coito, manuel jesus

Conhecido como o “poeta de Punchbowl” e o “poeta de Honolulu”, Coito nasceu na Madeira, mas morou quase toda a vida em Honolulu, Havaí, onde escreveu muitos poemas e fados. Foi a neta do autor, Jeanne Kahanaoi, que encontrou todas as obras do poeta em casa, numa caixa. Depois da descoberta, o professor Edgar C. Knowlton Jr., da Univ. de Havaí, Manoa, traduziu os poemas em prosa para compartilhar as obras de Coito com o mundo. Quatro poemas aparecem na compilação de Gavan Daws e Bennett Hymer, Honolulu Stories: Voices of the Town Through the Years (2008).

Palavras-chave: poesia; Havaí.

Manuel Jesus Coito (Madeira, 1 jan. 1876-Honolulu, 2 abr. 1957) foi conhecido como “O Poeta de Punchbowl” e “O Poeta de Honolulu”. Coito nasceu na Madeira, mas viveu quase toda a vida em Honolulu, Havaí, onde escreveu muitos poemas e fados, que a neta, Jeanne Kahanaoi, encontraria mais tarde em casa da família. Alguns deles tinham sido publicados em jornais portugueses do Havaí (publicaram-se vários jornais em português entre 1880 e 1920, época em que a maioria dos emigrantes portugueses chegou às ilhas) e quatro poemas aparecem em Honolulu Stories: Voices of the Town through the Years.

Manuel Jesus Coito nasceu em Paul do Mar, um lugar onde se chegava somente por barco ou cruzando as montanhas a pé. Os pais, Frederico Coito e Maria Conceição Coito, morreram jovens; Manuel Jesus era um dos sete filhos. Quando tinha 10 anos, partiu da ilha de Madeira para Honolulu, Havaí, onde chegou com 11 anos no navio Stirlingshire, a 4 de março de 1886, com os seus tios António Joaquim de Freitas (de 36 anos), natural de Calheta, Madeira, e Maria Violante de Freitas (24 anos) e os dois filhos deles, Henry Freitas (oito anos) e Maria (três anos).

Como tantos milhares de portugueses que chegavam a Honolulu nessa época (quase 16 mil) para começar uma vida nova no Havaí, a família trabalhava na indústria agrícola e no comércio. As famílias dos emigrantes portugueses tinham as suas próprias escolas e associações culturais, para manter a língua e os costumes de Portugal. Sabemos que o poeta trabalhou muitos anos num armazém da American Factors Ltd. e, enquanto a família mantinha uma pequena loja, ele escrevia para os jornais portugueses de Honolulu (O Luso, O Público), e em casa tocava violão e cantava. Pelos jornais portugueses do Havaí, sabemos que era ativo na vida social dos imigrantes portugueses. No ano de 1910 – com 24 anos – Coito era secretário da Sociedade Lusitana Beneficente de Havaí.

Manuel Jesus Coito usa uma quadra para mote do que vai escrever, e desenvolve as ideias em décimas (conjunto de 10 versos), em que a última estrofe é a primeira estrofe da quadra e assim por diante. Vê-se que foi educado como republicano, com ideias antinobreza e antimonarquia – instituições encaradas como causadoras de todos os males da Pátria – e anti-Igreja, defendendo a separação entre a Igreja e o Estado e a necessidade da instrução do povo, e reagindo à tentativa de pedir auxílio a potências estrangeiras, neste caso concreto, a Inglaterra.

O poeta menciona nos poemas figuras históricas importantes como Vasco de Gama, Afonso de Albuquerque, D. Manuel I, D. João IV, Manuel de Arriaga (o primeiro presidente da República, eleito em 1911), e os descobridores e primeiros governadores da Madeira – João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira. Escreve também sobre autores famosos: Luís Vaz de Camões (Os Lusíadas), Guerra Junqueiro, Thomaz Ribeiro e João de Deus.

A geografia teve um papel importante nos escritos de Manuel Jesus Coito, que menciona muitos lugares em Honolulu, mas escreve também sobre acontecimentos em diferentes partes do mundo lusófono: Funchal, Jardim do Mar, Paul do Mar, Madeira, Lisboa, Coimbra, Bragança, Galiza, Brasil, Angola e Moçambique; e ainda sobre alguns eventos históricos em Portugal (a Restauração de 1640 e a implantação da República).

O poema “Ainda a Lusitana” (“The Lusitana Again”), de 1908, ilustra o estilo do autor. O seguinte exemplo está na versão original do poeta acompanhado pelas traduções do Dr. Edgar Knowlton:

 

Ainda a Lusitana (1908)

Continua a Lusitana

Na sua marcha dourada,

Que está à testa da gerência

A ilustre rapaziada.

Com orgulho caros sócios

Desta áurea sociedade

Chegamos a nova idade

Prosperam nossos negócios;

Letargos, passados ócios,

Atrasos da sorte humana,

Morreram… que salva ufana

Para o nosso bom sucesso:

Numa marcha de progresso

Continua a Lusitana.

No Alapai e Lunalilo,

Eis o nosso advento

Levanta-se um monumento

Para nosso maior brilho;

Levantai lusos o trilho

Que a época abrilhantada

Da Sociedade, e chegada

Para um futuro brilhante,

Vai a passos de gigante

Na sua marcha dourada.

Passou-se já a tempestade

Dando entrada a nova era,

Já agora se considera

Mais sólida a Sociedade,

Viva, viva a mocidade

A energia, a diligência,

Fique longe a discórdia

O tropeço, a letargia,

Siga-se a ordem do dia

Que está à testa da Gerência.

Com grande satisfação

Vejo, com imensa glória

A página de ouro na história

Da nossa instituição.

Siga a paz e união

Que há tanto é desejada

Seja por Deus bem fadada

Para sempre no futuro,

Fará um tesouro seguro

A ilustre rapaziada.

The Lusitana Again (1908)

The Lusitana continues

In its golden march

For at the head of things are.

The illustrious young people.

With pride, oh dear members,

In this golden society,

We reach a new era

Our business is prospering;

Lethargy, idleness gone by,

Delays of human fortune.

Have died … what a proud salute

For our good success;

In a march of progress

The Lusitana continues.

On the corner of Alapai and Lunalilo

Behold our coming …

A monument has been erected

For our greater glory;

Raise, Portuguese, the song

For the brilliant future,

Of the Society, and arrival

For a bright future,

It goes in gigantic steps

In its golden march.

The storm is now over

Giving rise to the new era.

Now one considers already

The society to be more solid;

Long live, long live the young people,

Energy, diligence,

Away with all discord,

Stumbling, lethargy,

Let the order of the day be followed

Which is at the head of things.

With great satisfaction

I see, with immense glory

The page of gold in the history

Of our institution,

Let peace and union

Which have so long been desired

He well fated by God.

For always … in the future,

A certain treasure will be made by

The illustrious young people.

(A Lusitana era uma associação portuguesa de Honolulu; Alapai e Lunalilo são ruas em Honolulu)

Poema cedido por cortesia de Jeanne Kahanaoi.

Bibliog.: impressa: DAWS, Gavan e HYMER, Bennett, Honolulu Stories: Voices of the Town through the Years, Honolulu, Mutual Publishing, 2008

Paul M. Chandler

Ana Isabel Costa Spranger

(atualizado a 04.10.2016)