conde de carvalhal, segundo

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Retrato do 2º Conde do Carvalhal, 1875, Arqui. Rui Carita

António Leandro da Câmara Carvalhal Esmeraldo Atouguia Bettencourt de Sá Machado, 2.º conde de Carvalhal. Filho do morgado João Francisco da Câmara Carvalhal Esmeraldo (c. 1800-1843) e de Teresa Xavier Botelho (1807-c. 1850), filha primogénita do então governador da Madeira, o jurista Sebastião Xavier Botelho (1768-1849), nasceu no Funchal, a 6 de outubro de 1831, herdando uma importante fortuna que o pai conseguira consolidar a partir do tio-avô, João José Xavier Carvalhal Esmeraldo (1778-1837), 1.º conde do Carvalhal da Lombada  e dos pais da mãe, representando a Madeira por duas vezes nas câmaras do Parlamento de Lisboa, como senador e titular. Residindo em várias capitais europeias, veio a sua vida a tornar-se verdadeiramente lendária pelo esbanjamento de quase todos os seus bens.

Com a consolidação das estruturas liberais, o ex-governador da Madeira Sebastião Xavier Botelho e o genro, o morgado João da Câmara Leme do Carvalhal Esmeraldo, candidataram-se pelas listas da Madeira para a sessão legislativa de 1838 a 1840, conseguindo ser eleitos para senadores, o mesmo voltando a acontecer com o morgado para a legislatura seguinte, de 1842 a 1845, embora viesse a falecer, prematuramente, em 1843. Com o falecimento do sogro ex-governador da Madeira, que tirara carta de par do reino em setembro de 1838, teria sucedido no pariato, embora se desconheça se alguma vez ocupou o lugar, pois das duas vezes que concorreu a eleições na Madeira perdeu-as. Viajou por várias cidades europeias, onde ficaram célebres as festas que deu, vindo a casar-se em Lisboa, a 6 de junho de 1854, com Matilde Montufar y Infante (1832-1865), filha dos marqueses de Selva Alegre, em Espanha.

Com o casamento, o morgado fixar-se-ia preferencialmente na Madeira, especialmente a partir de 1858, quando acorreu ao Funchal para receber principescamente o infante D. Luís. Dois anos depois, em princípio, veio a ser agraciado com o título de 2.º conde de Carvalhal, pelo rei D. Pedro V, embora, pelo menos desde o ano anterior já usasse o título, como vem referido nas eleições para a confraria de S. José da sé do Funchal, realizadas a 20 de fevereiro de 1859 (ACSF, Livro de Eleições, fl. 77). No livro das eleições da confraria do Glorioso São José em que foi eleito para juiz o 2.º conde, vêm pintadas as suas armas e referido que a “exemplo dos Exmos. Senhores Maiores de Sua Família” aceitara o lugar e assinava, mas a letra da assinatura parece a mesma da do escrivão.

Em janeiro de 1860, os condes de Carvalhal organizaram uma festa para a arquiduquesa Carlota de Saxe (1840-1927), depois imperatriz do México, que a mesma descreve no seu diário Un Hiver à Madère 1859-1860, publicado em Viena, em 1863. Na súmula organizada por Cabral do Nascimento, transcreve-se a descrição da arquiduquesa de Áustria, que achou que a festa “foi muito animada” e que não faltaram lindos vestidos, que lembravam os de Milão. A autora quase se deslumbrou quando, ao soar da meia-noite, se abriu de repente, “como por encanto”, uma sala até aí fechada, onde aguardava os convidados “uma ceia sumptuosa, servida em pratos armoriados, de porcelana inglesa” (NASCIMENTO, 1951, 88-101).

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Quinta do Palheiro Ferreiro em 1864. Arqui. Rui Carita.

