cemitério das angústias

Os enterramentos nas igrejas e capelas da Madeira começaram a ser questionados nos meados do séc. XVIII, quando, após uma série de epidemias, se apurou que as mesmas teriam origem provável nos enterramentos mais recentes dentro das igrejas (Cemitérios). Assim, a partir dos anos de 1770, os enterramentos passaram a ser efetuados progressivamente nos adros e nos terrenos anexos aos templos, ocorrendo só pontualmente no interior dos mesmos. O exemplo inglês, cuja comunidade possuía cemitério próprio desde 1768 (Cemitério britânico), também deve ter ajudado à compreensão da situação e o problema da SCM do Funchal (Misericórdias), em cujo hospital ocorria uma grande parte dos óbitos da cidade, não tendo depois a capela de S.ta Isabel possibilidade de os acolher, acelerou certamente o processo.

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A. G. da Costa, Alferes da 2ª secção do Ext., no ano de 1840: cota 1302-2-22A-109.
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A. G. da Costa, Alferes da 2ª secção do Ext., no ano de 1840: cota 1302-2-22A-109.

Nos inícios do séc. XIX, assumiu a presidência da mesa da SCM do Funchal o bispo de Meliapor, D. Fr. Joaquim de Meneses e Ataíde (1765-1828), então administrador apostólico da diocese. Data desses anos a reforma geral da misericórdia, com a regulamentação do hospital do Funchal, para o qual foi efetuada uma nova captação de águas a partir da Fundoa. Em setembro de 1813, tinham-se iniciado os trabalhos para a construção de uma fonte pública, por subscrição também pública, na área das Angústias e Ilhéus e que viria a ter o nome de “Fonte Nova do Príncipe D. João”, chegando as manilhas nos inícios de 1815 (AHM, Processos…., processo 659, fl. 14). A ideia era dotar a “nova cidade” das Angústias de uma fonte pública, conforme plano aprovado pelo príncipe e, ao mesmo tempo, facilitar a “condução para a aguada das embarcações” (ibid., fl. 15).

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Portal do Cemitério das Angústias.

Os trabalhos foram executados pelo major Paulo Dias de Almeida (c. 1778-1832), encarregado de levantar a planta geral da Madeira, que “no tempo do inverno não podia continuar a sua comissão nas serras desta ilha”, como se escreveu, ficando incumbido desse assunto (ibid.). Com a construção da fonte, hoje na R. Princesa Maria Amélia e com uma data que corresponde à sua reformulação (1844), o bispo administrador apostólico do Funchal aproveitou a empresa para ampliar o encanamento das águas para o hospital da SCM, trabalho que agradeceu a Paulo Dias de Almeida, a 10 de setembro de 1817, pedindo-lhe “a desculpa necessária sobre qualquer falta” que pudesse haver no reconhecimento dos seus serviços (ibid., fl. 16).

É nessa sequência que deverá ter-se iniciado a construção do cemitério das Angústias, inicialmente encargo da SCM do Funchal, em terrenos cedidos gratuitamente pelo morgado João de Carvalhal Esmeraldo (1778-1837), futuro 1.º conde de Carvalhal, anexos à antiga propriedade e residência de verão da sua tia-avó, a “Ilustríssima Senhora Dona” Guiomar de Sá Vilhena (1705-1787), empreendimento de certa forma inovador no espaço nacional. O projeto do novo cemitério da SCM faz parte da Descrição da Ilha da Madeira de 1817 (BNP, Reservados, cód. 6705) que Paulo Dias de Almeida foi entregar pessoalmente ao já então rei D. João VI, no Rio de Janeiro, com a carta geral da Madeira, com mais de 6 m de largura (IGP, 524).

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Cemitério das Angustias, Ventura Terra, 1915.
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Cemitério das Angustias, Ventura Terra, 1915.

