celebrações

O calendário das celebrações da Madeira é denso, em qualquer lugar e em qualquer época do ano pode assistir-se à celebração de uma festa, embora se registe maior incidência de eventos no período que vai do verão até ao Natal. A abordagem da atividade festiva não pode ser confinada a dicotomias como festa e quotidiano, sagrado e profano, religioso e civil, pois as festas estão integradas no dia-a-dia.

A festa do Espírito Santo

A festa do Divino Espírito Santo realiza-se no domingo de Pentecostes e encerra o ciclo pascal católico. Caracteriza-se pela sua difusão, pela escala de mobilização popular que atinge no Atlântico lusófono, destacando-se as regiões insulares dos Açores e da Madeira, pela acumulação de alimentos (charolas) e a sua posterior distribuição, consumada no bodo ou copa aos pobres, e pela inversão da hierarquia social, patente na figura do “imperador”. À escala do arquipélago, estes aspetos podem considerar-se uniformes, embora pesem algumas diferenças ou ajustes de menor importância.

A paróquia constitui a base territorial da festividade. Em regra, já no ano anterior é proposta ao padre a pessoa (ou pessoas) que figurará como festeiro (antes designado “imperador”), que fica com a responsabilidade de assegurar a coordenação e o financiamento da festa. Há pelo menos duas razões que levam alguém a voluntariar-se: o pagamento de promessas e a demonstração de que houve mobilidade social ascendente. O festeiro realiza os seus objetivos com o apoio e a assistência da Irmandade do Espírito Santo, constituída pelos mordomos e pelo próprio pároco, o que manifesta a coesão dos paroquianos.

A festa é composta por duas partes: a visita e a cerimónia litúrgica com o arraial. A visita do Espírito Santo aos domicílios constitui a fase preparatória da festa, consoante o tamanho da paróquia, essas visitas podem ocorrer em vários domingos sucessivos entre a Páscoa e o Pentecostes. O grupo itinerante é formado por muitos elementos. O mordomo e os seus encarregados vestem fato escuro, gravata e opa vermelha e levam pendões vermelhos com as insígnias no centro (uma pomba branca). As saloias são cantadeiras na fase da puberdade e seguem em traje solene, que varia consoante a paróquia, embora tenha sempre inspiração ou mesmo invocação do fardamento usado pelo agrupamento folclórico a que pertencem. Seguem-se os músicos que tocam instrumentos, como a machete, a viola de arame, o acordeão, a flauta, o rajão, a braguinha, ou os ferrinhos. A banda filarmónica, que substitui os músicos nalguns locais, anima o cortejo com instrumentos de sopro. Com o adiantamento do itinerário previsto e a duração da jornada, aumenta o número de acompanhantes que se incorporam no desfile: são vizinhos próximos ou mais afastados, muitas crianças e jovens de casas já visitadas, ou das que se seguem na receção ao Espírito Santo. O pároco nem sempre integra o cortejo. A sua ausência justifica-se pelo esforço físico que a caminhada por estradas, ruas, veredas e caminhos de pé posto, por regra em declive acentuado, exige, pelo número das visitas a cumprir, e pelas rodadas de vinho, de licores e de doçaria servidos em cada domicílio, e que a força dos preceitos de hospitalidade obriga a aceitar e a consumir.

