conto

O termo de origem latina computus (substantivo ligado a computare, contar numericamente, contar acontecimentos) designa um relato breve, oral ou escrito, que narra uma história de ficção (fantástica ou verosímil) com um reduzido número de participantes, uma intriga sintetizada, que se encaminha rapidamente para o clímax (o acmé) e o desenlace. O conto distingue-se do romance pela sua brevidade, a unidade de lugar, de tempo e de espaço, a concentração num elemento nuclear que provoca um ponto culminante. Aprofundando a teoria do conto de Edgar Allan Poe, Julio Cortázar reflete sobre a eficácia do conto concebido como uma dinâmica orgânica em que todos os procedimentos formais se ajustam ao tema, segundo uma economia discursiva e densidade dramática, assentes na tensão e na intensidade, conquistando o interesse do leitor. Para Cortázar, o romance é comparável ao cinema, ao passo que o conto funciona como uma fotografia que delimita um determinado fragmento da realidade ao rejeitar digressões, de tal forma que o recorte atue como “uma explosão”, abrindo “de par em par para uma realidade mais ampla” (CORTÁZAR, 2006, 376). Enquanto o romance se organiza a partir de vários núcleos dramáticos e procura expressar a vida humana na sua complexidade através de vários conflitos, o conto foca apenas um momento dessa vida, um fragmento expressivo da totalidade.

Na primeira metade do séc. XX, na Madeira, destaca-se o trabalho narrativo do Visconde de Porto da Cruz (de seu nome Alfredo António de Castro Teles de Meneses de Vasconcelos de Bettencourt de Freitas Branco, 1890-1962), que escreveu Contos Vividos na Guerra (1954). Os 15 contos são histórias ficcionalizadas que refletem sobre as adversidades e os dramas que envolvem o ser humano durante a Segunda Guerra Mundial numa reescrita da História, segundo o ponto de vista germânico, considerando que o Visconde de Porto da Cruz esteve ao serviço da Alemanha em Berlim. Na maioria dos contos, o narrador desconstrói a dicotomia do alemão como verdugo e do judeu como vítima: o importante é contextualizar atitudes, gestos e modelos dentro da perspetiva complexa da guerra.

Todas as narrativas começam com um enquadramento histórico que funciona como pano de fundo da ficção. No conto “Sonho de uma Noite de Guerra”, foca o destino trágico de uma jovem cigana italiana que pede asilo aos alemães após a invasão da Itália pelos Aliados durante a Segunda Guerra Mundial. Ela vê frustrado o seu sonho de amor: o seu namorado alemão tem de continuar a batalhar na guerra. Metaforicamente, a jovem encarna a esperança desfeita em tempos de violência extrema. O conto “Romance e Tragédia” exalta a vida em Berlim durante a guerra a partir do testemunho de um “eu” que presenciara a vitalidade da cidade antes de ser destruída pelos aliados. O narrador fala da grande paixão que o seu amigo Nico nutria por Zelma: o jovem desaparece pelas atrocidades da guerra. O nó central da “Dolorosa Realidade” é a infidelidade que uma mulher alemã comete ao ter tido relações com um judeu no começo da guerra. É só no fim da guerra que o marido descobre que a menina de seis anos é filha do judeu que ele acolhera na sua casa de Bruxelas quando o governo do Reich expulsara os judeus do seu território. “Estranhas Psicologias” foca a relação de amizade entre o português Vasconcelos e um barão alemão, antigo diplomata do império. Após ter sido aluno do engenheiro Vasconcelos, o barão descobre que a sua mulher se sente atraída pelo professor. Este salva o barão no momento em que os aliados incrementaram os ataques.

