obra pedagógica joão de deus

A obra pedagógica sob a égide João de Deus deve a sua origem ao poeta e pedagogo autor da Cartilha Maternal, publicada em 1877, e a Casimiro Freire, fundador da Associação de Escolas Móveis pelo Método João de Deus em maio de 1882. Esta associação passou depois a designar-se Associação de Escolas Móveis pelo Método João de Deus, Bibliotecas Ambulantes e Jardins-Escolas, de que ficarão só estes dois últimos sob proposta de João de Deus Ramos, continuador da Educação Popular iniciada pelo seu progenitor. Aquele fundou os Jardins-Escolas João de Deus e os Cursos de Didática Pré-Escolar, cuja pedagogia reflete a pedagogia do pai, do filho e dos que lhe sucederam.

Vida e Obra de João de Deus

João de Deus de Nogueira Ramos, poeta lírico e pedagogo, nasceu em S. Bartolomeu de Messines a 8 de março de 1830 e pertenceu a uma família simples e numerosa. Até 1849, viveu na sua terra natal e frequentou as aulas eclesiásticas dadas pelo padre Joaquim Veríssimo dos Reis e Almeida que o preparou para os exames de Ordens Menores ao sacerdócio. Admitido a exame e aprovado, recebeu a prima tonsura e os quatro graus das ordens menores a 23 de setembro de 1848, na capela do Palácio Episcopal de São Brás de Alportel.

Em 1849, fez os exames preparatórios à Universidade de Coimbra, matriculando-se depois no 1.º ano do curso de Direito. Concluído o 1.º ano, regressou a São Bartolomeu de Messines, ficando alguns meses no seminário de Alportel com os seus irmãos que ali se preparavam para o sacerdócio. Em Alportel, conheceu Cândida, para quem escreveu poemas como “A Pomba” que, segundo Teófilo Braga, marca “a primeira manifestação poética do seu talento incipiente” (BRAGA, 1930, 12), manifestação publicada, em 1866, no jornal O Eco do Lima.

Concluiu o 3.º ano do curso em 1853. No início deste ano letivo, em 15 de setembro de 1852, João de Deus e os seus pais fizeram a Escritura do património para se habilitar às Ordens Sacras, escritura esta que transitou de seu irmão, o P.e João Gregório Ramos, por este ter falecido.

No ano letivo subsequente, 1853-1854, matriculou-se no 4.º ano, mas perdeu-o por faltas, pois passou grande parte do tempo no Seminário de Faro com seu irmão António Ramos, compondo ali o poema “Ao Túmulo”, publicada em Coimbra na Estreia Literária em dezembro de 1858).

De 1854 para 1855, matriculou-se de novo no 4.º ano de Direito e no 1.º ano da Faculdade de Filosofia como aluno voluntário, obtendo o grau de Bacharel em Direito. No final deste ano, publicou o seu primeiro poema, intitulado “A Oração”, na Revista Académica de Coimbra, revelando “em todo o seu esplendor o talento poético” no meio da “geração académica” (BRAGA, 1930, 13-14). Nos três anos letivos subsequentes, não se inscreveu em Direito nem em Filosofia, pois não pensava concluir o curso.

Em 1856, refere ao cónego António Caetano da Costa Inglês que o clero algarvio está a obstar à sua ordenação: “Fez-se o requerimento, e como sabe, não foi ainda despachado” (DEUS, 1898, 306-307). Em 1857, numa outra carta escrita ao mesmo cónego, revela que decidira não se ordenar porque o clero fizera da sua “dignidade moral” um problema, sem nada esclarecer consigo. Considerando que a sua consciência não podia ser sujeita a averiguações mesquinhas e convicto das suas crenças religiosas, afirmava: “Aquilo para que a providência do homem não criou um tribunal, está ainda no mundo sujeito a uma certa justiça. É dessa que eu não prescindo, e a essa que tudo isso e muito mais pertence” (DEUS, 1898, 308-313).

Desta forma, e por imposição do seu amigo Manuel de Paula da Rocha Viana, no ano letivo de 1858-1859 matriculou-se no 5.º ano, acabando a formatura em Direito. A 23 de março de 1859, João de Deus renunciou ao património que seus pais haviam constituído para ele seguir a vida eclesiástica, a favor de seu irmão António Ramos.

Terminados os estudos, deixou-se ficar por Coimbra. Sempre rodeado de amigos, ditava-lhes versos que eles transcreviam. Graças a estes amigos coletores, como Manuel da Rocha Viana, João Vilhena, Pinto Osório, Guimarães Fonseca, Rodrigo Veloso, foram publicados poemas seus em vários periódicos, especialmente a partir de 1858, que demonstram a ascensão da primeira fase do seu talento poético.

Ainda em Coimbra, também se dedicou à pintura, recebendo elogios de todos os que se relacionavam com ele, e tocava viola de arame. Associada à veia literária e poética, desenvolveu uma intensa atividade na imprensa, colaborando em vários jornais e revistas de Coimbra, Beja e Évora. De março a maio de 1860, colaborou n’O Académico – Publicação académica, científica e literária com outras figuras eminentes, publicando no 1.º número duas poesias, “Gaspar” e “Amor” (O Académico, 1, 1 mar. 1860, 19 e 44). Segundo Alberto Teles, o fundador deste periódico, ao selecionar o grupo de redatores encarregados da publicação, terá “apresentado ao público o grupo de prosadores e poetas da escola de João de Deus”, constituindo “um estímulo para novos e maiores cometimentos” (TELES, 1905, 225-226).

Depois destes anos preenchidos por dificuldades económicas e familiares, (in)decisões pelo sacerdócio, ensino académico pouco atrativo, inconstância de residência e alguma boémia, regressou a São Bartolomeu de Messines em 1861. Na passagem por Beja, foi contratado para a redação de O Bejense, a troco de lhe pagarem as despesas, pois sempre fora arredio ao dinheiro. A 30 de outubro de 1861, saiu o primeiro número deste jornal, inteiramente escrito pelo poeta. Neste periódico, publicou grande parte da sua produção poética, antes e depois de ser redator, e escreveu muita prosa, entre 1861 e 1895, de que é exemplo o artigo publicado no n.º 150, de 7 de novembro de 1863, sob a epígrafe “Os Lusíadas e a Conversação Preambular”.

Com efeito, Tomaz Ribeiro publicara em 1862 o poema “D. Jaime ou A Dominação de Castela”, precedido de uma longa “Conversação Preambular”, da autoria de Feliciano de Castilho; os elogios contidos neste prefácio mereceram uma veemente crítica de João de Deus, especialmente pelo facto de Castilho ter proposto que Os Lusíadas fossem substituídos nas escolas por “D. Jaime”. Esta polémica foi considerada por muitos o preâmbulo da Questão de Coimbra e, segundo Teófilo Braga, contribuiu “para a dissolução do ultrarromantismo”: com o seu artigo, João de Deus, “começa o fenómeno moral e intelectual da dissidência da Escola de Coimbra, em 1865, proclamada na carta Bom Senso e Bom Gosto e no folhetim Teocracias literárias, repelido pelo Jornal do Comércio”, que só será bem entendido, “sobretudo na transformação da poesia lírica em Portugal”, se estudarmos “João de Deus como seu precursor”. Ele “precedeu no movimento filosófico e crítico os Dissidentes de Coimbra, e, sem conhecer a renovação das doutrinas nem teorias sociais, nem a síntese monística das ciências físicas ou naturais, nem a indisciplina revolucionária; sem ter em vista romper com o passado nem proclamar novas afirmações, […] fecundou duplamente a poesia portuguesa, pela sua obra e por uma influência imediata […]. Nenhum de entre os modernos poetas tem como ele uma individualidade tão sua, e ao mesmo tempo intensamente nacional” (BRAGA, 1930, 20-21).

Por volta de 1864, deslocou-se para Évora, onde colaborou na redação da Folha do Sul, de Montemor-o-Novo, com Rocha Viana e Filipe Simões, publicando um ano depois algumas composições desta segunda fase artística. Surpreendido pela Questão Coimbrã em 1865, e achando-se deslocado das utilidades de um jornal político de província que se esgotava na polémica, abandonou a Folha do Sul e regressou a São Bartolomeu de Messines, dedicando-se à caça, à tradução, à escrita de “poesia objetiva e idílica” e à contemplação da natureza, de que é exemplo o poema “Remoinho”, que é um texto infantil (BRAGA, 1930, 19-20 e 23).

Após a eleição a deputado pelo círculo de Silves, a 5 de abril de 1868, devido à influência de amigos, deslocou-se para Lisboa, onde permaneceu até ao fim da sua vida, prestando juramento nas cortes a 18 de maio. Com desprestígio e certa inaptidão exerceu o cargo, permanecendo uma só legislatura na Câmara dos Deputados.

Em Lisboa, conheceu Guilhermina Battaglia, vinte anos mais nova, com quem teve uma filha, Maria Isabel (19/12/1869), e com quem se casou a 4 de maio de 1874. Depois do casamento, nasceram mais três filhos, José do Espírito Santo (4/04/1875), João de Deus Ramos (26/04/1878) e Clotilde Rafaela (24/10/1882); o terceiro filho foi eleito pelo pai para a sucessão da sua obra pedagógica.

Conhecido e admirado como poeta, foi em 1893 que publicou Campo de Flores, coligido por Teófilo Braga, sob as suas vistas. Esta obra integra as obras precedentemente publicadas – “Flores do Campo” em 1868, “Folhas Soltas” em 1876 e “Ramo de Flores” em 1879 –, com acrescentos de dispersos e inéditos, tal como a segunda edição em 1896, obra póstuma. Com a mesma preocupação de escrever para os simples, criou literatura infantil, sendo considerado “o poeta emblemático da infância”. Sensível aos problemas sociopolíticos e culturais da época, denuncia, através da sua poesia, a situação da mulher, o abandono infantil, a fome, a pobreza, a indiferença e a repressão social, a inércia política, a injustiça e a discriminação, a escravidão, a falta de habitação, a escola e o analfabetismo (CHÁ-CHÁ, 2009, 41-42 e 62) (CHÁ-CHÁ, 2009, 41-42 e 62).

Em 1870, publicou com António José de Carvalho, o Dicionário Prosódico de Portugal e Brasil, cujo desígnio exprime no prólogo: “tão necessário a todos os que desejem falar sem erros de pronúncia, tão vulgares entre pessoas ainda razoavelmente instruídas” (DEUS, 1890, 5). Para além de outras obras que traduziu, verteu do escritor francês Barrau Os deveres dos filhos para com os seus pais em 1875, adaptando-o em 1877 com textos graduados, que em 1881 passaram a fazer parte da Arte de Leitura: segunda parte, um volume independente da Cartilha, incluindo no final a Tábua de Pitágoras para as operações da adição e multiplicação.

Em 1876, publicou Leituras correntes – seleta clássica para uso das escolas, com textos do padre António Vieira, e em 1877 Primeiras leituras, obras “aprovadas pelo governo para uso das escolas primárias”. Até à página 25, todos os textos são graduados – ou seja, com as sílabas de cada palavra destacadas com tonalidades alternadas de cinzento e preto, a fim de facilitar a leitura dos fonemas – e do Padre António Vieira, “cujo estilo é lei” (DEUS, 1877, 52).

Em 1877, publicou a Cartilha Maternal ou Arte de Leitura. A par da alfabetização a adultos e crianças, João de Deus realizou gratuitamente Cursos de Leitura/conferências em casa para professores de todos os distritos de Portugal, muitos dos quais eram enviados pelas câmaras municipais para aprenderem a ensinar pelo seu método. Desenvolveu esta atividade até ao fim da sua vida, com o apoio da mulher, que lhe sucedeu no trabalho após a sua morte.

À medida que o método ia sendo aplaudido e propagado em todos os municípios pelos professores que ensinara, iam surgindo recensões do mesmo em diferentes jornais, com opiniões e argumentos a favor e contra. Destas apreciações, foram compiladas: A Cartilha Maternal e o Apostolado (1881), com textos publicados entre 1877 e 1878; e A Cartilha Maternal e a Crítica, publicada após à sua morte (1897), com documentos saídos entre 1878 e 1883. João de Deus considerava a sua Cartilha Maternal “um instrumento de civilização” superior a qualquer crítica e uma “das mais perfeitas ou a mais perfeita das que se tem publicado em Portugal e lá fora” (DEUS, 1881, 9), sendo a obra que de facto o notabilizou como pedagogo. Assim, embora tivesse sido conhecido e admirado como poeta antes de publicar a Cartilha, a partir de 1878, preocupado unicamente com os problemas circundantes ao ensino, João de Deus submete a poesia ao serviço da educação, compondo literatura para crianças e defendendo na imprensa o seu método com prosa e sátira às críticas que lhe eram feitas pelos seus detratores.

Ainda como obra póstuma, foi publicado Prosas (1898), de novo com a coordenação de Teófilo Braga, onde se encontram diversos artigos e cartas do poeta pedagogo, essenciais para a sua biobibliografia e o seu pensamento. A publicação do seu método de escrita e de contar foi-lhe muito solicitada, mas só em 1896 foi publicada a Arte de Escrita, tendo a 2.ª edição anotações de seu filho João de Deus Ramos; em 1914, saiu a Arte de Contas, sistematizada e completada pelo seu discípulo Frederico Caldeira e com uma nota introdutória de Ramos.

No seu 65.º aniversário natalício, em 1895, e por ocasião do seu falecimento, em 1896, os estudantes promoveram grandes manifestações de homenagem ao poeta pedagogo, como “preito de admiração, simpatia e gratidão” pela sua obra. No dia 8 de março de 1895, foi realizado um cortejo do Terreiro do Paço até à casa de João de Deus, tendo o rei D. Carlos I, antes do cortejo, ido a casa do poeta para o condecorar com a Cruz de Santiago, e o governo emitido decreto “relevando João de Deus do pagamento dos direitos de mercê da Gran-Cruz de São Tiago” (BRAGA, 1905, 497). Esta apoteose foi celebrada em vários distritos e capitais e foi notícia em dezenas de periódicos de Sul a Norte do país; a informação impressa foi coligida por Teófilo Braga, com a colaboração de Maria Isabel Ramos, filha do poeta, e em 1905, por ocasião do 75.º aniversário do seu nascimento, foi publicada em O Festival de João de Deus.

João de Deus faleceu a 11 de janeiro de 1896, em Lisboa, dez meses depois daquela apoteose. O seu corpo esteve deposto na igreja da Estrela e foi velado por estudantes, devendo-se a estes a organização do cortejo fúnebre desde a igreja da Estrela até ao Mosteiro dos Jerónimos, onde ficou sepultado: o seu corpo foi levado num coche real por um grupo numeroso de estudantes, sendo transladado mais tarde para o Panteão Nacional. Em o Resistência, Teófilo Braga publicou um artigo – “João de Deus” –, em que nos possibilita entender a influência da obra do pedagogo e poeta na sociedade da época: “O sentimento é uma força imensa, que precisa ser aproveitada e dirigida […]. É a morte que nos incorpora na humanidade; os que foram egoístas ofuscam-se na sombra do esquecimento; os que viveram para os outros sobrevivem na memória infinita dos que ficam. João de Deus morrendo ficou imortal” (BRAGA, Resistência, n.º 96, 19 jan. 1896, 22-23). Por Projeto de Lei proposto por Ernesto Rodolfo Hintze Ribeiro, entre outros, foram pagas as despesas do funeral do pedagogo e foi concedida à família de João de Deus uma pensão anual de 1.000$000 réis, isenta de impostos.

João de Deus é recordado na toponímia, em bustos e estátuas – no Jardim da Estrela em Lisboa, no Penedo da Saudade em Coimbra, e no Jardim de Faro –, em instituições e museus de Lisboa e Silves (que também lhe dedicam uma Biblioteca) e em especial nos jardins-escola fundados em seu nome; a sua memória é perpetuada em mais de uma centena de locais, inclusive a Avenida João de Deus na Madeira.

Divulgação do método João de Deus na Madeira

Casimiro Freire, natural do Pedrógão Pequeno (1843-1918), tornou-se republicano em 1862 e foi um dos fundadores do Centro Republicano em 1876. Casado com a sogra de João de Deus, Maria Madalena Battaglia, tornou-se, desde a publicação da Cartilha Maternal, um dos maiores propagandistas do método João de Deus. Impressionado com a situação do ensino em Portugal, como a falta de escolas e de professores e a elevada taxa de analfabetismo, urgia a necessidade de soluções alternativas à educação implementada, cuja iniciativa privada deveria solucionar os “devassos da monarquia” (Um apóstolo da Instrução…, 1930, 9-11 e 72).

