colombo, cristóvão

A questão da presença de Cristóvão Colombo em Portugal filia-se, de forma direta, à passagem pela ilha da Madeira e ao debate sobre a possível nacionalidade portuguesa do navegador. No que respeita ao primeiro caso, depois de muitos séculos a questionar a sua presença, que se tornou hoje uma certeza, já ninguém duvida da estância do navegador na ilha, entre 1476 e 1480. Apesar de a documentação disponível sobre a estada de Colombo em Portugal ser escassa, o que permite muitos devaneios de erudição, os poucos dados disponíveis atestam quão importante foi este momento para a preparação do projeto concretizado, em 1492. Quanto à questão da nacionalidade do navegador, que não é apenas um problema português, a polémica parece permanecer, uma vez que continua a ser acalentada por eruditos e historiadores.

Passados mais de 500 anos do feito colombino do descobrimento do continente americano, podemos hoje afirmar que dispomos de um volumoso legado de estudos e ensaios sobre o feito e o navegador, contudo, no caso português, pouco se avançou ainda em termos de conhecimento, mantendo-se até à atualidade uma visão marcadamente nacionalista da questão. Aliás, o nacionalismo historiográfico dominou muito tempo a temática dos Descobrimentos. O facto mais saliente é, sem dúvida, o debate em torno da nacionalidade portuguesa do navegador, que teima em persistir. No caso madeirense, a maior evidência da derradeira comemoração foi, sem dúvida, a plena aceitação da ligação de Cristóvão Colombo à Madeira.

Um suplemento do jornal Le Monde, publicado em setembro de 1991, traça-nos de forma lapidar esta realidade. Edwy Plenel, num texto intitulado “Voyage avec Colomb”, conseguiu recolher a imagem do navegador que se pretende vender. O facto mais significativo é que esta opção não surge na voz dos políticos, mas, muitas vezes, na dos eruditos e historiadores. Assim, podemos constatar uma disputa entre Paolo Emilio Taviani (1984, 1996) e Consuelo Varela (1992). O primeiro realça o génio genovês deste marinheiro e declara que ele projetara o plano da viagem antes de 1476, data em que se fixou em Portugal. Já a segunda historiadora, pelo contrário, releva o convívio em Espanha com os florentinos, os principais acalentadores do projeto, de que resultou a familiaridade com as gentes do mar, em Sevilha ou Cádis. Quanto aos depoimentos dos portugueses, os Profs. Vitorino Magalhães Godinho e Luís de Albuquerque, estes são mais comedidos e apontam falhas à experiência e conhecimentos de navegação. O primeiro nega que Colombo tenha sido um bom marinheiro, uma vez que tudo o que aconteceu em 1492 foi fruto dos conhecimentos dos pilotos que o acompanharam, enquanto o segundo lembra os erros de cálculo e o equívoco da descoberta. Perante isto, o feito é relegado para segundo plano quando comparado com o de Vasco da Gama.

Entre nós, durante muito tempo, optou-se por ignorar esta realidade. Só em 1892, quando os americanos nos fizeram recordar o nosso protagonismo, se animaram os intelectuais, sem que nada de novo surgisse. Na vastíssima produção bibliográfica, surgida entre a época que antecedeu a comemoração do quarto centenário e a déc. de 40 do séc. XX, emergiram as dúvidas sobre uma questão até então dada até então como certa: a nacionalidade de Cristóvão Colombo. De facto, só a partir da centúria oitocentista começaram a surgir opiniões e teorias divergentes, que levaram à criação do Colombo galego, catalão, biscainho, corso, suíço, judeu e português da Madeira.

A publicação, em 1988, de O Português Cristóvão Colombo, de Mascarenhas Barreto, reivindicando a nacionalidade portuguesa do navegador, terá sido o acontecimento editorial que maior atenção despertou em torno das comemorações colombianas em Portugal. O que esta obra faz não é mais do que o retomar de um antigo debate, que ocorreu entre as décs. de 30 e 50 do séc. XX, com contributos de Patrocínio Ribeiro (1927), Pestana Júnior (1928), G. L. Santos Ferreira (1930), Saul Ferreira e Arthur Lobo de Ávila (1939, 1942), A. Gaspar de Naia (1950-51) e A. Sousa Gomes (1968). A primeira voz discordante de Mascarenhas Barreto foi D. Luís de Lencastre e Távora (1991), que desafiou o autor, no ato do lançamento do livro, prometendo retomar a discussão, com maior fôlego, em livro a publicar sob o título O Cristóvão Colombo de Mascarenhas Barreto e a Verdade Histórica. No entanto, o título que se anunciava para breve acabou por ser antecedido do de Luís de Albuquerque (1991) e dos de Alfredo Pinheiro Marques (1991) e Vasco Graça Moura (1991). Podemos, então, afirmar que a refutação às teses de Mascarenhas Barreto só sucedeu a partir de 1990, com um texto do Prof. Luís de Albuquerque intitulado “Lá Vem Cristóvão Colombo, que Tem Muito que Contar”. Entretanto, podemos assinalar que os cronistas portugueses coevos são unânimes em afirmar a origem italiana ou genovesa do navegador.

A presença de Colombo em Portugal não pode ser dissociada de uma forte presença no país de cidadãos das diversas comunas italianas entretidos no comércio e no processo dos Descobrimentos, situação que remontava ao séc. XIV. Terá sido esta situação a criar as condições para que Colombo, saído de um naufrágio na costa algarvia, pudesse encontrar acolhimento para continuar e ocupar-se com os demais nas atividades em torno do açúcar da Madeira e nas expedições que se organizavam ao longo da costa africana, quer para reconhecimento da costa e das rotas marítimas, quer para o comércio, nomeadamente de escravos.

