviam lutar todos os seus filhos legítimos e adotivos” (CASTRO, DNM, 16 out. 1910, 2).

O redator cumpriu o seu papel, ao considerar “que os cidadãos que se acham atualmente dirigindo os destinos desta ilha […] se esforçarão por fazer dotar a Madeira com os melhoramentos que ela mais reclama […]”. E foi mais além, ao sugerir “que devemos colaborar todos, da melhor vontade e até com sacrifício, para que a Madeira deixe duma vez de ser considerada a Irlanda Portuguesa” (NÓBREGA, DNM, 16 out. 1910, 2).

A reação de “um republicano da velha guarda” não demorou muito, contrapondo que, naquele contexto, “só podem existir dois partidos em Portugal: o que defende a república e o que suspira pela monarquia”. Segundo este autor, “republicano e monárquico são duas qualidades antagónicas, absolutamente incompatíveis”. E os argumentos apresentados são irrefutáveis, pois “se aderem às novas instituições, com lealdade e civismo, não têm necessidade alguma de organizar mais grupelhos, segundo a choldra dos últimos anos da monarquia, sob denominações vagas e insignificativas” (UM REPUBLICANO…, DNM, 18 out. 1910, 2).

Na réplica ao interlocutor republicano, Henrique Vieira de Castro radicalizou a sua posição e, de facto, acabou por contrariar o propósito inicial: “dentro das instituições vigentes”. No entanto, reformulou essa ideia, ao expressar que “o meu desejo é que a Madeira se manifeste pela sua independência como estado federado da República Portuguesa, argumentando que a ocasião é única, visto que o governo provisório trabalha na futura constituição”. Assim, verificamos que, de um dia para o outro, acabou “levantando um vivo à independência da Madeira!” (CASTRO, DNM, 19 out. 1910, 2).

Na década seguinte, ressurgiu o Jornal da Madeira, editado por seu filho Luiz Vieira de Castro. Numa nova era (Ano 1), no n.º 1 de 22 de Novembro de 1923, o diretor utilizou o título para justificar que a “ideia de autonomia da Madeira está enquadrada, por sua natureza, num plano geral de descentralização que todos os portugueses conscientes tão ardentemente desejam ver realizado”. Assim, para implementar uma reforma administrativa, e se “as províncias de Portugal quiserem desde já defender utilmente os seus interesses, terão de trocar a velha fórmula da descentralização por um processo mais oportuno de combate: o regionalismo” (CASTRO, JM, 22 nov. 1923, 1).

Henrique Vieira de Castro destacou-se ainda por realizações patrióticas e como benemérito de várias causas sociais. Pelo ano de 1897, quando era presidente da Associação Comercial, criou uma Escola Elementar do Comércio, onde tiveram aulas alguns empregados de firmas funchalenses. Apesar de funcionar durante poucos anos, muitos deles prosseguiram estudos na Escola Industrial do Funchal, então denominada Escola Industrial António Augusto de Aguiar.

Um ano após a tragédia que provocou quatro dezenas de mortos na baía do Funchal (33 marinheiros franceses e 8 empregados da Casa Blandy), em consequência do torpedeamento do submarino alemão U-38 (a 3 de Dezembro de 1916), foi inaugurado um monumento em memória daquelas vítimas. O monumento, da autoria do escultor madeirense Francisco Franco de Sousa, foi erigido no cemitério das Angústias. Sendo o promotor da ideia, Henrique Vieira de Castro, banqueiro e sócio da casa bancária Reid, Castro & C.ª, iniciou a subscrição com um avultado donativo e incentivou novas ofertas até perfazer dois contos de reis, quanto era necessário para a conclusão do túmulo-monumento.