Como contista, Horácio de Ornelas Bento de Gouveia (1901-1983) imprime a sua singularidade em três relatos da coletânea de crónicas e contos Alma Negra e Outras Almas, publicados em 1972. Os três contos têm o denominador comum de salientar a solidão das personagens, vítimas da rejeição social. As personagens são condenadas a um destino negativo: os textos exploram os temas da frustração, a anulação de si, a repressão dos desejos e o suicídio, segundo uma vertente realista-naturalista. O relato “Alma Negra” centra-se na história de duas irmãs solteiras, Clara e Emília, de 50 anos, que sucumbem à frustração, dado que os respetivos pretendentes se entregam à bebida e a outras relações amorosas. Com o passar do tempo, elas tornam-se cada vez mais frias numa trama que acentua o conflito entre o tempo da juventude e o tempo da idade madura. O texto critica a pequenez da mentalidade provinciana que envolve as duas irmãs. O conto “Não Foi o Mar que o Matou” incide no percurso disfórico do rude pescador João Pereira, que toma conhecimento da infidelidade da namorada Maria. A dramaticidade do texto intensifica-se no momento da catástrofe marítima: desiludido, João decide voluntariamente permanecer na embarcação, apesar da fúria do mar. A escrita realista de Bento mimetiza o modo de falar dos pescadores para conferir maior verosimilhança à narrativa. A descrição da natureza alia-se ao estado de espírito da personagem masculina, indiciando a tragédia. O conto “Ana Maria” centra-se na vida da jovem Ana Maria que abandona a Calheta para ir estudar no Magistério, no Funchal, numa reescrita do ritual de iniciação. O olhar crítico de Bento sublinha como a protagonista se torna mais ambiciosa ao sucumbir aos valores citadinos e insiste em marcar o fosso entre a burguesia e os camponeses que se reflete na relação entre Ana Maria e Henrique, homem avesso ao compromisso. O itinerário de ascensão de Ana Maria estagna, já que Henrique, símbolo da vida da cidade, casa com uma estrangeira. Tanto “Alma Negra” como “Ana Maria” denunciam a difícil condição feminina no séc. XX.

Ernesto Jaime Leal (1903-2005) dedicou-se à escrita do conto como manifestação etnográfica ao recriar personagens de várias latitudes, observando os seus costumes, práticas culturais e modos de agir e de pensar. O conto “A Velha do Barco dentro do Barco da Velha” exalta uma velha chinesa que vive uma relação de osmose com a sua embarcação, o tancar, até o ponto de nela morrer devido a um tufão. O texto funciona como exemplum da devoção e da fragilidade humanas. Em “O Galo” todo o enredo, circunscrito a um arraial do Minho, insinua um medo latente que pode referir-se a uma “alegoria do Portugal salazarista”, como aponta António Fournier (FOURNIER, 2008, 11). No relato “O Trovão do Senhor”, Leal refere as peripécias do contabilista Simão Simões na Goa colonial com o olhar da descoberta. Hospedado na pensão Lusitânia, o contabilista começa a tomar consciência da estratificação social da Índia. A sua curiosidade pelo lugar sofre um primeiro abalo quando tenta, em vão, dialogar com um parse que confunde com um hindu. O desenlace insiste no desencontro entre culturas.

Em “O homem que Comia Névoa” exalta-se o trabalho dos camponeses da ilha, a prática do despique como festa da palavra e a presença constante do nevoeiro como marca da luta contra as adversidades. No relato “Aquele Chefe Americano”, Leal constrói um longo diálogo entre um chefe americano e um adjunto português, divididos por preconceitos enraizados, que remetem para a visão de um Portugal atrasado. A partir das atitudes do adjunto, Leal denuncia a vassalagem dos portugueses perante o poder americano. No conto “Tio, Ilha, Anonas e Estrelas”, o narrador de sete anos conta como o tio consegue criar uma telefonia nos anos 20 na Ilha. Leal adota o ponto de vista deslumbrado da criança que concebe o tio como um mágico que abre as portas do universo à família, permitindo-lhes “escutar a humanidade e as estrelas” (LEAL, 2008, 131). A telefonia é a metáfora da comunicação que figura um avanço e uma solução para superar a insularidade.

Numa vertente de humor satírico, a escrita do conto de António Manuel de Sousa Aragão Mendes Correia (1925-2008) distingue-se como uma voz irónica. Em 1992, publica os contos Textos de Apocalipse, acompanhados de uma gravura a cores desenhada pelo autor. A desconstrução e a paródia são as linhas diretrizes que marcam a estrutura destes contos. O título evidencia um desvio lúdico à tradição judaico-cristã numa vertente regeneradora do apocalipse que busca facultar uma nova ordem ao leitor. Composta por oito contos, a coletânea é um grito de humor que questiona os poderes instituídos: a família, a política e a ideologia dominante. O jogo de provocação observa-se na escolha do título e na escrita em letra minúscula, que manifestam uma forma de distanciamento lúdico das convenções. Para Thierry dos Santos, quase todos os contos exploram uma dimensão do insólito que paira como se fosse uma ténue ameaça envolvendo de tensão e de desarmonia as relações familiares.

