cinema mudo na madeira

A relação da Madeira com o cinema surgiu pouco depois da inovadora técnica dos irmãos Lumiére ter sido apresentada. Apenas um ano e meio após as primeiras projeções em Paris, o cinema exibiu-se pela primeira vez no Funchal a 15 de maio de 1897. O responsável pelo feito foi João Anacleto Rodrigues, empresário e dono do Bazar do Povo, que encomendou e comprou um aparelho de imagens em movimento ao inventor Joly-Normandy, fazendo as primeiras apresentações no Teatro D. Maria Pia.

Os madeirenses logo se deixaram conquistar pela novidade, mas a relação dos ilhéus com o cinema não se cingiria ao mero papel de espectadores. A ilha acabaria por gerar os seus próprios realizadores, que hoje ocupam lugar de destaque na história do cinema em Portugal. Além disso, as paisagens que tornaram a Madeira conhecida em termos turísticos, iriam também atrair realizadores estrangeiros, que imortalizaram no cinema a única e luxuriante orografia e natureza madeirense.

Na Madeira, as primeiras produções cinematográficas limitaram-se a registos documentais, dos quais pouco se sabe, restando deles apenas algumas referências na imprensa da época. É este o caso da produção daquela que foi, muito provavelmente, a primeira fita a ser filmada na ilha. O seu autor foi o britânico John Benett-Stanford, ou “Mad Jack”, como era conhecido. “Este proprietário de terras e fotógrafo esteve em serviço no Sudão (1898), como correspondente de guerra para o Western Morning News” (ALMEIDA, 2008; 73).

Em 1899, de viagem à Madeira, onde a família possuía uma casa, filmou várias paisagens da ilha, facto relatado na página 2 do Diário de Notícias, na sua edição de 14 de Março de 1899. O matutino refere que o britânico alugou o elevador do Monte para tirar várias vistas para o seu animatographo, que o Diário de Notícias adiantava ter custado 55 libras. Depois das primeiras filmagens, o britânico quis complementar o filme com alguma ação e alugou para o efeito um burro por cinco reis, fazendo depois com que um carro de cestos do Monte embatesse no animal, simulando assim um acidente. A notícia dava conta da consulta feita ao animal por um veterinário, tendo o mesmo diagnosticado apenas uma pequena escoriação numa das patas.

A história dos primórdios da realização cinematográfica na Madeira é bastante lacunar, sendo, no entanto, de sublinhar que o movimento diário de turistas no Porto do Funchal leva a crer que entre as centenas de passageiros pudessem constar “alguns realizadores munidos de câmaras de filmar ou mesmo equipas de cinema “ (MARQUES, 1997, 26). Aliás, os primeiros registos documentais tinham como tema a Madeira turística, destacando-se, entre estes, “Excursão à Madeira”, “filmada em 35 mm e estreada em agosto de 1907, no Pátio dos Voluntários, no Porto, sendo depois exibida a 12 de Janeiro de 1908 no Águia d’Ouro” (MARQUES, 1997, 26). Em 1911, há ainda a assinalar a película “Madeira”, realizada por estrangeiros e distribuída por uma empresa francesa e pelo inglês George Klein. Em 35 mm e com a duração de 90 segundos, apresentava paisagens típicas da ilha e os usos e costumes ilhéus, como o transporte de bagagens até à praia, flagrantes do mercado e das ruas, as flores que se cultivavam nas varandas, e grupos de trabalhadores fazendo cadeiras. Ou seja, todo um imaginário ilhéu. Deste leque de temáticas, há também a destacar um filme estreado a 20 de Março de 1918 no cinema Olímpia, em Lisboa, intitulado “Funchal”.

No entanto, o primeiro filme 100% madeirense é atribuído a João Reis Gomes, nascido a 5 de janeiro de 1869 e natural da freguesia de São Pedro. “O Cerco a Safim” não foi uma mera ficção cinematográfica, até porque nunca foi exibida comercialmente como filme, sendo, contudo, inovadora por ter sido fundida numa peça de teatro, no âmbito da qual foi exibida.

As filmagens de “O Cerco a Safim” iniciaram- se às 6 da manhã do dia a 25 de maio de 1913, na freguesia do Caniço, e simulavam “uma batalha entre Cristãos e Mouros, utilizando-se para o efeito cerca de 60 cavaleiros e quase 100 figurantes e técnicos. (…) O operador foi André Valldaura, pertencente aos quadros da Companhia Cinematográfica de Portugal, que aproveitou a viagem para fazer “tomadas de vista da Madeira para serem exibidas no Pavilhão de Paris.” (MARQUES, 1996, 27). Deste trabalho, o destaque vai para uma curta metragem documental intitulada “O Funchal Pitoresco”, estreada a 13 de junho de 1914 no Pavilhão Paris e que esteve em cartaz durante várias semanas.

