conservatório

O Conservatório – Escola das Artes – Eng.º Luiz Peter Clode (CEPAM) teve origem na Academia de Música da Madeira, fundada a 13 de novembro de 1946, por iniciativa de Luiz Peter Clode, de William Edward Clode e de Eduardo António Santos Pereira. A sua primeira sede estava situada na Av. Arriaga, n.º 13 (ao lado do Teatro Municipal Baltazar Dias). Tratava-se de uma pequena quinta localizada no centro do Funchal, propriedade da família Blandy, com belos jardins à volta, que proporcionava um ambiente acolhedor e propício às artes.

1.ª sede da Academia_Fachada Traseira
Sede da Academia, fachada traseira. Arqui. Teresa Dias.

A ideia da criação da Academia de Música da Madeira nasceu no seio da Sociedade de Concertos da Madeira, fundada, por sua vez, a 27 de abril de 1943, também por iniciativa de Luiz Peter Clode, de William Edward Clode e, entre outros, de Alberto Artur Sarmento. Esta Sociedade veio a extinguir-se em 1982, depois de um interregno de quatro anos na sequência da revolução de 25 de abril de 1974. Um dos membros desta Sociedade, que integrava o seu conselho diretivo, Alberto da Veiga Pestana, critica severamente muitas das regras de funcionamento da mesma no seu livro intitulado A César o que é de César: Legítima Defesa (1949). O alvará definitivo foi emitido pelo Ministério da Educação Nacional a 5 de outubro de 1947, passando a Academia de Música da Madeira a ministrar os cursos de acordo com o Conservatório Nacional de Lisboa, sendo que os programas eram os mesmos e todos os exames, a partir de 1950, eram realizados perante um júri de professores do Conservatório Nacional que se deslocava anualmente à Madeira. Entre as personalidades de relevo do Conservatório Nacional que se deslocaram à Madeira para presidir ao júri de exames contam-se Campos Coelho, Ivo Cruz, Jorge Croner de Vasconcelos, Armando José Fernandes, entre muitos outros.

O primeiro corpo docente da Academia foi constituído pelos professores Maria Campina, Lisetta Zarone, Wera da Cunha Telles, Paulo Manso (diretor), Maria Glória Manso, capitão Gustavo Coelho e André Cymbron. No primeiro ano, matricularam-se 228 alunos nas disciplinas de piano, canto, violino, solfejo, harmonia, história da arte e português.

A partir de 25 de junho de 1955, com a abertura dos cursos de pintura e escultura, através de uma secção de belas-artes, composta por 30 alunos nesse 1.º ano, a instituição passa a denominar-se de Academia de Música e Belas Artes da Madeira. A origem destes cursos teve por base a criação de um curso livre de pintura, no final dos anos 40, orientado pelo pintor Max Römer, que contribuiu para o aumento do entusiasmo pelas belas-artes na Madeira.

1.ª sede da Academia_Fachada Principal
Sede da Academia, fachada principal. Arqui. Teresa Dias.

Mais tarde, a 9 de março de 1963, é criada uma nova secção, a das línguas, onde passam a ser ministrados o português, o inglês, o francês, o alemão e o italiano. Seis meses depois, em setembro, a secção das línguas passa a funcionar na R. do Conselheiro, mesmo ao lado da sede da Academia.

No início dos anos 70, a sede muda-se para a R. da Carreira, n.º 56 (Funchal), onde permaneceu até 1976. Com o 25 de Abril de 1974, e durante o período revolucionário, um grupo de alunos mais velhos, liderados por Artur Andrade, ocuparam a instituição, saneando a direção. Foi um período muito conturbado, que viria a ser superado pelos fundadores e professores da instituição. Era então diretor Augusto Pereira de Sousa, violinista natural do Porto.

Após o período de perturbação (1974-1975), os cursos continuaram a funcionar com uma comissão de gestão ad-hoc, dirigida por Artur Andrade. No ano seguinte, os exames voltaram a realizar-se através do Conservatório Nacional de Lisboa.