Não obstante as reações, nasceu em redor da Cartilha Maternal uma obra de solidariedade social. Depois de vários intentos, fundou a Associação de Escolas Móveis pelo Método João de Deus a 18 de maio de 1882, na redação de cujos estatutos colaboraram, além de João de Deus, Jacinto Nunes e Bernardino Pinheiro; os estatutos foram aprovados por Alvará de 16 de agosto de 1882 e pelo Governador Civil de Lisboa, Caetano Alexandre de Almeida e Albuquerque. Pela importância que a associação e os respetivos estatutos assumem perante o método de João de Deus, e tendo em consideração a sua repercussão histórica na Madeira, transcrevemos dois artigos:

Art.º 1.º – A Associação das Escolas móveis tem por fim ensinar a ler, escrever e contar pelo método de João de Deus, os indivíduos que o solicitarem, até onde o permitam os seus meios económicos, enviando nesse intuito às diversas povoações da nação portuguesa, professores devidamente habilitados. […]. Art.º 15.º – Só pode ser investido no encargo do professorado quem estiver no gozo dos seus direitos políticos e civis e apresentar documento, passado pelo autor, […] de que tem inteiro conhecimento do método de João de Deus” (AEMJD, 1882, 3 e 6).

Estes estatutos deixam-nos claro a necessidade de uma iniciativa privada devidamente organizada a fim de aplicar o método do pedagogo de leitura, escrita e contas com professores habilitados. A partir de então, a associação torna-se para Casimiro Freire uma “obsessão de toda a sua vida e lhe dá um lugar perpétuo entre os beneméritos da sua Pátria”, fundando este organismo “de que foi tesoureiro durante 26 anos, e que o seu esforço e abnegação sustentaram contra os poderosos inimigos do método e a indiferença geral” (Um apóstolo da Instrução Popular…, 1930, 11).

João de Deus estabeleceu diversos contactos, a fim de iniciar a primeira missão na cruzada contra o analfabetismo. Entre setembro e outubro de 1882, escreveu a Antero de Quental (Vila do Conde), Jacinto da Silva Alves (Mafra), Azevedo Castelo Branco (Vila Real), Luís Mascarenhas (Faro), Pedro Viana (Marinha Grande), solicitando o seu apoio e manifestando o desejo de um bom começo, a fim de evitar polémicas desagradáveis como as que a Cartilha lhe tinha provocado.

O Visconde de Castanheira de Pera, preocupado com a falta de “instrução dos operários da sua fábrica e dos seus conterrâneos”, solicitou que ali se realizasse a primeira missão da escola móvel. Iniciada a 24 de novembro de 1882, com dois cursos, um diurno para crianças a partir dos sete anos e um noturno para adultos de ambos os sexos, terminou no dia 25 de fevereiro de 1883 com a realização dos exames, no fim de 61 lições efetuadas pelo professor João António Epifânio Baleizão. Inscreveram-se nos cursos 58 alunos, tendo-se apresentado a exame apenas 21 alunos (AEMJD, Relatório 1882-1883, 1).

Em 3 março de 1888, a associação publicou o mapa das missões realizadas e entregou-o no parlamento. Este facto levou as câmaras à resolução da lei de 2 de agosto de 1888 e da portaria de 11 do mesmo mês, declarando a Cartilha Maternal método nacional e nomeando João de Deus comissário geral do método, com o vencimento anual de 900$000 réis. Até esta data, a associação apresentava no seu Relatório 1886-1888 saldo positivo; a partir de então, reduziram-se “os donativos extraordinários”, pois “afigurou-se a muitos subscritores que esta associação havia perdido a melhor justificação da sua existência, depois da lei de 2 de agosto de 1888”, e quando o presidente da associação, Bernardino Pinheiro, apresentou, na sessão de 25 de junho de 1890, na câmara dos deputados, o “seu projeto de lei para a criação de escolas móveis distritais, com mais fundamento se julgou terminada a missão” da associação (Id., Relatório 1889 a 1892, 1893, 6). O cargo de comissário geral seria extinto em 1892 por Oliveira Martins, e em 1895 o método foi retirado das escolas pela direção geral da instrução.

Por ocasião da morte de João de Deus, a 11 de janeiro de 1896, a associação tinha realizado 68 missões, correspondendo à mesma quantidade de escolas, cada uma com dois cursos de alfabetização, um diurno para crianças e um noturno para adultos, concretizando-se 136 cursos de alfabetização. A partir de 1901, novas atividades foram desenvolvidas para a promoção da alfabetização, o desenvolvimento das missões e angariação de fundos. Em 1901, a direção da associação criou uma Comissão Auxiliar de propaganda, que incluía Teófilo Braga, entre outros, e publicou uma circular, «invocando o auxílio público para as Escola Móveis», que resultou em 367.500 subscritores e uma soma de 1.110.000$000 réis (Id., Relatório, 1897-1904, 7 e 9).

Neste mesmo ano, foram realizadas 16 missões, 9 das quais começadas entre julho e dezembro. Em novembro de 1901, João de Deus Ramos (1878-1953) publicou o Guia Prático e Teórico da Cartilha Maternal ou Arte de Leitura de João de Deus na Imprensa da Universidade de Coimbra, enquanto estudante de Direito desta universidade, um intento que seu pai havia idealizado sem nunca o conseguir concretizar. Nas últimas duas décadas da sua existência, embora com maior número de missões realizadas, novas dificuldades surgiram e novas iniciativas foram tomadas. No final de 1903, um ano após a conclusão do curso de direito na Universidade de Coimbra e sendo então professor no Colégio Camões, em Lisboa, João de Deus Ramos iniciou as conferências nas províncias de propaganda do método de João de Deus, sendo a primeira em Viseu, a convite do subinspetor escolar local, António de Bastos Pinto. A partir de então, e à semelhança do que seu pai fazia em casa, realizou conferências em todos os distritos de Portugal, contribuindo, assim, para o desenvolvimento de missões das escolas móveis. Em sequência da Circular do Ministério da Guerra, de outubro 1901, que mandou “ensinar pelo método de João de Deus os recrutas das escolas regimentais”, foram realizadas “missões nos regimentos de infantaria” em vários concelhos e distritos, de que são exemplo as primeiras conferências e missões realizadas na Madeira.

A par desta atividade de conferencista, no ano escolar de 1905-1906 tornou-se 1.º secretário da associação e, em fevereiro de 1905, iniciou a publicação da revista A Instrução do Povo – Publicação mensal da Associação de Escolas Móveis pelo Método João de Deus, sendo o seu diretor até 1910. Esta publicação tinha como objetivo principal “contribuir eficazmente para a extinção do analfabetismo, […] advogando os ideais pedagógicos de João de Deus, ideais que encontraram em Casimiro Freire o seu mais tenaz e sensato propagandista”, refere Ramos na página de abertura (RAMOS, 1905, 1). A esta, sucederá o Boletim de Propaganda em novembro de 1908, tendo a sua última edição em 1919.

A Portaria de 16 de abril de 1906, emanada da 2.ª Repartição da Direção Geral da Instrução Pública, por Ernesto Hintze Ribeiro, reconheceu o eminente serviço propagandístico prestado por Ramos, a favor do método de leitura e escrita do pai, e oficializou a continuação do trabalho desenvolvido em todas as escolas primárias do país, dum modo especial as escolas que habilitavam para o magistério primário, normais e distritais.

Entre várias alusões ao sucesso da associação nestes primeiros anos do séc. XX, destaca-se o contributo do irmão de João de Deus, o padre António Ramos, e do filho do pedagogo, João de Deus Ramos, que foi coloca na lista dos sócios de mérito (AEMJD, Relatório, 1905-1906, 8-11). Sob proposta de João de Deus Ramos foram criadas Comissões Auxiliares de propaganda em 1907, sendo o seu regulamento aprovado no ano seguinte e constituindo-se em várias regiões de Portugal, inclusive na Madeira.

Em sequência dos sucessos obtidos pela associação, o Parlamento aprovou duas cartas de lei, publicadas no Diário do Governo de 10 de agosto e de 15 de setembro de 1908, em que concede vários benefícios e isenções à Associação de Escolas Móveis pelo Método João de Deus (Id., Ibid., 5-13). Até à reformulação dos estatutos, em agosto de 1908, a Associação tinha finalizado 219 missões, estando em funcionamento 4 missões. Sob proposta de João de Deus Ramos, passou a denominar-se Associação de Escolas Móveis João de Deus, Bibliotecas Ambulantes e Jardins-Escolas, alargando o campo da atividade pedagógica sob dois aspetos. O primeiro está relacionado com a escola móvel e a criação de bibliotecas ambulantes e de outras atividades de cariz social e educativo, como a organização de “gabinetes de leitura” a funcionar durante a realização de cada missão, e a realização de palestras e conferências populares rurais, a fim de sensibilizar o povo para a utilidade da instrução, proporcionando-lhe noções de progresso social e económico, conforme o 2.º e 3.º pontos do 1.º artigo. Pelo artigo 17.º, o tempo de cada missão foi alargado para cinco meses, podendo ser alargado até oito meses para aperfeiçoamento e mediante autorização da direção, segundo o 25.º artigo. Outro aspeto está relacionado com a fundação de um modelo português de escola infantil, segundo o espírito e a doutrina da obra pedagógica João de Deus, para crianças dos três aos sete anos (AEMJDBAJE, Estatutos, 1908, 3, 6, 8). Desta forma, o primeiro Jardim-Escola João de Deus foi inaugurado a 2 de abril de 1911, em Coimbra.

Nova reformulação de estatutos acontece em 1911 e em 1914, passando a instituição a denominar-se Associação de Escolas Móveis e Jardins-Escolas João de Deus; a idade das crianças para os jardins é alargada, passando a ser dos quatro até aos nove anos. Faz ainda parte dos seus fins a realização de conferências e leituras públicas na sede da associação, bem como a criação de uma universidade popular e de um Museu João de Deus em homenagem ao autor da Cartilha (AEMJDJ, Estatutos, 1914, art. 1.º, 3, 2).

Neste mesmo ano, foi publicado o Regulamento e Programa das Missões, em que podemos observar a aplicação do pensamento de João de Deus. O programa iniciava-se com a leitura, seguia com a caligrafia dos algarismos, para prosseguir com as contas e a escrita propriamente dita. A título de exemplo, sintetizamos o programa das lições das missões:

1.º período (50 lições) – Para o professor se familiarizar com os alunos, os primeiros quatro dias são dedicados à leitura, seguindo as lições da Cartilha Maternal. Depois da “aprendizagem caligráfica dos algarismos”, pode-se “alternar o ensino da leitura, escrita e contas”, com classe dividida em pequenos grupos: ensinando a ler até ao fim das lições da Cartilha, a caligrafia das letras até à lição da letra z, e a contar com a ajuda do primeiro caderno da Arte de Contas. Para a lição da leitura pela Cartilha em ponto grande, são formados grupos de três, quatro ou cinco alunos no máximo, mas a leitura é individual.

2.º período (37 lições) – Exercícios de leitura de textos graduados nos Deveres dos Filhos, acompanhados da doutrina da Cartilha, continuação da aprendizagem caligráfica até ao fim do alfabeto minúsculo, acompanhada de exercícios de ditado de palavras, e conhecimento da subtração e divisão por coluna.

3.º período (37 lições) – Exercícios de leitura dos restantes textos com diversas formas de letra impressa nos Deveres dos Filhos ou noutro livro escolhido a propósito, aprendizagem caligráfica das letras maiúsculas, continuação do ditado de palavras soltas e de pequenas frases cuja análise dos elementos verbais já tenha sido feita e exercícios de problemas, em cuja solução entre uma operação de números inteiros, terminando com a aprendizagem prática de medidas e pesos (AEMJDBAJE, Regulamento e Programa das Missões, 1914, 12-15).

A 20 de outubro de 1918, faleceu Casimiro Freire. A associação perdeu o seu fundador, mas entende que a melhor homenagem a prestar-lhe é o seguimento do seu exemplo cívico. Se a oscilação do número de missões realizadas desde o início até ao final do séc. XX parece ter influência nas discussões e nas contradições geradas em torno da Cartilha, a falta de recursos materiais, no entanto, foi um problema gerido com muita tenacidade, porque a associação era sustentada por quotas dos sócios e por subsídios, donativos e legados diversos de adeptos notáveis, que assim combatiam o ineficiente sistema educativo monárquico. Por outro lado, o sucesso obtido pelas Escolas Móveis pelo Método de João de Deus influenciou o plano republicano da instrução popular. Atendendo ao êxito destas escolas, o decreto de 29 de março de 1911, de que João de Deus Ramos foi um dos redatores, determinou a criação de escolas móveis em zonas de difícil criação de escolas fixas. No entanto, só começaram a funcionar pelo decreto de 25 de outubro de 1913, que criou neste mesmo ano 172 escolas destinadas a adultos, tendo uma frequência anual de 13.000 inscritos até à sua extinção em 1930.

A criação das escolas móveis oficiais enfraqueceu, sem dúvida, a atividade da Associação das Escolas Móveis pelo Método João de Deus, que pôs fim à sua atividade de escola móvel no ano escolar de 1920-1921. De 1882 a agosto de 1921, realizaram-se 487 missões, matricularam-se/alfabetizaram-se 28.941 alunos, dos quais 12.727 realizaram exame e deram provas públicas de terem aprendido a ler, escrever e contar.

Com a reformulação dos seus estatutos em 1926, a instituição passou a denominar-se Associação de Jardins-Escolas João de Deus, tendo como objetivo principal “realizar um modelo português de escola infantil, seguindo o espírito e doutrina da obra educativa de João de Deus, para abrigo, educação e ensino de crianças de ambos os sexos, de quatro até ao limite máximo de nove anos de idade” (AJEJD, Estatutos, 1926, art.º 2.º, 1). Até 1953, data do falecimento de João de Deus Ramos, fundou 11 Jardins-Escolas em Portugal.

A Associação de Jardins-Escolas João de Deus, depois Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), mantém em atividade, no começo do séc. XXI, quase meia centena de jardins-escolas distribuídos por diversos pontos do país, inclusive na Madeira. Os Jardins-Escolas João de Deus recebem apoio financeiro do Ministério da Educação e do Ministério da Solidariedade, Emprego e Segurança Social.

Difusão do método João de Deus na Madeira

À semelhança do elevado número de iletrados de Portugal Continental, que no censo da população do reino de 1 de dezembro de 1890 rondava os 79,2 % ou 4.000.929 num total de 5.049.729 habitantes, no distrito do Funchal observava-se uma taxa de iletrados muito elevada, tendo algumas freguesias uma população completamente analfabeta, especialmente a feminina. Desta forma, o processo de divulgação do método de João de Deus na Madeira foi idêntico ao de Portugal Continental, sendo padres, escolas regimentais, presidentes das câmaras municipais, professores, comissários, coronéis, entre outros, a delinear a sua implantação.

Em setembro de 1878, um ano após a publicação da Cartilha Maternal ou Arte de Leitura, o padre João Maurício Henriques (1852-1901), do Funchal, fez o Curso de Leitura em casa de João de Deus. Embora se ignore a influência deste clérigo na divulgação do método joanino na Madeira, é provavelmente a ele que se devem os primórdios da sua implantação. Além da sua notória colaboração na imprensa local, de que é exemplo o Diário de Notícias da Madeira, o padre João Henriques foi capelão militar.

No mesmo ano, Miguel Gomes da Silva, capitão diretor da Escola Regimental do Batalhão de Caçadores n.º 12 do Funchal, manifestou pessoalmente ao pedagogo o desejo de adotar a Cartilha Maternal na classe de cabos. Em carta a João de Deus, de 5 de fevereiro de 1880, refere o que já havia dito dois anos antes: “Tendo sido nomeado diretor da escola regimental do batalhão de Caçadores n.º 12, em conformidade do regulamento a que se refere o decreto de 22 de dezembro do ano próximo findo, resolvi, em cumprimento dos desejos que em 1878 pessoalmente manifestei a v., adotar para a classe de cabos a Cartilha Maternal ou Arte de leitura, de que v. é autor” (DEUS, 1900, 175).

