cinema na madeira

Desde cedo os madeirenses assistiram a cinema na ilha, inicialmente apenas no Funchal. A aceitação parece ter sido muito boa, conforme indica a imprensa da época, a principal fonte de análise para este texto. O animatógrafo foi visto, pela primeira vez, no Funchal, no dia 15 de maio de 1897. O espetáculo, promovido pelos irmãos Rodrigues, Henrique Augusto (1856-1934) e João Anacleto (1869-1948), decorreu no Teatro D. Maria Pia e foi, segundo os relatos, do agrado geral. O programa das primeiras sessões, publicado na imprensa regional, era composto por 12 curtas-metragens, registos documentais “à moda dos irmãos Lumière”, complementadas pela música de uma orquestra.

Estes primeiros filmes exibidos na Madeira eram de origem francesa e de formato Joly Normandin, datando de 1896 e 1897. Destas fitas raras, atualmente, são conhecidas apenas três coleções: a madeirense, que se encontra ao cuidado do Museu Vicentes, no Funchal, a da Filmoteca Espanhola e a da Cinemateca Suíça.

Na viragem do século, o interesse do público por esta nova distração era notório. A demonstrá-lo temos o número de salas de cinema então criadas. A primeira sala de espetáculos foi o Pavilhão Grande, na Pç. da Rainha. Paralelamente, Alfredo Guilherme Rodrigues (1862-1942) organizou, no Hotel Monte Palace, inaugurado em 1904, frequentes sessões de cinema, exclusivamente dedicadas à elite funchalense. Longe dos olhares do povo e das salas “barulhentas”, esse grupo privilegiado assistia a exibições privadas.

Em 1907, foi exibido, pela primeira vez, aquele que seria o filme mais popular e com maior audiência da época, A Vida de Christo (MARQUES, 1997, 16). A afluência foi enorme, chegando mesmo a esgotar sessões, o que provocou grande desagrado por parte do público. O sucesso do filme fomentou excursões de espectadores provenientes de toda a ilha, tendo estado em exibição durante cinco meses.

A sala de cinema por excelência, o Teatro D. Maria Pia, tinha ótimo equipamento e as exibições eram da aprovação do público. Contudo, começou a ser alvo de críticas devido à falta de segurança em caso de fogos, uma vez que, desde 1903, se registaram princípios de incêndio. Perante tal situação, criou-se a primeira sala de cinema comercial da Madeira, propriedade de Manoel Fernandes Camacho, o “barracão” Águia D’ Ouro, construído atrás do Teatro D. Maria Pia e inaugurado em finais de 1907. Todavia, esta sala, criada para garantir segurança, ironicamente, em 1908 e poucos meses depois da sua abertura, sofreu um violento incêndio que teve início com a inflamação de uma película (id., 20).

Em setembro de 1910 foi divulgado o cinematógrafo ambulante, com uma projeção promovida por José Maurício Gomes e José Procópio de Gouveia, em São Gonçalo. Assim, o cinematógrafo “saiu” do Funchal, permitindo o que de outro modo nunca seria possível: que a população menos citadina o visionasse. Os anos 10 foram muito produtivos, quer no domínio da exibição, quer no domínio da produção de filmes, de que falaremos mais adiante. Surgiram vários novos locais de exibição: o Pavilhão Paris, o Salão Ideal, o Salão Central, o Salão Variedades e o Teatro Circo.

O Pavilhão Paris, situado na R. João Tavira, a norte do hospital da Santa Casa da Misericórdia, foi inaugurado em 1909. Na véspera, e como era hábito, houve uma sessão especial dedicada à imprensa e às autoridades e, segundo registaram os periódicos da época, a impressão colhida foi excelente.

Logo em 1910 surgiram, no Funchal, três novas salas de cinema. Num armazém da R. da Princesa, com esquina para a R. da Figueira Preta, foi instalado o Salão Ideal. À semelhança de outras salas de espetáculos, havia algumas sessões dedicadas à então denominada “sociedade elegante funchalense”. Com muita proximidade temporal, foi aberto o Salão Central, instalado no andar superior do edifício onde ficava o África House, estabelecimento comercial de referência na época, na R. da Queimada de Baixo. Em maio, foi inaugurado outro espaço, o Salão Variedades, que resultou da adaptação de uma parte do prédio onde estava instalado o jornal O Direito, órgão do Partido Regenerador, na R. de S. Francisco.