A presença de italianos na Madeira deriva não só da sua forte implantação na península e do manifesto empenho na revelação do novo mundo, mas também do facto de a ilha se ter tornado numa importante área de produção e comércio do açúcar. Em Portugal e Castela, procuraram os portos ribeirinhos de maior animação comercial e aí se evidenciaram como mercadores, mareantes e banqueiros. Na Madeira, os oriundos de Génova e Florença, cidades de grande animação comercial e marítima, abriram, nos locais de fixação, novas vias para o comércio com o mercado mediterrânico. A partir de Lisboa ou de Cádis, eles intervêm, primeiro, no comércio peninsular e, depois, nas navegações e atividades de troca no espaço atlântico, o que se torna evidente com a intervenção de António de Noli e de Alvise de Cadamosto. Para além de divulgadores de novas técnicas comerciais, os italianos foram, também, quem, depois dos árabes, esteve na origem da expansão de algumas culturas, como a da cana-de-açúcar. A posição charneira da península itálica propiciara essa hegemonia no mercado mediterrânico, onde foram os principais interessados no comércio de açúcar oriental, pelo que era inevitável a sua presença na expansão para Ocidente da cultura e comércio: primeiro, no Chipre e na Sicília, e, depois, em Valença e no Algarve. Tendo em conta a importância que a Madeira assumiu no comércio do açúcar, a partir de meados do séc. XV, parece-nos inevitável a presença da comunidade italiana, nomeadamente genovesa, nos principais portos de ambas as ilhas. As representações em Lisboa e Cádis de algumas casas ramificaram-se até aos portos do Funchal, Las Palmas e Santa Cruz de Tenerife, surgindo a partir daí uma nova rede de negócios. É de realçar a existência, nos dois arquipélagos, de agentes ou familiares da mesma casa: os Adornos, Lomelinos, Jutinianos, di Negros, Salvagos, Espindolas e Dórias.

O rápido surto de desenvolvimento da Madeira na centúria quatrocentista, através da sua produção açucareira, gerou a cobiça dos mercadores genoveses, que, por sentirem dificuldades nas tradicionais rotas do Oriente, viam aqui um local ideal para continuar os seus negócios. Já em meados da centúria, Cadamosto, um dos poucos venezianos que aportou à Madeira, ao abordar a ilha, ficara estupefacto com o grau de progresso atingido, despertando-lhe interesse a próspera produção açucareira. Foi, na realidade, a partir dessa data e, fundamentalmente, da déc. de 70, que o açúcar ganhou uma posição dominante na produção e comércio da ilha. É precisamente a partir daí que se identificam os primeiros italianos na Madeira: Francisco Calvo, Baptista Lomelino e António Spínola. São estes os primeiros a aparecer na ilha, atraídos pelo comércio do açúcar. Depois, seguiram-se, nas décadas seguintes da centúria, os Dórias, João António Cesare, João Rodrigues Castelhano e Jerónimo Sernigi. Todavia, o grupo mais numeroso de italianos surgirá no primeiro quartel da centúria seguinte, época áurea do comércio de açúcar. De um total de 50 italianos referenciados na Madeira nos sécs. XV e XVI, temos 25 desta data, destacando-se os Aciauollis, Adornos, Catanhos e Salvagos.

Um dos aspetos que mais favoreceram a penetração da comunidade italiana na ilha, para além do conhecimento dos “segredos” da produção e comércio do açúcar, foi a fácil naturalização de direito, adquirida por alvará régio ou, de facto, por meio do relacionamento matrimonial com as principais famílias da ilha. A primeira situação foi o recurso necessário para travar as manifestações de xenofobia, evidentes nos protestos lavrados nas cortes de 1459, 1472-73 e 1481-82, que também tiveram repercussão no Funchal, a partir do governo do senhorio do infante D. Fernando (1461-70). São do domínio público algumas cartas de naturalização conseguidas por estes, sendo de referir, no caso da Madeira, a concedida, em 1476, pela infanta D. Catarina a Baptista Lomelino. A carta surge, certamente, como resultado das manifestações contrárias dos madeirenses à sua presença no Funchal, em face do conflito gerado, na déc. de 70, pelo contrato exclusivo para comércio de açúcar. Note-se que a presença de judeus e genoveses não era bem vista pelos madeirenses, conforme se poderá concluir da reclamação de 1461 ao infante D. Fernando.

A coroa e o senhorio nunca aceitaram a política xenófoba dos madeirenses. Para ambos, a opção era clara: havia um compromisso anterior que deveria ser cumprido e de difícil revogação. Todavia, até 1498, essa possibilidade de acesso à ilha não esteve facilitada, dependendo das influências do senhorio e coroa e da conquista da simpatia das gentes da ilha, uma vez que eles sempre se mostraram contrários a essa intervenção dos estrangeiros. Em 1498, o rei revogou todas as determinações em contrário, permitindo ou facilitando a presença e permanência de qualquer estrangeiro na ilha. No mesmo ano, o monarca interveio no comércio do açúcar, regulamentando-o por meio do estabelecimento de um contingente de exportação. Assim, ficou estabelecido que a ilha exportaria 120.000 arrobas, sendo 50.000 da sua responsabilidade e as restantes distribuídas, primeiro, pelos mercadores naturais e, depois, pelos do reino, nos quais o monarca queria que fossem incluídos Bartolomeu Florentim e Jerónimo Sernigi. Desta forma, os italianos conseguiram penetrar na sociedade e economia madeirenses, adquirindo aí uma posição de relevo.

Os italianos, em especial os florentinos e os genoveses, conseguiram implantar-se na Madeira, desde meados do séc. XV, como os principais agentes do comércio do açúcar, alargando depois a sua atuação ao domínio fundiário por meio da compra e de laços matrimoniais. Na déc. de 70, mediante o contrato estabelecido com o senhorio da ilha para o comércio do açúcar, detinham uma posição maioritária na sociedade criada para o efeito, sendo representados por Baptista Lomelino, Francisco Calvo e Micer Leão. No último quartel do século, a estes vêm juntar-se Cristóvão Colombo, João António Cesare, Bartolomeu Marchioni, Jerónimo Sernigi e Luís Dória. Finalmente, em princípios do séc. XVI, surgiu outro grupo mais numeroso, que alicerçou a comunidade italiana residente. Neste último, tivemos: Lourenço Cattaneo, João Rodrigues Castigliano, Chirio Cattaneo, Sebastião Centurione, Luca Salvago, Giovanni e Lucano Spínola.

A presença da comunidade italiana na ilha, não obstante as resistências iniciais, foi salutar, uma vez que os meus membros, para além de propiciarem o maior desenvolvimento das relações de troca em torno do açúcar, foram portadores das novas técnicas e meios de comércio. A eles se deve o incremento das companhias e sociedades comerciais e o uso das letras de câmbio nas vultuosas operações comerciais. Os florentinos experientes nas transações financeiras surgem aí com grande destaque, sendo de realçar a ação de Feducho Lamoroto e de Francisco Lape. A par disso, a rede de negócios em torno do açúcar foi recriada e incentivada por estes mercadores, que, através de familiares e amigos, fortemente a lançaram.