Em “três vultos suspeitos” assiste-se à encenação de conspiração em tempo de ditadura: um cão assusta-se e desencadeia a espiral do medo em cadeia. Tudo ganha uma dimensão insólita que se metaforiza na aparição de King Kong, saído da televisão. Segundo Thierry dos Santos, o texto estrutura uma alegoria das fobias que tentam travar todos os mecanismos subversivos que questionam a ordem estabelecida. Em “um leão é sempre leão”, Aragão explora a vertente absurda e fantástica do mundo ao encenar as vicissitudes de um funcionário que se depara com a sua perda de identidade e se transforma em leão. No conto “a necessária esferográfica” encena a alegoria do poder que tudo contamina, esvaziando de sentido a tarefa de um secretário, reduzido a assinar papéis sem discernimento como se ele fosse a extensão da esferográfica. O humor satírico de Aragão manifesta-se no breve relato “congresso sem congressista” em que um político já morto deseja manter o mesmo estatuto, direitos e regalias de quando era vivo. Aragão insere o seu texto na perspetiva do duplo fantástico em “os gémeos tinham razão”, levando até às últimas consequências o perigo da dissolução da identidade, inscrevendo-se na linha de Edgar Allan Poe. O texto instaura a ambiguidade, permanecendo a dúvida acerca do homicida ou talvez se trate de uma alucinação que obrigou um deles a disparar contra si próprio, como aponta a leitura crítica de Thierry dos Santos.

Herberto Helder de Oliveira (1930-2015) representa uma das vozes mais criativas da literatura portuguesa, afirmando-se como um dos mais marcantes poetas da segunda metade do séc. XX e do início do séc. XXI. Na construção do conto, o nome de Herberto Helder destaca-se pelo paradigma de mudança que a sua escrita inaugura na literatura portuguesa, atenuando a fronteira entre a prosa e a poesia, modeladas ambas como formas distintas de uma mesma matéria. Maria Alzira Seixo concebe Helder como um cultor excecional do conto: a sua escrita perscruta “a aguda impressão do vazio” […], “uma espécie de descolagem do ser em relação ao mundo” caracterizada pela “fantasia que se desdobra em sonhos e delírios” (SEIXO, 2008, 122). Enquanto contista, Herberto Helder constrói 23 narrativas em Os Passos em Volta (1963), cuja estrutura circular se ancora na tradição de Viagem ao Redor do meu Quarto de Xavier Maistre. Os textos incidem na viagem física e na travessia interior de errantes solitários que divagam em cidades da Holanda, da Bélgica e de Portugal – lugares inóspitos para as personagens – que as desenraízam. Os Passos em Volta representam os passos de um narrador-poeta que tenta descobrir o sentido da sua existência. Como não consegue obter resposta de Deus, envereda pela busca de um estilo de escrita que “é um modo subtil de transferir a confusão e a violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação” (HELDER, 2014, 7).

Face ao outramento provocado pela experiência do auto-exílio, o narrador busca dentro de si a matéria visceral para construir a sua poética transfiguradora. Na maioria dos textos d’Os Passos em Volta, encontra-se a presença de um “eu” que se observa e se analisa com profunda carga emocional e erótica, construindo uma linguagem simbólica, herdando a busca órfica, segundo Manuel Frias Martins (MARTINS, 1983, 26). Em “A Teoria das Cores”, Helder reflete sobre o papel do artista face à criação: o pintor compreende que o princípio da metamorfose rege a imaginação e a palavra. Cada coisa do mundo está marcada pela mudança constante: o pintor capta o seu erro ao desejar plasmar a imagem fixa do peixe vermelho num quadro, ele recria-o ao representá-lo de cor amarela. Numa indagação metaliterária, o narrador inominado d’Os Passos em Volta debruça-se sobre a opacidade como marca poética nos textos “Estilo”, “Vida e Obra de um Poeta” e “Poeta Obscuro”, três narrativas construídas sob o signo da divagação aforística. Em lugar de um enredo convencional, Os Passos em Volta são meditações de um narrador que reflete sobre experiências limite, tais como: a dor, Deus e o Demónio, o tempo, a morte. O relato “Os Comboios que vão para Antuérpia” ficciona a viagem sem fé do protagonista possuído pelos dons do Demónio, em busca do sentido da eternidade a partir de um estilo intemporal. O conto “O Grito” apresenta dois planos de ação: no passado, o protagonista é submetido a um interrogatório policial, acusado de suspeita de filiação no partido comunista. No presente da enunciação, o texto mostra como o narrador atravessa uma transformação interior que o faz transitar de insignificante empregado de escritório a um bebedor compulsivo, representando o desregramento dos sentidos. O grito refere-se às torturas cometidas pela PIDE que funciona como marca de sofrimento e de resistência ao esquecimento. A bebedeira inscreve-se também na tradição da embriaguez poética como experiência de salvação concebida para libertar o presidiário dos contínuos gritos que o acossam. Em “Descobrimento”, um passeante entra sempre numa rua circular, uma espécie de labirinto sem fio de Ariadne que o leva a meditar sobre o recomeço das coisas. O insólito ganha espaço no conto “As Doenças da Pele” quando o corpo da personagem é paulatinamente consumido por uma mancha branca sem explicação racional: o corpo torna-se lugar de abjeção.