As plantas feitas por Paulo Dias de Almeida têm a data de 1817 e a indicação de se tratar do “Cemitério da Misericórdia”, embora só tenhamos dados de ter começado a funcionar no ano seguinte. O portal representado no alçado parece ser o que chegou aos nossos dias através de aguarelas e fotografias, embora o grosso portão de madeira tenha vindo depois do convento de S. Francisco, dando para o então caminho da Pontinha, hoje Av. do Infante. Todavia, a colocação da capela mortuária junto da entrada, tal como previsto no projeto de Paulo Dias de Almeida, não se efetuou, pois foi levantada vinte anos depois, no lado oposto e quase na arriba sobre a baía do Funchal. Assim, o autor de An Historical Sketch, de 1819, referindo, por certo, alguma cerimónia a que assistiu no novo cemitério da SCM do Funchal, iniciado dois anos antes, no sítio das Angústias, mostra “o acompanhamento de frades e mendigos, com tochas” (apud SILVA, 1994, 160).

Com a implantação do governo liberal, foram quase de imediato proibidos os enterramentos nas igrejas, recorrendo-se à ampliação do referido cemitério da SCM e pedindo-se ao já então conde de Carvalhal a venda dos terrenos anexos para sul. O conde escreveu à CMF, a 8 de julho de 1836, oferecendo gratuitamente, como havia feito antes, todos os terrenos que fossem necessários. As obras de ampliação do cemitério para servir a freguesia da Sé e de São Pedro estavam concluídas em maio de 1838 e, a 8 de julho, foi lançada a bênção solene pelo vigário capitular e governador do bispado, o Cón. Alfredo de Santa Catarina Braga (c. 1780-c. 1845), cerimónia que se revestiu do maior brilho e imponência (SILVA e MENEZES, 1998, I, 70).

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Foto do Cemitério das Angustias, 1920.
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Cemitério das Angústias, 1935.

A capela do cemitério só viria a ser levantada na déc. de 40, estando terminada em novembro de 1844 e benzida a 15 de dezembro seguinte pelo bispo D. José Xavier Cerveira e Sousa (1810-1862). Assim o pintou Edwin Augustus Porcher (1824-1878), a 1 de abril de 1842, a caminho da Austrália, onde se encontra a aguarela com esta imagem. O portal parece corresponder ao desenhado por Paulo Dias de Almeida e as árvores da avenida central ainda se encontram a crescer. Pouco depois, foi editada em Londres uma litografia feita a partir de desenho de Frank Dillon (1822-1909) sob o título Portuguese Cemetery – Funchal, com uma pequena procissão fúnebre, mas com o cemitério quase deserto, parecendo datar assim de alguns anos antes da data da edição (DILLON, 1850).

O cemitério seria depois herdeiro das ossadas exumadas no convento de S. Francisco do Funchal, quando a igreja e as capelas anexas foram demolidas, em 1865, na ideia de ali levantar os novos paços do concelho, o que nunca veio a acontecer. As ossadas foram depositadas sob a magnífica laje sepulcral de calcário-brecha da Arrábida dos fundadores daquele convento, Luís Álvares da Costa e seu filho Francisco Álvares da Costa, laje que é datável de 1473 a 1520.

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“Anjo Suplicante”, Francisco Franco, 1916.
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Torso, Francisco Franco.

Ao longo do séc. XIX e inícios do XX, o cemitério foi sendo progressivamente melhorado com os jazigos das principais famílias madeirenses e com alguns monumentos funerários importantes ao nível da história da arte. Em 1916, a família Rocha Machado encomendou ao escultor Francisco Franco (1885-1955) um trabalho para o seu jazigo, vindo a ser fundido Anjo Suplicante, uma das mais conseguidas obras deste escultor. Na sequência do bombardeamento de várias embarcações que se encontravam paradas na baía do Funchal e que trabalhavam para a empresa dos cabos submarinos ingleses sediada na cidade, ataque perpetrado por um submarino alemão a 3 de dezembro de 1916, e do qual resultaram mais de uma dezena de mortos, o banqueiro Henrique Vieira de Castro (1869-1926) (Castro, Henrique Vieira de) abriu uma subscrição para um túmulo-monumento, obra de novo entregue a Francisco Franco, solenemente inaugurada um ano depois do bombardeamento. A cerimónia teve início com um serviço religioso na sé do Funchal e prosseguiu com a apresentação do monumento no cemitério das Angústias, decorrendo com “particular brilhantismo, tendo vários oradores proferido eloquentes e patrióticos discursos à homenagem que ali se ia tributar àquelas pobres vítimas da barbária alemã” (SILVA e MENEZES, 1998, I, 71).