A visita segue um itinerário que leva a todos a bênção anual dos lares e dos campos cultivados. Junto a cada entrada, o proprietário da casa aguarda de portas franqueadas. O cortejo entra e a maioria dos curiosos fica no exterior, espreitando e ouvindo, porque não cabem todos dentro da casa; o acontecimento é pretexto para uma reunião familiar alargada. Fazem-se as saudações e o dono da casa, os membros da família e os convidados beijam o pendão. Segue-se a bênção daquele lar, as saloias entoam um cântico anunciando a ressurreição de Cristo, e conclui-se com a entrega da esmola. Quando esta é feita em dinheiro o mordomo recebe-o numa coroa que traz consigo. Mas se tal ocorre em géneros, os encarregados arrecadam-nos numa armação redonda, para mais tarde fazerem as charolas, que são posteriormente submetidas a um escrutínio público, momento em que as pessoas discorrem sobre esta circunstância, e que é prelúdio dum ritual que conduz da acumulação competitiva de alimentos à respetiva partilha numa refeição coletiva. Servem-se por esta altura rodadas de bebidas; as mulheres preferem licor, para as crianças sobra a laranjada, já o vinho americano ou jaqué representa as preferências da esfera masculina. Os músicos ganham balanço, surgem candidatos para um despique, enquanto uma assistência atenta incentiva os contraentes. O estímulo pode ter vindo de um dos encarregados e logo alguém, homem ou mulher, se destaca para aceitar o repto. Declamam-se louvores ao dono da casa. As saloias exibem-se de novo, entoando trechos do reportório folclórico regional. Seguem-se as despedidas. A duração da visita dependeu da esmola dada, por conseguinte do estatuto do dono da casa. O cortejo prossegue caminho.

As armações onde os alimentos são recolhidos eram feitas em fibra vegetal (de vime e de bananeira) trançada; depois, com o aumento das esmolas em géneros, aumentando o seu respetivo peso para várias dezenas de quilos, as armações passaram a ser feitas em arame. Os produtos são ali acomodados formando uma bola colorida (devido à diversidade de legumes, frutas e restantes produtos alimentares, que inicialmente provinham das terras de cada um) cujo diâmetro atinge quase a altura de uma pessoa, o que obriga a que estas bolas sigam penduradas numa vara, levada aos ombros por dois homens.

Os preparativos para o arraial, que constitui a segunda parte da festa do Divino Espírito Santo, iniciam-se logo que os alimentos e o dinheiro estão angariados. Seguindo o exemplo duma paróquia na costa de Baixo, na quinta-feira anterior ao Pentecostes, um grupo de homens sobe à serra, desbasta a mata e corta os troncos longos e delgados que constituirão os mastros com que se monta o arraial. No dia seguinte, cerca de uma dezena de homens entrega-se à colocação dos mastros e à decoração com o endémico alegra campo (Semele androgyna L. Kunth) e outra vegetação. Uma salva, lançada de uma bateria de foguetes de estalo improvisada num ponto alto, assinala o início do arraial, com o chamado sábado das charolas; em tempos idos, havia zonas onde se tocava um búzio para chamar o povo.

No interior da igreja, junto ao altar, forma-se de novo um cortejo nos moldes já descritos. As saloias interpretam cânticos religiosos e os músicos acompanham-nas ao acordeão e com instrumentos de cordas; desfilam depois para o exterior, com o festeiro, o mordomo e os encarregados transportando o pendão. É dada a bênção ao local. À noite, decorre o arraial; Há comes e bebes, ouve-se música gravada, formam-se tocatas e observam-se os charambitas. Consome-se espetada de carne de bovino (embora mais tarde também se tenha verificado a entrada de carne de frango), vinho, cerveja e refrigerantes.

O domingo começa, de igual modo, com uma salva de foguetes. Após a missa, realiza-se uma refeição coletiva que evoca o bodo aos pobres com bênção do pão, que se guarda, dado se lhe reconhecerem propriedades curativas. A existência dum imperador a prazo e a realização do bodo são os parâmetros duma inversão temporária das relações de força que existem na sociedade.

Com o passar dos anos, o bodo deixou de se realizar na forma anteriormente descrita; os produtos alimentares passaram a ser distribuídos com algum recato, uma vez que se percebeu que as pessoas necessitadas não desejavam ver exposta a sua situação de carência Mas continua a cumprir-se a devoção, a invocar-se a tradição, a aferir as posições relativas de indivíduos naquela comunidade paroquiana e a conjeturar-se sobre quem será o próximo festeiro.