No início do séc. XX, Henrique Vieira de Castro, como agente de navegação, recorreu por diversas vezes aos Autos de Protesto Marítimo nos casos de incêndio nos porões dos vapores surtos no porto do Funchal. Uma das ações judiciais teve origem no vapor Nora, da Det Forenede Dampskibs-Selskab, uma das companhias fidelizadas no porto do Funchal, depois também denominada Bergen Line e representada pela agência João de Freitas Martins. Comprovando a já referida complementaridade e o sucesso nos negócios, no início da déc. de 1920, a Reid, Castro & C.ª, sob a direção de Vieira de Castro, ainda representava, na Madeira, a companhia de navegação inglesa Yeoward Line, com navios que ligavam Liverpool, via Lisboa, aos portos do Funchal, Las Palmas, Tenerife e Orotava, nas ilhas Canárias.

Durante a déc. de 1920, especialmente, foram inúmeras as ações judiciais que entraram no Tribunal da Comarca do Funchal, tendo como autora a Reid, Castro & C.ª. A maior parte delas, assinadas pelo gerente, Henrique Vieira de Castro, surgiu por incumprimento dos prazos de letras comerciais de montantes diversos. Com frequência, recorria-se à penhora dos bens dos réus. O desfecho normal, após várias audiências, era a condenação ao pagamento da dívida, com juros à taxa de 15 %, bem como das custas judiciais e extrajudiciais. No ano de 1923, a casa bancária Reid, Castro & C.ª anunciava na imprensa funchalense a compra e venda de papéis de crédito, cupões, moeda e notas, cheques sobre o estrangeiro, entre outras operações bancárias.

No dia 25 de Novembro de 1923, realizou-se nos jardins do Reid’s Palace Hotel um almoço comemorativo dos 30 anos da chegada ao Funchal de Henrique Vieira de Castro. Para esse efeito, inscreveram-se 300 cidadãos, facto que atesta o reconhecimento a tão benemérita figura. A homenagem foi abrilhantada pela banda “artístico-madeirense” Guerrilhas.

A par do seu espírito empreendedor, que o levou a investir em várias sociedades sediadas no Funchal e em Lisboa, envolveu-se quase sempre nas questões mais importantes, e por vezes polémicas, que fervilhavam na sociedade madeirense. Uma delas foi a demorada e complexa questão do porto artificial do Funchal. O primeiro concurso foi aberto pelo prazo de nove meses, mas não teve concorrentes. Ao segundo, cujo prazo terminou a 31 de outubro de 1923, só concorreu a firma inglesa Fumasil C.º Ltd, representada por Américo Correia da Silva, que apresentou plantas das obras do porto do Funchal, acompanhadas de uma proposta e respetiva memória descritiva. Os concorrentes podiam modificar o projeto inicial, pelo que a Fumasil C.º Ltd apresentou um megaprojeto dispendioso, com proposta de criação de uma zona franca e de abolição da transferência para o porto de Leixões do imposto que era cobrado na Madeira (previsto no art.º 3 da lei n.º 1437, de 30 de maio de 1923), que passaria a reverter para a construção do porto do Funchal.

Com a aprovação da lei n.º 1657, de 3 de setembro de 1924, que criou receitas para o porto do Funchal provenientes do imposto sobre o tabaco (cerca de 2.500.000$00 anuais), a Comissão Executiva da JAOP tratou imediatamente de formalizar o contrato para a construção do referido porto. Esta comissão tinha, assim, a faculdade de contratar para a construção e conceder o exclusivo da exploração, durante nove décadas, do porto artificial do Funchal à Fumasil C.º, por ter sido a única proponente. Mas os opositores ao projeto e ao processo de concessão logo contribuíram para que as fações se digladiassem na imprensa funchalense.

Tendo sido escolhido como representante do sector bancário, Henrique Augusto Vieira de Castro marcou presença nas reuniões preparatórias para a formação da JAOP, em meados de janeiro de 1912. Na sessão de 22 de dezembro de 1925, onde participaram dois senadores e dois deputados pelo círculo do Funchal, gerou-se alguma confusão, visto que as três dúvidas levantadas por um senador e um deputado levaram o presidente da mesa a abandonar a sala depois de afirmar que queriam discutir assuntos que não eram da competência daquela Junta. O problema mais grave foi a suspeita levantada pelo deputado Reis Costa que, aludindo ao artigo 8.º da Lei Orgânica da Junta, questionou a legalidade da participação de Henrique Vieira de Castro por ser pai do diretor da Companhia das Obras do Porto do Funchal. Esta companhia fora entretanto criada para contornar a legislação portuguesa que estipulava que a empresa construtora deveria ser portuguesa, conforme portaria de 8 set. 1924, aprovada à pressa pelo ministro do Comércio, Pires Monteiro, cinco dias após aprovação da referida lei.

