cine-fórum do funchal

O cineclubismo inaugura-se em Portugal com o Belcine – clube de cinema da Parede, fundado em Lisboa em 1943. No ano seguinte, foi a vez do Porto, com o Clube Português de Cinematografia. Outros clubes surgiram no país e a Madeira também inaugurou o seu Cineclube do Funchal em 1955, tendo como membros fundadores Marcelo Costa, enquanto presidente, Gilda Góis Ferreira, António Aragão, João Pestana e Maria Eduarda Tomás de Sousa. Só 10 anos mais tarde, na sequência desta iniciativa, seria fundado o Cine-Forum do Funchal. Criado em 1965, o seu principal mentor e fundador foi José Maria da Silva, que esteve à frente do Cine-Forum até ao seu falecimento, em 2004. Nascido no Funchal em 1933, estudou filosofia na Universidade de Salamanca e formou-se em Direito em Coimbra. A par da sua atividade profissional como advogado, José Maria da Silva dedicou grande parte da sua vida à instituição cultural que fundou e que seria, ao longo do tempo, muito mais do que um cineclube.

O Cine-Forum teve os seus estatutos publicados no Diário do Governo, em outubro de 1965. Neste documento ficou expressa a vontade de constituir-se como uma associação sem fins lucrativos nem recreativos, mas essencialmente culturais, como se refere no artigo 3.º: “tem por finalidade a formação e a expressão de uma cultura cinematográfica esteticamente válida entre os seus associados” (ARM, Estatutos do Cine Forum…, cota D2.B35,E6,C-6). Durante o primeiro ano, a comissão administrativa garantiu a formação dos diversos órgãos e o arranque das sessões e ciclos de cinema. Esta comissão era formada pelo presidente, José Maria da Silva, Maria Teresa Tomé, José Paquete de Oliveira, Maria Tula Rodrigues Tomás e Carlos Alberto Klut Andrade. Os estatutos regulavam a estrutura e objetivos do forum cinematográfico, consubstanciados no capítulo V, onde se prevê o modo como funcionariam as sessões. Cada sessão, ou forum, deveria ser orientada por um diretor, que procuraria “um esquema fundamental que tome por centro o filme exibido, com a conveniente formulação da técnica, análise dos meios artísticos e um juízo sobre os valores humanos” (Ibid.), frisando-se sempre como objetivo último dos debates o valor cultural da obra visionada.

Do pioneirismo do cinema mudo, de autores como D. W. Griffith, Murnau e Fritz Lang, aos clássicos dos anos 40 e 50, passando pelas vanguardas dos EUA, Europa e Ásia, o Cine-Forum proporcionou aos madeirenses um cinema alternativo ao que era mostrado nas salas comerciais, organizando retrospetivas e antestreias de filmes comerciais de qualidade. Entre 1968 e inícios dos anos 70, puderam ser vistos no teatro municipal do Funchal ciclos ou sessões de cinema francês, de autores como Agnès Varda Louis Malle, Jacques Tati, François Truffaut e Jean-Luc Godard, e de cinema italiano, de Antonioni, Federico Felllini, Luchino Visconti, Pier Paolo Pasolini, Mauro Bolognini, Elio Petri e Alberto Latuada. O cinema de autor, de raiz anglo-saxónica, trouxe ao Funchal filmes de John Boorman, Billy Wilder, John Frankenheimer, Joseph Losey, Orson Wells, Albert Hitchcock, Elia Kazan e Otto Preminger.

Outras cinematografias raras entre nós foram dadas a conhecer ao longo dos anos 60 e 70, tais como: a do espanhol Carlos Saura; a dos suecos Victor Sjöström e Ingmar Bergman; o então cinema soviético de Anatole Litvac; o filme expressionista de Stellan Rye ou de  Paul Wegener; ou, de mais longe, o cinema japonês de Kaneto Shindo, Tadashi Imai e Hiroshi Inagaki. Por sua vez, e em estreita colaboração com a Cinemateca Nacional, puderam ser vistas no Funchal obras representativas da história do cinema português, assim como realizadores contemporâneos, habitualmente ausentes das grandes salas, como foi o caso de Manuel de Oliveira. A abertura do Cine-Forum a novas propostas, de caráter mais experimental, permitiu assistir à sessão de diaporamas O Amor Purifica, da autoria de Lourdes Castro e René Bértholo, em 1972.