Em setembro de 1879, o presidente da Câmara Municipal do Funchal, conde de Carvalhal, enviou a Lisboa o professor Teodoro Henriques para aprender a ensinar pelo método de João de Deus. No seu regresso à ilha, Teodoro Henriques divulgou-o aos professores das escolas públicas e privadas. “Em 1 setembro de 1879, dirigiu o conde de Carvalhal, presidente da Câmara Municipal do Funchal, um ofício ao Dr. João de Deus, apresentando-lhe Teodoro João Henriques (padre), encarregado pela mesma Câmara de estudar o novo processo de ensino de leitura às crianças, organizado por aquele distinto poeta e zeloso apóstolo da instrução popular. O professor Henriques esteve alguns meses em Lisboa, sendo ele quem no regresso à Madeira divulgou entre o professorado público e particular o processo de ensino que aprendera com o ilustre autor da Cartilha Maternal” (SILVA e MENESES, II, 1978, 362).

Teodoro Henriques, em carta datada a 5 de fevereiro de 1880, pedia a João de Deus 16 coleções dos Quadros ParietaisCartilha Maternal em ponto grande para o ensino simultâneo, que significava uma escola por cada coleção. Para além da alfabetização que promovia, tencionava fazer vários cursos na ilha. “Terá a bondade de me mandar na viagem de 20 deste mês 16 coleções das tabelas do método. Está tanta gente desejando aprender, e não posso ensinar simultaneamente. Desejava que viesse uma coleção encadernada, para levar de um lugar para outro, como um livro, pois tenciono estabelecer cursos em diferentes pontos da cidade” (DEUS, 1900, 175)

A 5 de março de 1880, Teodoro Henriques já ministrava a professores e professoras o Curso de leitura sobre a Cartilha Maternal com o apoio da Câmara Municipal do Funchal, sendo convidado pelo comissário de estudos a dar formação a professores públicos em setembro. “Os professores e professoras a quem estou lecionando estão quase a completar o curso. Depois que comecei a ensinar, e com as explicações que recebi de v. é que comecei a ver as excelências do método. Realizou-se em mim o rifão: docendo discimus. A câmara está com a melhor vontade e não se tem poupado a despesas. O comissário de estudos já me pediu para eu lecionar aos professores públicos no mês de setembro, por ser de férias, se o governo não mandar antes que eles aprendam” (DEUS, 1900, 176).

Três anos mais tarde, em 8 de outubro de 1883, Teodoro Henriques informava João de Deus de que o seu método fora argumento das conferências pedagógicas realizadas na Madeira, tendo sido evidenciado o problema de falta de material didático, pois os professores que tinham feito a formação com ele tinham reconhecido a superioridade do método, mas não o podiam transmitir além dos confins do Funchal, pelo facto de as câmaras rurais não terem adquirido os quadros parietais para as suas escolas, como fizera a câmara do Funchal: “Desde que aí estive nunca mais tive notícias de v. senão por ocasião da vinda das tabelas. Muitas vezes cá tenho falado em v. e muitas pessoas têm perguntado pelo método de escrita, que se torna indispensável. Ainda hoje nas conferências pedagógicas, falando-se à cerca do método de v., alguém fez notar a falta do método de escrita. Tenho instado e têm pedido os professores, para que as câmaras rurais mandem buscar as tabelas para as suas escolas, como fez a câmara do Funchal. Ensinei os professores; reconhecem a excelência do método, mas estão sem o poder transmitir” (DEUS, 1900, 207).

Até 1907, não encontramos literatura que nos forneça informação sobre a implantação do método de João de Deus na Madeira. Em julho de 1907, João de Deus Ramos iniciou conferências sobre o método de João de Deus a convite do Coronel Joaquim Maria Alves, comandante militar. As quatro primeiras realizaram-se na Escola Regimental de Infantaria n.º 27, no Funchal, a 5, 6, 7 e 8 de julho, sendo a assistência constituída, na sua maioria, por “oficiais do regimento, oficiais inferiores e representantes da imprensa local”, entre outros. Deste evento, a imprensa regional fez notícia de onde se extrai o seguinte: “O sr. João de Deus Ramos realizou ontem a terceira conferência sobre a cartilha de seu glorioso pai, versando o assunto, num estilo fluente e leve, que a todos prendeu pela suma clareza” (Boletim das Escolas Móveis…, 2, jun.-dez. 1907, 37-38).

Durante esta estada na ilha, João de Deus Ramos convidou algumas entidades eminentes para propagar o método de seu pai. Cinco meses depois, em 23 de dezembro 1907, foi constituída a Comissão Auxiliar das Escolas Móveis pelo Método João de Deus na Madeira, composta pelo Visconde de Cacongo (presidente), Mariano Augusto Machado de Faria e Maia, Diretor das Obras Públicas do distrito (vice-presidente), Francisco Xavier Teixeira (vogal), Manuel Augusto Martins, advogado (tesoureiro) e Cândido Gomes, diretor da escola regimental de infantaria n.º 27 (secretário), sendo o primeiro, o segundo e o terceiro (amigo e colega de João de Deus Ramos em Coimbra) convidados diretamente por João de Deus Ramos.

Embora Cândido Gomes tivesse assumido compromisso com Ramos de constituir a comissão no Funchal, explica na ata de 23 de dezembro que a demora se deve “à necessidade que lhe pareceu haver de preparar a opinião pela propaganda jornalística e pessoal, pois é infelizmente sabido como é difícil implantar e fazer vingar ideia nova, por mais altruísta e utilitária que seja, neste meio, apático, e estragado pelos desmandos passionais ou de uma política, arquimesquinha, ou de uma intolerância religiosa desmascarada. E se não veja-se como o diário nacionalista local – O Jornal – tem atacado as Escolas Móveis, pela confusão de que sejam ateístas e pela deplorável persuasão de que nada de bom e útil e grande, possa germinar e fortificar fora do seu campo religioso” (Ibid., 32).

A comissão tem por fim prestar, na ilha da Madeira, o maior auxílio possível à divulgação do método do autor da Cartilha, quer angariando sócios, quer fazendo festas e representações e promovendo conferências, quer fazendo propaganda à instituição fundada há 26 anos por Casimiro Freire; a título de exemplo, refere-se o produto de uma récita realizada no Teatro D. Maria Pia do Funchal no início de 1908. Os membros desta comissão decidiram, então, oficiar várias pessoas ilustres da Madeira, pedindo-lhes a sua inscrição. Em funcionamento desde 1907 até ao ano escolar de 1913-1914, teve cerca de 240 sócios inscritos, que contribuíram com as suas quotas para a Associação das Escolas Móveis, iniciando com uma subscrição de 163 sócios, como se constata nos relatórios da associação deste período. Mesmo depois da extinção da referida comissão, a associação continuou a ter subscritores madeirenses, tendo em setembro de 1921 como sócio Manuel Augusto Martins.

Depois de algumas diligências de João de Deus Ramos, para efetivamente ter uma organização local de propaganda das Escolas Móveis pelo Método João de Deus na Madeira, realizaram-se seis missões: Funchal, Calheta e São Roque do Faial, como se ilustra na seguinte tabela como síntese dos relatórios da associação nos períodos indicados.

Missões das Escolas Móveis pelo método João de Deus realizadas na Madeira

Número da missãoLocalidadesData de começoAlunos matriculados mmmatriculados inscritosinscritosProfessoresData de ExamoesAlunos Admitidos a exames
97Funchal (Madeira), regimento de infantaria n.º 2715/11/190730Jacinto Simões20/04/190842
00Funchal (Madeira), bateria n.º 3 de artilharia20/11/190728Jacinto Simões20/04/190823
20Calheta (Madeira)29/05/190850Jacinto Simões31/10/190838
38S. Roque do Faial (Santana - Madeira)14/06/190950Jacinto Simões20/11/190938
40Funchal26/07/190950Maria Amália Pinheiro Furtado23/12/190930
26Funchal04/11/191240Jacinto Simões01/07/191337
Total248Total208

A 197.ª missão (1.ª na ilha) funcionou no Regimento de Infantaria n.º 27, a cargo do professor Jacinto Simões. Começaram as aulas pelo método João de Deus – leitura, escrita e contas – em 15 de novembro de 1907 a duas turmas (uma noturna e uma diurna, supõe-se) com 30 soldados analfabetos matriculados. Depois de cinco meses de funcionamento, realizaram-se as provas de aproveitamento, em 20 de abril de 1908, sendo apurados 42 recrutas – pelo que terá havido aulas de alfabetização paralelas às da missão ou inscrições no decorrer das aulas. A 200.ª missão (2.ª na ilha) funcionou na Bateria n.º 3 de Artilharia com o mesmo professor da missão anterior. As aulas começaram em 20 de novembro de 1907 com uma turma de 28 analfabetos matriculados, realizando-se exame cinco meses depois, em 20 de abril de 1908, no qual ficaram aprovados 23 soldados.

Na ata da reunião em que foi constituída a Comissão Auxiliar do Funchal, o secretário Cândido Gomes, capitão de infantaria n.º 27, referia “que se estão realizando duas missões das Escolas Móveis, nesta cidade – uma com duas turmas no 27 de infantaria e outra com uma só na Bateria n.º 3 de Artilharia. E aproveita a ocasião para com prévio assentimento do seu ex.º comandante, convidar a comissão a assistir a uma lição no 27 (onde se estão instruindo cerca de 300 recrutas analfabetos). Ficou resolvida a visita para a segunda semana do próximo janeiro. Nesta altura o secretário pediu licença para apresentar o referido professor Jacinto Simões, o qual fez uma concisa e clara explanação do método de leitura, e referiu o estado de aproveitamento dos recrutas citados, e que apenas contam 23 lições. Refere-se à extrema dificuldade com que lutou nos primeiros dias para entender e fazer-se entender por aqueles alunos dada a rudimentaríssima linguagem, de que dispõem, e assim mesmo muito deturpada; atualmente, porém, estão vencidas as maiores dificuldades e o ensino vai decorrendo muito satisfatoriamente” (Ibid., 32). Como citado, cerca de 300 analfabetos estavam a ser instruídos na infantaria 27, pelo que é possível inferir que, além dos 30 recrutas inscritos na missão da escola móvel, se alfabetizavam muitos outros pelo método João de Deus.

O professor Jacinto Simões também nos confirma fatores intrínsecos à retração dos recrutas perante a aprendizagem: “Verifico uma falta de vontade, um horror ao ensino por parte dos soldados que me faz redobrar de esforços. Duas são as causas principais deste retraimento, a vida selvagem que levavam antes de assentar praça, vegetando encravados entre dois montes, sem convivência com gente culta, fora de todo o contacto civilizador; e o receio de que, sabendo ler, os façam cabos e os acorrentemos dois anos de serviço ao regimento. […] Independentemente destes fatores poderosos da sua quase recusa ao ensino, existe o entorpecimento do cérebro, mercê da falta de estímulo pelas razões acima apontadas. É desolador ver estes homens disporem de um limitadíssimo vocabulário, sendo quase necessário ensiná-los a falar, e encontrando grande dificuldade em compreenderem a lição do r. Indolentes por natureza, falta-lhes a espontaneidade que na classe civil se encontra no aluno que vai à escola com o fim de aprender” (Ibid., 31).

Além das realidades aludidas, a “imprensa reacionária” local, de que é exemplo O Jornal, atacou as escolas móveis considerando-as “ateístas”, com a pretensão de “extinguir o sentimento religioso de toda a face da terra”, e que nada de bom e útil poderia germinar fora do campo religioso. Perante esta calúnia, Jacinto Simões e Cândido Gomes defenderam a Associação das Escolas Móveis no jornal O Povo e no Diário de Notícias, apelando à opinião pública em prol desta instituição (Ibid., 31-32).

A 220.ª missão (3.ª na ilha) funcionou na Calheta, tendo como professor Jacinto Simões. Começou a 29 de maio de 1908 com 50 alunos matriculados e, terminados os cinco meses, foram realizadas as provas de aproveitamento em 31 de outubro do mesmo ano, sendo apurados 38 alunos. A 238.ª missão (4.ª na ilha) foi realizada em São Roque do Faial – Santana, sendo lecionada pelo mesmo professor. Começaram as atividades letivas a 14 de junho de 1909 com 50 alunos inscritos. Findos os cinco meses, realizaram-se as provas em 20 de novembro do mesmo ano, sendo apurados 38 alunos. Embora não tenhamos encontrado documentação sobre o processo de realização das missões até aqui descritas, supõe-se que as primeiras tenham sido requisitadas pelas escolas do regimento e as outras duas pela Comissão Auxiliar do Funchal, por ser prática comum às escolas móveis.

A 240.ª missão (5.ª na ilha) funcionou no Funchal, a cargo da professora Maria Amália Pinheiro Furtado, sendo requisitada pela Comissão Auxiliar do Funchal. Começaram as aulas pelo método João de Deus – leitura, escrita e contas – a 26 de julho de 1909, tendo-se matriculado 50 alunos. Terminado o prazo normal do funcionamento das missões, cinco meses, realizaram-se as provas de aproveitamento a 23 de dezembro de 1909, sendo apurados 30 alunos, 11 do sexo masculino e 19 do sexo masculino. Supõe-se que a professora desta missão seria madeirense, visto não ter lecionado em mais nenhuma missão fora da ilha.

A 326.ª missão (6.ª e última a ser realizada na ilha) foi requisitada pela Comissão Auxiliar do Funchal e funcionou nesta cidade, a cargo do professor Jacinto Simões. Começada em 4 de novembro de 1912 com 40 analfabetos inscritos, teve uma frequência muito regular, tendo desistido apenas 3 alunos até à realização das provas de aproveitamento, em 1 de abril de 1913. Esta missão continuou, para aperfeiçoamento dos 37 alunos aprovados em exame, desistindo, depois, 3 deles e realizando-se provas finais de aperfeiçoamento em 1 de julho, comparecendo os 34 alunos restantes. Ao contrário das missões realizadas anteriormente, esta contém mapa de frequência e aproveitamento dos alunos e exemplares dos exames realizados por Francisco Gomes Dias em 1 de abril e em 1 de julho de 1913. As missões encerravam o seu trabalho na data dos exames, geralmente realizados nos Paços do Concelho perante a presença da imprensa e de identidades locais. Nestas missões foram alfabetizados cerca de 248 alunos, dos quais 208 realizaram exame.

O motivo da descontinuidade das missões na ilha da Madeira terá sido o facto de as escolas móveis oficiais terem começado a funcionar na ilha pelo decreto de 25 de outubro de 1913. Em 1919, existiam 9 escolas móveis oficiais e, em 1922, era 11 o número destas escolas no distrito.

Até fins do séc. XX, não encontramos vestígios oficiosos da implementação e intervenção da pedagogia João de Deus na Madeira. No início do séc. XXI, em 2000, a Associação de Jardins-Escolas João de Deus celebrou um protocolo com a Santa Casa da Misericórdia de Machico. No início de 2001, iniciou-se a atividade do Jardim-Escola João de Deus com 22 crianças, dos 3 a 5 anos, constando “Atividades Extracurriculares de caráter Educativo e Cultural” desenvolvidas em Machico-Madeira no Relatório da Associação de Jardins-Escolas João de Deus de 2001.

No dia 8 de julho de 2002, foi efetuada a compra do edifício sito na Avenida Estados Unidos da América, n.º 163, no Funchal, para o primeiro Jardim-Escola João de Deus na Região Autónoma da Madeira. Imediatamente depois, tiveram início as obras de conservação e ampliação do imóvel, que iniciou o seu funcionamento a 31 de outubro de 2003, com as valências de creche, com 90 crianças, e jardim-de-infância, com 25 crianças, dos 4 meses aos 2 anos e dos 3 aos 5 anos, respetivamente. A inauguração contou com a participação das mais destacadas individualidades da região autónoma, nomeadamente o presidente do Governo Regional da Madeira, o secretário e a diretora regional de Educação, o diretor regional de administração e pessoal da Secretaria Regional de Educação, o presidente da Câmara Municipal do Funchal, e os corpos gerentes e os diretores dos restantes Jardins-Escolas da associação. Estes, aproveitando o evento, realizaram a conferência pedagógica anual de avaliação para refletirem sobre as práticas de forma a “incrementar uma maior qualidade educativa” (AEMJD, Relatório, 2003, 7, 29, 66-67, 71). No Relatório de 2011, observa-se que o Jardim-Escola do Funchal contava com 187 crianças, das quais 80, com idades entre os 4 meses e os 3 anos, frequentavam a creche, e 107, com idades entre os 3 e os 6 anos, frequentavam o jardim-de-infância.