Com novos locais de espetáculos, a rivalidade foi reforçada. As várias salas fomentaram peças de variedades, como bailados, cançonetas, duetos, entre outros, reduziram os preços de entrada e divulgaram a comodidade das salas. Tanta aposta por parte destes estabelecimentos promoveu a afluência de público. E a importância do cinema foi reconhecida por muitos, porque, numa terra onde escasseavam as distrações públicas, este veio preencher uma lacuna.

Inaugurado em 1911, o Teatro Circo – considerado o melhor pavilhão de diversões que, até à data, se construíra no Funchal – recebeu uma multidão de espectadores. Esta sala de espetáculos depressa entrou na corrida da concorrência. Em 1917, foi inteiramente transformada, passando a dispor de melhor e mais vasta acomodação para o público, tornando-se assim, a seguir ao Teatro Funchalense (Teatro D. Maria Pia, antes da implantação da República e mais tarde Teatro Manuel de Arriaga), na melhor e mais “elegante” casa de espetáculos da cidade. Os preços de entrada eram extremamente convidativos, os programas das sessões cinematográficas eram criteriosamente organizados, as estreias sucediam-se e, em plena Primeira Guerra Mundial, o público enchia literalmente o Teatro Circo em noites de espetáculo.

Durante o período da guerra eram frequentes e apreciados os jornais de atualidades, a forma encontrada para informar a população sobre o que sucedia no mundo. Esta realidade não escapou aos madeirenses, que recebiam, assim, algumas novidades sobre o combate, como demonstra o filme Tropas Portuguezas no Front, exibido no Pavilhão Paris, em 1918.

Na déc. de 20, as maiores salas de cinema comercial foram o Teatro Circo, onde se continuariam a exibir “fitas de arte”, e o Pavilhão Paris, que realizava espetáculos dedicados à comunidade estrangeira residente na ilha. Os bilhetes passaram a ser numerados, para maior comodidade do público e os preços foram aumentados, dada a grande subida do custo da energia elétrica. Surgiu, em 1923, uma nova sala, o Cine Ideal. A sua gerência era da responsabilidade do representante na Madeira do Cinema Condes, de Lisboa, Gomes de Sousa, mas a sala foi encerrada poucos meses depois (MOUTINHO, 2013, 75).

Além dos locais referidos, o cinema era exibido noutros espaços menos convencionais. Com alguma frequência, era mostrado cinema ao ar livre, na praia de São Tiago, no Jardim Municipal (Cine Jardim), entre outros lugares. Em 1923, o Cine Jardim tornou-se no ponto preferido do grande público do Funchal. Havia espetáculos dedicados à “sociedade elegante”, as chamadas “récitas da moda”, e as “récitas populares”, designadamente a do dia 5 de outubro, enquadrada nas festas comemorativas do 13.º aniversário da República. À semelhança do Cine Jardim, por iniciativa de João Higino de Barros, foram realizadas exibições cinematográficas no Prq. das Cruzes, na Qt. das Cruzes, cujo edifício principal era então um hotel. A primeira sessão deste cinema ao ar livre, o Cine Cruzes, foi em 1930.

Ainda nesta década, proliferaram os cinemas não comerciais, surgindo salões privados pertencentes a associações: Patronato de S. Pedro, Banda Distrital do Funchal, Bombeiros Municipais, Colégio Lisbonense, Salão Teatro dos Álamos, Cine Victoria (funcionou no Casino Victória, sito na R. Alexandre Herculano, e era frequentado pela comunidade estrangeira). Cada espaço tinha a sua programação semanal.

O Teatro Manuel de Arriaga proporcionou à sociedade funchalense o visionamento de muitos filmes, alguns de grande êxito internacional, como Os Nibelungos (de Fritz Lang, 1914), em janeiro de 1928, e o primeiro filme sonoro, O Louco Cantor, com Al Jolson, em 1931.