De salientar que Reis Gomes sempre teve o seu nome ligado à arte do Teatro, tendo sido encenador teatral, bem como jornalista. Aliás, a sua ligação ao cinema tem início quando ocupa o cargo de diretor do Heraldo da Madeira, em 1904. É naquele matutino que inaugura uma série de artigos dedicados ao cinema, ao mesmo tempo que faz a promoção do espetáculo cinematográfico na Madeira. “Foi ele quem criou as primeiras tentativas de crítica cinematográfica na imprensa madeirense (…) no entanto o interesse de Reis Gomes no cinema iria manifestar-se naquela singular experiência da encenação da peça “Guiomar Teixeira” (…) a peça histórica exigiu algumas cenas de batalha entre exércitos cristãos e mouros, que não podiam ser encenadas de forma normal no palco do Teatro Municipal. Foi aí que Reis Gomes teve a ideia de misturar teatro e cinema, filmando todas as cenas de batalha, que exigiam planos gerais, para as apresentar posteriormente aquando da exibição da peça. Segundo vários testemunhos recolhidos na época, as imagens projetadas cinematográficamente eram comentadas pelos próprios intérpretes da peça que consideravam como estando no interior da Fortaleza de Safim, tudo isto com a ajuda de uma osquestra que acompanhava o ritmo da acção.” (MARQUES, 1997, 28).

É já na década de 20 que surgem dois dos mais importantes nomes do cinema madeirense, sendo estes Francisco Bento de Gouveia e Manuel Luiz Vieira.

Bento de Gouveia nasceu a 16 de julho de 1873, na freguesia de Ponta Delgada. Manuel Luiz Vieira nasceu em São Vicente,a 21 de junho de 1885. Fotógrafo profissional foi fundador da histórica Casa Pathé, no Funchal. Era mesmo conhecido como o ‘Vieirinha’ da Casa Pathé. Desde sempre apaixonado pelo cinema e pela fotografia, foi operador de câmara da Madeira Film, onde produziu os seus primeiros filmes, e fundou a Empresa Cinematográfica Atlântida, que detinha laboratório e estúdio de filmagem.

Manuel Luiz Vieira e Francisco Bento de Gouveia eram primos, e criadores da já citada Madeira Film, na qual realizaram e produziram filmes interiramente madeirenses, mas que tiveram projeção nacional e mesmo internacional.

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Manuel Luiz Vieira, Rodagem de “O Fauno das Montanhas”.

No seu currúculo, Manuel Luiz Vieira tem mais de 150 filmes, entre documentérios e curtas-metragens, destacando-se, ainda, a realização de três médias-metragens de enredo: “A Calúnia”, “O Fauno das Montanhas” e “A Indigestão”, filmadas entre 1925 e 1926. Considerado, nas décadas de 30 e 40, como um dos melhores operadores de câmara, trabalhou com os melhores realizadores e diretores de fotografia estrangeiros, como Gartner e Goldberger. Em Porugal, foi operador de vários filmes e documentários, dos quais se podem destacar “A Dança dos Paroxismos”, 1929, de Jorge Brum do Canto; “Maria do Mar”, 1930, de Leitão de Barros; “Maria Papoila”, 1937, de Leitão de Barros; “Feitiço do Império”, 1940, de António Lopes Ribeiro; “Camões”, 1946, de Leitão de Barros. Foi sem dúvida uma personalidade ímpar na história do cinema madeirense, imprimindo uma dinâmica de assinalar num meio pequeno como era a Madeira de então.. “Em 1925, na ilha da Madeira acontece o impensável. Nada menos que a criação de uma empresa ambiciosa nas mãos de um fotógrafo que aliava ao seu nome ser o representante no Funchal da Pathé, de Paris. Estava instalado no número 39 da Rua Câmara Pestana e depois de ter feito umas experiências a solo e na Madeira Film, fundou a empresa Cenográfica Atlântida… olhava o seu estúdio fotográfico e fazia-o crescer para estúdio de cinema, viajava para adquirir os materiais necessários, apoiando-se na sua representada, que tomava como sua retaguarda técnica. Este foi a grande arrancada da carreira de cineasta de Manuel Luiz Vieira.” (MOUTINHO, 2013, 20).

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O Fauno das Montanhas.