Em “O Quarto”, duas vozes narrativas são desdobramentos de uma única individualidade que se divide entre o jovem viajante e o ancião que se debruça sobre a ideia de morte. É o encontro de dois diferentes estados de consciência que interagem como se fosse um diálogo final. Na caminhada para o seu passado, o velho constata que não há raças nem países: já não precisa que o amem pelas conquistas ilusórias da vida. A linha temporal é abolida, passado e futuro anulam-se pelo encontro marcado num café da ilha. O idoso é um solitário invulgar, na medida em que o seu discurso se constrói sobre paradoxos: é alguém que deambulou para se tornar indiferente às diversidades culturais, que manda construir uma casa para nela morrer e decide deixar um quarto não assoalhado como forma de comunhão com a terra. Transgredindo a ideia de tempo, o idoso sonda lentamente a concretização de uma casa tumular. Em “Brandy”, a embriaguez assume um sentido metafórico como modo de devorar o mundo, reinventando uma nova gramática que implica devorar o mundo para integrar a sua matéria.

No conto “Duas Pessoas”, Helder constrói uma estrutura bipartida que explora o confronto de discursos entre um homem e uma prostituta, segundo o monólogo interior. O texto incide em duas vozes suces­sivas que aludem ao anticlímax vivido após o contrato sexual que os ligou. A construção narrativa reforça a insignificância da mulher paga, reduzida a um corpo. Neste conto, Helder desenvolve o mecanismo da mise en abyme ao reapropriar-se do discurso de Hamlet: a inserção de excertos do segundo ato da peça de teatro acentua o jogo de espelhos que desde o início se constrói, provocando uma cadeia de projeções que cada voz edifica em torno do “outro”. Em Shakespeare, Hamlet finge rebaixar Ofélia ao estatuto de prostituta, enquanto o protagonista de Helder está diante da mulher já desvalorizada, mas que o inspira a resgatar a sua humana dignidade. Reescrevendo o tema bíblico do filho pródigo, a última narrativa “Trezentos e Sessenta Graus” marca o fim da deambulação do sujeito e o regresso à ilha. O narrador tenta reinstaurar elos de conexão com a mãe e o pai, após ter experienciado os limites da loucura num encontro fictício. De forma metafórica, a mãe é concebida como uma aranha que borda intemporalmente. Ao bordar da mãe se sucede o texto lírico que o narrador incorpora na meditação: “A casa é como uma escrita onde as palavras se motivam e se desenvolvem por si próprias” (HELDER, 2014, 185).

Na sua vertente contística, o nome de Ana Teresa Pereira (1958) é uma voz que sonda com insistência o imbricamento da realidade e do sonho. Os seus contos inscrevem-se entre o real e o onírico, o policial e o fantástico, inserindo referências múltiplas à literatura, ao cinema e à música que dialogam com o leitor numa perspetiva de memória recuperada. As personagens são projetadas para uma atmosfera de sonho que causa uma fenda no real: a escrita de Pereira começa por ancorar-se num contexto realista, mas, pouco a pouco, os indícios de fantástico aumentam, desconstruindo o enquadramento realista. O facto de as personagens transitarem de um conto para outro intensifica o clima de insólito que revisita a escrita fantástica graças a um jogo de espelhos inusitado. O desdobramento da personagem é uma reescrita do tema do duplo que questiona a identidade. A beleza das personagens principais são prenúncios de morte: os contos apresentam as personagens que se movem entre a pulsão de Eros e a pulsão de Tânato. As flores, a biblioteca, o jardim e o mar constituem o núcleo de obsessões que influenciam a errância dos protagonistas. Tal como nos romances, os contos de Ana Teresa Pereira interligam o esotérico ao erotismo numa releitura da literatura gótica. No conto “As Asas”, Carla encontra a casa do enigmático Azazel num passeio pela floresta. O homem tenta seduzi-la, sendo “a sombra de outro ser” (PEREIRA, 2013, 17).