O método de João de Deus resulta de um conjunto de respostas às questões educativas que se foram colocando ao longo da sua existência. A idealização da doutrina pedagógica de João de Deus serviu de base à pedagogia de seu filho João de Deus Ramos que, ancorado no contexto da Escola Nova, idealizou um modelo de escola aberto e recetivo às novas conceções pedagógicas, cuja aplicação foi seguida de forma inovadora pelos seus sucessores.

Bibliog.: ANUÁRIOS DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA, Relação e índice alfabético dos estudantes matriculados na Universidade de Coimbra e no Liceu no ano letivo de 1849 para 1850, com suas filiações, naturalidades e Moradas, e com a designação das diferentes cadeiras e disciplinas, e dos lentes e professores respetivos, Coimbra, Imprensa da Universidade, 1849, 1850, 1851, 1852, 1853, 1854, 1855, 1856, 1857, 1858; ASSOCIAÇÃO DAS ESCOLAS MÓVEIS PELO MÉTODO JOÃO DE DEUS [AEMJD], Estatutos da Associação das Escolas Móveis pelo Método de João de Deus, Lisboa, Tipografia Minerva Central, 1882; Id., Estatutos, Lisboa, Arquivo do Museu João de Deus, 1914; Id., Estatutos – Reforma aprovada pela Assembleia Geral de 17 de janeiro de 1926, Cascais, Tipografia Cardim, 1926; Id., Relatórios, s. l., s. n., 1882-1906; Id., Relatório e contas de 1 de janeiro de 1907 a 20 de maio de 1908, Lisboa, Tipografia do Anuário comercial, 1908; Id., Relatório e Contas de 1 de outubro de 1920 a 30 de setembro de 1921, Lisboa, Imprensa Nacional de Lisboa, 1922; Id., Relatório da Direção e Parecer da Comissão Revisora de Contas – Gerência de 1 de outubro de 1921 a 30 de setembro de 1922, Lisboa, Associação de Jardins-Escolas João de Deus, 1923; Id., Relatórios de atividades e Contas de Gerência, Lisboa, s. n., 2000/2001/2002/2003/2011; ASSOCIAÇÃO DAS ESCOLAS MÓVEIS PELO MÉTODO JOÃO DE DEUS, BIBLIOTECAS AMBULANTES E JARDINS-ESCOLAS [AEMJDBAJE], Estatutos, Lisboa, Tipografia do Anuário Comercial, 1908; Id., Estatutos, Lisboa, Tipografia Leiria, 1911; Id., Regulamento e Programa das Missões, Lisboa, s. n., 1914; Boletim das Escolas Móveis pelo Método João de Deus, vol. I, n.º 1, jan.-maio 1907; Ibid., vol. II, n.º 2, jun.-dez. 1907; Boletim de Propaganda, n.os 10-13, out. 1912-set. 1913; BRAGA, Teófilo, O Festival de João de Deus – 8.III.1859: Poesias, Estudos literários, manifestações da Imprensa e colectividades científicas, na Celebração do LXV aniversário do Poeta, pela Mocidade das Escolas com um Escorço biográfico de João de Deus, Lisboa, Antiga Casa Bertrand – José Bastos – Editor, 1905; Id., João de Deus – Escorço BiográficoEdição Comemorativa do Centenário, Lisboa, Imprensa da Portugal-Brasil, 1930; Id., «João de Deus», Resistência – Órgão do Partido Republicano de Coimbra, Coimbra, 1.º Ano, n.º 96, 19 jan. 1896, pp. 22-23; CHÁ-CHÁ, Cecília Varela, João de Deus, dois pedagogos uma obra, Lisboa, Roma Editora, 2009; DEUS, João de, e CARVALHO, António José de, Dicionário Prosódico de Portugal e Brasil, 4.ª ed., Porto/Rio de Janeiro, Lopes e C.ª – Sucessores de Clavel e C.ª/Frederico Augusto Schmidt, 1890; DEUS, João de, Os deveres dos filhos para com os seus pais, Lisboa/Porto, Livraria Católica, 1875; Id., Cartilha maternal ou Arte de leitura, 1.ª ed., s. l., Livraria Universal e Moniz, 1876; Id. (tradução), Arte de Leitura: Segunda parteOs deveres dos filhos, tradução de João de Deus, 4.ª ed., Lisboa, Imprensa Nacional, 1881; Id., A Cartilha Maternal e o Apostolado, Lisboa, Viúva Bertrand e C.ª Sucessores Carvalho, 1881; Id., A Cartilha Maternal e a Crítica, Lisboa, Antiga Casa Bertrand – José Bastos, 1897; Id., Prosas, Lisboa, Antiga Casa Bertrand, 1898; DUARTE, Afonso da Cunha, João de Deus, Clérigo Minorista da diocese do Algarve, São Brás de Alportel, Casa da Cultura António Bentes, 2012; FREIRE, Casimiro, Representação à câmara dos srs. deputados, publicada no Diário do Governo n.º 163 de 2 de julho de 1897, s. l., Tip. Minerva Central, 1898; A Instrução do Povo, III, n.º 1 (2.ª série), out.-dez. 1908; MOSCA, Joaquim Filipe, “João de Deus e a imprensa Baixo-Alentejana – O Bejense”, Ler educação – Revista da Escola Superior de Educação de Beja, n.º 3, set. e dez. 1990, pp. 55-60; PADULA, António, João de Deus, Il Grande Poeta Lírico Portugueses (per il centenário dela sua nascita), Nápoles, Tipografia Ospedale Psiquiátrico Provinciale Leonardo Bianchi, 1929; RAMOS, João de Deus, “A instrução do povo”, A Instrução do Povo, n.º 1, fev. 1905, p. 1; SILVA, Fernando Augusto da, e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, I e II Vols., 4.ª ed., Funchal, Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1978; TELES, Alberto, “Os amigos de João de Deus em Coimbra” in BRAGA, Teófilo, O Festival de João de Deus…, Lisboa, Antiga Casa Bertrand – José Bastos – Editor, 1905, pp. 225-226); Um apóstolo da Instrução Popular e da Democracia – à memória de Casimiro Freire, Lisboa, Tip. Americana, 1930.

Cecília Varela CHÁ-CHÁ

 (atualizado a 10.08.2016)

arditi – agência regional para o desenvolvimento da investigação, tecnologia e inovação

A ARDITI – Agência Regional para o Desenvolvimento da Investigação Tecnologia e Inovação foi constituída em 2013 enquanto associação de natureza privada, sem fins lucrativos, com o propósito maior de promover a investigação e a inovação na RAM. Simultaneamente, propôs-se apoiar a criação de emprego e o crescimento económico baseado no conhecimento.

Constituída com uma estrutura de sócios e associados, a ARDITI contava, à época da sua criação, com o Governo Regional da Madeira (GRM) e a Universidade da Madeira (UMa) como sócios fundadores e com a PT, a Empresa de Cervejas da Madeira, a Cimentos Madeira, a Exictos, a MMComputadores, a Taboada&Barros e a Madeira Tecnopolo como sócios efetivos.

Com uma missão abrangente e ambiciosa, a ARDITI pretendeu, desde logo, não apenas reforçar a colaboração e as ligações entre os seus associados e dos seus associados com a comunidade científica e empresarial, como também promover e apoiar atividades de investigação e desenvolvimento (I&D), nomeadamente através da atribuição de financiamento a projetos de investigação científica e desenvolvimento tecnológico, bolsas a docentes e investigadores, bem como bolsas de pós-graduação, mestrado, doutoramento e pós-doutoramento. Entre os objetivos da associação, estava também o desenvolvimento e apoio de ações de formação de recursos humanos e a realização de atividades de valorização e divulgação de resultados de I&D, que procura implementar no meio empresarial. A ARDITI apoia ainda o GRM  na formulação e execução das políticas científicas e tecnológicas, prestando também serviços de consultadoria e apoio técnico a pessoas singulares e coletivas, incluindo organismos da administração central, regional e local.

Em linha com as prioridades da Região, a ARDITI procurou direcionar o investimento e criar sinergias que permitissem canalizar os esforços de investigação, desenvolvimento tecnológico e inovação (IDT+I) para as mais-valias da Madeira, explorando assim as suas oportunidades económicas e o seu potencial de crescimento. Simultaneamente, esta instituição pretendeu melhorar o processo de inovação de acordo com uma visão estratégica dos desafios, das vantagens competitivas e do potencial de excelência da Região e, ainda, promover um maior envolvimento das partes interessadas, assegurando que todos os parceiros estivessem plenamente envolvidos na concepção, implementação e acompanhamento da Estratégia de Especialização Inteligente.

Com efeito, desde a sua criação, a ARDITI focou o seu trabalho no desenvolvimento e na implementação da Estratégia de Inovação para a Especialização Inteligente (RIS3), no âmbito da Política de Coesão da União Europeia 2014-2020, que visou converter a RAM numa innovation follower, de forma a posicioná-la entre as quatro principais regiões de Portugal em termos de desempenho na inovação. A Madeira tornou-se reconhecida, neste âmbito, como uma das principais regiões da Europa na criação de conhecimento nas áreas do turismo, bio-sustentabilidade e recursos e tecnologias do mar.

Para alcançar tal objetivo, procurou-se promover a potencialização e capacitação dos recursos endógenos, das infraestruturas existentes e dos agentes regionais com competências nos vários domínios de especialização, o que se refletiu na criação de massa crítica e na reorientação dos recursos existentes em torno dos domínios temáticos de especialização da RIS3. Esta estratégia destacou ainda a necessidade de atração, retenção e formação de recursos humanos altamente qualificados nos domínios temáticos, à qual se respondeu através de parcerias com instituições líderes internacionais, tirando-se partido da cultura cosmopolita e da qualidade de vida da Região para torná-la na localização preferida para a criação e exploração de conhecimento nessas áreas. Neste âmbito, revelou-se desejável também fomentar o desenvolvimento de uma cultura inovadora, aberta, mobilizadora e libertadora do potencial individual e coletivo orientada para a criação de emprego, valor económico, social e territorial. O reforço da intensidade tecnológica na produção de bens e serviços orientados para cadeias de valor globais, aproximando o sistema científico das atividades económicas, sociais e criativas, apresentou-se também como uma das linhas-chave da RIS3, a par do reforço da produtividade, da coesão territorial e da afirmação da competitividade responsável, estruturante e resiliente enquanto verdadeiro desígnio central suportado pelas dinâmicas da Estratégia.

A par desta visão estratégica, a ARDITI contava também, por definição estatutária – enquanto instituição vocacionada para dinamizar a investigação científica e tecnológica na RAM –, com o apoio da comunidade científica na Região, que se traduzia, por exemplo, na atribuição de bolsas de estudo com duração variável. Estes apoios destinam-se a promover a formação avançada de recursos humanos, de forma a criar uma sólida base de qualificação, consolidação das instituições, criação de emprego científico, inserção de investigadores nas empresas e reforço das lideranças científicas. As referidas bolsas também são destinadas a apoiar docentes e investigadores na participação em congressos, seminários, reuniões científicas, conferências, estágios e trabalhos de investigação, na Região ou fora dela.

Patrícia Lencastre

(atualizado a 13.10.2015)

revistas de tradições populares

Os contributos escritos para o conhecimento da tradição popular madeirense têm-se repartido entre publicações exclusivamente dedicadas a este tema e outros tipos de periódicos, nos quais se tem vindo a acentuar a frequência de colaborações resultantes de trabalhos académicos. Temas como os ofícios tradicionais, o artesanato, a gastronomia, o linguajar madeirense, o folclore ou as festividades têm, assim, sido abordados com regularidade na imprensa islenha.

Palavras-chave: imprensa; periódicos; tradições populares; etnografia.

Não são numerosas as publicações madeirenses especificamente dedicadas a tradições populares. O mais habitual é encontrarem-se trabalhos dispersos em diversos tipos de periódico. No entanto, há dois títulos que, embora com caraterísticas diferentes, se dedicam em exclusivo à tradição popular.

Xarabanda Revista
Xarabanda Revista

Em primeiro lugar, deve referir-se a Xarabanda Revista. Editada, desde maio de 1992, pela Associação homóloga, tem tido uma vida bastante irregular. Nos primeiros seis anos, foi semestral, saindo ainda um número especial comemorativo do centenário de Carlos Santos. Posteriormente, passou a anual, embora, de facto, os números editados correspondam cada um a dois anos. Desde o número 18, de 2010, encontra-se suspensa, estando em curso a sua reformulação, tendo-se concluído a disponibilização dos seus conteúdos em formato digital, através de uma página na Internet, prevendo-se o reinício da edição em papel no ano de 2015. O seu formato manteve-se sempre no A4, embora com um número de páginas muito variável, que vai das 44 da primeira até às 132 páginas do número 13. A dimensão mais frequente é entre as 48 e 64 páginas. Com muito raras exceções, as capas são a cores e o miolo a preto e branco. O grafismo tem sido muito irregular, havendo, nos números mais recentes, uma tendência para maior continuidade.

O objetivo definido logo à partida foi abranger um leque muito eclético de temas. Em linhas gerais, o propósito era dar a conhecer todos os trabalhos que abordassem temas da tradição regional. Estes seriam resultado de pesquisa dos elementos da Associação e de todos os que quisessem colaborar com a revista, desde que os seus artigos fossem originais e contribuíssem para a concretização do objetivo genérico de divulgar o conhecimento da tradição madeirense, em todos os seus aspetos.

Nos primeiros números, correspondentes a uma fase de afirmação do projeto, predominam os artigos de autores membros da Associação ou seus colaboradores habituais. Houve, ao mesmo tempo, a tentativa de criar um grupo de elementos de áreas como a Antropologia ou afins, de modo a assegurar uma produção regular de colaborações. Um último aspeto desta iniciativa diz respeito a contactos com professores e estudantes, convidando-os a realizar pesquisas de que pudessem resultar artigos ou a reformular trabalhos académicos que tivessem feito, ou partes deles, dando-lhes a faceta de artigos. As dificuldades de respostas favoráveis e atempadas levaram a que um reduzido leque de três ou quatro autores ocupassem a maioria das páginas da revista. Esta primeira fase, que termina no segundo semestre de 1997, compreende 13 números (12 regulares e um especial dedicado aos cem anos do nascimento de Carlos Santos) e pode dizer-se que ilustra a evolução da revista, que passou, aos poucos, daquela caraterização inicial para uma realidade em que vão sendo cada vez mais os autores que propõem à Associação a edição de trabalhos seus, incluindo autores não madeirenses que aproveitam a oportunidade que lhes é proporcionada para divulgarem os seus artigos.

Desde o início, os seus responsáveis procuraram organizar números temáticos, ou, pelo menos, incluindo proporção significativa de trabalhos abordando um tema comum. A primeira experiência teve lugar com o número 4 (2.º semestre de 1993), dedicado à água. Neste número, encontram-se trabalhos sobre pesca, seca de peixe, os bomboteiros, a festa da Nossa Senhora da Piedade, fabrico de miniaturas de barcos, etc. O número 6 (2.º semestre de 1994) foi o primeiro com um tema exclusivo: a ilha do Porto Santo. Com a ajuda de apoios diversos, foi viabilizada a deslocação de diversos colaboradores àquela Ilha para realizarem as suas pesquisas. Ao mesmo tempo, foi feito um esforço de angariação de trabalhos efetuados por estudantes, docentes e investigadores locais. De todo este esforço resultou uma edição de 80 páginas, com um vasto leque de temas abrangidos.

Os três anos seguintes representam a continuidade deste projeto, com a publicação regular da revista, acompanhada de uma procura de apoios que assegurassem a sua regularidade, o que não foi viável. Neste período, os temas abordados nas páginas da Xarabanda Revista são muito diversificados. Em primeiro lugar, cabe referir que, embora não sendo o objetivo prioritário, nunca esqueceram os seus responsáveis o peso fundamental que a tradição musical madeirense tem tido, desde sempre, nas preocupações da Associação. Assim, será lógico que se encontrem numerosos artigos abordando o fabrico de instrumentos musicais, grupos folclóricos, bandas, recolhas de cancioneiro e mesmo artigos de opinião. Por outro lado, algumas atividades tradicionais em vias de extinção foram alvo do interesse de autores diversos: o cultivo do linho, os moinhos de água, o artesanato, etc. As recolhas de literatura oral tradicional deram origem a vários trabalhos, principalmente de estudantes e elementos de grupos folclóricos.