O pintor Jorge Marques da Silva, professor e membro fundador do Cine-Forum, destacou em 1967 o papel inovador desta instituição, congratulando-se pela sua presença nos debates do público madeirense verdadeiramente interessado e ávido de novas experiências culturais. Nesta linha de pensamento, o pintor declarava na imprensa local que “após as projeções do Cine-Forum, dá-se início, em horas em que o corpo já pede repouso, a debates e considerações sobre arte cinematográfica; e a assistência mantêm-se estoicamente nos seus lugares, com firme vontade de ouvir” (DN, Funchal, 21 jan. 1967, 3).

Após um ano de atividade, o Cine-Forum ultrapassou as instituições congéneres de Lisboa e Porto em número de filmes apresentados, entre retrospetivas e ciclos, onde se incluíram os debates públicos que fizeram do cineclube madeirense um dos primeiros do país a promover este tipo de discussão. Contudo, José Maria da Silva reconhecia, em 1967, que apostar unicamente no cinema seria especializar em demasia uma instituição que atuava num meio como o Funchal da altura, desprovido de bases culturais mínimas. Por esta razão, e segundo o seu presidente, o Cine-Forum “procurará estender a sua ação a outros domínios, talvez a começar pelo teatro, como a literatura em geral, a poesia, as artes plásticas, etc.” (Comércio do Funchal, 25 jun. 1967, 4).

Em início dos anos 70, foi criada uma secção de cinema dedicado aos mais jovens, o Cine-Forum Juvenil, que constituiu também uma iniciativa inédita a nível nacional. Também por esses anos seria fundado um círculo de artes plásticas, alargando-se a ação do clube às artes visuais. Neste contexto, foi organizada pelo Cine-Forum Juvenil uma exposição de jovens artistas madeirenses, o I Salão de Artes Plásticas do Cine-Forum Juvenil, inaugurado no teatro municipal do Funchal, em junho de 1970. A experiência foi repetida no ano seguinte, no mesmo local. O I Salão de Artes Plásticas dedicado a artistas não juvenis seria inaugurado em 1979. Para além do cinema e das artes visuais, e conforme anunciado por José M. da Silva, o âmbito de ação também se alargou aos domínios da música, teatro e dança contemporânea.

Na área musical, por exemplo, foram realizados inúmeros concertos que trouxeram ao Funchal notáveis expoentes da música clássica, mas também de vanguarda, como John Cage, nome maior da música concreta em finais dos anos 70. Logo em 1970, o Funchal assistiu aos primeiros Encontros de Música Contemporânea, organizados com a colaboração do compositor e maestro Jorge Peixinho. O Cine-Forum organizaria também vários concertos em parceria com a orquestra Calouste Gulbenkian, que voltaria várias vezes ao Funchal, ao longo dos anos 70 e 80. Em 1980, puderam ser vistos o Grupo Encontros de Música Contemporânea de Buenos Aires, o Grupo de Percussão Ágora do Rio de Janeiro a Orquestra Barroca de Amesterdão, entre outros, denotando claramente a vontade e o ineditismo desta instituição que trouxe ao Funchal eventos de alto nível internacional. O Cine-Forum teve também o mérito de organizar o 1.º Festival Internacional de Dança da Madeira, no teatro Baltazar Dias, trazendo pela primeira vez ao Funchal dança contemporânea pela mão da companhia de bailado da Gulbenkian, assim como de diversas companhias russas e norte-americanas. Organizaram-se, também, ao longo da déc. de 80, várias edições do Festival Internacional de Música Antiga e vários festivais designados Outono Musical da Madeira.

Integrado no Cine-Forum surgiu o projeto de uma casa da cultura que iniciou a sua atividade em 1972 e ganhou proporções que ultrapassaram a alçada do cineclube. Por isso, esta estrutura teve curta vida, pois dependia de muitos organismos e pessoas, o que a fez afundar-se em problemas e inércias burocráticas.

Os anos 80 deram continuidade à diversificação das propostas e à tendência para a vocação internacional já antes encetada. Ainda em 1979, o Cine-Forum trouxe ao Funchal o Teatro Negro de Praga e, mais uma vez, a orquestra Gulbenkian. Em 1980, foi a vez da apresentação da Lar Lubovtich Dance Company e, em 1981, da Merce Cunningham Dance Company. No ano seguinte, o clube de teatro do Cine-Forum mostrou os grupos de teatro mais conceituados do panorama nacional, para além da atuação da companhia norte-americana Nikolais Dance Theatre.