Em termos de produção de ficção do cinema mudo madeirense, 1926 foi crucial. O primeiro sucesso foi “A Calúnia”, de Manuel Luiz Vieira, produzido pela Empresa Cinematográfica Atlântida, e com elenco totalmente madeirense e amador. Contra todas as dificuldades, Luíz Vieira conseguiu o impensável e essa circunstância é sublinhada por quem faz a história desse tempo: “Na Madeira, onde é que Manuel Luiz Vieira arranjaria actores? E dinheiro para lhes pagar? Na família, ao preço da chuva, pois então! Recorreu à irmã, ao cunhado, a amigos, alguns eram amadores de teatro, pediu um par de palacetes emprestados, selecionou paisagens que amostrassem do melhor que havia da natureza na ilha e escreveu o argumento, planificou (…) (MOUTINHO, 2013, 16).

“A Calúnia” foi filmada no Funchal e em Câmara de Lobos, nomeadamente em várias quintas, e é um retrato de época, conseguido através de uma simples história de amor de um homem que parte para a América, com o intuito de fazer fortuna e assim ganhar a mão da mulher que ama, que é de condição social superior e tem um pretendente da mesma origem. O filme foi aclamado pela imprensa e até pela atriz Maria Matos, que realçou o trabalho fotográfico na sua nitidez e perfeição, destacando o capítulo que tinha lugar em Câmara de Lobos e que considerou um dos mais encantadores, nomeadamente pela beleza dos quadros. Outra das curiosidades do filme foi a circunstância de ser acompanhado de uma partitura musical especialmente criada para o efeito e que ainda hoje se pode encontrar na biblioteca da Cinemateca Portuguesa.

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O Fauno das Montanhas.

Também de Manuel Luiz Vieira, “O Fauno das Montanhas” é uma curta-metragem dramática, cujas filmagens foram efetuadas em estúdio, no Rabaçal e nas Vinte e Cinco Fontes. É catalogado como filme fantástico, já que retrata os sonhos de uma jovem que acompanha o pai, um naturalista britânico, numa expedição com o objetivo de estudar as espécies ornitológicas da Madeira. Nestas deambulações, a jovem julga-se perseguida por um fauno. Curioso e fantástico, o filme estreou-se a 11 de Maio de 1927, no Teatro-Circo. Foi aclamado pela crítica, mas curiosamente teve apenas três exibições comerciais no Funchal, pois o tema parece ter criado algum embaraço, à conta dos delírios da jovem personagem principal, representada por Ermelinda Vieira.

A jovem “vive numa aspiral de desejos eróticos e febris que a quase levam à perdição. Tudo isto num cenário luxuriante como só o poderia ser a zona do Rabaçal e das 25 Fontes, que se enquadra perfeitamente ao feérico que perpassa por todo o filme (…) mas o certo é que deve ter ferido algumas susceptibilidades importantes, pois só foi exibido comercialmente por três vezes. Retirado do mercado, foi ainda projectado em salões associativos, antes de ter sido apresentado à Censura en 1929 e guardado na gaveta durante décadas.” (MARQUES, 1997, 95).

De Manuel Luiz Vieira, há ainda a referir a comédia “A Indigestão”, que se estreou na mesma altura de “O Fauno das Montanhas”, com outras fitas da Empresa Cinegráfica Atlântida. “A Idigestão” era protagonizada por João Sabino, a quem foi reconhecido um louvável desempenho, acompanhado das atrizes Felismina Silva e Tinira Silva.

Os últimos filmes de Manuel Luiz Vieira não tiveram o sucesso dos anteriores e este acabou por cessar o seu trabalho no campo da ficção. Dedicou-se, então, aos documentários, onde alcançou grande sucesso. São da sua autoria a reportagem da vinda dos aviadores João Moreira de Campos e José das Neves Ferreira, que comandavam o hidroavião que amarou próximo do Porto Santo, na sequência do raid aéreo Lisboa – Madeira – Açores, e ainda a “Chegada de Ruth Elder”, que alcançou sucesso internacional, com estreia em Paris a 26 de outubro de 1927. Em causa estava um documentário que relatava a chegada da aviadora solitária após um acidente nos mares dos Açores, a 12 de Outubro de 1927. O resgate foi filmado por Manuel Luiz Vieira, que se encontrava nos Açores: “(…) o simpatico e insatisfeito fotógrafo madeirense Manula Luiz Vieira, tantas vezes visto no balcão no estabelecimento da Rua Câmara Pestana, também várias vezes teve a sorte pelo seu lado. Conto uma delas. Pois não é que estava na Ilha da Faial, nos Açores, a acompanhar uma digressão artística da Banda Municipal do Funchal, quando caiu, a 350km ao largo, o avião Rapariga Americana, um Detroiter Stinson, que fazia Nova Iorque-Paris, tripulado pela bela actriz de Hollywood Ruth Elder e pelo seu instructor e antigo piloto de Guerra capitão George Haldeman? (…) Mal se apercebeu do que se passava, Manuel Luiz Vieira, com raro sentido de oportunidade, arranjou maneira de entrar a bordo do petroleiro e pode fazer uma das grandes reportagens da sua vida. Isto aconteceu a 12 de Outubro de 1927. Dia e meio depois, os cinemas das grandes capitais exibiam o doumentário do repoter madeirense.” (MOUTINHO, 2013, 14) Ou seja, um documentário que surge precisamente no ano em que o cinema passa do mudo para o sonoro, e Manuel Luiz Vieira faz essa transição, deixando de vez a ficção e passando para o documentário, onde também se notabilizou.