Desde a déc. de 70 que estes vinham atuando em sociedades, com vista ao comércio do açúcar. Na primeira que conhecemos, participavam Baptista Lomelino, Francisco Calvo e Micer Leão, tendo como objetivo o comércio de todo o açúcar produzido na ilha. A partir de 1498, com o estabelecimento das escápulas de comércio, surge, em 1502, uma sociedade em que intervêm António Salvago, João Francisco Affaitati, Jerónimo Sernigi, Francisco Corvinelli e João Jaconde, todos italianos, para a venda das 30.000 arrobas das escápulas para os portos mediterrâneos – Águas Mortas, Liorne, Roma e Veneza. Note-se que o primeiro destes detinha na ilha uma importante rede de feitores ou procuradores, de que se destacam Gabriel Affaitati, Luca António, Cristóvão Bocollo, Capello de Capellani, João Dias, Matia Manardi e Maffei Rojel. Tudo isto girava em torno do comércio do açúcar, de que o mundo mediterrânico, dominado pelos italianos, deveria consumir 43% do valor exportado da ilha, conforme estabelece a escápula de 1498. Aqui, 30% ficava em Itália, sendo 42% para Veneza, 36% para Génova e os restantes 22% para porto Liorne e Roma.

Também Cristóvão Colombo fora atraído pelo “ouro branco” e pela beleza das donzelas madeirenses, pois esteve na ilha, certamente em agosto de 1478, ao serviço de uma sociedade de Ludovico Centurione, por intermédio do representante em Lisboa, Paolo di Negro, para comprar 2400 arrobas de açúcar e conduzi-las a Génova. Depois disso, envolveu-se matrimonialmente com uma filha de Bartolomeu Perestrelo, também este de origem italiana, capitão do donatário no Porto Santo. A segunda situação fá-lo permanecer nas ilhas da Madeira e Porto Santo por algum tempo, até à saída para Castela, retornando às ilhas em 1498, aquando da terceira viagem.

Diz a tradição madeirense, baseada no testemunho de Álvaro de Azevedo, que Colombo, aquando da estância no Funchal, teria repousado nos aposentos de João Esmeraldo. Esta dedução, sem qualquer prova documental, parece-nos estranha, pois Cristóvão Colombo nunca trocaria o convívio dos patrícios pelo fausto dos aposentos do referido mercador flamengo. Sucede que, num e noutro momento, havia já no Funchal uma importante comunidade de italianos, onde predominavam os genoveses. Em 1478, quando Colombo se deslocou pela primeira vez ao Funchal, deveria ter contactado com os seus patrícios Francisco Calvo, Baptista Lomelino e António Spínola. Aquando da segunda estância, já casado, poderia associar-se ao convívio de outros patrícios seus, como João António Cesare ou os Dórias. Finalmente, em 1498, na terceira viagem que fez às Índias, à passagem pelo Funchal, a comunidade italiana era muito importante, tendo-se juntado aos já existentes, os florentinos Bartolomeu Marchioni e Jerónimo e Dinis Sernigi. Com a presença da comunidade de cidadãos genoveses na ilha da Madeira, com maior destaque para o Funchal, parece-nos estranho que o navegador se tenha alojado na casa de um flamengo, recém-chegado, a quem não ligavam quaisquer laços de convívio ou comércio. O navegador não podia ignorar os patrícios, como Baptista Lomelino e António Spínola, que já se encontravam aí há algum tempo, envolvidos no comércio de açúcar. Será que esta atribuição se deve ao facto de Gaspar Frutuoso considerar João Esmeraldo genovês? Em face do espírito de solidariedade que dominava a comunidade genovesa no estrangeiro, considerado um dos fatores de sucesso das operações comerciais, parece-nos difícil aceitar uma atitude contrária por parte de Cristóvão Colombo, que, nos inícios da sua ação na península, havia servido algumas casas comerciais. Os seus documentos privados em lugar algum falam de flamengos, como João Esmeraldo, mas sim de genoveses, como Paulo Dinegro e Baptista Espínola, ambos com familiares na Madeira. Todavia, a tradição é, por vezes, mais forte que o juízo histórico, razão pela qual a casa de João Esmeraldo ficará na história como o albergue que acolheu o ilustre navegador nas passagens pela Madeira, no período de 1478 a 1498.

O Funchal foi, por muito tempo, o ancoradouro que abriu as portas do mar oceano. Isto é, um dos principais portos de divergência das expedições de descobrimento da extensa costa ocidental africana ou das fortuitas viagens para Ocidente, à procura daquilo que viria a ser o novo continente americano. A abundância de cereal e vinho propiciava ao navegante o abastecimento seguro para a demorada viagem. Por tudo isto, podemos afirmar que o madeirense não foi apenas o cabouqueiro que transformou o rochedo e fez dele uma magnífica horta, mas também o marinheiro, o descobridor e o comerciante. Algumas das principais famílias, enriquecidas com a cultura do açúcar, gastaram quase toda a sua fortuna na gesta descobridora, ao serviço do infante D. Henrique, ao longo da costa africana ou, de iniciativa particular, na direção do Ocidente, correspondendo ao repto lançado pelos textos e lendas medievais. Colombo não estava equivocado quando, na déc. de 70, preferiu o convívio dos madeirenses ao cosmopolitismo lisboeta, pois era na ilha que estava a resposta para os seus anseios.

Regressado a Lisboa, após o diferendo com o contrato comercial mal sucedido, Colombo conheceu Filipa de Moniz. O encontro deu-se no Mosteiro de Santos, em Lisboa, onde esta estava recolhida. O casamento ocorreu no final de 1479, ou mesmo já em 1480, em local que desconhecemos. Os biógrafos falam de Lisboa, contudo, a tradição, ainda que recente, teima em afirmar que o ato teve lugar no Porto Santo ou em Machico. Aqui, o importante é que o enlace ocorreu, tendo favorecido o posicionamento de Colombo na sociedade madeirense, possibilitando-lhe o convívio com os marinheiros solitários da gesta descobridora do Novo Mundo Ocidental. Sobre ele muito se tem dito, no sentido de justificar o porquê e a forma de concretização. Fácil foi a opção de Frei Bartolomé de Las Casas. Estamos perante uma intervenção da Providência Divina, que quis que os segredos do caminho para a revelação das terras ocidentais fossem dados ao navegador. Mas, se assim o não entendermos, podemos apontar algumas situações que corporizam uma resposta a esta dúvida.