O ciclo natalício

O ciclo natalício é o quadro festivo ao qual se dá maior importância. De tal forma que o romancista Horácio Bento de Gouveia (1901-1983) lhe dedicou páginas duma prosa revivalista, constatando que “o Natal [era] na cidade, a Festa no campo” (GOUVEIA, 2001, 45). O ritual do Natal inicia-se com as missas do parto, designação insular para as novenas que preenchem o Advento, que começam em meados do mês de dezembro e terminam a 23. Estes ofícios divinos celebram-se de madrugada, hábito que vem do passado, de forma a não afetar a faina agrícola, ainda que neste período as tarefas fossem menos absorventes e prementes. Esta sequência de missas mobiliza adultos e crianças. Há que aprender e ensaiar cânticos, que são um catecismo passado de prosa a verso. A participação dos devotos nos atos litúrgicos consta de canto e de execução instrumental. As peças interpretadas copiam, relativamente aos aspetos performativos que revestem, o repositório dos agrupamentos folclóricos, embora lhes retirem a dança. Quando a missa acaba, já desponta a alvorada, as igrejas estão em ambiente festivo, pouco cerimonioso, o que contamina as respetivas paróquias. No adro e suas imediações, montam-se barracas de comes e bebes, organizam-se sorteios, vendem-se rifas, arrecadam-se fundos e distribuem-se bugigangas a título de prémios.

A matança do porco, que no começo do séc. XXI é uma prática sacrificial em regressão, enquadra-se neste complexo festivo. Acontece, em regra, após a primeira missa do parto. O animal, em regime de engorda forçada nos últimos meses, é morto a sangue frio. O processo exige a participação de muita gente; os homens têm intervenção direta, as mulheres e as crianças desempenham funções auxiliares. Depois de se chamuscar o porco, faz-se o desmanche do cadáver. Em tempos idos, procedia-se à salga, depois a indústria implementou a desidratação como técnica de conservação a longo prazo.

A matança é a ocasião em que se concretiza uma ação cooperativa baseada na retribuição do auxílio prestado por parentes, vizinhos, amigos, conhecidos ou mesmo alguns curiosos e convidados; revela a rede de relações sociais mantidas pela casa onde se mata o porco. Entre os ausentes distinguem-se os que estão fora, por razões circunstanciais, como a emigração ou o trabalho, daqueles com quem não se mantêm relações por desavenças antigas ou recentes. Esta leitura não se aplica aos fiéis que assistem à missa. O templo pretende ser a grande casa, onde todos são acolhidos. Aqui o estatuto e a condição do indivíduo esbatem temporariamente a dinâmica gerada pelos sentimentos de amizade e discórdia.

Terminadas as novenas, segue-se a Missa do Galo, que se realiza às 24.00 h do dia 24 de dezembro. Em muitas igrejas representa-se um Auto dos Pastores, o que implica que atores e figurantes se tenham mobilizado antecipadamente para realizar ensaios. Terminada a missa, as pessoas regressam a casa e reúnem-se numa refeição, após a qual se trocam presentes.

A véspera de Natal é dia de atividade intensa nas casas, faz-se a lapinha (presépio), que é encarada como uma manifestação natalícia nativa, ao contrário da árvore, que está associada a um quadro de representações importado, e preparam-se os momentos altos de comensalidade: a véspera, o dia de Natal e as oitavas (prolongamento da celebração da festa durante oito dias). A família mais restrita é congregada nas refeições da noite de dia 24 e do dia 25. Nos dias seguintes, nas oitavas, chegavam a fazer-se três refeições que abrangiam uma parentela mais alargada; mais tarde, fixou-se apenas uma. A carne de porco, temperada com vinho e alhos, é o manjar natalício de regra, sendo o primeiro consumo cerimonial do animal sacrificado.

A festa de São Pedro e a dança das espadas

A festa de S. Pedro festeja-se no verão. Existem várias paróquias e capelas dedicadas a este apóstolo, tanto na Madeira como no Porto Santo. No entanto, foi na Ribeira Brava que se consolidou esta celebração, que atrai à cidade muitas pessoas, uma vez que se trata de uma festividade com ressonância à escala regional. Na véspera do dia do santo (29 de junho), à noite, faz-se um desfile de marchas populares. As marchas obedecem a um modelo performativo fora do contexto religioso e centrado na competição entre freguesias e/ou associações recreativas. Reconhece-se aqui um decalque do modelo lisboeta, praticado desde os anos 30 do séc. XX por promotores privados e posteriormente assumido pelas instâncias municipais de muitos locais do país. As marchas desfilam pelas ruas da localidade, animadas com barracas de comes e bebes. À medida que a noite avança, juntam-se pequenos grupos de apreciadores e de curiosos à volta de repentistas acompanhados de tocadores de instrumentos de cordas; enquanto houver vinho, não abrandam os despiques.

