convento da encarnação do funchal

Até ao século XVII, em toda a ilha e em particular para as mulheres, somente existiu o convento de Santa Clara do Funchal, fundado nos finais do século XV, e, para ter acesso à entrada neste convento, era necessário um avultado dote. A proliferação destas instituições na Península Ibérica, assim como os abusos de que eram alvo, não especialmente morais, mas económicos e sociais, levou a uma diminuição nas autorizações a novas fundações e mesmo à sua proibição em 1610, por Filipe II. Foi necessário esperar pela aclamação de D. João IV para desbloquear a situação.

A 18 de agosto de 1588, casaram-se na sé do Funchal Cecília Calaça e Bento Martins, guarda da ribeira, já em segundas núpcias, tendo enviuvado da sua primeira mulher, Isabel Lourenço de Medeiros, sem haver descendência. A nova mulher do guarda da ribeira do Funchal era uma pessoa de certas posses no Porto Santo, filha de Guilherme Acré, de origem estrangeira pela linha materna, e de Maria Gonçalves de Viveiros. Deste casamento nasceram quatro filhos, o primeiro dos quais, nascido em Porto Santo, em 1598, tomou os nomes do lado da mãe e veio a ser cónego da sé do Funchal. Chamou-se Henrique Calaça de Viveiros (1598-1662) e foi o fundador do novo convento de freiras clarissas de Nossa Senhora da Encarnação do Funchal.

Capela da Encarnação. Arqui. Rui Carita.
Capela da Encarnação. Arqui. Rui Carita.

Aproveitando a aclamação de D. João IV, como mais tarde declarou o cónego Calaça perante o tabelião público do Funchal, Luís Gonçalves, com testemunhas e numerosos assistentes, porque havia grande número de meninas que, desejando servir a Deus em clausura, o não podiam fazer por não existir em toda a ilha e bispado mais do que um mosteiro de freiras da ordem de Santa Clara, no qual viviam as freiras “com muito aperto, por serem muitas e o sítio muito limitado” entre caminhos e rochas, com a “feliz aclamação” de D. João IV e querendo “dar graças a Deus” pela mercê que fizera a Portugal de lhe dar um “rei natural”, achou que nenhuma coisa poderia fazer “de mais serviço seu” que fundar um “recolhimento para donzelas” (ANTT, Conventos, Convento da Encarnação…, liv. 8, fl. 3). A sua ideia era fundar uma casa em honra e louvor da Virgem da Encarnação, sendo a primeira pedra  lançada a 20 de novembro de 1645. Um ano depois, no mesmo dia e mês, já entravam as primeiras cinco recolhidas, que ficaram a observar a regra de Santa Teresa de Ávila, das Carmelitas descalças, embora depois se refira calçadas.

Só depois de minimamente articulado o seu projeto o cónego Calaça pediu autorização régia, até porque estes primeiros anos foram palco de alguma agitação política regional, tendo-se, inclusivamente o bispo do Funchal, D. Jerónimo Fernando (c. 1590-1650), retirado para Lisboa logo em 1641, ainda que só ali tenha vindo a falecer em 1650. Conforme o cónego veio a declarar no registo oficial de escritura, de 14 de janeiro de 1659, embora a sua inicial intenção fosse para a fundação de um convento para religiosas de Santa Teresa, da Ordem de Nossa Senhora do Carmo, “vista a grande falta que esta ilha sofre de peixe e legumes”, que dificultava o “cumprir à risca a apertada ordem” em questão, se conformava com a regra da ordem que o rei houvesse “por bem escolher”.