Entretanto, na tumultuosa sessão de 04/01/1926 da JAOP, foi a reunião considerada ilegal e o próprio Reis Costa proclamou até a ilegalidade da mesma Junta. Depois de várias tentativas e de algum impasse resolveu-se a questão legal. Na sessão de 31/05/1926, a Comissão Administrativa da JAOP passou a ser constituída por Juvenal Henriques de Araújo, presidente, Aníbal Augusto Trigo, vogal, e Manuel Cristiano de Sousa, secretário. Nesta sessão, entre outro expediente, foram pedidos novos elementos técnicos sobre a baía do Funchal e remeteram exemplares dos desenhos gerais e de detalhe das obras a executar no Porto do Funchal, para o ministro da tutela.

A 01/01/1927, numa pequena notícia, O Jornal anunciava a demissão de António Vieira de Castro do cargo de diretor da COPF. No dia 15/09/1927, o diretor de O Jornal, Luiz Vieira de Castro, escreveu um longo artigo em defesa da reformulação do contrato com a COPF. O que estava eminente era a anulação desse contrato e o articulista, com argumentos válidos, procurava combater os que defendiam esta hipótese, desmascarando os opositores.

A 17/09/1927, era entusiástica a reação do Diretor de O Jornal. O Governo de Lisboa tinha acertado com a COPF a nova redação do contrato que em breve seria assinado. Depois das felicitações e do agradecimento ao Governo da Ditadura Nacional, enalteceu o espírito patriótico e as figuras do Presidente da República, Gen. Carmona, e do ministro do Comércio e Comunicações, General Ivens Ferraz.

No dia 20/11/1928, digladiavam-se os defensores de cabeças de lista para a direção da Associação Comercial do Funchal. O articulista não era favorável à candidatura do cunhado do diretor de O Jornal, Luís da Rocha Machado, então presidente da COPF e genro do banqueiro Vieira de Castro.

Henrique Augusto Vieira de Castro morreu a 21 de agosto de 1926, de hemiparesia direita e metástases cerebrais. Faleceu sem disposição testamentária e deixou algum património e assuntos pendentes para os filhos resolverem, nomeadamente em relação às diversas empresas onde tinha intervenção direta, como sócio ou como acionista. Na relação de bens, sem data, constavam as participações na Companhia de Seguros Aliança Madeirense, num valor global de 2.220$00, e quotas em várias sociedades como a Reid, Castro & C.ª (com metade do capital social, que correspondia a 350.000$00), na A. C. Burnay, Ld.ª (manteigas), com uma quota de 630.000$00, na Empreza Vacuum de Laticínios, com uma quota de 350.000$00, e na Madeira Industrial Company, com uma quota no valor de 20.000$00. Detinha 27 % do capital da sociedade Águas do Porto Santo, 50 % da Empreza Balneária, Ld.ª, e dois décimos na Empresa Agrícola do Loural (Santa Cruz). No Funchal, detinha ainda uma quota de 20.000$00 na Empreza Gráfica Regional, Ld.ª (O Jornal, depois Jornal da Madeira) e dois gasolinos denominados lancha, May e Scotia. Com sedes em Lisboa, tinha participações na sociedade Vieira & Lopes, Ld.ª, com 50 % do capital igual a 5.000$00, e uma quota de 100.000$00 da firma Júlio Gomes Ferreira & C.ª Ld.ª.

Tinha ainda um prédio urbano na R. do Dr. Vieira (depois R. da Carreira), um prédio rústico no sítio do Cameirão, na freguesia do Monte, o domínio direto de dois foros impostos na Qt. Vigia e duas metades de domínio útil de prazos foreiros ao beco das Angústias. Era também proprietário de duas penas de água do Lombo de João Boieiro, em São Roque, no Funchal.