A instabilidade social e económica, bem como o preço dos equipamentos de projeção, impediram uma rápida adaptação ao cinema sonoro. Porém, a partir de 1934, o sonoro afirmou-se definitivamente. Neste novo contexto, sobrevêm locais de exibição também novos, dentro e fora do Funchal. Na cidade, além do Teatro Circo, Teatro Municipal, Cine Cruzes e Patronato de S. Pedro, que se mantiveram, surgiram o Pavilhão Marinho (no Hotel Savoy), o Cinema Éden, o Praia Oriental (praia de S. Tiago) e o Cine Parque (antigo Cine Jardim). Enquanto as duas primeiras salas tiveram uma existência muito curta, as restantes, ao ar livre, funcionavam apenas no verão.

O mundo rural, com exceção para o Estreito de Câmara de Lobos, que teve a sua primeira sala em 1926 (MARQUES, 1997, 51), viu aparecer as primeiras salas de cinema na déc. de 30. A primeira surgiu em São Vicente (Salão Teatro Gil Vicente, 1931) e funcionou até à déc. de 70, seguiram-se Câmara de Lobos (Salão Central, 1936) e Ponta do Sol, onde em 1934 foi construído um edifício de raiz para o efeito que operou durante décadas, o Cine Sol.

Em 1940, foi inaugurado o Cine Parque, que, após a remodelação realizada por João Firmino Caldeira, se tornaria a sala mais conhecida do Funchal nessa época, com a projeção de várias películas em antestreia nacional. No Funchal dos anos 40, havia cinema comercial na praia de São João, na esplanada de São Tiago, no Casino da Madeira, na esplanada do Carvalheiro, no solar D. Mécia, no Royal Coliseu (Almirante Reis) e na praia Oriental (ibid., 73; SILVA, 1998, 35). No inverno, estes locais, todos ao ar livre, ficavam condicionados pelo estado do tempo. Em 1942, foi inaugurado o já referido Cine Jardim (ibid., 35).

Durante a Segunda Guerra Mundial, o cinema era das poucas atividades de lazer da população da ilha. À semelhança de épocas anteriores, a distribuição de filmes era difícil. Analogamente ao conflito anterior, alguns dos filmes exibidos eram de natureza propagandística, versando a temática da guerra, como A Retirada de Dunquerque, com Tyronne Power, e Sangue, Suor e Lágrimas. Com o fim do conflito, o público madeirense pôde visionar filmes de produção norte-americana, francesa (mais rara) e portuguesa; eram apreciados todos os géneros cinematográficos. Os diversos locais estavam vocacionados para diferentes tipos de filmes: enquanto alguns espaços exibiam cinema de cariz popular e de aventuras, o Teatro Manuel de Arriaga e o Cine Parque pendiam para as fitas de maior qualidade (id., 36-37).

A déc. de 50 caracterizou-se pelo regresso de João Firmino Caldeira, que por conflitos com a CMF se tinha afastado do cinema, e pela sua aquisição do Cine Parque, bem como pelo seu conflito com João Jardim, proprietário do Cine Jardim. A concorrência entre estas duas salas era feroz e visível através da publicidade e das promoções constantes.

Nos anos 60, após uma época de menor bulício (décs. de 40 e 50), assistiu-se a uma modernização das salas e ao aparecimento do cineclubismo. A inauguração do Cinema João Jardim, espaço moderno e flexível, deu-se em 1966. Aqui, a distribuição da sala, os tipos de cadeira e o preço dos bilhetes promoveram uma distinção social semelhante à do início do século. Tornou-se na sala de maior sucesso do Funchal até ao aparecimento do Cinema Santa Maria e do Cine Casino, funcionando até 1982. Em 1972, João Firmino Caldeira e João Jardim afastaram-se do meio cinematográfico e foram substituídos pelos filhos, que associaram os cinemas a grandes empresas de distribuição, a Lusomundo e a Intercine.

Ainda na déc. de 60, concretamente em 1966, surgiu o Cine Fórum, criado a partir do Cine Clube do Funchal, que fora formado em 1955, pela mão de António Aragão. Associado à Liga Universitária Católica, o Cine Fórum do Funchal, onde teve um papel determinante José Maria da Silva, tinha como principais propósitos a projeção, o comentário e a discussão de filmes; a criação de grupos de cinema experimental; a divulgação de cinema e de uma cultura cinematográfica na imprensa local; a organização de colóquios, conferências e de uma biblioteca especializada. Foi, até 25 de abril de 1974, a única entidade a promover a cinematografia independente e menos comercial (MARQUES, 1997, 103-104), tendo tido uma “longa vida” até ao início do séc. XXI.