Em primeiro lugar, é necessário ter em conta que entre os Perestrelos e os Colombos havia algumas afinidades. Em ambas as famílias, surgem ascendentes com origem remota em Piacenza. Bartolomeu Perestrelo era filho de Filipo Palastrelli, que, em 1380, trocou Piacenza por Lisboa: mais um italiano a juntar-se à numerosa colónia existente em Lisboa, privada da Coroa e empenhada no processo político do reino e da expansão. Bartolomeu Perestrelo era fidalgo da casa do infante D. João, e esta condição deverá ter contribuído para que recebesse o comando do processo de ocupação da ilha do Porto Santo. Todavia, ao contrário dos parceiros de ocupação do arquipélago (João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira), não foi navegador, nem os acompanhou na viagem de reconhecimento da ilha, em 1418. Pelo contrário, os biógrafos de Colombo hiperbolizam a sua faceta de navegador. Parece que Bartolomeu Perestrelo não foi um homem de sorte, pois, para além do aspeto agreste da ilha, teve que enfrentar a praga dos coelhos. O mesmo poderá ser dito do seu relacionamento amoroso, uma vez que se encontrou viúvo por três vezes, tendo casado com D. Margarida Martins, D. Catarina Furtado de Mendonça e D. Isabel de Moniz, resultando deste último enlace o nascimento de Filipa de Moniz, que mais tarde veio a consorciar-se com Cristóvão Colombo. Para alguns genealogistas, a última dama era filha de Vasco Martins Moniz e de Joana Teixeira, razão por que o casamento de Filipa de Moniz deveria ter ocorrido em Machico, terra de origem da mãe, como o refere João dos Reis Gomes. Contudo, as investigações de Anselmo Braamcamp Freire provaram que ela era filha de Gil Aires, escrivão da puridade de Nuno Álvares Pereira, e de Leanor Rodrigues, não tendo, portanto, qualquer afinidade com os Monizes de Machico e ficando assim desfeita qualquer ligação do navegador a esta vila, como o pretende João dos Reis Gomes.

A remota origem italiana do povoador do Porto Santo e o seu relacionamento com a principal nobreza do reino são situações que não deverão ser alheias ao casamento da donzela, encerrada no convento de São Domingos, em Lisboa, com Cristóvão Colombo. A ascendência italiana facultara-lhe o contacto, enquanto a posição social demarcava a ambição deste aventureiro em subir na escala social, atitude em tudo igual à dos demais patrícios. Contudo, sobre o casamento pouco ou nada se sabe, uma vez que não era ainda corrente o hábito de lavrar o registo da cerimónia. De acordo com Frei Bartolomé de Las Casas, após a cerimónia, o casal foi viver para a Madeira e para o Porto Santo, onde nasceu Diogo, o seu único filho legítimo. Da ligação não perdurou rastro na ilha, pelo que é estranho o aparecimento, em 1659, no Hospital da Misericórdia do Funchal, de um João de apelido Colombo a curar o seu escravo negro, Luís. Aqui, toda a divagação é possível, contudo o momento e a nossa condição não no-lo aconselham. Apenas uma certeza: não existe qualquer ligação de parentesco entre os dois, sendo apenas o apelido aquilo que os une. Em toda a documentação madeirense, este é o único dado disponível que, por semelhança, mais se aproxima do navegador.

Do mais que Colombo terá feito, a documentação disponível guarda um completo silêncio. O próprio Gaspar Frutuoso, que escreveu em finais do séc. XVI, ignorou-o na resenha da família do capitão do Porto Santo e só se lembra dele no primeiro volume das Saudades da Terra, quando dá conta da descoberta das Antilhas. Aí diz-se laconicamente: “Um homem de nação italiano, genovês, chamado Cristóvam Colon, natural de Cugurco, ou Narvi, aldeia de Génova, de poucas casas, avisado e prático na arte da navegação, vindo de sua terra à ilha da Madeira, se casou nela, vivendo ali de fazer cartas de marear” (FRUTUOSO, 1984, 185).

O reconhecimento dos Açores terá sido concretizado a partir dos finais da déc. de 20 do séc. XV. Todavia, as ilhas mais ocidentais (Flores e Corvo) só em 1452 foram pisadas por marinheiros portugueses. A sua entrada no domínio lusíada deu-se por mãos de Pedro Vasquez de la Frontera e de Diogo de Teive, em 1452, no regresso de uma das viagens para o Ocidente, à procura das ilhas míticas. Este arquipélago, por ser o mais ocidental sob domínio europeu até à viagem de Colombo, era o paradeiro ideal para os aventureiros interessados em embrenhar-se na gesta descobridora dos mares ocidentais. Desde meados do séc. XV, madeirenses e açorianos saem, com assídua frequência, à busca de novas terras, assegurando, antecipadamente, a posse do que descobrissem por carta régia.

O Ocidente exerceu sobre os ilhéus um fascínio especial, acalentado, ademais, pelas lendas recuperadas da tradição medieval. Por isso mesmo, desde meados do séc. XV os marinheiros madeirenses entusiasmaram-se com a revelação das ilhas ocidentais – Antília, S. Brandão, Brasil. No extenso rol de aventureiros anónimos que deram a vida por esta descoberta, é de referenciar os madeirenses Diogo de Teive, João Afonso do Estreito e Afonso Domingues do Arco. A literatura fantástica, a cartografia mítica, o aparecimento de destroços de madeira e troncos de árvores nas costas das ilhas açorianas acalentavam a esperança da existência de terras a ocidente. Nas costas das ilhas açorianas do Faial e Graciosa, encalhavam alguns pinheiros, enquanto, nas Flores, davam à costa dois cadáveres com feições diferentes das dos cristãos e dos negros.

A curta permanência de Colombo no Porto Santo e, depois, na Madeira possibilitou-lhe um conhecimento das técnicas de navegação usadas pelos portugueses e abriu-lhe as portas aos segredos, guardados na memória dos marinheiros, sobre a existência de terra a Ocidente. Las Casas e Fernando Colombo dizem que o mesmo teria recebido das mãos da sogra “escritos e cartas de marear” (VIEIRA, 2006, 72). Com estes e demais dados que reuniu junto dos marinheiros madeirenses, ganhou forma o projeto de também navegar para Ocidente, desafiando os portugueses. Por outro lado, Pedro Correia, capitão da ilha Graciosa (Açores), dava conta de outras notícias das terras açorianas, sem esquecer os estranhos despojos que aportavam com assiduidade às praias da ilha do Porto Santo. Aí, na Madeira e no Porto Santo, Colombo ouviu histórias e relatos dos aventureiros do mar e teve acesso a provas demonstrativas da existência de terras ocidentais legadas pelas correntes marítimas nas praias – um dos vestígios mais divulgados foi a castanha do mar, popularmente conhecida como “fava de Colombo” –, pelo que o navegador saiu do arquipélago com a firme certeza de que algo de novo poderia encontrar a Ocidente, capaz de justificar a sua viagem.