O estranhamento surge quando o perfil de Azazel não se reflete no espelho e o jardim se transforma num labirinto. Carla foge e vai ao encontro do amante Miguel que se transforma em Azazel. O conto cita um quadro de Magritte como um jogo de trompe l’oeil que atravessa a narrativa. O texto “O Prisioneiro” relata a relação entre Tom e Marisa, envolvidos num jardim insólito em que flores imprevisíveis brotam em pleno inverno. O relato desenvolve uma estrutura circular: as personagens repetem as mesmas ações e atitudes, acentuando a estranheza. A personagem Tom metaforiza o homem preso a um universo fantástico. Numa atmosfera de tensa irrealidade, o relato “Os Monstros” narra a paixão entre Sónia e um bibliotecário cuja beleza deslumbrante o aproxima de um monstro. Após o relacionamento, Sónia gera um monstro num espaço cada vez mais labiríntico. Em “O Ponto de Vista das Gaivotas”, Pereira segue de perto a intriga do filme Nigthmare de 1947 de Hitchcock, em que o tema do duplo ganha contornos insólitos, reescrevendo os contos “Barba Azul” e “A Bela e o Monstro”. Pereira fundamenta-se na estranheza irreal do filme para construir a sua poética do indizível e do enigmático. “O Teu Lugar no Meu Corpo” centra-se na relação amorosa entre uma mulher com os traços de Rapunzel e o amante que cede ao seu encantamento num espaço impregnado da atmosfera de conto de fadas. A ambiguidade do desenlace deixa pairar a possível morte de Tom. “As Beladonas” constrói um cenário inquietante em que a pulsão de Tânato predomina, atingindo os dois amantes, Tom e Patrícia. “Até que a Morte nos Separe” volta a narrar a história de amor entre Tom e Patrícia com novos contornos. Tom perde a sua filha cega que morre num bosque encantado. A relação entre Tom e Patrícia está marcada pelo signo da maldição. No conto “O Anjo Esquecido”, num espaço assombrado, Tom e Marisa experienciam o sabor do amor e da morte.

Maria Aurora Carvalho Homem (1937-2010) publica Leila em 2005. Os quatro contos da coletânea são condensados de vida que se debruçam sobre a condição feminina. Em “Fernanda”, é através dos movimentos da sua câmara fotográfica que um fotógrafo regista o drama passional no qual está envolvida Fernanda num arraial de Ponta Delgada. “Alzira” é a história de repressão que envolve a protagonista ao ser comprada como um objeto pelo patrão na serra de Gravia. “Laura” segue o ponto de vista de uma jovem que tentara suicidar-se após uma desilusão amorosa. Em “Leila”, a narradora observa com minúcia as belezas arquitetónicas de Marrocos, sucumbindo à sensualidade de uma artista plástica cujo segredo é ter um órgão genital masculino.

José Viale Moutinho (1945) publica os contos Pavana para Isabelle de França em 1992. Com uma dicção realista, Viale de Moutinho capta histórias que tecem a ruína do homem, confrontado com o inevitável fluir do tempo, descrevendo os despojos, as marcas da perda, revelando o gosto pela efabulação. Em “Rua da Carreira, Ocaso”, a protagonista Adélia, doente de tuberculose, deseja fotografar-se numa tentativa de mostrar ao pai os efeitos benéficos do clima madeirense. A referência ao escritor Júlio Dinis, que morreu na rua da Carreira, é um espelhamento prenunciador da morte de Adélia. Em “Póvoa”, encontra-se um olhar centrado na cosmovisão dos pescadores da vila de Póvoa. O pescador José da Mata é nomeado pelo tio Jerónimo para organizar as festas de Nossa Senhora do Mar Alto. Todo o conto gira em torno da tragédia de José que perdera o braço no mar. Para fazer justiça, José queria que o acidente fosse divulgado na imprensa. O texto “Caffé San Marco” é uma revisitação de escritores (Svevo, Dante, Rilke, Joyce) que deixaram a sua marca em Veneza, articulando uma meditação sobre a arte de criar memória, face ao peso acelerado do perecível. A escrita regista vozes que falam do duro exercício de morrer: “Se estamos certos de que vamos morrer, porque ter medo da morte?” (MOUTINHO, 1992, 93).