O Teatro Municipal ocupou, nos anos 70, um lugar de destaque na exibição de cinema, desde o mais comercial, passando pelo clássico, pelo cinema de autor, até aos géneros mais marginais, facto que levou a uma reorganização da sala por parte da CMF, no final da década. Esta reestruturação tornou esta sala, na déc. de 80, num local de excelência, associado a ciclos de cinema que permitiam aos madeirenses desfrutar de filmes que de outro modo nunca poderiam ver, e à projeção de cinema clássico. Porém, nesta década, várias salas foram encerradas, como o Cinema João Jardim (em 1982) e o Cine Parque (em 1988).

A década seguinte assistiu à remodelação de algumas salas, como o Cinema Santa Maria, e à abertura de outras, designadamente o Cine Deck, o Cine Max e o Cinema D. João, que tiveram uma curta duração, devido à crise dos espectadores de cinema nos anos 90, provocada pela concorrência do vídeo.

No início do séc. XXI, várias salas foram encerradas e verificou-se a abertura de cinemas multissalas, associados a grandes distribuidoras. Os filmes exibidos nestes espaços são, geralmente, de cariz comercial. O cinema alternativo (festivais e mostras de cinema) está particularmente associado ao Teatro Baltazar Dias. De entre os festivais de cinema destacam-se o Funchal Internacional Film Festival e o Madeira Film Festival. O primeiro, realizado entre 2005 e 2011, foi responsável pela vinda de importantes nomes da sétima arte à Madeira, como Vitoria Abril (2005), Susannah York (2007), Claudia Cardinale (2008) e Geraldine Chaplin (2010). Por sua vez, em 2012, estreou-se o Madeira Film Festival, associado à Laurissilva e à natureza,

Fora do Funchal também houve mostras e festivais de cinema, nomeadamente o de curtas-metragens do Centro das Artes Casa das Mudas, na Calheta, o Mudasfest; o Madeira Micro International Film Festival (Microfilm Festival), na estalagem da Ponta do Sol e na Galeria dos Prazeres; o Madeira Island Surf Film Festival, no Paúl do Mar; e a Bienal do Porto Santo, com mostras de cinema e vídeo artístico.

É de salientar ainda, neste início do séc. XXI, o ressurgimento do cineclubismo, nomeadamente através do Clube Universitário de Cinema da Universidade da Madeira e do projeto Cineamina, que promovem ciclos de cinema e de debate. Esta última iniciativa, com o ciclo Cineterraço, no Estreito de Câmara de Lobos, como homenagem ao primeiro cinema localizado fora do Funchal.

A produção regional

A produção de cinema na Madeira, realizada por locais, nacionais e estrangeiros, teve algum relevo, demonstrando-o a criação de um museu de imagem com um espólio admirável: o Museu Photographia “Vicentes”. As primeiras produções cinematográficas na região, como em toda a Europa, foram registos documentais, a que chamamos “vistas” ou “quadros”, produzidos por portugueses e estrangeiros, e estão normalmente relacionados com a Madeira enquanto atração turística. Um dos primeiros registos é relatado pelo Diário de Notícias de 14 de março de 1899, onde surge um apontamento referente a um pequeno filme da autoria de John Benett-Stanford, inglês de férias na ilha, e que data, curiosamente, de 1899. De acordo com a descrição apresentada no periódico, podemos dizer que estávamos já perante algo bastante elaborado para a época e para os meios disponíveis. Do mesmo ano, encontrámos também Climbing Madeira Mountain, Oxen Hauling Up Surf Boats at Madeira, Panorama of Madeira I e Panorama of Madeira II; e, de 1912, A Visit to Madeira.

O primeiro filme de ficção madeirense conhecido, O Cerco de Safim, datado de 1913, é da autoria de João dos Reis Gomes (1869-1947), tendo as filmagens ficado a cargo de André Valldaura, operador da Companhia Cinematographica de Portugal. No filme, representava-se uma cena da peça de teatro Guiomar Teixeira, que foi exibida em simultâneo com a representação em palco. Esta peça teve por base a novela histórica A Filha de Tristão das Damas, criação de João dos Reis Gomes. Terá sido o primeiro dramaturgo, em Portugal, a fundir a ação do cinema com a do teatro.