Na baía, realiza-se uma procissão com canoas iluminadas que invoca o tempo em que a Ribeira Brava era uma vila piscatória. À meia-noite há fogo de artifício. O arraial atrai nativos e forasteiros desde a antevéspera, que veem a sua chegada facilitada pelo facto de o local beneficiar de uma encruzilhada viária, que o liga à costa de Baixo e ao lado Norte. No dia do santo, realiza-se uma procissão em que se respeita uma ordem específica. À frente da procissão desliza pelas ruas uma canoa de pesca com um mordomo. Segue-se-lhe a confraria de S. Bento, o patrono da vila, com o respetivo pendão e os confrades, e, de igual forma, a confraria do Espírito Santo, com as saloias atirando flores à assistência encostada às paredes das ruas estreitas e a outros curiosos, mais afortunados, porque assistem à procissão das varandas dos prédios. Atrás, vem o andor, com S. Pedro sentado no trono, levado aos ombros de bombeiros. Segue-se a autoridade civil, representada pelo Presidente da Câmara. A banda filarmónica fecha este cortejo religioso. Celebra-se então uma missa em honra de S. Pedro na igreja paroquial. Cumprido o serviço divino, dá-se início a um programa que inclui a dança das espadas e outros números artísticos.

A dança das espadas é interpretada por sete bailadores, seis munidos de espada e um mestre que faz as marcações. Todos vestem um fardamento composto por calças brancas e uma camisa vermelha ajustada na cintura, calçam sapatos pretos e usam na cabeça uma mitra de onde pendem fitas largas que lhes caem pelas costas. São acompanhados por quatro tocadores, um de pandeiro, um de rajão, um de braguinha e outro de bombo, que usam o mesmo fardamento; não terá sido sempre assim, porque anteriormente os músicos eram estranhos contratados para tocar ocasionalmente.

Conhecem-se dados históricos sobre esta dança. Está desde o período medieval associada à procissão do Corpus Christi e a outras manifestações do espaço ibérico. Existem referências documentais que a atestam também na Madeira. Na imprensa insular, surge informação mais pormenorizada a partir do séc. XIX. Algumas fontes documentais referem ter sido executada em várias vilas em períodos recuados. A partir de finais de oitocentos, aparecem notícias sobre exibições integradas na procissão da barquinha na festa de S. Pedro, na Ribeira Brava; as referências sugerem a preocupação em atrair forasteiros, os designados “romeiros”, vindos do Funchal em excursões organizadas em lanchas. Estas exibições ganharam fama e passaram a constituir cartaz, mas referem-se anos de interrupção, e, em 1934, aconteceram pela última vez. A emigração justificará a irregularidade. Em 1946, após o fim da Segunda Guerra Mundial, as festas de S. Pedro ter-se-ão realizado com grande fulgor, com a exibição da dança, sendo novamente interrompidas a seguir. Em 1976, dá-se uma experiência de revivificação, de que se conhecem pormenores: um estudante do serviço cívico (período de um ano de serviço comunitário, entre a conclusão do ensino secundário e a entrada no ensino superior, que vigorou em Portugal entre 1975 e 1978), António Rodrigues, que depois se tornou um conhecido escultor, confrontou-se com fotografias da dança executada 30 anos antes e ficou curioso e sensibilizado pelas atividades extraescolares dedicadas ao folclore, pelo que, resolveu recuperar a performance de 1946. Serviu-lhe de informante um dos dançadores de então. Mas também desta vez a iniciativa acabou por não vingar definitivamente; em 2000, a tradição foi renovada com o grupo folclórico da Boa Nova. Como nota explicativa destas interrupções, refira-se o custo elevado do sustento de um grupo de tocadores e de dançadores dedicado à dança das espadas.