No ano de 1976, a instituição muda de sede e passa a utilizar a Qt. das Angústias, depois conhecida como Qt. Vigia e sede da Presidência do Governo Regional. Os cursos de música tiveram uma grande melhoria nas condições de trabalho, pois passaram a dispor de mais salas e de um jardim; e passaram a contar também com um ateliê de construção de instrumentos, liderado por José Ferreira, onde foram ministrados, durante alguns anos, cursos com professores portugueses e estrangeiros, abertos aos alunos da Academia. Os grandes salões eram utilizados para ensaios de grupos e para as audições e concertos que ali se promoviam.

Em 1977, a instituição foi oficializada, passando a designar-se Conservatório de Música da Madeira. As belas-artes separaram-se da música, e foi criado o Instituto Superior de Artes Plásticas da Madeira. As duas instituições ficaram sob a dependência direta da Direção-Geral do Ensino Superior do Ministério da Educação e partilhavam, numa fase inicial, as instalações na R. da Carreira.

Em 1986 (portaria n.º 117/86), dá-se a regionalização do Conservatório, que recebe nova designação: Conservatório de Música da Madeira – Escola Secundária de Ensino Artístico, e passa a depender da Secretaria Regional da Educação.

Sede atual do Conservatório.jpg(BF)
Sede atual do Conservatório. (BF)

Em setembro de 1981, a sede passa para o chamado Hotel Nova Avenida, junto à ponte do Ribeiro Seco. Apesar de ser um edifício espaçoso, as condições nunca foram as ideais, pois as suas paredes interiores eram frágeis e o isolamento sonoro praticamente nulo, o que dificultava a aprendizagem dos instrumentos.

Neste período, sendo presidente da comissão instaladora a Dr.ª Inês Clode, foi feita uma aposta na contratação de professores estrangeiros, oriundos de países como a Hungria, a Croácia, a Rússia, a Ucrânia, a Finlândia, Inglaterra, Venezuela, Argentina e Arménia (entre outros), com uma preparação artística diferente, no sentido de se constituir um corpo docente com mais valências.

Quanto à gestão, o Conservatório, depois de oficializado, passou por três etapas. Durante 16 anos (1978-1994), teve várias comissões instaladoras (10 nomeações), nomeadas pelo secretário regional com a tutela da Educação; depois, em junho de 1994, foram realizadas as primeiras e únicas eleições democráticas para a direção, a qual, ao fim de oito meses (fev. 1995), foi demitida pelo órgão tutelar devido a desentendimentos entre os seus membros; finalmente, uma terceira etapa, em que foi novamente nomeada uma direção. Este procedimento de nomeação vigora ainda em 2013. No entendimento de muitos, a eleição realizada em junho de 1994 foi considerada uma oportunidade perdida para sempre na independência desta instituição que deveria funcionar como qualquer outra escola do ensino secundário, em que as direções são eleitas pelos seus pares.

A 31 de janeiro de 2000, através do DLR n.º 2/2000/M, a instituição passa a ser designada por Conservatório – Escola das Artes e, para além de manter o ensino especializado de música, passa a integrar cursos profissionais nas áreas da música, do teatro e da dança.

Pela direção desta instituição passaram as seguintes individualidades, de 1946 a 1974: Paulo Manso, Pedro Lamy Reis, Maria Campina, João Augusto Nogueira, Jorge Madeira Carneiro, Eurico Tomás de Lima e Augusto Pereira de Sousa (todos professores da Academia). De 1974 a 2013: Artur Andrade (aluno e professor), Américo Ferreira (professor), Maria Augusta Perestrelo (professora), Inês Clode (professora), Vítor Costa (professor), Miguel Rodrigues (técnico externo ao Conservatório), Inês Costa Neves (professora de físico-química da Escola Secundária Jaime Moniz), Rui Massena (maestro) e Tomásia Alves (psicóloga).

Na instituição funcionam, em 2013, os seguintes cursos: curso profissional básico de instrumento – nível II; curso profissional de instrumentista – nível III, equivalente ao 12.º ano; curso profissional de artes do espetáculo – interpretação – nível III, equivalente ao 12º ano; curso profissional de intérprete de dança contemporânea – nível III, equivalente ao 12.º ano. Os cursos profissionais de teatro e dança são lecionados em instalações apropriadas sediadas na Escola Profissional Dr. Francisco Fernandes, em São Martinho.