Por último, é importante aqui referir que foi logo nas primeiras edições da revista que se começaram a concretizar projetos de levantamento sistemático, alguns com continuidade até hoje: as festividades cíclicas, os moinhos de água, os fontenários aparecem apenas nos primeiros números. Com uma atualização regular até aos mais recentes, encontram-se dois temas: a bibliografia (uma tentativa de divulgar tudo o que de relevante se vai editando) e as edições de fonogramas (alvo de sucessivas versões, publicou-se no número 18 uma listagem completa, com imagens das capas e indicação dos títulos das suas faixas. Trata-se, neste caso, de pesquisa a ser alvo de divulgação em novas edições, a par de alguma antiga que for detetada).

Após a publicação do número 12, com as dificuldades acrescidas de assegurar a sua regularidade, houve um interregno de quatro anos até à saída do seguinte, com data de 2000-2001. Entretanto, fora decidido alterar a periodicidade para anual. A longa demora do processo de angariação de apoios para a continuidade da revista permitiu, por outro lado, uma seleção mais apurada de colaborações a editar, pelo que este foi, mais uma vez, um número quase totalmente preenchido com um único tema: os antigos ofícios. Prosseguindo a sua saída com alguma irregularidade até 2010, seguiu-se um novo número dedicado exclusivamente ao Porto Santo, outro tendo como tema principal a literatura oral tradicional e mais três sem um tema específico.

Embora se mantenha, em boa parte, o leque de colaboradores habituais, nota-se, cada vez mais, a existência de autores com apenas um trabalho. Aos poucos, e correspondendo a uma vertente a que os responsáveis pela revista sempre deram importância primordial, têm vindo a aumentar de frequência as colaborações resultantes de trabalhos académicos. A par do seu maior número, também a profundidade de abordagem tem vindo a evoluir: de uma maioria de pequenos estudos realizados por alunos ou docentes do ensino secundário tem-se passado, progressivamente, para o peso predominante dos trabalhos de autoria de estudantes universitários ou docentes, resultado inevitável da afirmação da revista, em primeiro lugar, mas também do aprofundar dos laços de colaboração entre a Associação Xarabanda e a Universidade da Madeira ou os docentes ligados às tradições regionais.

A revista Folclore tem periodicidade anual, desde 1991. As edições até 2005 foram de responsabilidade da Direção de Serviços de Extensão Rural, passando a propriedade do título para a Casa do Povo de Santana a partir do ano de

Revista Folclore
Revista Folclore

2006. A sua regularidade tem sido constante, até por estar associada à realização em Santana do Festival de Folclore, sob os seus diversos nomes ao longo do tempo. Nos anos de 2012 e 2013 teve distribuição integrada na edição do Jornal da Madeira coincidente com o evento, tendo depois regressado ao formato anterior de revista em A4.

Os primeiros números continham, no essencial, informação sobre cada grupo participante e os temas que iriam apresentar. Posteriormente, passou a haver a responsabilidade de cada grupo apresentar um trabalho de recolha sobre o tema da revista, variável de ano para ano. Assim, foram abordados assuntos como o artesanato, gastronomia, instrumentos musicais, traje, ofícios tradicionais, produtos agrícolas locais, meios de transporte, etc. Para além dos textos enviados pelos grupos participantes, alguns dos números da revista contêm trabalhos de enquadramento da atividade do folclore ou, principalmente nos últimos anos, um artigo geral sobre o tema da edição, de autoria de um reconhecido técnico ou investigador, fornecendo enquadramento em que os restantes trabalhos se inserirão.
Sendo a responsabilidade de apresentação dos contributos dos elementos de cada grupo folclórico, resulta daí um grande desequilíbrio na qualidade daqueles.

No entanto, tem sido uma forma de dar a conhecer aspetos da tradição regional de dimensão apenas local que, de outro modo, poderiam facilmente perder-se com a o abandono do seu uso e a sua persistência apenas na memória dos detentores desse conhecimento. Muitos dos contributos importantes para o conhecimento da etnografia regional foram dados à estampa, pelo menos na sua versão inicial, em jornais generalistas, como o Diário de Notícias, O Jornal, Jornal da Madeira, A Voz da Madeira, etc. Ao longo dos tempos a sua postura em relação a estes temas tem sido muito variável, pelo que apenas se justifica aqui esta breve referência. No entanto, houve outros periódicos que, não tendo os temas etnográficos a exclusividade das suas páginas, a eles dedicaram espaço relevante.

Revista das Artes e da História da Madeira
Revista Das Artes e da História da Madeira

A revista Das Artes e da História da Madeira teve duas fases: na primeira, entre 1948 e 1949, publicou-se como suplemento semanal de O Jornal; posteriormente, passou a ter edição autónoma como revista, editando-se 41 números, de 1950 a 1971. Sendo, como o subtítulo claramente o indica, uma “Revista de cultura”, é muito diversificada nos temas abordados. Especificamente no que diz respeito à cultura tradicional, temos atividades agrícolas (malhada e debulha), o traje (diversos artigos, alguns deles ilustrados com fotografias), os bordados, ou a construção das casas típicas de Santana. Como não podia deixar de ser, o Natal aparece repetidamente, através das recordações da Festa de outros tempos. Foi também aqui que se publicaram recolhas de contos, orações, medicina tradicional, etc. A diversidade dos temas estendeu-se às danças folclóricas, ao falar regional e mesmo ao cancioneiro tradicional. Em síntese, embora dentro de um contexto mais vasto, algumas das mais relevantes figuras madeirenses da época abordaram nas páginas desta revista, de forma interessante, elementos da tradição regional.

Outra publicação que, apesar da sua curta existência (1985 a 1989) merece referência é a revista trimestral Atlântico.

Revista Atlântico
Revista Atlântico

Também aqui a temática é muito abrangente: “Revista de temas culturais”. Nela tiveram lugar as festividades tradicionais, o artesanato (aqui merece destaque o processo de fabrico das bonecas de massa, abordado num artigo com ampla documentação fotográfica), o traje, ou a casa tradicional. Globalmente, pode referir-se não serem numerosos os trabalhos, mas a sua qualidade média é bastante elevada.

Revista Arquivo Histórico
Revista Arquivo Histórico da Madeira

O Arquivo Histórico da Madeira teve o seu início em 1931. A sua periodicidade começou por ser trimestral, embora com alguma irregularidade, passando posteriormente a anual. Os seus primeiros catorze volumes, saídos até 1966, tinham um caráter mais abrangente. A partir do volume XV, começa a “série documental”, alterando profundamente o seu conteúdo, a partir daí destinado à divulgação de documentos históricos. Sob a responsabilidade do seu primeiro diretor, João Cabral do Nascimento, até ao início dos anos cinquenta, surgiram alguns artigos sobre etnografia madeirense, da autoria do referido diretor, ou de outros conhecidos vultos, como o Visconde do Porto da Cruz ou

Revista Islenha
Revista Islenha

Fernando de Aguiar.

Por último, é indispensável referir a revista Islenha, publicada, desde 1987, pela Direção Regional dos Assuntos Culturais. O seu subtítulo Temas culturais das sociedades insulares atlânticas explicita de modo bastante claro o vasto âmbito geográfico e de áreas científicas que nela têm lugar. Com a sua periodicidade semestral e mais de cinquenta números publicados, é natural que a cultura tradicional da Madeira tenha, em algumas ocasiões, surgido retratada nas suas páginas. Alguns dos temas abordados foram a arquitetura popular, os ofícios tradicionais (cerieiro, ferreiro ou moleiro), o falar popular, a tradição dos Maios (neste caso com o interesse adicional de, no mesmo número da Islenha, se publicarem trabalhos sobre esta tradição nos Açores e em Machico, permitindo, deste modo, confrontar as suas características) ou do Espírito Santo, os carros do Monte e a tradicional dança das espadas da festa de S. Pedro na Ribeira Brava. Embora relativamente pouco numerosos, estes contributos para o conhecimento da tradição regional caraterizam-se, em regra, pelo seu elevado rigor.

Jorge Torres

(atualizado a 05.08.2016)

associação dos amigos do conservatório de música da madeira

AACMM logo cores

A AACMM, instituição de utilidade pública sem fins lucrativos, foi fundada a 25 de junho de 1993. Teve como seus fundadores João Carlos Abreu, secretário regional de turismo e cultura, a escultora Manuela Aranha, diretora da Direção Regional dos Assuntos Culturais (DRAC), Inês Clode, presidente da Comissão Instaladora do CMM, Ian Fraser, John Ranalow, Rui Sá, Johnny Bjelkaroy e Pedro Zamora.

Um dos principais objetivos da criação da associação foi o de preencher uma das lacunas da vida cultural da Região, proporcionando concertos com regularidade e promovendo o gosto pela música. Outro, não menos importante, desde o início, foi o de encorajar o interesse pelo estudo da música, apoiando estudantes jovens e talentosos nos seus estudos na Madeira e no exterior. A organização de concertos com programação criteriosa visava ajudar, não só a desenvolver o gosto pela música erudita, como a angariar fundos para ajuda financeira. Qualquer lucro obtido nas atividades da AACMM seria destinado, exclusivamente, ao apoio de músicos jovens e talentosos da Região.

O primeiro concerto da AACMM teve lugar no dia 19 de dezembro de 1993 no Cine Casino, em colaboração com a então Orquestra de Câmara da Madeira (OCM), dirigida pelo maestro húngaro Zoltán Sánta e tendo o pianista Robert Andres como solista. A colaboração com a referida orquestra teve continuidade no concerto comemorativo do décimo aniversário da AACMM, em que a OCM foi representada pelo seu agrupamento camerístico, Madeira Camerata, e no concerto do vigésimo aniversário, em que participou a orquestra completa dirigida pelo maestro Pedro Neves e com o pianista italiano Antonio di Cristofano como solista.

O primeiro diretor artístico e presidente da direção foi o Prof. Pedro Zamora. Desde os finais de 1997, o presidente da direção e diretor artístico foi o Dr. Robert Andres em colaboração com grande parte dos elementos dos corpos sociais empossados na altura. A associação tem o apoio pontual do Governo Regional da Madeira (GRM), através da DRAC, tendo sido, em 2003 e 2013, assinado um protocolo de dinamização cultural e, em 2006 e 2012, um contrato-programa de idêntico cariz. A 25 de maio de 2006, a AACMM foi declarada uma instituição de utilidade pública pelo GRM (resolução n.º 654/2006). Os apoios e a declaração representam, como inicialmente se propôs, um sinal de confiança na excelência da programação e de contribuição para o panorama cultural da RAM.

Até ao fim de 2013, a AACMM apresentou 226 concertos, quase todos com uma programação diferente, o que representa um caso único no panorama musical da Região. O conceito de programação, que se distingue nesse panorama, foi desenvolvido ao longo da sua existência e incide, sobretudo, na música de câmara até ao quinteto e com a utilização do piano. Consequentemente, o palco mais utilizado foi sempre o do Teatro Municipal Baltazar Dias. Nos últimos anos, devido ao declínio das condições globais socioeconómicas, esta programação contemplou uma maior presença de intérpretes ligados à Região, o que veio reforçar uma das vertentes principais da política de programação da AACMM: dar destaque a jovens músicos cuja educação musical se encontra, inicialmente, ligada à Região. Na totalidade, cerca de dois terços dos concertos realizados tiveram como protagonistas intérpretes estrangeiros.

Nestes concertos, a associação tem contado com o contributo de alguns nomes ilustres do panorama musical nacional, europeu e mundial: os pianistas Pascal Rogé, Artur Pizarro, Victorino d’Almeida, Martino Tirimo, Peter Katin, Leonid Brumberg, Naum Shtarkman, Balázs Szokolay, Martina Filjak, os violinistas Ilya Grubert, Grigori Zhislin, Zakhar Bron, os flautistas István Matuz e Zoltán Gyöngyössy, a cantora Marie McLaughlin, o trompista Radovan Vlatković, o tubista Sérgio Carolino, os guitarristas Alirio Díaz e Dejan Ivanović e o trio de guitarras de Zagreb.

Destacamos, igualmente, os seguintes projetos: a apresentação integral das sonatas para piano de Beethoven, pelo pianista Artur Pizarro, que decorreu no âmbito da temporada de 2004/2005; a realização de quatro concertos com algumas das mais conhecidas obras para piano de Mozart, interpretadas pelo pianista Martino Tirimo, em 2006 e a apresentação integral das sonatas para violino e piano de Beethoven, por João Pedro Cunha e António Rosado. Toda a temporada de 2008 foi integrada nas comemorações dos 500 anos da cidade do Funchal. Em 2010 e 2011, decorreu o ciclo integral de obras para piano de Chopin, em nove concertos, interpretadas por Artur Pizarro. Em novembro de 2011, o Festival Madeira Liszt teve cinco concertos e vários conteúdos cinemáticos e gastronómicos associados. Estes ciclos contaram sempre com o apoio da Câmara Municipal do Funchal.

A constante e intensa colaboração com o Conservatório – Escola Profissional das Artes da Madeira (CEPAM) foi reconhecida e formalizada pela assinatura de um protocolo de colaboração, em janeiro de 2006, entre a AACMM e a Secretaria Regional da Educação, no âmbito do qual a AACMM doou ao CEPAM uma coleção inédita de mais de 8.000 CD’s, 2.000 LP’s e centenas de VHS’s e DVD’s. Esta coleção, originalmente propriedade de um dos sócios-fundadores da AACMM, o Dr. John Ranalow, representa o núcleo da mediateca daquela instituição, tendo sido homenageado o doador quando atribuíram àquele espaço a nova designação de “Mediateca Memorial Dr. John V. A. Ranalow”.

Em 2011, foi confiada à AACMM, pela DRAC, a condução e o acompanhamento do processo de restauro do piano de cauda Bechstein, propriedade daquela instituição, intervencionado numa empresa especializada em Inglaterra e posteriormente colocado no Teatro Municipal.

Ao longo da década de 2004-2014, e apesar dos constrangimentos no financiamento das atividades culturais, a AACMM atribuiu mais de 15.000 € em bolsas e apoios, tendo apoiado vários músicos talentosos da Região, alguns dos quais já terminaram os seus estudos e, em alguns casos, regressaram à Região.

Robert Andres

(atualizado a 04.08.2016)

henriques, pe joão maurício

Padre católico, natural da freguesia da Sé, no Funchal. Filho de António Gomes Henriques e de Ana Rosa da Silva Henriques. Fez os estudos complementares dos liceus e o curso trienal do Seminário Diocesano do Funchal. Ordenado presbítero no ano de 1877, passou a exercer funções eclesiásticas como cura da freguesia de Santa Cruz e como pároco das Achadas da Cruz e de Santana. Foi despachado, por dec. de 2 de março de 1885, capelão militar, tendo servido algum tempo no Algarve e passado, em 1887, a prestar serviço no Funchal, no Regimento de Caçadores n.º 12 e depois no Regimento de Infantaria n.º 27. Durante o período em que residiu no Algarve, colaborou na imprensa daquela região. Regressado à ilha da Madeira, não só colaborou em alguns jornais madeirenses como também foi redator do Diário de Notícias.

Segundo visconde do Porto da Cruz, (1951,II,76), o P.e João Maurício Henriques era bom orador e possuía uma magnífica cultura literária.

Fez parte da comissão da exposição de produtos madeirenses por ocasião da vinda de Sua Majestade à Madeira. Foi diretor da Associação Protetora dos Pobres, professor da Escola Regimental e um dos redatores efetivos do Diário Popular.

Como capelão militar, possuía as seguintes condecorações: medalha militar de prata da classe de bons serviços; medalha de prata de comportamento exemplar e grau de cavaleiro de Cristo.

Obras de P.e João Maurício Henrique: Breve Noticia Histórica e Descriptiva do Extinto Regimento de Caçadores n.º 12 (1900); História do Regimento de Infantaria n.º 27 (1901).

Bibliog.: impressa: BRANCO, Alfredo António de Castro Teles de Menezes de Freitas, visconde do Porto da Cruz, Notas & Comentários para a História Literária da Madeira, 2.º período, 1820-1910, II vol., Funchal, Edição da Câmara do Funchal, 1951, p. 76; CLODE, Luís Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses sécs. XIX e XX, Funchal, Edição da Caixa Económica do Funchal, 1984, p. 255; SILVA, P.e Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo, Elucidário Madeirense, II vol., Funchal, DRAC, Fac-símile da ed. de 1946, 1998, pp. 227-228; digitalhttp://www.bprmadeira.org/site/index.php/noticias/190-diario-de-noticias-da-madeira-134-anos (acedido a 4 de setembro de 2014); http://www.castroesilva.com/store, acedido a 5 de outubro de 2014.