A Feira do Gado

A Feira do Gado é um evento que se realiza anualmente durante três dias, que devem abarcar um fim de semana do princípio de julho, na freguesia da Santa, do concelho de Porto Moniz. Dentro dos eventos não religiosos, e a seguir às festas do fim do ano (ou noite de S. Silvestre), é o que perdura há mais tempo, com 52 edições até 2015. É uma iniciativa levada a cabo pela autoridade governamental que tutela a agricultura e a pecuária. Realiza-se num recinto preparado para acolher não só visitantes, stands, barracas de comes e bebes, diversões, mas também o gado bovino, ovino, caprino e as aves. O leilão de gado, realizado no segundo dia, constitui o ponto alto do programa. A missa campal na manhã de domingo encerra o certame.

A feira espelha o aumento do consumo alimentar baseado em produtos vindos do exterior, a que se contrapõe uma produção insular confinada a nichos como os vinhos generosos e a fruta tropical). As pessoas admiram e avaliam os animais e as produções expostas e ficam a conhecer a maquinaria agrícola. O elemento galvanizador dos ânimos, e que imprime ímpeto identitário camponês, são os cantos ao despique, sempre presentes nesta festa. Para além deles, há os elementos de qualquer arraial: comes e bebes, e venda ambulante de vestuário e artesanato.

A Festa da Autonomia 

A Festa da Autonomia acontece anualmente, no último dia de julho. É promovida pelo Partido Social Democrata da Madeira (PSD Madeira), desde 2010 em recinto adquirido para o efeito, a herdade do Chão da Lagoa, na zona alta do concelho do Funchal. refletindo a implantação popular do partido que a organiza, e atrai inclusivamente porto-santenses, trazidos em viagem especial no ferry interinsular. Ali se encontram stands, que representam a militância de bases, e barracas de comes e bebes em número adequado ao abastecimento da multidão presente. A festa da Autonomia tem tido a função de dramatizar o sentimento regionalista associando a oposição ao poder central, instalado em Lisboa.

O dia começa com a peregrinação dos dirigentes pelas representações das estruturas partidárias, a fim de estreitar a relação entre a direção e as bases. Seguem-se intervenções políticas, atuações de artistas de impacto nacional, exibições folclóricas e o discurso de encerramento, onde se destaca o balanço do ano anterior e se determina a rentrée política.

A Festa da Liberdade

A Festa da Liberdade realiza-se todos os anos, num dia de agosto, no sítio da Fonte do Bispo, na freguesia da Fajã da Ovelha. Trata-se de uma confraternização política promovida pela comissão regional do Partido Socialista (PS Madeira), que reproduz o modelo típico deste tipo de eventos: agitação política, programa cultural e convívio entre pessoas com os mesmos princípios políticos. No espaço preparado, sucedem-se os comes e bebes, e os stands que representam as estruturas partidárias de base concelhia, o que indicia o grau de penetração do partido na sociedade. Num espaço central é armado um palco, onde se realizam os comícios e os espetáculos.

A festa de partido divulga as linhas de ação que devem ser tomadas durante o período que decorre até à edição seguinte, ao mesmo tempo que cria na assistência o sentimento da política como um processo assente nesse retorno aguardado. A palavra escutada dramatiza, agita e mobiliza, gera sentimentos de pertença, certeza e confiança.

O Governo regional empreende ainda, no começo do séc. XXI, um conjunto de eventos que se estende ao longo do ano e que pode ser designado por ciclo de animação turística. O primeiro destes eventos é o Carnaval, que tem uma programação assente em dois cortejos, que acontecem na baixa funchalense. Na noite de sábado, realiza-se o cortejo de carros alegóricos, que mobiliza centenas de figurantes organizados em troupes que estão em competição e que fazem investimentos avultados na indumentária e na cenografia, sendo assumida a inspiração em carnavais brasileiros. Ao longo do percurso, instalam-se bancadas para acomodar os espetadores que assistem ao desfile. Na terça-feira de entrudo, à tarde, realiza-se o cortejo do Trapalhão, uma mascarada de participação livre, individual ou em troupes. Ao contrário da seriedade e do rigor performativo que caraterizam o primeiro cortejo, deste espera-se uma desordem acompanhada de um humor caracterizado pela crítica social.