Em 28 de abril de 1864 passaram na Madeira os depois malogrados imperadores do México. A 10 desse mês de abril, o príncipe Maximiliano de Áustria aceitara essa incumbência, por indicação de Napoleão III, sendo logo aclamado, e aportou pelo porto do Funchal, a caminho do México, na companhia da imperatriz Carlota. Vieram a bordo da fragata austríaca Novara, ainda acompanhada pela fragata francesa Thémis, sendo-lhes prestadas as devidas honras. Os imperadores convidaram para jantar a bordo da Novara o secretário-geral que servia de governador civil, Jacinto António Perdigão, o bispo da diocese, D. Patrício Xavier de Moura (c. 1800-1872), o 2.º conde de Carvalhal, o cônsul Carlo de Bianchi (1834-1919), António da Luz Pita (1812-1870) e outras personalidades. Os Carvalhal mantiveram assim uma vida de fausto na Madeira, convidando, inclusivamente o pintor Tomás da Anunciação (1818-1879) a deslocar-se ao Funchal, em 1865, onde pintou os 2.os condes ao gosto romântico, num piquenique campestre na quinta do Palheiro, tendo por fundo a cidade do Funchal.

O 2.º conde de Carvalhal veio a integrar-se no Progressista Histórico, que tinha como chefe o marquês, depois duque, de Loulé, concorrendo pelo círculo do Funchal contra Luís Vicente de Afonseca (1893-1878), do novo Partido Regenerador, nas eleições para as cortes de 1870-1871, de que saiu derrotado. Esta vitória viria a ficar célebre na comunicação social madeirense, pois na ilha ganhara a oposição contra a situação vigente no governo de Lisboa, o que geralmente não acontecia, pois que o rotativismo insular, com um ou outro ajuste, seguia o do continente.

Em Portugal, a conjuntura económica não foi fácil nestes anos e também na Madeira não o foi. A situação da cobrança dos chamados impostos municipais levantava inúmeros problemas, levando a inúmeras reuniões entre as câmaras, lideradas pela do Funchal, tendo então como presidente o 2.º conde de Carvalhal, e pela Junta Geral, sob a presidência do futuro conselheiro Dr. Manuel José Vieira (1836-1912). Entre os problemas que se colocavam, encontrava-se a cobrança dos impostos indiretos, mas também a cobrança ilegal sobre uma série de géneros efetuada pelas mesmas câmaras, levando a contínuas reuniões na Alfândega do Funchal.

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As Filhas do 2º Conde do Carvalhal, Arqui. Rui Carita.

O 2.º conde de Carvalhal ainda se viria a envolver na política no final da vida, participando nas controversas eleições que dariam a vitória ao Dr. Manuel de Arriaga (1840-1917), o segundo deputado republicano a ter assento nas cortes. Em Lisboa falecera o representante da Madeira, Dr. Luís de Freitas Branco (1819-1881), pelo que o governo de Fontes Pereira de Melo, perante a necessidade de ter no parlamento o líder da oposição, Anselmo José Braamcamp, do Partido Progressista, que perdera as eleições não conseguindo lugar nas cortes, propôs ao Partido Regenerador da Madeira que o mesmo concorresse na ilha, o que era aparentemente uma contradição e levou os regeneradores da Madeira a equacionarem apoiar o candidato republicano, que, sendo açoriano, pelo menos talvez defendesse melhor no parlamento os interesses dos arquipélagos.

O governo de Fontes Pereira de Melo enviou de imediato para a Madeira a corveta Estefânia, que chegou ao Funchal a 15 de novembro de 1882 com um novo governador, o visconde de Vila Mendo (1825-c. 1905), que tomava posse no dia seguinte, enviando um impresso a todas as autoridades a comunicar o facto, procedendo de imediato também a contactos para a escolha de um candidato que pudesse fazer frente a Manuel de Arriaga, optando-se então por um candidato de peso: António Leandro do Carvalhal Esmeraldo. O 2.º conde de Carvalhal ainda era o maior contribuinte predial do concelho da cidade, dos grandes proprietários da Madeira e, inclusivamente, o presidente da CMF, mas os tempos já eram outros e a escolha saldou-se mais uma vez com um fracasso. O conde já havia perdido as eleições de 1860, quando defrontou o Dr. Luís Vicente de Afonseca, pelo que, pelos vistos, não era um candidato que recolhesse especial apoio.