Funcionam ainda: o ensino artístico especializado (supletivo), dividido em três ciclos (preparatório, básico e secundário), com a duração de oito anos; os cursos livres de jazz (canto e instrumento), de machete, rajão, braguinha e viola de arame (denominados cordofones madeirenses); e a iniciação musical com quatro níveis e destinada a alunos dos 5 aos 10 anos.

O CEPAM organiza audições escolares, concertos e espetáculos de música, teatro e dança, mais centrados no Funchal e nos municípios onde existem os seus núcleos (para o ensino artístico especializado). Esta prática tem por objetivo permitir a exposição pública dos seus alunos, numa perspetiva pedagógica e artística.

O Conservatório iniciou, em 1992, a abertura de núcleos em diversos municípios da Madeira, por forma a poder aproximar-se do seu público-alvo. No ano letivo de 2012-2013, contava com um total de 10 núcleos, situados em Santana, Machico, São Vicente, Ribeira Brava, Calheta, Caniço, Camacha, Porto Santo, Ponta do Sol e Câmara de Lobos.

Através dos quadros abaixo, podemos verificar o número de alunos inscritos em 2012-13 nos cursos profissionais e no ensino artístico especializado e as localidades que passaram a dispor de núcleos do Conservatório:

Fig. 1: Quadro do número de alunos inscritos nos cursos profissionais no ano letivo de 2012-13. Fonte: Dados fornecidos pela direção do CEPAM em 24/09/2013
CursosNº. de alunos inscritos
em 2012-2013
Música (curso básico de instrumento e Curso Profissional de Instrumentista)48
Teatro (Curso Profissional de Artes de Espectáculo-Interpretação)25
Dança (Curso Profissional de Dança Contemporânea)17
Fig. 2: Quadro do número de alunos inscritos no ensino artístico especializado no ano letivo de 2012-13 Fonte: Dados fornecidos pela direção do CEPAM em 24/09/2013
Sede do FunchalAno de AberturaN.º de inscritos em 2012-13
Funchal1946492
NúcleoAno de AberturaN.º de inscritos em 2012-13
Santana199231
Machico199582
São Vicente199669
Ribeira Brava199657
Calheta199769
Caniço199969
Camacha200042
Porto Santo200040
Ponta do Sol200141
Câmara de Lobos2013-

O total de alunos que frequentaram a instituição em 2012-13, incluindo a sua sede no Funchal, foi de 1082 alunos.

Ao nível da frequência dos cursos de música, poderemos confrontar os números do quadro abaixo e constatar o aumento significativo ao longo das várias décadas:

AnoCursos de MúsicaCursos Profissionais de Música, Teatro e DançaTOTAL
1946-1947228-228
1960-1961119-119
1970-1971148-148
1980-1981375-375
1990-1991498-498
2000-20011600491649
2005-2006978471025
2010-20111491691560
2013-2014966*1051031*
*Este número não inclui os dados referentes a novos alunos.*Este número não inclui os dados referentes a novos alunos.
Fig. 3: Quadro do número de alunos que frequentou os cursos de música entre 1946 e 2013 Fonte: Dados fornecidos pela direção do CEPAM em 24/09/2013.

O significativo aumento de alunos que se verificou nas últimas décadas do séc. XX e nas primeiras do séc. XXI ficou a dever-se ao projeto implementado pela Secretaria Regional da Educação a partir do ano de 1980, com a generalização gradual do ensino da educação musical, e mais tarde das áreas artísticas em geral, nas escolas do ensino básico. Esta massificação do ensino das artes promoveu uma maior motivação para os jovens, servindo de seleção natural para aqueles que queriam seguir as artes como vocação ou mesmo como ocupação dos seus tempos livres, levando-os a inscrever-se no Conservatório.

Bibliog. manuscrita: ARM, Espólio de Luiz Peter Clode; impressa: ARM, Espólio de Luiz Peter Clode; BARROS, Fátima (coord.), O Eng.º Luiz Peter Clode e o Espólio Legado ao Arquivo Regional da Madeira, Funchal, DRAC, 2005; fontes orais: CLODE, Inês, entrevistada por Carlos Gonçalves [comunicação pessoal], Funchal, 28 set 2013.

 Carlos Gonçalves

(atualizado a 22.07.2016)