colombina, francisco tosi

A defesa e a fortificação da Madeira foram várias vezes revistas ao longo do séc. XVIII, tendo como centro de atenção a baía e o porto do Funchal, mas da documentação iconográfica e das memórias dos projetos enviados para Lisboa, tal como das cópias que obrigatoriamente ficavam no Funchal, quase nada chegou até nós, como aconteceu com o material do engenheiro Francisco Tosi Colombina, ou Tossi Colombina. Natural de Génova, onde nascera em 1701, estava no Brasil em 1734, onde depois participou ativamente na campanha cartográfica por ocasião do tratado de limites de Madrid, de 1750, havendo inúmera cartografia brasileira que lhe é atribuída na década seguinte.

O governador Manuel de Saldanha de Albuquerque e Castro (1712-1771) tomou posse do governo da Madeira a 16 de maio de 1754, devendo ter sido confrontado pouco depois com a necessidade de construção de um cais de acostagem no Funchal e iniciado, no ano seguinte, os contatos para encontrar um engenheiro capaz de dirigir essas obras. Teria sido neste quadro que Tosi Colombina foi para o Funchal, na Madeira pelos finais de 1755, altura em que se prontificou a executar as obras do porto. Não são muito compreensíveis os contatos deste engenheiro em relação às obras do porto do Funchal, pois, em carta de 15 de janeiro de 1756, alvitra o governador ao secretário Diogo de Mendonça Corte Real a conveniência de enviar este engenheiro à América, onde parece ter estado nos primeiros meses de 1756, em princípio para resolver assuntos pessoais pendentes.

A situação em Lisboa foi catastrófica nesses meses face ao terramoto de 1 de novembro de 1755, que destruiu parcialmente a cidade, no entanto Colombina recebeu a patente de capitão de infantaria, com exercício de engenheiro, por dec. de 25 de fevereiro, confirmação de 11 de março, e apresentou-se no Funchal a 5 de junho de 1756, vencendo um soldo de 32$000 réis enquanto estivesse na ilha. Entre essas datas, foi enviada, a 22 de março de 1756, do palácio de Belém, ordem para a execução do porto, parecendo já ter chegado nessa altura a Lisboa, pelo menos, um pré-projeto do que se pretendia fazer.

Poucos dias depois da chegada do engenheiro, o governador Manuel de Saldanha de Albuquerque, em carta de 15 de junho, congratulava-se com a autorização, acrescentando que, concluída a obra, “seria de grandíssima utilidade, não só aos moradores desta Ilha e às Nações que nela comerciam”, pois que, com um porto seguro, “concorreriam duas vezes, em dobro” e fariam escala no Funchal os navios que se dirigiam para os estabelecimentos da América e Índias, “vindo aqui invernar”, assim como pelos direitos de ancoragem, carga e descarga, de que beneficiaria a fazenda real (AHU, Madeira, docs. 65 e 67). Com data de 25 de outubro o Conselho da Fazenda disponibilizava a quantia de 1200$000 réis e informava que, se fosse necessário, se daria mais (ANTT, Provedoria da Junta da Real Fazenda do Funchal, liv. 974, fl. 24).

Em carta da mesma data, em que o governador se congratula com a aprovação real das obras, não deixa de colocar algumas restrições ao modo de “fortificar debaixo de água” com uma muralha de fundo de mais de 43 braças e de quatro e meia de largura “na superfície da parada”. Acrescenta assim duvidar que fosse bastante para resistir ao ímpeto das águas, opinião confirmada pelo temporal de alguns meses depois, que quase destruiu a obra feita até então, colocando ao governador algumas dúvidas sobre a capacidade do engenheiro para uma obra daquela envergadura. Colombina tivera uma atuação notável no Brasil na área das acessibilidades interiores, na cartografia e no urbanismo, mas não se lhe conhecia até então qualquer prática em obras de hidráulica.

A 29 de julho de 1757 o governador dava conta a Lisboa do bom ritmo das obras, descrevendo que já se havia consultado as nações estrangeiras para concordância e apoio às obras, assim como se encontravam em pagamento as expropriações dos terrenos para a construção do “caminho novo”, que ligaria o novo cais à cidade, por debaixo dos arrifes de Santa Catarina. Na mesma data, o provedor da fazenda, Manuel Teixeira de Castro, confirma as informações do governador, acrescentando que, com o desenvolvimento geral do comércio, também seriam necessárias obras em Santa Cruz, Machico e Ribeira Brava. As obras do molhe de acostagem, entretanto, desencadearam uma campanha geral de apoio, levando o sargento-mor do Funchal, Aires Teles de Meneses, a propor, a 26 de agosto de 1756, a participação de todos os soldados das ordenanças nas obras.

Entretanto, a posição e as opiniões do Eng.º Tosi Colombina, transmitidas a 13 de novembro e 14 de dezembro de 1756 e a 18 de abril seguinte, apresentavam já francas reservas quanto à situação, e, na primeira carta, informava não poder enviar o novo “plano e modelo” por duas razões: primeiro, porque “não estava acabado”; segundo, porque se encontrava em trabalho “para colmatar alguns estragos feitos pelo mar” (AHU, Madeira, doc. 72). Teria assim de ser revisto o orçamento inicial, devendo ser necessários mais 500$000 a um conto de reis para total segurança da obra, para além do arranjo do caminho de 380 braças, desde a obra até à muralha da cidade, junto da ponte de São Lázaro (AHU, Madeira, docs. 86-89).