A Festa da Flor realiza-se em abril e celebra a primavera através de dois desfiles, um desfile infantil, realizado num sábado, que ruma em direção a um “muro da esperança”, feito de flores; e um desfile alegórico, realizado no domingo, dedicado à flor. Num largo da baixa da cidade, está patente ao público uma exposição de flores, que retoma uma iniciativa que em décadas anteriores se realizava no Ateneu Comercial.

Em junho, acontece o Festival do Atlântico, uma iniciativa composta por vários eventos pirotécnicos, que se sucedem nos sábados desse mês com a finalidade de se escolher, através da votação do público, a empresa que irá ficar responsável pelo fogo de artifício da noite de S. Silvestre.

Em julho, realizam-se dois festivais musicais, um de música clássica e outro, chamado Raízes do Atlântico, dedicado à música tradicional e folclórica revivificada.

Logo no princípio do mês de setembro, realiza-se a Festa do Vinho, que dura uma semana e acompanha as vindimas. Monta-se uma cenografia alusiva na baixa do Funchal e no Estreito de Câmara de Lobos, onde se proporciona aos turistas assistir à apanha da uva, enquanto se apresentam vinhos e se realizam espetáculos de variedades, com uma participação intensa de vários agrupamentos folclóricos.

Em meados do mês de setembro, durante um fim de semana, invoca-se no Porto Santo a ligação próxima que o negociante e navegador Cristóvão Colombo (1451-1506) tinha com a Ilha.

Em outubro, organiza-se, desde 2011, o Festival da Natureza, que e visa converter os recursos ambientais num fator turístico. A iniciativa promove os passeios a pé, as caminhadas (o trekking), a evasão, a fruição da montanha, etc. Os turistas adotam uma indumentária destinada a dialogar com as forças da natureza.

No mês de dezembro, tudo converge para a passagem do ano, a noite de S. Silvestre e o fogo de artifício, festividades que começam com a iluminação decorativa das ruas centrais do Funchal. O ponto alto acontece às 24.00 h entre o último e o primeiro dia do ano, quando o fogo de vista arranca. No porto, os navios de cruzeiro afastam-se do molhe e procuram uma melhor posição na baía. Quando a exibição pirotécnica termina, calam-se as sirenes e zarpam. Esta festa de fim do ano é organizada desde 1930.

Estas iniciativas articulam-se com outras, alusivas à quadra natalícia já abordada, como a véspera de Natal no mercado do Funchal, onde se bebe cacau e se comem tangerinas sem haver preocupação com a hora de fecho, e a organização de presépios, alguns deles feitos à escala humana. Ainda no âmbito da passagem de ano, durante um espetáculo no jardim municipal, realiza-se o cantar dos Reis, que marca um ponto alto da Epifania (comemoração da adoração dos Reis Magos a Jesus).

No plano histórico, as romarias madeirenses devem ser vistas como instâncias geradoras de identidade regional ao nível das classes subalternas. Os lugares onde se realizam definem um mapa que grosso modo cobre o espaço insular. As romarias mais concorridas são a do Monte, de Ponta Delgada, do Loreto, de Machico e, no Porto Santo, a da Senhora da Graça, mas em todas converge a celebração litúrgica e a festa popular, o cumprimento de promessas e a vivência do arraial.