Em março de 1923, o Correio da Madeira divulgou a visita à ilha de Robert Alexander, operador cinematográfico da Casa Pathé, enviado à Madeira pela Sociedade Propaganda de Portugal para filmar os aspetos mais pitorescos da região. Alfredo Guilherme Rodrigues promoveu o seu encontro com Francisco Bento de Gouveia, um dos nomes incontornáveis na produção cinematográfica madeirense.

Na déc. de 20, destacaram-se Francisco Bento de Gouveia e Manuel Luiz Vieira. Em 1922, tendo como diretor e proprietário o primeiro e como operador o segundo, foi criada a Madeira Film, ponto de partida para a realização e produção de películas inteiramente regionais, com divulgação nacional e internacional. São exemplo da sua produção alguns filmes de reportagem (como a visita do presidente da República à Madeira e a passagem dos aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral), várias “vistas” da ilha, o documentário sobre a comemoração do 5.º Centenário da Descoberta da Ilha da Madeira. Esta película, de aproximadamente 36 minutos, que seria vista nos ecrãs dos cinemas de todo o mundo, foi enviada para Lisboa em março de 1923.

O ano de 1926 foi muito profícuo a nível de produção de ficção madeirense. O primeiro grande sucesso foi A Calúnia, primeiro filme dramático madeirense, em oito partes, produto da Empresa Cinematográfica Atlântida, fundada por Manuel Luiz Vieira. Esta película foi representada por um elenco inteiramente madeirense e amador.

O Fauno das Montanhas, também de Manuel Luiz Vieira, é uma curta-metragem dramática de cerca de 40 minutos, em quatro partes. Com filmagens efetuadas em estúdio e no Rabaçal, nas Vinte e Cinco Fontes, este filme “pertence às raras incursões do cinema português no terreno do fantástico, sendo, por isso, obra precursora” (PINA, 1986, 42). O filme estreou a 11 de maio de 1927, no Teatro Circo, juntamente com A Indigestão, filme cómico em duas partes, do mesmo autor. O Fauno das Montanhas foi exibido comercialmente apenas três vezes, tendo sido retirado pela censura, em 1929. Curiosamente, uma das exibições deu-se no Patronato de S. Pedro, local onde a maioria dos filmes exibidos eram de cariz religioso.

Foi na área do documentário que Manuel Luiz Vieira alcançou grande destaque. Da sua autoria, o filme Chegada de Ruth Elder alcançou sucesso internacional, com estreia em Paris, em outubro de 1927. Trata-se de um documentário que relata a chegada da solitária aviadora americana após um acidente nos mares dos Açores, a 12 de outubro de 1927, num local onde Manuel Luiz Vieira se encontrava, permitindo o registo do resgate. Ainda no final da década, há a registar vários documentários nos quais o realizador esteve envolvido, como a reportagem da vinda dos aviadores João Moreira de Campos e José das Neves Ferreira, na sequência do raide aéreo Lisboa-Madeira-Açores, exibida em 1927; Reid’s Palace Hotel, de 1929; e alguns desafios de futebol no campo Almirante Reis, da responsabilidade de Óscar Lomelino, fundador da produtora Globe Film.

Na déc. de 30, destaca-se a produção documental madeirense ou filmada na ilha. Neste âmbito, salientamos o documentário sobre a Revolta da Madeira (Empresa Nacional de Publicidade, 1931); A Festa de S. Pedro na Ribeira Brava (Globe Film, 1933); Tapeçarias de Flores (Manuel Luiz Vieira, 1936); Serra e Mar e Bailados Populares Madeirenses (ambos de Manuel Luiz Vieira, 1937); A Cultura da Banana na Ilha da Madeira (Salazar Dinis para os Serviços Cinematográficos do Ministério da Agricultura, 1937); A Pérola do Atlântico (Heinrich Gartner, 1937). Para além destes, há a registar curtas-metragens da responsabilidade da Foto Figueira, nomeadamente aquando da deslocação à Madeira do presidente da República, Óscar Carmona, em 1938 (MARQUES, 1997, 65).