Dos filmes realizados na Madeira por madeirenses e estrangeiros, consta ainda uma lista da responsabilidade do Museu Vicentes, que cita o ‘Prontuário do Cinema Português, de José Matos-Cruz.

Assim da Era do cinema mudo, podemos destacar em 1899, “Vistas do Monte” documental, realização de Benett Stanford; em 1907, “Excursão à Madeira”, documental, Aurélio da Paz dos Reis e Eduardo C. Pascaud; em 1907, “Na Ilha da Madeira”, documental, sem realizador, em 1911, “Assistência à Matiné em Favor dos Órfãos da Madeira”, documental, sem realizador, também em 1911, “Madeira”, documental, sem realizador, produção Eclipse (França); em 1913, “Funchal Pitoresco”, documental, André Valldaura; em 1913, “Guiomar Teixeira – A Filha de Tristão das Damas”, ficção, realização e produção de João Reis Gomes; em 1914, “Uma Excursão à Ilha da Madeira”, documental, sem realizador; em 1915, “Ilha da Madeira e suas Indústrias”, documental, sem realizador; em 1917, “Cidade do Funchal”, documental, sem realizador, em 1918, “Funchal”, documental, sem realizador; em 1918, “Visita ao Funchal”, documental, sem realizador; em 1922, “Chegada ao Funchal, a Bordo do Cruzador “Cardiff”, dos Antigos Soberanos Húngaros Exilados”, documental, sem realizador, produção Gaumont (França); em 1922, “Filme Promocional da Madeira, Panoramas, Acontecimentos Notáveis, Poentes e Marinhas, O Sr. Presidente da Republica e os Aviadores, o Monte e as Romarias, Aspectos da Actividade Madeirense”, documental, realização e produção Madeira Film; em 1922, “Vários Aspectos da Ilha da Madeira”, para incluir no filme Pátria Portuguesa documental, realizador João Germano Gonçalves; em 1923, “As Festas do V Centenário da Descoberta da Ilha”, documental, longa-metragem em 5 partes, realização e produção Madeira Film; em 1924, “Courses de Buffles à Madeira”, documental, sem realizador, produção Pathé (França), em 1924 “Madeira”, documental, sem realizador, produção Filmes Castello Lopes; também em 1924, “Um Dia na Madeira – Un Giorno a Madera”, ficção, realização de Mário Gargiulo, produção Flegrea-Lombardo (Itália); em 1925, “A Tosquia de Ovelhas no Paúl da Serra”, documental, realização e produção Manuel Luiz Vieira, em 1925, “Festas de S. Pedro na Ribeira Brava”, documental, realização e produção de Manuel Luiz Vieira; ainda em 1925, “Festas Desportivas pelos Ingleses do Cabo Submarino”, documental, realização e produção de Manuel Luiz Vieira.

O cinema na Madeira fica assim marcado pelo surgimento de nomes que ainda hoje fazem parte da história do cinema português, tanto pela qualidade técnica dos filmes que realizaram, como pelas temáticas e por algumas inovações, das quais se destaca o carácter fantástico de ‘O Fauno das Montanhas”, e a introdução do filme de Reis Gomes no decorrer de uma peça de teatro. Destaque ainda para as associações criadas e para a circunstância da ilha ter atraído vários realizadores estrangeiros.

Bibliog.: ALMEIDA, Ana Paula Teixeira de, Lugares e Pessoas do Cinema na Madeira – Apontamento para a história do cinema na Madeira de 1897 a 1930, Tese de mestrado apresentada à Universidade da Madeira, Junho de 2008; MARQUES, João Maurício, Os Faunos do Cinema Madeirense, Editorial Correio da Madeira, 1997; MOUTINHO, José Viale, Manuel Luiz Vieira, A Vertigem do Mudo ao Sonoro, Um cineasta madeirense, Die4films, 3013; imprensa: Diário de Notícias da Madeira, edição de 15 de Maio de 1897. digitalhttp://photographiamuseuvicentes.gov-madeira.pt/cinema.asp

Raquel Gonçalves

(atualizado a 06.07.2016)