O conde de Carvalhal teve duas filhas do seu casamento: D. Maria das Dores da Câmara Leme do Carvalhal Esmeraldo de Bettencourt e Vasconcelos de Sá Machado (1855-1910), que se casou na Madeira, a 22 de junho de 1876, com D. Manuel Benedito de Castro Pamplona (1845-1907), 6.º conde de Resende; os dois vieram a ser sogros do escritor José Maria de Eça de Queirós; e D. Teresa da Câmara Leme do Carvalhal Esmeraldo de Bettencourt e Vasconcelos de Sá Machado (1857- c. 1923), também casada no Funchal, a 24 de junho de 1882, com João de Bettencourt de Araújo do Carvalhal Esmeraldo (1841-1902), depois visconde e conde de Ribeiro Real, sem geração.

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Jazigo Conde do Carvalhal 1870. Arqui. Rui Carita.

As finanças da casa Carvalhal entraram a partir destes anos em queda, sendo necessário vender, em 1885, a quinta do Palheiro Ferreiro ao comerciante britânico John Burden Blandy (1839-1912). Nesse ano, chegavam ao Funchal os oficiais da Marinha Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, cuja passagem teve mesmo foros apoteóticos, embora somente se demorassem dois dias na cidade, de 12 a 14 de setembro de 1885. Os exploradores africanos foram homenageados no palácio de S. Lourenço e no Clube Funchalense, então instalado no palácio de S. Pedro, festa que teve o patrocínio do 2.º conde de Carvalhal, que ainda ali vivia, mas dadas as dívidas acumuladas, já necessitava de alugar parte do palácio.

O 2.º conde de Carvalhal faleceu no palácio de S. Pedro, com 56 anos, a 4 de fevereiro de 1888, tendo sido sepultado no jazigo de família que mandara fazer alguns anos antes, no cemitério das Angústias.

Bibliog.: manuscrita: ACSF, Livro de Eleições da Confraria do Glorioso São José, da Sé do Funchal, 1760-1860, fl. 77; ARM, Alfândega do Funchal, livs. 683 e 684; ANTT, Registo Geral de Mercês de D. Luís I, liv. 15, fl. 242v.; MQC, Inventários, n.os 1508 e 1141.1; impressa: CARITA, Rui, “A Confraria de S. José da Sé do Funchal e a Família da Ilustríssima D. Guiomar de Sá Vilhena”, Islenha, n.º 27, jul.-dez. 2000, pp. 60 a 70; Id., História da Madeira, VII vol., O Longo Século XIX: Do Liberalismo à República. A Monarquia Constitucional, Funchal, SRE e Universidade da Madeira, 2008; CLODE, Luiz Peter Clode, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses, Sécs. XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, s.d. [1983]; CLODE DE SOUSA, Francisco António, “A Propósito de Três Obras de Tomás da Anunciação”, Islenha, n.º 2, jan.-jun.1988, pp. 77-80; Id., Obras de Referência dos Museus da Madeira. 500 Anos de História de Um Arquipélago, mostra comissariada por Francisco Clode de Sousa, Galeria de D. Luís, Palácio da Ajuda, nov. 2009; MESQUITA, João Carlos Feo Cardoso de Castello Branco e TORRES, Manuel de Castro Pereira, Resenha das Famílias Titulares do Reino de Portugal: Acompanhada das Notícias Biográficas…, Braga, Carvalhos de Basto, 1991; NASCIMENTO, Cabral do, “A Arquiduquesa Carlota e as Suas Impressões de Viagem”, Arquivo Histórico da Madeira, vol. 9, n.º 2, Funchal, Junta Geral, 1951, pp. 88-101; Un Hiver à Madère 1859-1860, Viena, Imprensa Imperial e Real da Corte e do Estado, 1863.

Rui Carita

(atualizado a 17.03.2016)