A produção estrangeira (ficção e documentário) também se fez sentir na ilha. No âmbito da ficção, assinalamos: Porque Mentes, Menina Kate? (F. Jacoby, 1934); Die Finanzen des Großherzogs (Gustaf Gründgens, 1934); The Marriage of Corbal (Karl Grune, 1935/36); Les Mutinés de L’ Elsinor (P. Chenal, 1936); e Love Affair (McCarey, 1939). No campo do documentário, destacamos: Madeira: A Garden in the Sea  (1931); Cruising the Mediterranean  (André de la Varre, 1933); Madeira: Jardim do Oceano (Dawley, 1933); From London to Madeira (Capitol Films, 1935); Escala na Madeira (René Ginet, 1935); e Madeira: ‘Isle of Romance’ (1938).

O filme A Canção da Terra (Jorge Brum do Canto, 1938) ocupa um lugar de grande destaque na produção nacional. Trata-se de uma obra não documental, sem atores ou atrizes profissionais, filmada maioritariamente no exterior (foram registados 9000 m de fita de exteriores (SOUSA, 1998, 40)). A película foi inteiramente rodada no Porto Santo. A Canção da Terra, retrato das dificuldades do povo porto santense, foi filmado segundo as regras da corrente neorrealista (MARQUES, 1997, 70) e tem, a nível estético, influências do cinema russo (SOUSA, 1998, 44). A estreia aconteceu no Teatro Arriaga, em 1938.

Na déc. de 40 não se registou grande dinamismo na produção cinematográfica. A guerra dificultava as deslocações e o clima de insegurança não era propício para o sector. Todavia, podemos destacar alguns documentários: Festival Barrinhas (Joaquim Figueira, 1943); A Viagem de Sua Eminência, o Cardeal Patriarca de Lisboa (António Lopes Ribeiro e Manuel Luiz Vieira, 1945); A Visita de Nossa Senhora de Fátima à Madeira (Manuel Perestrello, 1948); Vi Seiler (Toralf Sandø, 1948); Madeira 48 e Madeira 49 (Francisco Ezequiel Evaristo); Portugal als Veinland e Vinhos de Portugal (curtos documentários sobre a vinicultura madeirense, 1949); e um documentário sobre o arquipélago (João Braz, 1949), que foi vendido a distribuidores americanos (MARQUES, 1997, 79-80). No círculo ficcional, apontamos o filme madeirense O Segredo, realizado por Teodoro Silva, em 1947, que, embora anacronicamente mudo, parece ter obtido grande sucesso (SILVA, 1998, 38).

Uma figura memorável do cinema nacional e regional é o madeirense Virgílio Teixeira (1917-2010). Em meados da déc. de 40, o ator foi muito solicitado, atravessando uma fase de intenso trabalho. Em Hollywood, participou em algumas películas como ator secundário. Aves de Arribação (Armando de Miranda, 1943) marcou o início da sua carreira, seguindo-se-lhe vários filmes nacionais e estrangeiros. Virgílio Teixeira desempenhou o papel principal em vários dos filmes em que entrou, como p. ex. José do Telhado (Armando de Miranda, 1945), Ladrão, Precisa-se (Jorge Brum do Canto, 1946), entre outros (CLODE, 2007, 44-71). Participou, ainda, nas séries televisivas Hotel Bon Séjour (Ferrão Katzenstein, 1998), gravada na freguesia do Monte, no Funchal, e n’A Casa da Saudade (Filipe La Féria, 2000). Em 2006, o Festival de Cinema do Funchal distinguiu-o com o prémio de carreira (Expresso XL, 2010). Além de Virgílio Teixeira, outros madeirenses se destacaram como atores: Teodoro Silva, Carlos Velosa, Magda Coelho, João Sabino e Jorge Cardoso Nunes (SILVA, 1998, 38).