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Romagem ex-combatentes 9 de Abril de 1927.

Seis dias depois, a 12 de dezembro de 1917, o Funchal foi novamente alvo de um bombardeamento de um submarino alemão, que deveria, uma vez mais, atingir as instalações da “Casa da Linha”, sede do cabo submarino, situada na Calç. de Santa Clara, mas que veio a acertar na igreja do convento, ferindo o P.e Manuel da Silva Branco, que estava a celebrar missa, o sacristão e duas mulheres, acabando uma delas por falecer. Neste segundo bombardeamento, registaram-se cinco mortos e cerca de 30 feridos. Nos anos seguintes, sempre que navios de guerra franceses visitaram o Funchal, fez-se junto daquele monumento uma cerimónia fúnebre em que compareciam representantes da marinha portuguesa e francesa, um pelotão de infantaria, o cônsul francês e, por vezes, também o inglês, tal como as autoridades superiores do distrito.

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S. Miguel das Almas, da autoria de Guilherme Camarinha (1912-1994).

O cemitério das Angústias manteve-se naquele local até aos meados de 1942, tendo o último enterramento sido feito em 24 de abril desse ano, após o que foi desmanchado e transferido para a freguesia de São Martinho, em terrenos quase anexos à chamada “igreja velha”, permitindo a abertura da Av. do Infante e a construção do parque de Santa Catarina. Para além das ossadas, foram transferidos os jazigos e monumentos principais e, inclusivamente, o portal de cantaria original, dos finais do séc. XIX. Interiormente, veio a ser dotado de uma nova capela mortuária, projeto do Arqt. Raul Chorão Ramalho (1914-2002), datado de 1951, com um monumental retábulo de azulejos representando S. Miguel das Almas, da autoria de Guilherme Camarinha (1912-1994), de 1958, e uma escultura exterior com uma Ressurreição de Querubim Lapa (1925-), de 1956, mas segundo projeto, em princípio, de Lagoa Henriques (1923-2009), pois que o conhecemos no seu atelier.

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Cemitério de Nossa Senhora das Angústias.

Bibliog. manuscrita: AHM, Processos individuais, cx. 182, proc. 659, Paulo Dias de Almeida; BNP, Reservados, cód. 6705, Descrição da Ilha da Madeira, 1817; IGP, 524; DGSIE, GEAEM, cota 748-1A-12A-16, Paulo Dias de Almeida, Planta do Semiterio Publico, c. 1817; NLA, nla.pic-an4102992, Edwin Augustus Porcher, Madeira, the Town of Funchal, and the Eastern End of the Island, 1842; impressa: CALDEIRA, Abel Marques, O Funchal no Primeiro Quartel do Século XX, 1900-1925, 3.ª ed., Funchal, Eco do Funchal, 2007; CARITA, Rui, Madeira: Roteiros Republicanos, Matosinhos, QuidNovi, 2010; id., História da Madeira, vols. 6 e 7, Funchal, SRE, 2003 e 2008; id., Paulo Dias de Almeida e a Descrição da Ilha da Madeira, Funchal, DRAC, 1982; COMBE, William, A History of Madeira: with a Series of Twenty-Seven Coloured Engravings, Illustrative of the Costumes, Manners, and Occupations of the Inhabitants of that Island, London, Rudolph Ackermann 1821; DILLON, Frank e Picken, T., Sketches in the Island of Madeira, London, Paul and Dominic Colnaghi & Company, 1850; SANTOS, Rui, “Um Militar mais que Esquecido (Paulo Dias de Almeida)”, Jornal da Madeira, 17 mai. 1992; SILVA, António Ribeiro Marques da, Apontamentos sobre o Quotidiano Madeirense (1750-1900), Lisboa, Caminho, 1994; SILVA, Fernando Augusto da, e MENEZES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 3 vols., ed. fac-simile, Funchal, SRTC, 1998.

Rui Carita

(atualizado a 11.07.2016)