Ana Margarida Falcão (1949) publica o livro de contos O Largo ou um Percurso de um Habitante, em 1995, que se ancora no espaço utópico do Largo, fio condutor das onze narrativas que suscitam estranhamento pela sua forte carga simbólica. Na antologia Contos Madeirenses de Nelson de Veríssimo (2005), no conto “A Cidade com Ruas que Davam para o Mar”, Falcão relata a experiência do narrador que se encontra no Funchal como o contador de histórias, instaurando o relato na celebração da memória da ilha e da voz que a eterniza. Na mesma antologia, salientamos a narrativa “A Muralha” de Irene Lucília Andrade (1938) de onde se desprende um olhar poético sobre o ser humano, face à vida vazia numa sociedade madeirense, enclausurada em si mesma: uma escrita que reflete sobre o desajuste amoroso e os vestígios da memória. Na antologia Narrativas Contemporâneas da Madeira (1997), a trama do conto “A Fonte” incide no regresso de um madeirense que projeta o olhar elegíaco sobre a efemeridade do tempo. Outros contos desta escritora encontram-se dispersos em publicações várias.

Antologias de contos: Narrativas Contemporâneas da Madeira/Récits Contemporains de Madère, ed. e trad. de Isabel M. Baião dos Santos, João Paulo F. Tavares e Thierry P. dos Santos, Funchal, Eco do Funchal, 1997; Contos Madeirenses, org. de Nelson Veríssimo, Porto, Campo das Letras, 2005.

Bibliog.: ARAGÃO, António, Textos do Abocalipse, Lisboa, Pedro Ferreira Editor, 1992; BENTO, Horácio de Gouveia, Alma Negra e Outras Almas, Funchal, Minerva, 1972; CALDERÓN, Demétrio Estébanez, Dicionário de Términos Literários, Madrid, Alianza Editorial, 1996; COELHO, Leonor Martins, “Leituras de uma Cidade Insular: Crónicas de Ricardo França Jardim e Contos de José Viale Moutinho”, in FALCÃO, Ana Margarida et alii (ed.), Funchal (d)Escrito. Ensaios sobre Representações Literárias da Cidade, Vila Nova de Gaia, 7 Dias 6 Noites, 2011, pp. 163-193; CRUZ, Visconde do Porto da, Contos Vividos na Guerra, Aveiro, A Lusitânia, 1954 (Ed. do Autor); CORTÁZAR, Julio, “Algunos Aspectos del Cuento”, in YURKIEVICH, Saúl e ANCHIERI, Gladis (ed.), Obra Crítica. Obras Completas VI, Barcelona, Galaxia Gutenberg/Círculo de Lectores, 2006, pp. 370-386; FALCÃO, Ana Margarida, O Largo ou o Percurso de um Habitante. Contos, Funchal, Grafimadeira, 1995; HELDER, Herberto, Os Passos em Volta, Lisboa, Porto Editora, 2014; HOMEM, Maria Aurora Carvalho, Leila Contos, Vila Nova de Gaia, Ausência, 2005; LEAL, Ernesto, Tio, Ilha, Anonas e Estrelas, org. e pref. de António Fournier, Funchal, Funchal 500 anos, D.L., 2008; MARTINS, Manuel Frias, Herberto Helder: Um Silêncio de Bronze, Lisboa, Livros Horizonte, 1983; MOUTINHO, José Viale, Pavana para Isabella de França, Lisboa, Difel, 1992; PEREIRA, Ana Teresa, Contos, Lisboa, Relógio d’Água, 2003; SANTOS, Thierry Proença dos, “Sobre Textos do Apocalipse de António Aragão: Uma Paródia do Texto Apocalíptico?”, Margem2, n.º 28, maio 2011, pp. 41-53; SEIXO, Maria Alzira, “Contos Largos – Uma Perspetiva e Exemplo (Sinopse de uma Conferência)”, in NEVES, Margarida Braga e ROCHETA, Maria Isabel (coord.), O Domínio do Instável. A Jacinto do Prado Coelho, Porto, Caixotim, 2008, pp. 115-127.

Celina Martins

(atualizado a 30.08.2016)