Ilídio de Viveiros Freire

(atualizado a 11.07.2016)

homem, maria aurora carvalho

Jornalista, professora, escritora e produtora cultural, nasceu no Sátão, a 13 de novembro de 1937, e morreu no Funchal, a 11 de junho de 2010. De seu nome completo Aurora Augusta Figueiredo Carvalho Homem – Maria Aurora é o seu nome artístico –, foi uma das mais marcantes e populares figuras da cultura madeirense do seu tempo, uma voz crítica dos costumes e dos acontecimentos da época e uma incansável promotora do livro e da leitura. Filha de Amadeu de Carvalho Homem, secretário da Câmara Municipal de Sátão, e de Cidalina Figueiredo Carvalho Homem, professora primária, viveu a sua primeira infância numa aldeia nos arredores da vila natal até que, em 1949, após a morte do avô, médico localmente conceituado, a família se mudou para Trancoso e, mais tarde, em 1952, para São Pedro do Sul, por motivos profissionais dos pais.

Nos seus primeiros doze anos de vida, a família residiu numa quinta na Abrunhosa do Ladário. Foi na casa de uma típica família abastada da Beira Alta, regularmente visitada por bispos, padres e outros ilustres homens da terra, que iniciou a sua escolaridade com um professor particular. Frequentou depois o Colégio Português de Viseu e, mais tarde, o Liceu Nacional daquela cidade, onde viria a ser presidente da Juventude Escolar Católica. Após a conclusão do liceu, ponderou prosseguir estudos na área do direito, mas acabou por ingressar em românicas na Universidade de Coimbra, onde militou na Juventude Universitária Católica. Ainda na universidade, venceu o primeiro prémio de conto “Via Latina” em 1959, forjando assim um elo com a escrita que se revelaria duradouro.

No decorrer das suas viagens, conheceu o madeirense Humberto Morna Gomes, com quem viria a casar em 1960, estabelecendo-se, desta feita, o seu vínculo à ilha. Após um período de residência na Alemanha, veio para Lisboa, onde trabalhou no Banco de Angola e, seguidamente, para a Emissora Nacional, apresentando programas radiofónicos da sua autoria ou escritos por outros. Na segunda metade dos anos sessenta, iniciou a sua colaboração com a RTP como apresentadora do programa infantil “Girassol”, que lhe valeu, em 1969, o prémio de melhor apresentadora de televisão da Casa da Imprensa. Seguiram-se “As férias terminaram”, “Dói-dói” e “Minuto Zero”. Na década de setenta, envereda, sem deixar de animar programas para a Emissora Nacional, pelo jornalismo profissional em A Capital, e depois no Diário de Lisboa. Chegou a colaborar, ainda, com as revistas Flama e Gente, tendo também sido redatora-chefe do jornal A Nossa Terra de Cascais.

O ano de 1974 constitui uma viragem marcante na vida de Maria Aurora Carvalho Homem, já que seria esse o ano da mudança da família para a ilha da Madeira, numa tentativa, que viria a revelar-se frustrada, de salvar o casamento. No ano seguinte, não evita o divórcio, mas decide ficar na Madeira com os três filhos, Nuno Morna, Maria Manuela Morna Gomes e Ângela Morna Gomes. Nesse período, inicia a sua vida profissional no Funchal como professora de português e francês no Liceu Nacional. Na comunicação social, passa a colaborar com o Diário de Notícias da Madeira (DNM), através da rubrica “Rodízio” em que debate temas controversos como o ensino no pós-25 de abril e a condição da mulher portuguesa. Faz rádio no emissor regional da Emissora Nacional (futura RDPM), participando no “Suplemento do domingo”, realizado por Gualdino Avelino Rodrigues, de duas horas semanais, que incluía o programa por ela conduzido: “Quem somos, quem seremos amanhã”. Torna-se numa das figuras da boémia literária dos estabelecimentos noturnos da zona velha do Funchal (1975-1985).

Na década de oitenta, diversifica as suas atividades. Passa a exercer funções de assessoria para o Serviço de Atividades Culturais da Câmara Municipal do Funchal (CMF), no âmbito das quais organizou recitais de poesia (ao longo desse decénio) e a Feira do Livro até ao ano de 2006. Sob a sua coordenação e a direção de Fernando Nascimento, é lançada a revista Margem, publicação associada a temáticas culturais, literárias e artísticas da ilha da Madeira (1981-1983). Pertence, por uns tempos, ao Teatro Experimental do Funchal. Organiza, em 1982, o primeiro Festival de Cantares da Madeira. Prossegue a sua colaboração com a RDPM em vários programas, entre os quais se destacam: “Teia de Palavras”, “Vamos Fazer de Conta”, “Rádio da Minha Rua”, “Terra, Mar, Gente”, “Viva a Festa”, “Conversas sobre Palavras” e, já na década de 90, “Discurso Direto” e “Na Crista da Onda”. Como será seu apanágio, sempre que pode, apoia a produção literária na região, com intervenções públicas, incentivos ou prefácios. Rodeia-se de pessoas ligadas à criação e à comunicação, ao ensino e à investigação, ao empresariado e à política.

 

Fig. 1: Salão Nobre Virgílio Pereira do Teatro Municipal Baltazar Dias, 31-03- 2006. Fonte: foto de Rui Camacho.
Fig. 1: Salão Nobre Virgílio Pereira do Teatro Municipal Baltazar Dias, 31-03- 2006. Fonte: foto de Rui Camacho.

Em 1984, chega à televisão regional com o programa “A Terra e o Povo”, uma série de 11 episódios que lhe permitirá percorrer a ilha, fazendo a divulgação das tradições locais. Este é o primeiro dos programas que viriam a reputá-la como incansável mediadora da cultura do arquipélago da Madeira. Na senda dessa experiência bem-sucedida, apresenta, em 1988, o programa “Arraiais Madeirenses”.

A partir desse mesmo ano, vai estar no ar, até meados da década 90, “Letra Dura e Arte Fina”, um programa de entrevistas e pequenas reportagens que proporciona alguma visibilidade aos criadores das artes e letras residentes na ilha, com a colaboração de Ana Margarida Falcão. Esse magazine cultural chega a ser retransmitido em diferido pela RTP2 e RTPI. Em 2002, há de conduzir um outro programa do género, “Pé de Página”.

Após um curso de guionismo, ensaia-se na ficção televisiva, em 1991, para a RTPM, com a série “Página Quatro”, inspirado no quotidiano da redação de um jornal e realizado por João Paulo Valente. Em 1993, escreve o guião teledramático de cinco episódios, Homens de Passagem, realizado por António Plácido e exibido na RTPM, cujo enredo permitiria dar a conhecer diferentes ambiências do arquipélago madeirense. Embora se tratasse de uma experiência marcante para os atores e técnicos nela envolvidos, esta produção regional revelou, em abono da verdade, algumas limitações.

O ano de 1997 assinala a estreia do seu primeiro programa televisivo dedicado à diáspora madeirense, “Recados das Ilhas” (em parceria com a RTPI), que estaria no ar durante dois anos. Entretanto, em 1999, apresenta o documentário “A Madeira e os Descobrimentos”. Em junho de 1999, desloca-se aos EUA para fazer uma transmissão de “Recados das Ilhas” a partir de Rhode Island, causando forte impacto no seio da comunidade portuguesa aí residente. Com a entrada dos Açores, o programa passa a chamar-se “Atlântida”, indo para o ar a 6 de novembro de 1999. Através de contactos telefónicos em direto, a apresentadora aproxima os telespetadores, longe da sua terra natal e das suas famílias, estreitando laços, reavivando memórias e emoções. A crescente popularidade do formato televisivo e de Maria Aurora viriam a motivar a sua deslocação ao Canadá, à Venezuela, ao Reino Unido e à África do Sul, a fim de contactar diretamente com as comunidades portuguesas e daí transmitir o programa, focando as coletividades e as diversas atividades culturais por elas desenvolvidas nos países onde se estabeleceram. Em novembro de 2004, no âmbito das celebrações do 5.º aniversário do “Atlântida”, a RTPM promoveu um espetáculo de homenagem a Maria Aurora. A 6 de novembro de 2009, para assinalar os dez anos do programa, foi para o ar um “Atlântida” especial, emitido em direto para a RTPM, a RTPA e a RTPI.

Fig. 2: Jardim da Serra, 10-07-2009. Fonte: foto Arquivo RTPM.
Fig. 2: Jardim da Serra, 10-07-2009. Fonte: foto Arquivo RTPM.

A par do programa “Atlântida”, Maria Aurora faz várias emissões especiais, em diretos, desde festas religiosas, tais como a S.ª do Monte, o Sr. Bom Jesus da Ponta Delgada ou a S.ª do Livramento, até à Noite do Mercado. Em 2005, lança “Nome: Mulher”, um programa de debate composto por um painel exclusivamente feminino (com Ana Margarida Falcão, Violante Matos, Ilse Berardo e Diana Esteves Cardoso); assume-se como um programa reivindicativo, que pretende dar voz pública às mulheres num espaço ainda fortemente dominado por painéis masculinos.

Em 2007, inaugura a série documental “Ilha dos Amores”, em que revisita grandes histórias de amor associadas à Madeira. Em 2007-2008, apresenta o programa mensal de auditório “Funchal, 500 anos – teu nome sabe-me a Funcho”, com o propósito de revelar a identidade das dez freguesias do concelho. Em 2009, com o programa “Espaço Cidadania”, aborda a vida de organizações cívicas e culturais e, com a emissão “Cá Nada”, debate com Thierry Santos regionalismos linguísticos da Madeira. Fragilizada por uma doença prolongada, seria a 20 de março de 2010 que apresentaria pela última vez o programa “Atlântida”. Porém, o sucesso do formato era já tal, que o programa ainda hoje vai para o ar quinzenalmente, alternando com os Açores, continuando a ligar a diáspora às ilhas.

Mas a comunicação social em geral, e a televisão em particular, não é o seu único campo de intervenção. Na passagem dos anos 80 para 90, diversifica as suas atividades: exercício de cidadania, promoção cultural e escrita literária.

Em 1989, vai fazer parte, com José António Gonçalves, José de Sainz-Trueva, Carlos Nogueira Fino e Irene Lucília, entre outros, da comissão instaladora da Associação de Escritores da Madeira. Nessa altura, Maria Aurora, Irene Lucília, José de Sainz-Trueva, Carlos Nogueira Fino, Nelson Veríssimo e Ana Margarida Falcão passam a reunir-se regularmente em jantares na casa de uns e de outros. Nestas tertúlias, comenta-se a vida cultural madeirense e discutem-se alguns projetos dos seus membros. Poemas e contos da sua lavra irão constar de várias coletâneas de literatura. Em 2001, o grupo de amigos viria a incompatibilizar-se com a direção da Associação, então presidida por José António Gonçalves, e consequentemente a afastar-se dela.

No âmbito da sua colaboração com o Departamento de Cultura da CMF, dá início, nos anos 90, à segunda série da revista Margem (1995-2011), institui o prémio literário Edmundo Bettencourt (1995-2010) e organiza várias edições do Colóquio Internacional do Funchal (1997-2006). Nesse enquadramento, coordenou ainda, entre 2001 e 2007, a coleção “Autores da Madeira”, da editora portuense Campo das Letras, entretanto extinta, totalizando catorze títulos, entre antologia, poesia, ensaio, crónica e ficção. No primeiro semestre de 2005, volta a colaborar com o DNM, publicando crónicas na coluna intitulada “Marca de água”. Nesse mesmo ano, inicia com o jovem editor Manuel Reis uma parceria que perdurará até à sua morte e um pouco mais para lá. A partir daí, toda a sua obra virá a lume com a chancela da Ausência, da 7 dias 6 noites ou da Exodus. Ainda em 2005, cria condições para lançar a associação cultural Fantocheiros da Madeira e contribui com textos teatrais da sua autoria (inéditos) para o seu repertório: Uma Aventura nas Desertas, Uma Estrelinha Dorminhoca, Pai Natal a toda a Velocidade e À Descoberta da Madeira.

No que diz respeito à sua atividade literária, estreia-se em 1982 com um livro de poesia. Mas é nas décadas de 1990 e de 2000 que a sua obra se evidenciará, com a edição de variados títulos de géneros diferentes: letras de canções dispersas em publicações, antologias de poesia, de conto, de crónica e o livro para a infância constituem veículos privilegiados da sua escrita.

Na poesia, dá a estampa Raízes do Silêncio e Ilha a Duas Vozes, em parceria com João Carlos Abreu. Em 1994, sai do prelo Cintilações, um álbum de aguarelas de João Lemos Gomes e textos poéticos de Maria Aurora, oferecendo ao leitor uma experiência sensorial proveniente da fruição simultânea da imagem e da palavra numa simbiose intencional ainda que subjetiva do olhar/sentir de cada um. Esta obra seria seguida por Uma Voz de Muda Espera: Monografia Sentimental, um vaguear saudoso pelas memórias dos lugares e das gentes de São Pedro do Sul, onde passou parte da adolescência. Em 2003, estreia-se na poesia de cariz erótico com o opúsculo 12 Textos de Desejo. Seguir-se-lhe-ão Antes que a Noite Caia, com ilustrações de Luísa Spínola, e Discurso Amoroso, com desenhos de Francisco Simões.

A sua produção contística também é muito apreciada. Publica A Santa do Calhau, Para Ouvir Albinoni, e, finalmente, Leila. Na sua veia narrativa, oscila entre a crítica de costumes e a experiência de vida, investindo no campo sensorial e no mundo dos afetos. A sua voz tem um grande poder sugestivo: cria, com poucas palavras, perfis, ambientes e situações, cenas curtas, quase cinematográficas e de desfecho irónico.

A escrita de Maria Aurora Homem surge de um intrincado entrelaçar de leitura, experiências e observações em que os lugares reais se cruzam com os da memória afetiva, resultando numa mescla de reminiscência e imaginação, cujo rasto deixa perscrutar as mentalidades do período retratado, fazendo por vezes eco da vida da autora, desde a infância até à idade adulta, num tom confessional. Em cenários que se estendem da Beira Alta até à Madeira, passando pela Holanda ou por Marrocos, e apesar das dissonâncias espácio-temporais, o leitor é confrontado com uma variação do mesmo tema: a ilustração de vidas no feminino. Maria Aurora presta testemunho da vida das mulheres e verte, com rara sensibilidade, para as suas composições o sentir-se mulher, contribuindo para a construção de uma identidade feminina centrada na autodescoberta do corpo e do desejo.

Na crónica, destaca-se Discurs(ilha)ndo, uma recolha de textos publicados no DNM, nos anos 90, que cobre uma vasta temática, desde a atualidade até às tradições locais ou mesmo sentimentos mais íntimos, pondo, com frequência, a tónica no incómodo tom interventivo/reivindicativo que a caracterizou e com o qual granjeou admiradores, mas também algumas inimizades.

No que se refere à ficção infantil – dirigida ao grupo de leitores situados, sensivelmente, entre os sete e os doze anos – lança, em 1989, Vamos Cantar Histórias, com a chancela da CMF. Nele se destaca o eixo temático do diálogo com o diferente e o marginal e a relação interartes: escrita, pautas musicais e desenho. Sai do prelo, em 1991, Juju, a Tartaruga, com ilustração de Maurício Fernandes. Dando início, em 2005, a uma parceria com o jovem editor Manuel Reis, reedita Juju, a Tartaruga e, nesse mesmo ano, publica Loma, o Lobo Marinho. Em 2007, saem do prelo Zina, a Baleia Azul e Maria e a Estrela-do-Mar. Todos versam sobre a vida selvagem marinha e a condição total da natureza. Ainda nesta linha da preservação do ambiente e da defesa da biodiversidade do arquipélago da Madeira surgem, em 2008, A Fada Ofélia e o Véu da Noiva e, em 2010, A Fada Íris e a Floresta Mágica. Tendo a história da Madeira por fundo, publica em 2008 A Cidade do Funcho, A Primeira Viagem de João Gonçalves da Câmara. As paisagens da Madeira estão em foco em Pedro Pesquito e a Câmara dos Lobos e Marta, Xispas e a Gruta Misteriosa. Numa tónica diferente, mas sem se afastar do património natural, histórico e cultural da Madeira, publica dois títulos relacionados com as tradições associadas às celebrações natalícias na ilha, Uma Escadinha para o Menino Jesus e O Anjo Tobias e a Rochinha do Natal. Finalmente, numa edição póstuma, foi dado a lume em 2011 o livro Maria e o Surf: Surfando no Jardim do Mar, com texto não inteiramente concluído, que apela, por um lado, à importância de regras de ouro para uma boa relação entre pais e filhos e, por outro, ao incentivo de hábitos de cidadania. Boa parte desta bibliografia tem como ilustrador João Nelson Pestana Henriques. Alguns desses livros serão recomendados pelo Plano Nacional de Leitura.