O plano e modelo do porto, que não chegaram até nós, seriam enviados a 18 de abril de 1757, sabendo-se, porém, que o engenheiro se queixava do provedor Manuel Teixeira de Castro e dos “embaraços e faltas de assistência precisas para o progresso das obras”, chegando a pedir que fosse substituído nas obras do porto (AHU, Madeira, docs. 72, 82 e 83). A posição foi apoiada pelo governador, que na mesma data congratulou o zelo e atividade do engenheiro em prol das obras, pedindo a substituição do provedor Manuel Teixeira de Castro pelo então escrivão Domingos Afonso Barroso.

O rei D. José mandou então preparar uma minuta de carta, apoiando a proposta enviada e comunicando que, sendo informado “plenariamente” (sic) das omissões do provedor da fazenda e das “sinistras interpretações” com que tinha deixado de executar as ordens para superintender as obras, “foi servido cometer ao Governador e Capitão General a administração das sobreditas obras”, esperando com esta providência que se concluísse o porto e cais da ilha com a maior brevidade, “em benefício e utilidade pública do Comércio e da Navegação” (AHU, Madeira, doc. 38). A minuta não passou a carta, mas, em julho de 1757, o provedor foi repreendido pelo secretário de Estado e afastado do controlo das obras, que passavam para a administração direta do governador e para as quais lhe foram entregues 3000 cruzados (ANTT, Provedoria da Junta da Real Fazenda do Funchal, liv. 974, fl. 24-24v.).

As obras ainda conheceram contratempos, sendo novamente fustigadas pelo temporal de 4 de novembro desse ano de 1757, quando o governador se retirara para continente, temporal que desfez uma vez mais parte do trabalho, provocando ainda outros estragos. Mas as obras reiniciaram pouco tempo depois e terminaram, numa primeira fase, por volta de 1762, ligando o ilhéu e o novo forte a terra, mas já sem a presença do engenheiro italiano.

O Eng.º Tossi Colombina dirigiu assim a construção do forte de São José, no chamado ilhéu pequeno, em homenagem ao rei de Portugal, frente à fortaleza da Penha de França , destinado a proteger o cais da Pontinha então em execução. A fortificação desenvolvia-se em dois andares, com canhoneiras essencialmente viradas para poente, dada a proteção efetuada para nascente do cais da Pontinha ser feita pela fortaleza do ilhéu de Nossa Senhora da Conceição, que não sabemos se não teria sido na campanha de obras destes anos que teria adquirido a atual forma quadrangular. Teria também sido, certamente, por projeto de Francisco Tosi Colombina, reformulada a fortaleza de S. Tiago, mandando o governador seguinte exarar em lápide sobre a nova porta de armas, que mandara vir de Londres, 50 peças para fortaleza e a indicação do ano de 1767.

As dificuldades de avaliação da autoria das obras, tão cara nas sociedades atuais, especialmente nas áreas militares, eram então algo irrelevantes, pois os projetos eram coletivos, para além de irem sendo reformulados entre o Funchal e Lisboa e de governador para governador, principal responsável pelas mesmas. Convém salientar ainda que Tossi Colombina veio especificamente como engenheiro para as obras do porto do Funchal, não ocupando o lugar de mestre das obras reais. Este aspeto aponta para o facto de que nunca esteve sob a superintendência do provedor da fazenda, ficando somente sob a do governador, e daí provém a série de complicações ocorridas no decurso das obras do porto e a passagem das verbas para o controlo do mesmo. Compulsando a vária documentação da época, nenhuma obra, salvo a do porto, aparece sob a direção de Tosi Colombina, continuando em efetividade de funções o então mestre das obras reais Domingos Rodrigues Martins (c. 1710-1781), que recebeu nova nomeação no final desse ano de 1757. Tal não invalida, porém, que tenha participado no projeto das mesmas, assim como na reforma de S. Tiago e, inclusivamente, na ampliação da parada da frente-mar da fortaleza de S. Lourenço, reformulada por esses anos.

O governador Manuel de Saldanha de Albuquerque entregava o governo da Madeira em fevereiro de 1757 e, em Lisboa, a 25 de março, era elevado a conde da Ega. O Eng.º Francisco Tosi Colombina ainda ficou no Funchal, mas perdendo a proteção do governador foi afastado e acusado de desvio de fundos, regressando a Lisboa. Quase de imediato, foi aproveitado pelo ex-governador da Madeira, então nomeado como vice-rei da Índia, para o acompanhar ao Oriente, sendo promovido a sargento-mor a 26 de março de 1758; existe na biblioteca do Palácio da Ajuda e na BNP, em Lisboa, inúmera documentação sobre as obras para ali propostas, embora de poucas saibamos se tiveram concretização. O engenheiro Eng.º Tosi Colombina deve ter falecido na Índia pouco antes de 1770, altura em lhe perdemos o rasto na documentação.

Bibliog.: manuscrita: AHU, Madeira, docs. 33, 38, 64, 65, 67, 68, 71, 72, 77, 78, 79, 86, 87, 88 e 89; ARM, Governo Civil, liv. 523; ANTT, Provedoria da Junta da Real Fazenda do Funchal, livs. 973 e 974; BNP, Coleção Pombalina, códs. 643 e 684; impressa: CARITA, Rui, História da Madeira, IV vol., O Século XVIII: Arquitectura de Poderes, Funchal, SRE, 1996; V vol., O Século XVIII; Economia e Sociedade, Ibid., 1999; VITERBO, Sousa, Diccionário Histórico e Documental dos Arquitectos, Engenheiros e Construtores Portugueses, 1899-1922, 3 vols., reed. fac-simile, INCM, 1988.

Rui Carita

(atualizado a 09.06.2016)