O total do passivo, cerca de 80 % da dívida, era à Reid, Castro & C.ª e o restante a uma firma da praça funchalense e a um particular, respetivamente, 1.132.536$52, 207.396$69 e 50.000$00. Mas o total do ativo era de 1.760.980$68, o que permitiu apurar um saldo positivo de 370.147$83.

Henrique Augusto Vieira de Castro não viveu as dificuldades que se vislumbravam para as empresas onde investira. Os seus herdeiros, entre eles, o filho António Manuel, banqueiro, enfrentaram as vicissitudes da conjuntura que se iniciou na Quinta-Feira Negra de 24 de outubro de 1929, desastrosa para a Bolsa de Valores de Nova Iorque. Mas o que contribuiu para o descalabro, principalmente da banca madeirense, foi o excesso de casas bancárias, mal estruturadas e geridas de forma imprudente.

Na década anterior, a firma A. C. Burnay, Ld.ª, constituída a 16 de abril de 1902, fora dissolvida em reunião de 8 de maio de 1920. No entanto, por estarem a decorrer os inventários de dois sócios que, entretanto, faleceram, deixando filhos menores, o processo só terminou a 24 de abril de 1930. Quando os herdeiros atingiram a maioridade, receberam os valores, à guarda da Caixa Geral de Depósitos, que haviam sido entregues por Henrique Augusto Vieira de Castro por altura da referida dissolução.

Henrique Vieira de Castro teve ainda ação no campo mecenato, nomeadamente nas artes plásticas, com a criação de uma galeria para exposições no Casino da Madeira e como protetor da Banda Distrital do Funchal, os populares Guerrilhas, dissidentes da Filarmónica dos Artistas Funchalenses, depois Banda Municipal do Funchal. Dirigiu ainda a comissão administrativa da Santa Casa da Misericórdia do Funchal e representou o Concelho de Machico na Junta Geral do Funchal, no tempo da monarquia. Depois da sua morte, a Câmara Municipal do Funchal chegou a atribuir o seu nome à rodovia que liga o Funchal, desde a ponte do Ribeiro Seco, a Câmara de Lobos, depois denominada Estrada Monumental. Foi também um dos impulsionadores da Escola de Artes e Ofícios e, pouco antes da sua morte, procurou vender o edifício, passando o dinheiro e os alunos para o Asilo da Mendicidade; os internados neste albergue passaram para o Asilo dos Velhinhos.

Segundo o Diário de Notícias, à data da sua morte, Henrique Vieira de Castro era presidente da Associação Comercial do Funchal e da delegação da Cruz Vermelha Portuguesa; no relatório de 1922 desta instituição, constava que tinha prestado grandes serviços à população, não só durante a vida normal, como em circunstâncias aflitivas, entre as quais os bombardeamentos ocorridos aquando da Segunda Guerra Mundial. Será curioso ainda registar que foi publicada no Jornal da Madeira uma fotografia da estátua de O Semeador com a seguinte legenda: “‘Maquette’ dum monumento do escultor Francisco Franco, que um grupo de amigos e admiradores do sr. Vieira de Castro pretende erigir na cidade do Funchal” (VASCONCELOS, David, JM, 11 set. 1926, 2). Esta estátua ocupou vários pontos da cidade do Funchal, estando colocada, nos começos do séc. XXI, nos jardins da Câmara Municipal.

Com a notícia da sua morte, o Jornal da Madeira trazia em título: “Sobre o ataúde do maior benemérito insular […] lágrimas de gratidão e preitos de saudade”; seguia-se um artigo onde se afirmava que Henrique Vieira de Castro era “a personificação da gentileza afável e atraente, era um gentleman na sociedade, era um benemérito que sabia sê-lo” (Id., Ibid.). Um amigo, que assinou com as iniciais I.M.S, referiu que a sua família disfrutara no país de situações de fortuna e de predomínio, mas que os reveses do destino a tinham abalado profundamente. Assim, com apenas 15 anos, Henrique Vieira de Castro trabalhara como operário na construção do porto de Leixões. Um espírito criativo e inteligente levou-o a planificar a transformação do Parque Eduardo VII, que não se concretizou, e ainda idealizou o projeto de irrigação e iluminação do Alto Alentejo. Pouco antes da sua morte, adquirira a Companhia de Viação e Electricidade para a exploração das quedas de água do Rio Zêzere, destinada a trazer a energia elétrica a Lisboa.