A ilha ficou-lhe no coração e nunca mais a esqueceu no afã descobridor. Bastaram alguns anos de convívio com os marinheiros madeirenses e esporádicas viagens ao golfo da Guiné para ganhar o alento, a sabedoria e os meios técnicos necessários para definir o plano de traçar o caminho para as terras indicas pelo Ocidente: Cipango (=Japão) era o seu objetivo. Durante os cerca de 10 anos que permaneceu em Portugal, Cristóvão Colombo acompanhou de perto as expedições portuguesas ao longo da costa africana. O fascínio do navegador pelo mar, conquistado no Mediterrâneo como corsário ou comerciante, despertou-lhe o apetite para as navegações atlânticas portuguesas. No momento em que se fixou em Lisboa, toda a atenção e azáfama estavam orientadas para o desbravamento da extensa costa africana além do Bojador, conhecida como costa da Guiné, sendo nesta época já conhecida e navegável a área costeira até ao Cabo de Santa Catarina, alcançado em 1474, no período do contrato de Fernão Gomes.

Não obstante o espaço ser vedado à navegação de embarcações que não fossem portuguesas, os estrangeiros poderiam fazê-lo a bordo e ao serviço de embarcações nacionais. Assim havia sucedido, na déc. de 50, com Cadamosto e Usodimare. Tal como fizera o seu patrício Usodimare, Colombo embarcou em caravelas portuguesas que demandavam as costas da Guiné, facto normal para um experimentado marinheiro genovês que, na praia do Porto Santo ou na Madeira, acompanhava o vaivém das nossas caravelas. É de salientar que, por muito tempo, a Madeira foi escala obrigatória das embarcações portuguesas que se dirigiam à costa africana. Tal facto derivou do facto de o Funchal ser o único porto seguro, avançado no Atlântico, dispondo de excedentes de cereais e vinho, necessários à dieta de bordo dos marinheiros. A par disso, os madeirenses acalentavam, desde a déc. de 40, a aventura das navegações africanas, tendo-se empenhado nisso as principais famílias da ilha.

A ligação familiar do descobridor do continente americano ao capitão donatário da ilha foi, de entre todas as eventualidades, a que mais catapultou a ilha para as bocas dos historiadores, tornando-se referência obrigatória na historiografia da Expansão europeia. A ilha, o navegador e o descobrimento do Novo Mundo confundem-se, assim, nos anais da História. É também fruto desta situação a origem do mais ilustre porto-santense que a ilha conheceu nos últimos cinco séculos e que lamentavelmente continua esquecido de todos nós. Foi Colombo quem descobriu o novo espaço americano e lançou as bases da nova sociedade, cujo impulso decisivo foi dado pelo filho, Diogo, após a sua morte. Como legítimo herdeiro, Diogo Colombo recebeu, à morte de seu pai, em 1506, o título de Almirante das Índias e, desde essa data até à sua morte, em 1526, teve um papel decisivo no avanço das Índias espanholas, tornando-se um ilustre protagonista dos primórdios da história colonial espanhola.

De acordo com o testemunho do irmão, Fernando, e de Frei Bartolomé de las Casas, Diogo Colombo nasceu no Porto Santo. Tendo o casamento de seus pais ocorrido, como já referido, em 1479, estima-se que tenha nascido por volta de 1482. O testemunho de Bartolomé de las Casas sobre este feito é claro: “asi que fuese a vivir Cristobál Colón a la dicha isla de Puerto Santo, donde engendró al dicho su primogénito heredero, D. Diego Colón […]” [Cristóvão Colombo foi viver para a referida ilha de Porto Santo, onde engendrou o seu herdeiro primogénito, D. Diego Colombo] (VIEIRA, 2006, 77).

A gratidão do navegador para com os madeirenses fê-lo retornar ao arquipélago, em 1498, no decurso da terceira viagem. Aqui, teve oportunidade de relatar, aos que com ele acalentaram a ideia da existência de terras a Ocidente, o que encontrara de novo. O convívio com as gentes do Porto Santo havia sido prolongado e cordial, pois, em junho de 1498, aquando da terceira viagem, não resistiu à tentação de escalar a vila. A sua aproximação foi considerada mau presságio, pois os porto-santenses pensavam estar perante mais uma armada de corsários. Desfeito o equívoco, o navegador foi recebido pelos naturais da terra, seguindo, depois, para a Madeira. A 10 de junho de 1498, a sua chegada ao Funchal foi apoteoticamente saudada, como nos refere Frei Bartolomé de Las Casas, o que denota, mais uma vez, a familiaridade com estas gentes e a esperança que elas depositavam em tal empresa. O facto poderia ser dado como um dos muitos que deram corpo às viagens de Colombo. Todavia, é muito mais do que isso. Tal passagem do navegador pela ilha testemunha, uma vez mais, que este havia casado com a ilha e com os madeirenses e que havia algo de comum para recordar e festejar. Se Colombo fosse desconhecido dos madeirenses, não seria recebido desta forma, e se o mesmo não tivesse algo a retribuir-lhes, teria preferido a escala das Canárias. Ademais, a familiaridade não se adquire em poucos dias de permanência. Ela foi, com certeza, construída por prolongadas estadias.

Colocado perante esta vivência marítima, era inevitável que um aventureiro e marinheiro da estirpe de Colombo não pudesse ficar parado na praia a observar estas andanças. Daí resulta a sua ida à Guiné, certamente no período de 1482-1484, em que tomou contacto com o comércio realizado pelos portugueses. Os escravos e o ouro ficaram-lhe gravados na memória, de modo que, quando alcançou as terras ocidentais, pensava que esta obsessão se tornasse uma realidade. Mas sem dúvida a mais importante experiência de navegador nas costas da Guiné foi o enfrentar das dificuldades da navegação no mar alto e o conhecimento dos meios usados pelos portugueses para as debelar: a navegação por alturas, a observação astronómica e a medida da latitude por meio do quadrante foram as principais conquistas da curta experiência nos mares portugueses. No seu diário, Colombo fala com assiduidade destas paragens, das riquezas e, de modo especial, da fortaleza de S. Jorge da Mina. A prova da presença a bordo das caravelas que demandavam as partes da Guiné é-nos dada através das insistentes comparações entre o mundo descoberto em 1492 e estas terras. Por outro lado, em anotações aos textos clássicos da sua biblioteca, refere ter estado na costa africana, em especial no castelo de S. Jorge da Mina. Este “mar português” que Colombo devassara entre 1482 e 1484 ficou-lhe gravado na memória, e a experiência foi útil para o enfrentar das dificuldades da viagem para Ocidente. Por outro lado, o fascínio pelas navegações portuguesas era irrefutável, pois, em finais de 1488, após a recusa da Coroa portuguesa ao seu projeto, encontrava-se em Lisboa para ouvir, de viva voz, as façanhas sucedidas com a viagem de Bartolomeu Dias, que dava novas da chegada às “Portas da Índia”.