Nos anos 50, na Madeira, realizaram-se vários filmes, principalmente documentários, tanto de autores nacionais como estrangeiros. De entre estes, Pérola do Atlântico, realizado por Fernando Sousa, em 1950. A Delegação de Turismo da Madeira encomendou, em 1956, três filmes para divulgação da ilha no estrangeiro: Funchal: Cidade do Oceano, Fisionomia de uma Ilha e outro, desconhecido, todos do alemão Bernard Resdelzki. Nesse mesmo ano, a Campanha Nacional de Educação para Adultos incumbiu a equipa de Ricardo Malheiro de realizar três documentários: A Ilha que Nasce do Mar, Madeira, uma Canção e A Ilha das Mãos de Fada. Os temas abordados eram variados, desde a economia local (Perdigão Queiroga realizou dois documentários sobre os bordados e a indústria dos laticínios locais), passando pelas festividades (Fim do Ano na Madeira, com locução de Fernando Pessa e fotografia de Aquilino Mendes), até ao lazer (Primeiro Cruzeiro de Pescarias às Ilhas Adjacentes, realizado por Aurélio Rodrigues) e cultura (Arte Sacra, António Lopes Ribeiro, 1960) (MARQUES, 1997, 90-91, 103).

Nesta década, de autores estrangeiros, encontrámos Madeira Story, da responsabilidade de uma equipa inglesa, mas contando com o apoio de artistas e autoridades madeirenses, que se estreou em Londres (id., 89); Moby Dick (John Huston, 1956) e Windjammer: The Voyage of the Christian Radich (Bill Colleran, Louis De Rochemont iii, 1958).

A Madeira foi palco de várias filmagens nacionais e estrangeiras nos anos 60 e 70. Podemos destacar A Ribeira da Saudade (Felipe de Solms, 1961), PXO (1962), As Ilhas Encantadas (Carlos Vilardebó, 1965), Realidades Portuguesas IV (Miguel Spiguel, documentário, 1965), Portugal de Hoje (J.N. Pascal-Angot, documentário, 1967), The Pearl of Atlantic (José Fonseca e Costa, 1968), The Columbus Route (José Fonseca e Costa, 1969), Un Capitán de Quince Años (Jesús Franco, 1974), Madeira, Island and its People (Norman Mackienzie, 1972), Madeira, Primavera Eterna (Miguel Spiguel, 1972), Madeira e a sua Flora (Alice Gabriela Gamito, 1973), As Ilhas da Salvação (Hélder Mendes, 1974-76), Madeira, Jardim Flutuante (António Escudeiro, 1974), Colonia e Vilões (Leonel Brito, 1977), Madeira nossa Ilha (José Luís Cabrita, 1977), Bem vindos à Madeira (António de Sousa, 1979) e Madeira (Hélder Mendes, s.d.). Em 1966 e 1967 filmaram-se três episódios da série televisiva The Rat Catchers (Bill Hitchcock, 1966): Death in Madeira  (1966), Mission to Madeira (1966) e Midnight Over Madeira (1967).

A ficção, género escasso nos anos anteriores, dominou a déc. de 80. Estes filmes, além de produzidos na Madeira, envolveram atores madeirenses, profissionais e amadores. Jesús Franco, em 1981, realizou Linda; Raul Ruiz, Les Trois Couronnes du Matelot (1983), Point de Fuite (1984) e Manuel na Ilha das Maravilhas (1984); Barbet Schroeder, Les Tricheurs, com Virgílio Teixeira (1983); Valeria Sarmiento foi responsável por Notre Mariage (1984) e Quirino Simões produziu Eternidade (1989). No documentário, realizaram-se, em 1983, Madeira, Ilha das Mil Cores (António de Sousa) e Travessia – Viagem à Memória do Tempo (António Escudeiro); em 1986, A Tartaruga Marinha (João Ponces de Carvalho).

António Cunha Telles, produtor e realizador, é um nome fundamental para o cinema madeirense das décs. de 60, 70 e 80. Fundador das Produções Cunha Telles, surge associado a filmes produzidos no arquipélago da Madeira, como Vacances Portugaises (Pierre Kast, 1961), Max Canta Três Canções (Herlander Peyroteo, 1962), As Ilhas Encantadas (1965) e Ennemis Intimes (Dennis Amar, 1987).