A 15 de agosto, realiza-se a festa de Nossa Senhora do Monte. A proximidade a que está do Funchal, a sua tradição criada no seguimento do relato duma aparição acontecida no séc. XVI e o facto de Nossa Senhora do Monte ser a padroeira da Ilha, imprime a esta festa uma primazia à escala do arquipélago, sendo a mais conhecida e a que mobiliza mais pessoas, inclusivamente turistas, uma vez que o local da festa é um destino procurado no âmbito do turismo religioso. Como nos outros arraiais, repete-se uma cultura alimentar construída à volta da carne, com preferência pelo bovino, do vinho, da aguardente temperada em poncha, do bolo do caco, das rosquilhas, das bonecas de massa e dos colares de rebuçados pendurados ao pescoço, ou usados a tiracolo. Noutros tempos, as pessoas deslocavam-se até ao monte a pé para cumprir promessas; com o advento do transporte público, que assegura dia e noite a circulação das pessoas, as casas de romeiros espalhadas pela Ilha deixaram de ter a função de acolher os peregrinos. Na mesma data, festeja-se no Porto Santo a maior festa religiosa, com o respetivo arraial, daquela ilha, a festa de Nossa Senhora da Graça. A capela dedicada a Nossa Senhora da Graça situa-se a meia encosta, na estrada que vai da vila em direção à Serra de Fora, ainda na vertente voltada a sul. Esta festa congrega os porto-santenses, e os milhares de turistas madeirenses que naquele período ali permanecem. A coincidência de datas revela que as romarias não são integradores interinsulares.

No domingo do primeiro fim de semana de setembro é a vez de, em Ponta Delgada, se evocar o Senhor Bom Jesus. Os preparativos decorrem nos dias anteriores, como acontece para todos os arraiais, colocam-se os mastros e faz-se a decoração das ruas com flores e vegetação de modo a fazer um caminho atapetado para procissão passar. A missa realiza-se na manhã de domingo uma tradição instituída no tempo em que os romeiros e demais visitantes tinham de ter tempo para empreender as longas caminhadas de regresso às suas localidades.

A 8 de setembro, na costa de Baixo, no Arco da Calheta, celebra-se a festa da Senhora do Loreto.

Esta sequência de festas litúrgicas e respetivos arraiais termina em Machico, com a festa do Senhor dos Milagres, celebrada a 8 e 9 de outubro. No primeiro dia de celebração, organiza-se uma procissão iluminada com tochas que traz a imagem do Senhor dos Milagres da sua capela para a igreja matriz. No domingo realiza-se a missa e uma nova procissão, que conduz a imagem pela cidade até à beira-mar e a faz regressar à capela de origem, depois de passar novamente pela matriz. O andor em que a imagem é levada é uma embarcação, invocando a razão desta celebração, a inesperada recuperação da imagem, depois de ter sido levada para o mar durante o aluvião que ocorreu em 1803.

As festas que originavam romarias não se diferenciavam pela forma como decorriam, mas incentivavam a circulação das pessoas pela Ilha, já a escolha do destino de romagem seguia devoções e compromissos pessoais assumidos em promessas.

As celebrações ou festividades de incidência coletiva podem ser agrupadas em religiosas (rito católico) e civis (feriados nacionais). No preenchimento do calendário anual, predominavam as primeiras, embora com a entrada em vigor do Estatuto da Autonomia (em 1976) se verificasse uma alteração desta relação de forças entre o religioso e o secular: a Igreja perdeu o controlo exclusivo sobre as festividades, que já não servem apenas para difundir a sua doutrina, mas podem dedicar-se a outros assuntos, como a política ou o turismo. A partir da déc. de 1980, surgiu um leque amplo de motivações e pretextos para celebrar: o regionalismo (feriado da Região, festas partidárias); a festivalização temática como fomento da economia insular (flor, vindimas, natureza, pirotecnia, carnaval, música clássica e tradicional); o incremento do desenvolvimento local (jornadas festivas dedicadas à pecuária, ao peixe espada preto, à sidra e à colheita de frutos, tais como a anona, a ginja, a cereja, a castanha, o pero); e as inexoráveis penetrações vindas de fora, como o dia dos namorados, o dia da mulher, o dia da Criança e outros. Foram anunciadas ainda outras festas, para celebrar as novas cidadanias, como a diáspora, a ecologia, a mobilidade e o património cultural.

Na sociedade madeirense, a atividade festiva não é específica da insularidade ou do seu regionalismo, mas distingue-se pelo relacionamento que estabelece com as componentes externas: a diáspora, os movimentos migratórios, os fluxos turísticos e a globalização.

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Jorge Freitas Branco

(atualizado a 29.12.2016)