A permanência de Colombo em Portugal foi prolongada e marcada por vários acontecimentos que lhe abriram as portas do novo espaço, que havia de descobrir em 1492. Durante os cerca de 10 anos que esteve em Portugal, foi mercador de açúcar e mareante, tendo-se deslocado à Islândia (1477) e a S. Jorge da Mina (1482-84), na costa da Guiné. Esta intromissão nas viagens de navegação e comércio ao longo da costa africana, a exemplo do que haviam feito outros patrícios, possibilitou-lhe um maior conhecimento do oceano e das técnicas de marear. Segundo Faria e Sousa, terá sido neste período que “aprendeu a arte de navegação” (VIEIRA, 2006, 73). Talvez como forma de retribuir esta aprendizagem, em 1483-84 apresentou, em primeira mão, ao monarca português o projeto de atingir o Cipango pela rota ocidental, uma vez que este era o único monarca capaz de o entender, pois, como refere o autor, “sabia mais de descobrimentos que qualquer outro” (Ibid., 73). Colombo não se havia apercebido da azáfama que rodeava D. João II e do seu empenho, desde muito cedo, na definição da rota africana para atingir o Oriente, pelo que avançou com o plano, ciente de que iria conseguir o seu beneplácito. D. João II encontrava-se, desde 1474, absorvido pelos “feitos das partes da Guiné” (Ibid., 73), preservando o seu domínio exclusivo através do Tratado de Toledo (1480) e procurando desbravar o espaço oceânico que restava até ao promontório Prassum, com o envio, em 1482, de Diogo Cão. Perante isto, era inoportuna a proposta de Colombo e previsível a recusa do rei e dos homens de ciência que o rodeavam. A este propósito, diz-nos Fernando Colombo: “Embora escutasse com atenção aquilo que o almirante lhe propunha, apesar disso mostrou-se desinteressado em aceitar a sua proposta, pelo grande trabalho e pelas avultadas despesas que suportava com o descobrimento ou conquista da costa ocidental de África chamada Guiné” (Ibid., 73).

Para João de Barros, o cronista do reino, a recusa do rei ao projeto colombino resultava apenas do facto de ele se apoiar em “coisas imaginárias que Marco Polo contava sobre a ilha de Cipango” (Ibid., 74). Acrescente-se, ainda, que o Ocidente nunca estivera nos objetivos da coroa portuguesa. A aposta estava em contornar o continente africano, que se tornou mais difícil do que à primeira vista poderia parecer. O desbravar dos mares ocidentais era um sonho acalentado por insulares. Madeirenses e açorianos viviam, desde meados do séc. XV, obcecados pela ideia de desvendar as terras ocidentais do mar Atlântico. A verdade, porém, é que nunca conseguiram convencer a coroa a propiciar-lhes os necessários apoios, assegurando, apenas, o governo das ilhas que descobrissem. Assim sucedeu, por diversas vezes, nas décs. de 50 e 80. Para a coroa, Colombo era mais um destes obstinados pelo Ocidente, pelo que não conseguiu cativar os necessários apoios.

Amargurado com a atitude de D. João II, o navegador saiu de Portugal à procura de um monarca que aceitasse financiar o seu plano: primeiro, Castela, depois, Inglaterra e França. Por não conseguir os necessários apoios ao projeto, em 1488 estava de novo em Lisboa à procura de apoios. Mas o seu plano estava agora definitivamente condenado, pois a chegada da expedição de Bartolomeu Dias, com a novidade da ultrapassagem do cabo da Boa Esperança, dissipava qualquer dúvida na mente do monarca quanto à recusa do projeto de Colombo. O navegador conseguiu, no entanto, demover os reis católicos a apoiar o seu projeto, de modo que, a 8 de setembro de 1492, era dada a partida para esta aventura, que culminou, a 12 de outubro, com o encontro das primeiras terras ocidentais. O regresso das Antilhas iniciou-se a 16 de janeiro, mas o rumo que os conduziu – os fortes ventos que apanharam – fê-los retornar às Bahamas para encontrar os ventos de oeste e aproveitar o rumo de regresso a Castela.

A 12 de fevereiro, já no final da viagem, foram assolados por uma violenta tempestade. Para Colombo, o ambiente era de tensão, uma vez que, no momento em que se preparava para entrar, triunfante, em Castela, a providência divina parecia querer negar-lhe tal alegria. É o próprio navegador quem o refere: “Mas minha fraqueza e ansiedade eram tais que a minha alma não sossegava” (Ibid., 74). Deste modo, o receio de não poder apresentar, de viva voz, ao monarca e gentes peninsulares o relato da sua descoberta fê-lo escrever num pergaminho, que deitou ao mar dentro de uma pipa, na expectativa de que alguém o encontrasse, o que nunca sucedeu. Depois, foi a entrega do seu destino nas mãos de Deus. Todos os sobreviventes da viagem fizeram uma promessa: caso saíssem sãos e salvos de mais esta situação, na primeira terra que tocassem, iriam, em camisa, agradecer a Nossa Senhora.

A 16 de fevereiro, amainou a tempestade e surgiram os primeiros indícios de terra firme, e a 18 encontravam-se em frente da vila do Porto (Santa Maria). Contudo, uma vez que o vento soprava de quadrante sul, Colombo viu-se forçado a aproar para Norte, indo abrigar-se na Ponte da Cré ou Ilhéu dos Frades. Aí ancorou e, segundo alguns, terá sido recebido por João Castanheira, lugar-tenente de João Soares de Albergaria, capitão do donatário. Este, ao momento, encontrava-se ausente em Lisboa, onde tinha ido consorciar-se, em segundas núpcias, com D. Branca de Sousa Falcão.

No dia 19, desembarcou o primeiro grupo para ir cumprir a promessa na capela de Nossa Senhora dos Anjos, em Santa Maria, nos Açores, que estava próxima, mas este foi aprisionado pelos marienses, o que gerou alguma apreensão entre os que ficaram a bordo. Após três dias de demoradas e vivas conversações entre Colombo e o locotenente do capitão do donatário, os que haviam saído em terra regressaram a bordo, sendo-lhes também permitido fazer aguada, prover-se de alguns víveres e reparar os danos provocados pela tempestade. A inesperada receção de Colombo tem sido motivo de inúmeras interpretações: uns referem uma apoteótica receção, outros falam do encontro do modo que referimos, outros ainda perguntam sobre o seu esquecimento pelos cronistas do reino, mas todos ignoram o silêncio de Colombo sobre esta questão e sobre a diferente receção que lhe propiciou D. João II em Lisboa, para onde foi levado por uma tempestade.