Para além da sua crescente popularidade junto de várias comunidades portuguesas, também as entidades oficiais, locais e nacionais, reconheceriam o diversificado trabalho de Maria Aurora Carvalho Homem. Em 1988, recebe a menção honrosa Leacock e vê-se laureada com o prémio Baltazar Dias, atribuído pelo GRM e pela CMF pelo seu programa “Letra Dura & Arte Fina”. A 8 de junho de 2007, o presidente da República confere-lhe o grau de comendador da ordem do Infante D. Henrique. A CMF atribui-lhe a medalha de mérito municipal (grau ouro), a título póstumo, em 21 de agosto de 2010. Em 2014, por iniciativa da edilidade funchalense, foi homenageada no decorrer da Feira do Livro do Funchal através da colocação de uma placa com um poema da sua autoria no jardim municipal do Funchal; foi ainda instituído o Prémio Municipal Maria Aurora – Igualdade de Género, atribuído pela primeira vez em 2015.

Obras de Maria Aurora Carvalho Homem: Raízes do Silêncio (1982); Ilha a Duas Vozes (1988); Vamos Cantar Histórias… (1989); Juju, a Tartaruga (1991); A Santa do Calhau (1992); Cintilações (1994); Para Ouvir Albinoni (1995); Uma Voz de Muda Espera: Monografia Sentimental (1995); Discurs(ilha)ndo (1999); 12 Textos de Desejo (2003); Loma, o Lobo Marinho (2005); Antes que a Noite Caia (2005); Leila (2005); Discurso Amoroso (2006); Zina, a Baleia Azul (2007); Maria e a Estrela-do-Mar (2007); A Fada Ofélia e o Véu da Noiva (2008); A Cidade do Funcho, A Primeira Viagem de João Gonçalves da Câmara (2008); Uma Escadinha para o Menino Jesus (2008); O Anjo Tobias e a Rochinha do Natal (2009); Pedro Pesquito e a Câmara dos Lobos (2009); Marta, Xispas e a Gruta Misteriosa (2010); A Fada Íris e a Floresta Mágica (2010); Maria e o Surf: Surfando no Jardim do Mar (2011); inéditos: Uma Aventura nas Desertas; Uma Estrelinha Dorminhoca; Pai Natal a toda a Velocidade; À Descoberta da Madeira;

Bibliog.: ALBUQUERQUE, Miguel, “Maria Aurora”, DN da Madeira, 12 de junho 2010, p. 27; BRANCO, Dulcina, entrevista na Revista Saber, novembro 2004, pp. 65-67; COELHO, Leonor Martins, “Maria Aurora e os Livros para a Infância”, in SANTOS, Thierry Proença dos (org.), Leituras e Afectos: Homenagem a Maria Aurora Carvalho Homem, Vila Nova de Gaia, Exodus, 2010, pp. 149-157; CORREIA, João Roberto Gonçalves, A RTP Madeira: um Marco Cultural entre 1972 e 2012, Dissertação de Mestrado em Gestão Cultural apresentada à Universidade da Madeira, Madeira, 2013; FALCÃO, Ana Margarida e PIMENTEL, Diana, “Apresentação de Leila, de Maria Aurora Carvalho Homem”, Margem 2, n.º 19, Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 2005, pp. 60-63; FOURNIER, António, “’Capri, c’est fini’: a doença como metáfora e a ilha como bálsamo em Maria Aurora Homem” in SANTOS, Thierry Proença dos (org.), Leituras e Afectos: Homenagem a Maria Aurora Carvalho Homem, Vila Nova de Gaia, Exodus, 2010, pp. 167-172; GONÇALVES, Raquel, “Camarada Maria Aurora” [entrevista], DN da Madeira/Revista, 3 a 9 de julho 2005, pp. 8-15; GOUVEIA, Odília, “Maria Aurora acarinhada na terra que a adotou”, Jornal da Madeira, 7 de novembro 2004, p. 25; LOPES, Carla Fernanda Martins Costelha, Representações do feminino na contística de Maria Aurora Carvalho Homem, Dissertação de Mestrado em Estudos Linguísticos e Culturais apresentada à Universidade da Madeira, Funchal, texto policopiado, 2015; MARINHO, Maria de Fátima, “Desencanto: A propósito de A Santa do Calhau de Maria Aurora Carvalho Homem”, Islenha, n.º 13, Funchal, DRAC, 1993, pp. 21-24; MENDONÇA, Bernardo, [entrevista], Expresso, 26 de novembro 2005, única, pp. 89-94; MENDONÇA, Duarte Miguel Barcelos, “Maria Aurora, o Rosto da Madeira no Mundo”, in SANTOS, Thierry Proença dos (org.), Leituras e Afectos: Homenagem a Maria Aurora Carvalho Homem, Vila Nova de Gaia, Exodus, 2010, pp. 83-87; MONIZ, Ana Isabel, “Escrever a Vida: Para Ouvir Albinoni de Maria Aurora Carvalho Homem”, in SANTOS, Thierry Proença dos (org.), Leituras e Afectos: Homenagem a Maria Aurora Carvalho Homem, Vila Nova de Gaia, Exodus, 2010, pp. 163-165; ROCHA, Luís, “Maria Aurora: Continuo a ser uma mulher de esquerda” [entrevista], DN da Madeira/Revista, 5 de março 2002, p. 26; ROCHA, Luís, “Madeira perde uma grande dinamizadora cultural”, DN da Madeira, 12 de junho 2010, p. 26; RODRIGUES, Ana Salgueiro, “Olhando sobre a Margem: notas de uma revista cultural (Funchal, 1981-2008)”, Margem 2, n.º 25, Funchal, Câmara Municipal do Funchal, dezembro 2008, pp. 141-161; RODRIGUES, Ernesto, “Fogo e Água”, in SANTOS, Thierry Proença dos (org.), Leituras e Afectos: Homenagem a Maria Aurora Carvalho Homem, Vila Nova de Gaia, Exodus, 2010, pp. 203-205; SANTOS, Thierry Proença dos (org.), Leituras e Afectos: Homenagem a Maria Aurora Carvalho Homem, Vila Nova de Gaia, Exodus, 2010; VERÍSSIMO, Nelson, “A Santa do Calhau”, DN, Revista, Funchal, 29 de novembro 1992; Id., “Cintilações”, DN, Revista, Funchal, 5 de fevereiro 1995.

Carla Fernanda Martins Costelha Lopes

(atualizado a 18.03.2016)

a adolescência

A adolescência é a fase da vida humana que engloba maior variedade de modificações a nível genético, emocional, intelectual e físico. Todas estas mudanças não acontecem isoladas do meio ambiente onde os adolescentes nascem, crescem e atingem a vida adulta. O desenvolvimento do ser humano não é igual para todos os jovens. Uns despertam mais cedo para o mundo que lhes aparece agora sob outra perspetiva e outros tardam a aceitar essas mudanças.

O crescimento físico e intelectual está interligado com o grau de estímulos e com o próprio código genético do jovem. É difícil definir a rapidez com que ocorrem as transformações neste período de vida. Fatores geográficos são também considerados nesta análise sobre a adolescência. Sabemos que os jovens sofrem influência do ambiente que os rodeia. Deste modo, um adolescente que nasce numa ilha e um outro que nasce numa capital desenvolvida terão diferentes perspetivas da realidade que os circunda e a forma como irão desenvolver-se revelar-se-á no jovem adulto que irá transformar-se com o tempo.

As variáveis que contribuem para um comportamento progressivo ou regressivo do jovem são imensas e estão interligadas com fatores sociológicos, educacionais, genéticos, cognitivos e emocionais. A própria personalidade vai ajudar neste processo. Jovens tímidos, introvertidos e que sentem dificuldade em integrar-se socialmente no espaço que os rodeia tendem a sofrer muito neste período de transformação. Na escola não são nem comunicativos e nem expansivos na forma de estar e de ser. Podem ser extremamente inteligentes e obterem bons resultados académicos. Contudo a personalidade vai influenciar no seu desenvolvimento e integração social. Um jovem extrovertido, com auto estima elevada integra-se com facilidade no recinto escolar. Os outros jovens sentem-se atraídos pela popularidade oferecendo-lhe mais oportunidades de experienciar novas coisas.

A década que compreende a faixa etária dos dez aos vinte anos é talvez a mais reveladora do ser humano. A fase em que o jovem deixa para trás todos os sinais próprios da infância e adquire uma consciência do ser. Essa revelação nem sempre é explícita e na maior parte das vezes é perturbadora para o jovem e para os pais. Nesta fase as descobertas, as perceções, as emoções e os amigos ocupam grande parte do espaço mental do adolescente.

No que concerne a educação na ilha há dados que indicam que na Idade Média estudavam apenas aqueles que pretendiam ter uma carreira eclesiástica. O ensino estava circunscrito ao clero tanto na ilha como no continente. A língua utilizada para ministrar os ensinamentos era o latim. No século XVI há dois nomes importantes a referir. O padre Manuel Álvares e Baltazar Dias. O primeiro é um marco de referência para o ensino pois foi o autor da gramática adotada pelas escolas jesuítas e o segundo é relevante pelos trabalhos poéticos. Ainda nesta época, os ensinamentos eram dados nas Igrejas nomeadamente na Sé Catedral do Funchal, em conventos, em escolas de paróquia e em casas de nobres e burgueses que pagavam a professores particulares para ter acesso ao conhecimento. Difundia-se o saber com base nas leituras sagradas e ensinava-se as disciplinas do trivium: Gramática, Retórica e Dialética.

No decorrer deste século, verificou-se um aumento na procura de ensinamentos devido ao progresso, ao desenvolvimento mercantil e o aumento de cargos públicos promoveu uma procura dos mestres de ler pois eram estes que detinham o conhecimento. Em 1566 surge o Seminário Diocesano e em 1570 surge o Colégio São João Evangelista. Estas duas instituições foram as primeiras a promover um ensino regular na ilha. Os alunos que frequentavam estas instituições eram jovens provenientes de famílias abastadas que podiam pagar os estudos. Havia um nítido elitismo na época que se refletia no comportamento e na educação dos adolescentes que provinham de classes sociais diferentes. Em 1750 surge o movimento iluminista que veio revolucionar o ensino. Os ensinamentos jesuítas foram banidos e nasceu um novo método de ensino. Em 1768 as práticas do ensino já continham as aulas de Geometria e de desenho.

Em 1881 Mary Jane Wilson desembarcou na Madeira. Uma inglesa que contribuiu para o combate do analfabetismo da época. “Fundou várias escolas primárias gratuitas: na Santa do Porto Moniz, no Arco de São Jorge, em Santana, no Santo da Serra e em Machico.” Esta abertura ao ensino veio permitir aos jovens de todos os estratos sociais terem acesso ao saber que até então estava restrito a um número limitado de pessoas”. Em 1910 as escolas por ela fundadas já contavam com 800 alunos. Aos 76 anos mudou-se para Câmara de Lobos e fundou uma escola primária no antigo convento de São Bernardino vindo aí a falecer a 18 de outubro de 1916. O saber propagava-se e em 1848 havia já 33 escolas na ilha da Madeira.

O ensino não era exclusivamente oficial o que permitiu a criação de uma escola Lancasteriana em 1819 por Joseph Phelps e em 1838 Robert Kalley também criou uma escola que acabou por não ter muito sucesso devido às acusações que lhe eram feitas de fazer propaganda partidária.

Na cidade do Funchal existiam algumas escolas do ensino primário inclusivamente a Escola do Vintém que tinha a particularidade de ministrar ensinamentos para os alunos pobres.

Em 1889 apareceu uma escola de desenho industrial a qual foi denominada Escola Industrial em 1897. Nesta escola formaram-se artesãos e especialistas em bordado madeira.

Em 1952 nasceu o Plano de Educação Popular e a Campanha Nacional de Educação para Adulto. A intenção primordial era reduzir o analfabetismo e aumentar a escolaridade obrigatória para quatro anos. Em 1920 “a taxa de analfabetismo era de 71% e em 1960 já tinha baixado para 33%.” Um outro aspeto importante foi o facto de se ter criado dois colégios em dois concelhos rurais: São Vicente e Machico o que permitiu aos jovens das áreas rurais terem acesso ao ensino secundário. Apesar do esforço na promoção do ensino a ilha continuava a sofrer um isolamento bastante significativo. Os habitantes da ilha e os jovens em particular viam-se privados de influências externas. A primeira transmissão televisiva ocorreu no ano de 1972 enquanto no continente já existia transmissão televisiva desde 1957. O atraso cultural dos adolescentes que habitavam na ilha em comparação com os adolescentes do continente era significativo.

Apesar de todos os esforços foi com o 25 de abril, uma revolução política, social e educacional, que o combate ao analfabetismo foi significativo. Os anos após o 25 de abril foram fundamentais na implementação de novas regras na sociedade e nas instituições responsáveis pela transmissão do saber. As escolas sofreram transformações tanto a nível curricular como na própria atitude dos professores perante a possibilidade de podem se expressar sem opressão. A eliminação da censura experienciada nos anos antes do 25 de abril permitiu a liberdade de expressão que já não existia há 40 anos em Portugal. Assim, os portugueses reganharam a possibilidade de voltar a ter pensamento crítico, de falar, de escrever e de opinar sobre todos os aspetos da vida social portuguesa. Esta liberdade refletiu-se na nova juventude democrática que teve a possibilidade de viver um período de liberdade que se refletiu nos hábitos sociais e nos temas debatidos.

Com o Novo Estado, as instituições de ensino aumentaram consideravelmente. O número de creches e de infantários aumentou significativamente havendo assim uma alteração na rotina familiar. Os avós e os pais passaram a dividir a educação da criança com os profissionais do ensino permitindo à criança um maior desenvolvimento e interação social. Esta mudança trouxe profundas alterações às gerações seguintes.

Nos anos 90, no Governo de António Guterres houve novas linhas de orientação e o ensino pré-primário ficou sob a tutela do Estado. Houve mudanças significativas nas escolas secundárias especialmente na gestão das mesmas que passaram a ser geridas por conselhos de gestão eleitos democraticamente. Agora, a educação dos adolescentes não era feita baseada na escolha única do programa e do livro pelo Ministério da Educação. A liberdade de escolha, a adaptação do ensino à nova realidade veio trazer um pensamento inovador e crítico. Assim, os adolescentes eram livres para escreverem e debaterem com os seus professores sobre todos os temas sem restrição de ideias, de pensamento e de atitudes. Uma nova juventude nascia à luz da democracia e isto foi facilmente reconhecido num espaço tão pequeno como o da Ilha. Esta liberdade, também gerou uma disparidade na aprendizagem que se prendia com os critérios de avaliação dos professores. Houve necessidade de homogeneizar os critérios de avaliação dos jovens através da realização de exames a nível nacional prevalecendo até hoje.

Com a revolução do 25 de abril também surgiram novas oportunidades para os adolescentes na Madeira que viram a possibilidade de continuarem os seus estudos. Até à referida data só havia universidades em Lisboa, no Porto e em Coimbra impossibilitando a maior parte dos jovens madeirenses de prosseguirem os seus estudos devido à limitação geográfica e também económica que representava a deslocação de um jovem madeirense para qualquer um dos destinos mencionados anteriormente. Com o 25 de abril novas universidades foram criadas e atualmente existem universidades públicas e privadas em quase todas as partes do país incluindo as ilhas.

No momento presente, os adolescentes e os jovens madeirenses têm o mesmo acesso à universidade como qualquer outro jovem no país desde que se submetam aos exames nacionais e assim garantam a sua entrada no ensino superior. A vida dos adolescentes madeirenses devido à limitação geográfica é diferente. Apesar da evolução continua a haver muitas restrições na vida do ilhéu. Há barreiras e conflitos de mentalidade que ainda precisam de ser trabalhadas no sentido de haver uma homogeneidade no desenvolvimento pessoal e interpessoal dos jovens.