No Funchal, para além das empresas já mencionadas, tinha participações n “as águas do Porto Santo, cuja sede constitui o mais belo edifício daquela ilha; a Empresa das Águas da Rocha Vermelha, na origem da Ribeira da Janela e cujos mananciais, dentro em pouco, fertilizarão a região sul; a Empreza do Balneário; a Olaria Funchalense; a Edificadora do Bom Jesus, onde se iniciou a indústria de blocos de cimento e tantas outras empresas comerciais que o seu nome animou e desenvolveu”. Tinha ainda a casa A. Vieira & C.ª e a Madeira House “que na indústria dos bordados regionais ocupa um lugar primacial”, conforme publicidade no mesmo jornal (SILVA, JM, 11 set. 1926, 1).

Aos familiares que assistiram ao seu último suspiro recomendou os “pobres do Funchal e como último pedido recordou que desejava morrer como um pobre, encerrado num caixão de pinho e que, no funeral, o rodeiem apenas os velhinhos da Casa dos Pobres Desamparados” (Id., Ibid.). À redação do Jornal da Madeira chegou uma carta do secretário do Rei D. Manuel II, através da qual o antigo monarca expressava o seu desgosto pois a sua morte representava para o “País e, sobretudo, para a Madeira uma perda irreparável […] pelos relevantes serviços […] ao comércio e à assistência do Funchal”. A missiva régia terminava com “a expressão do seu pesar pela morte de um verdadeiro Português” (SAMPAYO, JM, 11 set. 1926, 1).

Obras de Henrique Augusto Vieira de Castro: “A Madeira – Estado Federal Autónomo” (1910); “A Madeira – Estado Federal Autónomo – Carta Aberta – Ao Republicano da Velha Guarda” (1910);

Bibliog.: manuscrita: ARM, Administração do Concelho do Funchal, liv. 527; ARM, Inventário de Henrique Augusto Vieira de Castro, proc. n.º 1269/26, 1.º Juízo Cível do Tribunal da Comarca do Funchal, cx. 2588, n.º 3; Ibid., Autos de Liquidação de contribuição de registo por título gratuito (1926-1927), proc. n.º 6332, cx. 126, n.º 32; Ibid., Execuções fiscais de 1929, Freguesia da Sé, cx. 531; impressa: UM REPUBLICANO DA VELHA GUARDA, “Carta Aberta ao Distincto Cidadão Henrique Vieira de Castro”, DNM, 18 out. 1910, p. 2; CASTRO, Henrique Augusto Vieira de, “A Madeira – Estado Federal Autónomo”, DNM, 16 out. 1910, p. 2; Id., “A Madeira – Estado Federal Autónomo – Carta Aberta – Ao Republicano da Velha Guarda”, DNM, 19 out. 1910, p. 2; CASTRO, Luiz Vieira de, “Regionalismo”, JM, 22 nov. 1923, p. 1; FREITAS, João Abel de, Salazar na crise da banca madeirense – Uma teia de muitos nós, Lisboa, Edições Colibri, 2014; NÓBREGA, Cyriaco de B., “Resposta do redactor principal”, DNM, 16 out. 1910, p. 2; SAMPAYO, “Pezames de S. M. El-Rei”, JM, 11 set. 1926, p. 1; SILVA, Fernando Augusto da, JM, 11 set. 1926, p. 1; Id. e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, vol. II, Funchal, DRAC, 1998; TRIGO, Adriano A., Breves Considerações sobre as Obras de Que Carece o Porto do Funchal, Funchal, s.n., 1912; VASCONCELOS, David, JM, 11 set. 1926, p. 2; VIEIRA, Alberto (coord.), História da Madeira, Funchal, SRE, 2001.

José Luís Ferreira de Sousa

(atualizado a 22.12.2016)