Com esta passagem de Colombo pelo arquipélago açoriano, iniciava-se uma época promissora para as ilhas. O traçado da rota de regresso das Índias definido por Colombo tinha, nos Açores, um dos mais importantes pilares. Deste modo, o mar açoriano será incessantemente devassado, a partir do séc. XVI, por caravelas de mercadores vindos das Índias ou por corsários à procura de uma boa presa. Neste contexto, destaca-se a enseada de Angra (Terceira), que se afirma como o principal ancoradouro das embarcações das Índias Orientais, Ocidentais, Brasil, S. Tomé, Mina e Cabo Verde. No entender de Gaspar Frutuoso, “Angra é a universal escala do mar ao poente por todo o mundo celebrada onde reside o coração de todas as ilhas” (FRUTUOSO, 1984, 186). Terminava assim a época áurea da escala madeirense nas navegações africanas. Para Colombo, esta primeira escala na viagem de regresso serviu-lhe de lição, pois nunca mais aí ancorou, rumando sempre direto a Castela. O oceano era já do seu conhecimento e nada lhe escapava na viagem de retorno: primeiro, deveria regressar, mais cedo ou mais tarde, para não ser apanhado pelas invernias de fevereiro; depois, a escolha do rumo certo estava mais a norte das ilhas açorianas.

A escala de Colombo em Lisboa, no regresso da primeira viagem, em março de 1493, para além das duvidosas explicações que se tem dado, pode ser considerada um testemunho junto do rei de que estava seguro no projeto que lhe apresentara. João de Barros descreve do seguinte modo a receção que o rei lhe fizera a 9 de março: “El-rei o mandou receber pelos principais de Sua casa com muita honra […] e mostrou ter muito prazer com o facto de a viagem ter tido um bom fim e de se ter realizado; mas que entendia que pela capitulação que existia entre os reis e ele, aquela conquista lhe pertencia” (VIEIRA, 2006, 75). Esta dúvida suscitada pelo monarca seria esclarecida, mais tarde, com a assinatura do tratado de Tordesilhas (1494), que veio pôr ponto final nas disputas entre as duas coroas peninsulares e as consequentes represálias, sendo portanto possível navegar aí sem dificuldade. Deste modo, a viagem poderia fazer-se sem incidentes, e Colombo saiu com segurança para Santiago, onde deveria adquirir algum gado vacum para a colonização de Hispaniola. Estas ilhas e espaço circunvizinho não lhe eram estranhos, pois, no período de 1482 a 1484, em que esteve em S. Jorge da Mina, deverá tê-los escalado. Só assim se entende a forma como fala deles, antes de 1498: no decurso da prolongada travessia do mar alto, quando da primeira viagem, o aparecimento de alcatrazes não lhe era conhecido, pois refere-os como parecidos aos que havia em Cabo Verde.

Colombo foi também testemunha do fulgor económico das ilhas cabo-verdianas, referindo numa carta escrita aos reis católicos, entre 1498 e 1500, o seguinte: “Tienen gran trato en los esclavos y de continuo enbian navios a los resgatar y estan a la puerta, yo vi por el más roim demandaván ocho mil maravedis […]” [Fazem muito negócio com escravos e estão constantemente a enviar navios para os resgatar; vi que pelo mais ruim pediam oito mil maravedis] (Ibid., 77). Nas cartas escritas pelo navegador, refere-se o seu encontro, dando-se algumas referências que atestam um profundo conhecimento deste arquipélago, que não se deveria resumir a esta passagem. O navegador contesta o nome atribuído a estas ilhas: “porque son atán secas que no vi cosa verde en ellas y toda la gente enferma […]” [porque são tão secas que não vi coisa alguma verde nelas e toda a gente está doente] (Ibid., 77). Em Boavista, depois de aludir à sua esterilidade, aquilo que mais lhe despertou a atenção foi o elevado número de tartarugas, então usadas para a cura de leprosos portugueses que aí se dirigiam. Quanto aos moradores da ilha, eram poucos, apenas seis ou sete, que tinham a missão de matar cabras, salgar e enviar o couro e a carne para Portugal. A vida aqui era difícil, pois estavam, por norma, isolados durante cinco meses, vivendo do que a ilha dava, isto é, carne de cabra e de tartaruga. Aquando da sua permanência, manteve contactos com Rodrigo Afonso, escrivão da Fazenda do rei de Portugal, que lhe propiciou o abastecimento de sal e carne. Depois da paragem em Boavista, saiu a 30 de junho para Santiago, onde esteve oito dias, para dar cumprimento à recomendação régia de tomar gado vacum para a ilha Hispaniola. O calor tórrido fez com que alguns elementos da tripulação adoecessem e o navegador foi forçado a sair, antes que isso fosse possível. No convívio que o navegador manteve com os habitantes de Santiago, foi-lhe revelado que, a sudoeste da ilha do Fogo, se via uma ilha que o rei português queria descobrir. Colombo saiu de Cabo Verde com o objetivo de a encontrar, mas, mais uma vez, confirmou-se que a mesma não passava de uma miragem ou que o descobrimento estava reservado para os portugueses, uma vez que muitos estudiosos a identificam como sendo o Brasil.

Desde 1850, a literatura turística inglesa sobre a Madeira vinha referindo a vinculação da ilha à gesta de Colombo, apontando-o como um dos muitos ilustres personagens que procuraram a Madeira pela amenidade do clima. Todavia, esta ideia da presença do navegador na ilha tardou muito até entrar no discurso historiográfico. Foi necessário chegar-se a 1892 para que os madeirenses tomassem consciência da ligação histórica da ilha ao feito colombino. Mesmo assim, o entusiasmo foi relativo. Compulsados os periódicos e a documentação oficial do ano de 1892, constata-se que o madeirense e as suas autoridades ignoraram o acontecimento nas suas implicações no passado histórico da ilha. De todas as vertentes, a posição resumiu-se aos tradicionais telegramas de felicitações, aproveitando a borla que a companhia do cabo submarino concedera. Mas poucos foram aqueles que associaram a efeméride à presença de Colombo no arquipélago. Nos periódicos locais, apenas A Lucta lhe atribuiu a primeira página no dia devido (12 de outubro), com uma fugaz referência à sua presença na Madeira. O Diário de Notícias apenas tomou conta do acontecimento no dia 13, com a transcrição dos telegramas de felicitações enviados ao presidente norte-americano, e só no dia 16 dedicou a manchete da sua primeira página ao facto e ao seu protagonista, sem referir a sua ligação à Madeira. O mesmo se poderá dizer do Diário do Comércio, que, apenas no dia 13, refere o envio de telegramas e publica um grande anúncio de propaganda a uma excursão para visitar a exposição de Chicago.