Na mudança de século, fitas com algum destaque foram cinematografadas no arquipélago: Até Amanhã, Mário (Solveig Nordlund, 1994), filmada no Funchal e Câmara de Lobos, abordando a pobreza, foi uma película polémica na época; o documentário Madeira Desconhecida (João Ponces de Carvalho, 1996); o drama Porto Santo (Vicente Jorge Silva, 1997), gravado integralmente no Porto Santo; a comédia 6 auf See (Peter Ponnath, 2000); Cristóvão Colombo – o Enigma (Manoel de Oliveira, 2007), uma coprodução luso francesa, foi filmado em várias localidades dos EUA e Portugal, tendo sido o Porto Santo uma delas; baseada no romance homónimo de Agustina Bessa-Luís, A Corte do Norte (produção de António de Cunha Telles, realização de João Botelho, 2008) foi filmada em várias localidades portuguesas, das quais Ponta Delgada e São Jorge, na Madeira, fazem parte. Da mesma época, destacamos as minisséries, total ou parcialmente rodadas na Madeira, Hotel Bon Séjour  (Ferrão Katzenstein, 1998) e Sete Mares (1999); as séries televisivas Morangos com Açúcar (2003), The Bachelorette (2003), Kreuzfahrt ins Glück (Hans-Jürgen Tögel, 2007), Menschen am Wasser (Lourdes Picareta, documentário, 2007), Flor do Mar (Paulo Brito e Nuno Franco, 2008), As Ilhas Desconhecidas (Vicente Jorge Silva, 2009) e Dias Felizes (2010). Nas curtas-metragens, evidenciam-se Endless Memories (Dinarte de Freitas e Eduardo Costa, 2009) e Full House (Bruce Paulino da Silva e Rui Dantas Rodrigues, 2010), uma vez que foram selecionadas para o Festival de Cannes, na secção de curtas.

Ainda na déc. de 10 do séc. XXI, arrolamos os documentários Orlando Ribeiro: Journey of a Geographer (Manuel Carvalho Gomes e António João Saraiva, 2011) e Sisi: The Whole Truth (Mario Vinci, 2012); as séries televisivas, Madeira Cultura (Filipe Ferraz, 2012) e Saare Sosinad (Kertu Köösel e Mihkel Robam, 2012); e uma curta-metragem The Tree of Pan (Aitken Pearson, 2012), que foi exibida apenas em festivais de cinema. Neste início de século, é importante o papel desempenhado pelas produtoras regionais Eduardo Costa Produções e Die 4 films.

Bibliog.: impressa: CLODE, Pedro, “Virgílio Teixeira e o Cinema Português da Década de 40”, Islenha, n.º 40, jan.-jun. 2007, pp. 39-72; MARQUES, João Maurício, Os Faunos do Cinema Madeirense, Funchal, Editorial Correio da Madeira, 1997; MOUTINHO, José Viale, Manuel Luiz Vieira. A Vertigem do Mundo ao Sonoro, Funchal, Die4Films, 2013; PINA, Luís de, História do Cinema Português, Mem Martins, Publicações Europa-América, 1986; SILVA, António Ribeiro Marques da, “A Guerra de 39-45, e o Funchal. Cinemania”, Margem, n.º 9, 1998, pp. 35-38; SOUSA, Pedro Clode de, “A Canção da Terra, de Jorge Brum do Canto. Anos 30 e 40: O Estado Novo e o Cinema”, Islenha, n.º 21, jul.-dez. 1997, pp. 63-77; id., “A Canção da Terra, de Jorge Brum do Canto”, Margem, n.º 9, 1998, pp. 39- 44; digital: ALMEIDA, Ana Paula Teixeira de, Lugares e Pessoas do Cinema na Madeira. Apontamento para a História do Cinema na Madeira de 1897 a 1930, Funchal, CEHA, 2010 (CD-Rom); “Most Popular Titles with Location Matching ‘Madeira, Portugal’”, IMDb.: http://www.imdb.com/search/title?locations=Madeira%2C%20Portugal&ref_=ttloc_loc_6> (acedido a 2 fev. 2015); “Morreu o ator Virgílio Teixeira”, Expresso XL, 6 dez. 2010: http://expresso.sapo.pt/morreu-o-ator-virgilio-teixeira=f619659#ixzz2e1wG5XF4> (acedido a 2 fev. 2015).

Ana Paula Teixeira de Almeida

(atualizado a 26.07.2016)