Em 1983, teria lugar o maior evento que o Cine-Forum organizou ao longo da vida institucional, no Funchal. Com os auspícios da FERA (Federação Europeia de Realizadores do Audiovisual), a I Assembleia Mundial dos Realizadores de Cinema decorreu de 20 a 23 de outubro e constituiu um importante marco na história do audiovisual. Foi neste contexto que foram lavradas as Actas da Madeira, documento que congregou pela primeira vez os direitos dos criadores na área do cinema e que viria a potenciar importantes alterações na indústria do audiovisual.

As Actas da Madeira foram aprovadas por 150 realizadores, provenientes de 48 países, no auditório do casino Park Hotel do Funchal. Temas como os direitos de autor, a liberdade de expressão, a responsabilidade do realizador pelo acabamento da obra cinematográfica, a defesa das culturas dominadas, entre outros, foram debatidos nestes três dias. O evento contou com a presença de Jack Lang, o então ministro francês para a Cultura, que fechou os trabalhos com uma longa conferência de encerramento. Apesar da sua importância, que se tornou histórica, esta assembleia não teve continuidade nos anos seguintes e o Cine-Forum não voltaria a realizar um evento de tal envergadura.

A déc. de 80 ficou marcada também pela presença do realizador português Lauro António que, em 1985-86, trouxe ao Funchal uma Mostra de Cinema do Québec coorganizada pela Cinemateca Portuguesa. O realizador ministrou um curso curto de cinema no Cine-Forum do Funchal em 1988. O festival itinerante, denominado A Festa do Cinema, no S. Luiz correu o país em 1991 e chegou à Madeira no ano seguinte, pela mão de Lauro António, que aí voltaria a dar outra formação, o curso de iniciação ao cinema e ao audiovisual, organizado em parceria com o ISCEM – Instituto Franco-Portugais.

A partir de finais da déc. de 90, o Cine-Forum irá progressivamente reduzir o número de eventos que organiza, deixando de ter o cinema como a sua atividade principal. A instituição passou a dedicar-se sobretudo à formação em diversas áreas e à organização de congressos como o I Congresso de Literatura Madeirense – Prosa, que decorreu no Museu da Eletricidade, em 1999, ou o ciclo de conferências Filosofia e Contemporaneidade: Tarefas da Filosofia no Limiar do 3.º Milénio, em 2000, em colaboração com o departamento de filosofia da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Quanto à formação, destaque-se a organização de um conjunto de pós-graduações, de que são exemplo o curso de pós-graduação em estudos europeus, que decorreu entre 1999 e 2001, ministrado por docentes da Faculdade de Direito de Coimbra, e o de pós-graduação em ciências jurídico-administrativas, ao abrigo de um protocolo de cooperação com a Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, em 2003.

Tal como o seu fundador José Maria Silva, falecido em 2004, o Cine-Forum deixou de existir, mas ambos continuam presentes na memória de várias gerações de cinéfilos madeirenses.

Bibliog.: impressa: “Estatutos do Cine Forum do Funchal”, Diário do Governo, 3.ª série, 25 out. 1965; MELO, Luís F. de Sousa e CARITA, Rui, 100 Anos do Teatro Municipal Baltazar Dias: 11 de Março 1888-1988, Funchal, CMF, 1988; SILVA, Jorge M. da, “Acerca da II Exposição de Arte Moderna Portuguesa”, Diário de Notícias, Funchal, 21 jan. 1967, pp. 1-3; “Situação da Vida Cultural da Madeira”, Comércio do Funchal, Funchal, 25 jun. 1967, p. 4; VALENTE, Carlos, As Artes Plásticas na Madeira (1910-1990). Conjunturas, Factos e Protagonistas do Panorama Artístico Regional no Século XX, Dissertação de Mestrado em História da Arte apresentada à UMa, Funchal, texto policopiado, 1999; digital: GALÁN, Diego, “Directores Cinematográficos Matizan la Declaración Mundial de la Isla de Madeira”, El País, Madrid, 23 out. 1983: http://elpais.com/diario/1983/10/23/cultura/435711609_850215.html (acedido a 1 dez. 2015); Id., “La Asamblea Mundial de Directores de Cine Acusa a la Presión Multinacional”, El País, Madrid, 24 out. 1983: http://elpais.com/diario/1983/10/24/cultura/435798013_850215.html (acedido a 1 dez. 2015).

 Carlos Valente

(atualizado a 05.01.2016)