Na documentação oficial, apenas encontramos lavrado no ato da vereação da Câmara do Funchal, de 13 de outubro, que se enviara, no dia anterior, um telegrama de felicitações ao presidente dos Estados Unidos. Nas vereações do Porto Santo, estranhamente, não encontramos nada a esse propósito. Estava, assim, já perdida a memória deste feito, relembrado, em 1848, nos anais da última ilha. Depois, destaca-se o interesse manifestado pelos organizadores da comemoração do evento, em La Rábida e Chicago, em fazer figurar estas ilhas. Na exposição feita em La Rábida em 1892, cujo catálogo foi publicado por W. E. Curtis, são apresentados 13 aspetos relacionados com a estância de Colombo na Madeira e Porto Santo: aí aparecem as casas apontadas pela tradição como sendo as do navegador, sendo atribuída à primeira a data de 1457 e à segunda a de 1471. Todos estes elementos foram fornecidos pelo cônsul norte-americano no Funchal, John Healy, com a colaboração de José Leite Monteiro. A par disso, na edição comemorativa da data, a Ilustración Española Y Americana, que já em 1878 publicara um artigo de Álvaro Rodrigues de Azevedo sobre a casa de Colombo na Madeira, apresenta uma gravura da referida casa.

Não foi por falta de informações que os madeirenses deixaram de comemorar esta efeméride, uma vez que desde meados do século surgem inúmeras referências, em estudos publicados, à importância da Madeira nos planos de Colombo. Todavia, a 5 de fevereiro de 1877 ordenou-se a demolição do prédio referenciado como casa de Colombo, e só um ano depois a voz abalizada de Álvaro Rodrigues de Azevedo saiu à praça a defender a vinculação do edifício demolido ao navegador. Em 1892, o conselheiro Agostinho de Ornelas retoma essa temática, apresentando dados exclusivos e abonatórios desta vinculação colombina à casa de João Esmeraldo. Entretanto, já em 1848 o administrador do concelho no Porto Santo, João de Santana e Vasconcelos, afirmara, nos anais do concelho, que Colombo casara e residira na mesma ilha.

Passado o momento das comemorações de 1892, o madeirense desperta para a importância da história e legado de Colombo, surgindo, já no séc. XX, inúmeros trabalhos de eruditos locais a fundamentar ou a questionar a presença deste ilustre marinheiro na fase anterior ao acontecimento de 1492. Primeiro, a pena de João dos Reis Gomes reconstituiu a ambiência do período de estadia de Colombo na Madeira, através do romance histórico A Filha do Tristão das Damas (GOMES, 1900), mais tarde passado para teatro sob o título de Guiomar Teixeira. Também o P.e Fernando Augusto da Silva se preocupou com a questão, reunindo extenso material que pode ser consultado no seu espólio à guarda do Arquivo Regional da Madeira, de que resultou apenas o breve apontamento no Elucidário Madeirense (1921). Anos mais tarde, Cayolla Zagallo (ZAGALLO, 1945), numa conferência realizada no Liceu do Funchal, viria a apresentar a mais interessante perspetiva sobre a questão, o que veio reforçar o interesse pela temática colombina. Contudo, de todos, o mais polémico foi o P.e Eduardo Pereira, que, desde a déc. de 50, se preocupou com a questão. Primeiro, pôs em causa a moradia de Colombo no Porto Santo para defender, depois, de forma original, a vinculação colombina à casa de João Esmeraldo, no Funchal, e as tábuas pintadas que foram descobertas, em 1968, na casa em frente da de Colombo.

É nesta ambiência que surgem os defensores da necessária reconstrução da referida moradia de Colombo no Funchal, sendo o primeiro arauto o Visconde de Meireles, em artigo publicado no Heraldo da Madeira, a 27 de março de 1913. Nesse ano, representava-se no Funchal a já referida peça Guiomar Teixeira, e foi talvez inflamado com as alusões a Colombo que o mesmo teve esta genial ideia. Contudo, não obstante os apoios colhidos dentro e fora da ilha, a questão foi esquecida e só no final do século, com o afã preparativo das comemorações de 1992, essa mesma ideia voltou ao convívio do público, sem despertar, mais uma vez, grande interesse.

Foi a partir das comemorações do quarto centenário do descobrimento da América que a ilha da Madeira começou a ser valorizada pela ligação ao feito colombino. Na Exposição Universal de Chicago, a parte referente à evocação da passagem do navegador pela Madeira mereceu algum destaque. Para isso contribuiu o empenho de John F. Healy, cônsul americano na ilha, e de José Leite Monteiro, ilustre professor e advogado. Foi este último quem, em fevereiro de 1877, aquando da demolição, recolheu parte dos destroços da casa de João Esmeraldo. Álvaro Rodrigues de Azevedo, no rescaldo da demolição, reafirma aquilo que os ingleses haviam dito sobre a Madeira e Colombo, dando a casa como sendo a moradia onde havia pernoitado o navegador nas suas deslocações à ilha. Mais tarde, em 1892, Agostinho de Ornelas, um dos descendentes de João Esmeraldo, corroborará o que se havia dito sobre a casa e a presença de Colombo na ilha.

Da casa, apenas sobreviveram algumas fotografias e as cantarias de uma das janelas, em boa hora adquiridas pela família Hinton e montadas na Quinta da Palmeira, nos arredores do Funchal. No local onde outrora se ergueu o palácio, construiu-se uma praça em memória do navegador. A memória de Colombo está já devidamente evocada no Porto Santo, onde existe um busto do escultor Ricardo Velosa, desde 1984, e uma casa-museu, inaugurada em 1989, testemunhos que clamam aos incautos visitantes pela passagem do navegador pela ilha. No Funchal, releva-se a Biblioteca-Museu Mário Barbeito de Vasconcelos, que reúne um vasto acervo bibliográfico colombino reunido por este bibliófilo, e uma estátua ao navegador, no parque de Santa Catarina, da autoria de Henrique Moreira, inaugurada em 1968.

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Alberto Vieira

(atualizado a 31.08.2016)