O ser humano sempre sentiu necessidade de acompanhar e compreender o seu desenvolvimento. Sendo que a adolescência é um dos períodos mais fascinantes na vida do homem por todas as transformações que incorpora e que permite a transição entre a infância e a vida adulta o estudo sobre os adolescentes sempre se fez acompanhar pelas mais diversas variantes como o meio ambiente. As variações internas e externas são alvo de atenção dos sociólogos, psicólogos e humanistas que procuram explicar a realidade circundante. Hipócrates (460-377 a.C.) já mencionava a teoria da influência do meio ambiente sobre as características do ser humano. “ As doenças estavam igualmente relacionadas ao meio ambiente, ao clima, a uma determinada raça e à alimentação” Deste modo, a infância e a adolescência representam períodos na vida humana marcados por um elevado grau de excelência no estímulo e na aplicação de hábitos e de comportamento que permitam uma vida mais saudável. Aquando adquiridos nesta faixa etária tornam-se indicadores muito fortes para uma vida mais saudável na idade adulta.

A adolescência marca o início do desenvolvimento da função reprodutiva feminina e masculina e nesta fase específica os adolescentes ganham uma consciência da sua própria identidade e dos papéis sociais que irão representar na vida social. Esta fase é determinada por fatores culturais e apesar de ser um processo basicamente biológico a nível físico não podemos esquecer os fenómenos psicológicos a que estão sujeitos que estão fortemente associados ao ambiente social e cultural onde estão envolvidos.

A maturidade do adolescente começa com a maturidade fisiológica e termina com a aquisição da maturidade social, quando se assumem os direitos e deveres sexuais, económicos, legais e sociais do adulto. É um processo que envolve vários anos mas não é significativo para todos os adolescentes da mesma forma. Neste processo complexo existem outros conceitos que devem ser contemplados para um melhor entendimento da complexidade deste período de vida. Deste modo, a extroversão, processo psíquico que leva o adolescente a interessar-se pela realidade externa impulsionando-o a desenvolver relações com outras pessoas sem terem um motivo específico para o fazerem. Um outro conceito é a Crise Juvenil que recai sobre os afetos. Existe uma maior afetividade entre o adolescente e os outros e uma certa inquietude e dissociação comportamental e por fim a Identificação Sexual que obriga o adolescente a ter controlo sobre as motivações, as atitudes e condutas próprias do género. O assumir a própria sexualidade faz parte da identidade pessoal e para que este processo seja validado é importante que a identificação assumida seja confirmada pelas outras pessoas.

A adolescência revela também uma maturação em relação ao desenvolvimento cognitivo consolidando-se muitos conceitos, ideias e pensamentos que anteriormente não eram entendíveis pelos adolescentes. Igualmente, o pensamento hipotético-dedutivo também se fortalece nas decisões tomadas a nível pessoal e nas estratégias a serem utilizadas na resolução de problemas ou de desentendimentos. A maturação psíquica do adolescente vai permitir-lhe ganhar uma consciência moral, um código de valores no qual ele vai reger-se ao longo da vida. Passam a ser mais subtis e conscientes na perceção da realidade. Desenvolvem o pensamento abstrato permitindo-lhes interiorizar os valores universais. Alguns adolescentes atingem o “nível de moralidade pós-convencional de Kohlberg”. De acordo com Kohlberg o indivíduo possui princípios morais autónomos e universais que não se baseiam nas normas sociais estabelecidas, contudo são as normas morais coerentes que foram interiorizadas. Desta forma, o caráter definitivo do adolescente forma-se através do desenvolvimento da consciência, do domínio da vontade própria e dos valores e princípios interiorizados.

A adolescência não é um período exclusivamente marcado por mudanças perturbadoras, por ansiedades e por desequilíbrios emocionais. É também, um período de revelações, de descobertas e de aquisição de uma consciência mais apurada e significativa em relação a tudo o que faz parte da vida. Ao abandonar a infância, o adolescente entra num longo percurso de afirmação pessoal, de criação de identidade e de maturação psíquica e emocional. Estes processos ocorrem quando ele é capaz de elaborar pensamentos mais eficazes, quando consegue raciocinar com maior rapidez apresentado resultados mais elaborados e complexos em relação às diferentes temáticas incorridas, quando recorre a um vocabulário mais elaborado, resultado de uma maior e melhor capacidade para reter e seleccionar informação permitindo-lhe argumentar, evocar e expressar conhecimentos de forma mais complexa.

Contudo, o período da adolescência não está isento de ocorrer de forma menos linear. É por isso importante, que os adultos estejam sempre num estado de vigilância para que possam se aperceber se o adolescente está a desenvolver-se saudavelmente durante estes anos. Mudanças comportamentais, falta de comunicação entre o jovem e as pessoas com quem vive, relacionamento problemático com outros jovens da mesma faixa etária, com professores e comunidade em geral, insucesso académico, insónias, isolamento total ou parcial dos amigos e dos pais são indicadores de uma má adaptação à nova realidade.

Na ilha existe ainda algum estigma social relativamente aos problemas emocionais que surgem nesta faixa etária. Os terapeutas e os psicólogos começaram a ser aceites na última década. Até então, ir ao psicólogo era sinal de “louco” e este estigma perseguia as famílias que tendiam a ocultar o problema para não serem inseridas no perfil de família desestruturada com filhos problemáticos.

A mentalidade de um povo não muda de repente, é preciso reestruturar o pensamento, incutir novas ideias e ensinar a aceitar que as ajudas profissionais não são discriminatórias mas sim necessárias para ultrapassar traumas que, eventualmente, ocorrem na vida. Atualmente, já existem psicólogos nas escolas da ilha e são uma mais-valia na educação. Os pais estão preparados para aceitar estes profissionais e confiam os seus filhos para serem ajudados dentro do âmbito escolar.

As carências económicas nas famílias madeirenses causam problemas no crescimento e na educação dos adolescentes. Muitos jovens nas zonas rurais estão privados de uma educação porque dedicam-se ao cultivo da terra e à criação do gado. Ainda que a escolaridade seja obrigatória muitos pais são obrigados a retirar os filhos das escolas para os ajudarem nos campos de plantação e a cuidar dos animais. “A problemática das classes sociais tem estado presente, de forma muito significativa, na sociologia portuguesa, praticamente desde o início do desenvolvimento contemporâneo nos anos 60.” (António Costa & José Casanova) Desde modo, as classes sociais mais desfavorecidas devido à falta de recursos não potencializam os jovens para uma vida com maior instrução, educação e integração social.

A pobreza é um fator crítico e condicionante na vida dos adolescentes na ilha. O Governo Regional da Madeira tem combatido esta pobreza cedendo habitações às famílias carenciadas e vítimas das intempéries que assolam a ilha. Iniciativas como esta ajudam a integração dos jovens no ensino regular e permite-lhes ter uma inserção social e uma vida proativa. “A pobreza persistente afeta 15,1% da população madeirense. Mais de metade da população madeirense está vulnerável à pobreza e 15,1% vive em situação de pobreza persistente. Cerca de 136.250 madeirenses, num universo de 250 mil, passam por um ano de pobreza num período de seis anos. Uma percentagem que apenas é ultrapassada pelos Açores com 62%, e pelo Algarve, com 58,7%. Ao nível nacional 46% dos portugueses passaram pela pobreza em pelo menos um dos anos” (Rui Caetano). Ainda no âmbito das infraestruturas criadas destaca-se a Unidade Móvel de Acompanhamento Psicossocial que tem como objetivo ajudar as famílias carenciadas a nível psicológico e social. Considerando “ a situação sócio económica atual, o aumento da taxa de desemprego, o aumento da taxa de Depressão e a quantidade de pessoas que vivem isoladas na Região Autónoma da Madeira (RAM), pretendeu-se criar um projeto que desse resposta a todas estas situações e uma autonomização face aos apoios atuais (centros de saúde, hospitais, entre outros), que exigem deslocação através de meios de locomoção próprios.” (Joana Pargana & Ricardina Menezes).

Com a evolução do pensamento, com o crescimento emocional e social o adolescente ilhéu terá as mesmas oportunidades de crescer a todos os níveis como os seus homónimos nas outras partes do país. Contudo, o processo de desenvolvimento terá sempre particularidades que estão interligadas com a realidade da vida numa ilha.

Bibliog.: Adolescência. In Infopédia, Porto: Porto Editora, 2003-2014. [ 2014-07-19]. http://www.infopedia.pt/$adolescencia>. UM OLHAR SOBRE A POBREZA VULNERABILIDADE E EXCLUSÃO SOCIAL NO PORTUGAL CONTEMPORÂNEO [Alfredo Bruto da Costa (coord.), Isabel Baptista, Pedro Perista e Paula Carrilho, 2008, Lisboa, Gradiva]; BENAVENTE, Ana, A Escola na Sociedade de Classes, Biblioteca do Educador Profissional, Livros Horizonte, Lisboa, 1976; PINTO, Cabral, Escolas do Magistério Primário, Reforma e Contra-Reforma, Cadernos o Professor, nº6, 1977; (SHEPARD; TRUDEAU, 2000). Movimento & Percepção, Espírito Santo de Pinhal, SP, v.6, n.8, jan./jun. 2006 – ISSN 1679-8678; VIEIRA, Alberto (coordenação, com colaboração de Abel Soares Fernandes, Emanuel Janes e Gabriel Pita), 2003: História e autonomia da Madeira, Funchal, CEHA; digital: http://www.madeiraedu.pt/Portals/31/CEHA/bdigital/aveira/2003-av-manualhistoria.pdf, data da visita:// http://www.infoescola.com/biografias/hipocrates/ http://www.ihm.pt/pesqnoticias.asp?dn_ano=0&dn_mes=1; https://novobancocrowdfunding.ppl.pt/pt/prj/unidade-movel http://sociologiapp.iscte.pt/pdfs/21/216.pdfhttp://urbanidades-madeira.blogspot.pt/2008/06/pobreza-na-madeira.html

Magda Franco

(atualizado a 28.06.2016)

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Logótipo da Agência de Promoção da Cultura Atlântica
Logótipo da Agência de Promoção da Cultura Atlântica

A APCA – Agência de Promoção da Cultura Atlântica é uma entidade associativa sem fins lucrativos criada por escritura pública a 13 de Abril de 2005, tendo como sócios-fundadores Rafael Paulo Candelária Gomes Biscoito, Humberto Nuno de Carvalho Homem e Morna Gomes e João Maurício Tomás Gouveia Marques. O seu objeto social prevê “promover e implementar iniciativas de promoção, divulgação, desenvolvimento, inovação e cooperação intersectorial, designadamente nos domínios da investigação, difusão do conhecimento, formação e apoio à modernização dos agentes culturais atlânticos, bem como à sua internacionalização, nomeadamente através da seleção e difusão das fontes de financiamento que potenciem o desenvolvimento dos recursos culturais das regiões atlânticas, consubstanciada numa lógica de funcionamento em rede entre os principais intervenientes regionais”.

Entre 2005 e 2015, a APCA, concebeu, executou e participou como parceiro em vários projetos regionais e internacionais, de onde se podem destacar as iniciativas apoiadas pelo programa Interreg Macaronésia, Chronos – Plataforma de eLearning da História, Geografia e Cultura Macaronésica e o PATRISIG, projeto que tinha como principal objetivo “criar um sistema de gestão e conhecimento das rotas temáticas do património imaterial rural através de uma plataforma de Sistema de Informação Geográfica, SIG, para as áreas de intervenção PRODERAM de Câmara de Lobos, Santa Cruz, Machico e Porto Santo, promovendo a visitação turística, estudantil e geral aos concelhos rurais da Madeira”.

A atividade da APCA tem-se pautado por um equílibrio entre projetos próprios e na participação em redes de parcerias internacionais, com destaque para as ilhas atlânticas, atuando igualmente como entidade consultora de outras associações culturais na gestão de projetos e iniciativas apoiadas por sistemas de incentivos comunitários.

Entre 2012 e 2015, a APCA executou o projeto Aprender a Madeira – Novo Dicionário Enciclopédico da História da Madeira, que originou o portal aprenderamadeira.net e que consubstancia uma abordagem científica contemporânea à História e Cultura da Madeira, sendo o herdeiro legítimo do Elucidário Madeirense, coordenado pelo Pe. Fernando Augusto da Silva em 1921.

A APCA tem atualmente como membros dos seus órgãos institucionais as seguintes personalidades:

Assembleia Geral:

Presidente: Rafael Duarte Pestana Figueira Santos
Vice-presidente: Humberto Nuno Carvalho Homem e Morna Gomes
Secretário: Leonel Calisto Correia da Silva

Conselho de Administração:

Presidente: João Maurício Tomás Gouveia Marques
Vice-presidente: Rafael Paulo Candelária Gomes Biscoito

Conselho Fiscal:

Marco António de Freitas Ferreira
José Freddy Ferreira César
Miguel Ângelo Nunes Apolinário

Maurício Marques

(atualizado a 21.09.2016)

efan – estudos nobricenses – associação

A 30 de novembro de 2005 nasceu a EFAN-ESTUDOS NOBRICENSES-ASSOCIAÇÃO no Salão-Biblioteca da Ribeira Seca, freguesia e concelho de Machico, na ilha da Madeira, com o objetivo de investigar e divulgar a obra do conterrâneo Francisco Álvares de Nóbrega, mais conhecido por “Camões Pequeno”, bem como a história e a literatura de Machico.

Palavras-chave: Estudos nobricenses; Associação; Camões Pequeno; Machico; Poeta; Literatura.

Fig. 1 – Estátua de Francisco Álvares de Nóbrega (jardim da casa do escultor José Luís Alves Paixão)
Fig. 1 – Estátua de Francisco Álvares de Nóbrega
(jardim da casa do escultor José Luís Alves Paixão)

A 30 de novembro de 2005, um conjunto de cidadãos encabeçado por José Martins Júnior constituiu a EFAN-Estudos Nobricenses – Associação por tempo indeterminado, sem fins lucrativos, de âmbito nacional, e com sede no Salão-Biblioteca da Ribeira Seca, freguesia e concelho de Machico, e com os seguintes objetivos: “a investigação e divulgação da obra de Francisco Álvares de Nóbrega bem como da história e literatura do concelho de Machico” (2.º Cartório do Funchal…, Estatutos, n.º 21, liv. 1517, fl. 20).

Com a constituição desta Associação, a data do aniversário natalício do contemporâneo de Manuel Maria Barbosa du Bocage, 30 de novembro de 1773, começou a ser assinalada de uma forma sistemática em variadíssimos locais e de distintas formas: com declamações de poemas, dando a conhecer novas investigações, oferecendo à estampa várias publicações, e com representações e musicalizações de textos; exemplo disto foi a musicalização e interpretação do soneto “À Pátria do Autor” pelo grupo coral da Associação Grupo Coral de Machico.

Dos primeiros anos de vida da EFAN, destacam-se três publicações: as Actas do Bicentenário de Francisco Álvares de Nóbrega (1773-1806), de 30 de novembro de 2006; uma antologia de importantes textos dos investigadores Ivone Alves, Rui Nepomuceno e Daniel Pires; o Processo da Inquisição n.º 15.764, um trabalho de 2007 da investigadora Ivone Alves, no qual é analisado o volume incompleto e restaurado do processo inquisitorial de Francisco Álvares da Nóbrega, com 28 fólios e data de abertura a 22 de junho e de encerramento a 13 de agosto de 1803; e o drama em um ato e quatro quadros denominado Camões Pequeno, de João França, editado em 2014, o qual “reproduz o ambiente sociopolítico vigente em Portugal na transição dos sécs. XVIII – XIX – ainda sob o regime da Inquisição – e pretende esclarecer “ao vivo” o drama e a obra de Francisco Álvares de Nóbrega» (FRANÇA, 2014, 77).

Fig 2 - Assinatura de Francisco Álvares de Nóbrega

Bibliog.: datilografada: 2.º Cartório do Funchal de Manuel Figueira de Andrade, Estatutos EFAN-Estudos Nobricenses-Associação,, n.º 21, liv. 1517, fl. 20, 30 nov. 2005; impressa: ALVES, Ivone Correia, “Para uma Biografia de Francisco André Álvares de Nóbrega”, in Francisco Álvares de Nóbrega 1773-1806. Bicentenário 2006-2007. Actas das Comemorações, Machico, EFAN-Estudos Nobricenses, 2007, pp. 11-26; FRANÇA, João, Camões Pequeno, Drama em Um Acto e Quatro Quadros, Machico, EFAN-Estudos Nobricenses, 2014; INQUISIÇÃO DE LISBOA, Processo n.º 15.764, Introdução e notas de Ivone Correia Alves, Machico, EFAN-Estudos Nobricenses, 2007.

Emanuel Ricardo Franco Sousa

(atualizado a 20.05.2016)