O cónego, nas suas alegações para a coroa, não deixou de frisar que não vislumbrava razões para que se não desse autorização ao estabelecimento, pois com certeza que ninguém queria que “as ditas donzelas pagassem o descuido e negligência” que tinham tido os antepassados em não fundarem mais conventos na Madeira, que teria necessidade “de quatro e cinco mosteiros de religiosas”, dando como exemplo o vizinho arquipélago dos Açores, onde existiam vários e não só nas cidades, como também nas vilas. Acrescia que a ilha tinha perto de “trinta mil almas de confissão e um bispado, que já foi arcebispado e metrópole do Estado da Índia”, pelo que não havia razão para só ter um convento feminino (ANTT, Conventos, Convento da Encarnação…, liv. 8, fl.3)

Não possuímos muitas informações sobre a vida do inicial recolhimento carmelita, que recebeu breve do papa Inocêncio X de 16 de novembro de 1651, mas as primeiras cinco recolhidas já tinham vindo do convento de Santa Clara no dia 20 de novembro de 1646, “vésperas de Nª S.ª da Apresentação”; dessas primeiras recolhidas, algumas ali faleceram “antes de ser convento com bom nome” e só veio a professar a madre Teresa de Jesus. O cónego Calaça, entretanto, assumiu as obras na sua quinta sobre Santa Luzia, onde alguns anos depois, e segundo declarou, teria gastado “perto de vinte mil cruzados”, incorporando no novo recolhimento a antiga capela instituída por António Mialheiro, falecido em 1522, e depois administrada pelo seu filho Gonçalo Mialheiro, falecido em 1565, e cuja capela-mor havia sido depois instituída por D. Isabel Maria Acciauoli. A administração da capela passara para o cabido da sé e o cónego Calaça, como chanceler do mesmo, solicitara a “igreja para a sua fundação” (ANTT, Conventos, Convento da Encarnação…, 8, fl.17).

02-Verso retabulo Encarnacao
Verso do Retábulo do Convento da Encarnação. Arqui. Rui Carita.

A capela da Encarnação fora mandada construir, em princípio, por António Mealheiro, falecido em 1522, devendo ter sido mestre da mesma o mestre das obras reais Pero Anes (c. 1470-c. 1538), que em 1514 se encontrava à frente das equipas de construção da sé e da alfândega. A presença, na porta lateral da capela, do provável retrato deste mestre, em tudo semelhante ao da base do púlpito da sé, e a representação de uma mão empunhando um compasso de pontas no intradorso da moldura da mesma porta parecem apontar nesse sentido. A data de construção da capela também aponta para os meados da década de 10 do século XVI, para ter sido dotada com um espantoso retábulo atribuível à oficina de Josse van Cléve (c. 1485-1541) e datável de 1510 a 1515. A capela da Encarnação, também passou a matriz da freguesia de Santa Luzia, instituída a 28 de dezembro de 1676, pois que a inicial ermida desta evocação não comportava a freguesia, sendo a da Encarnação assim partilhada entre a freguesia e o convento de 1741 a 1745, quando se reconstruiu a nova igreja.

A autorização real para a fundação veio a ser transmitida pelo gabinete da regente D. Luisa de Gusmão, na menoridade de D. Afonso VI, e por certo por determinação do conde de Castelo Melhor (1636-1720), filho da donatária da capitania do Funchal, com data de 15 de novembro de 1659, onde se refere a autorização papal e já ali se encontrarem “recolhidas vinte donzelas, que guardavam a regra de Santa Teresa das Carmelitas calçadas”, enquanto no Funchal se houvesse referido “descalças”. O futuro convento foi então alvo de vistoria pelo “reverendo Deão, nosso Provisor e Vigário Geral”, dado a diocese se encontrar em sede vacante, o célebre cónego Pedro Moreira (c. 1600-1674), depois implicado na sedição de 1668 (VERÍSSIMO, 2000, 157-162).

Face a ter sido encontrado o “recolhimento e casa bem edificados, e a igreja e seu espiritual muito decente”, com sacrário e altar muito bem ornado, com todos os paramentos necessários para a celebração do culto divino, e não haver partes por onde se “quebrantar a clausura interior”, por não haver nela mais que três aberturas: uma no coro superior, e outra no coro inferior, e outra na tribuna onde recebem a comunhão; mas todas as três cerradas com grades de ferro “muito fortes e apertadas”, com que fica a “clausura pela parte da dita igreja muito segura”, a autorização foi dada localmente a 11 de abril de 1660. Assim, logo no dia 18 transferia-se do convento de Santa Clara a reverenda madre Maria Clara de São Bernardo, escolhida pelo deão Dr. Pedro Moreira, “fechada em uma cadeira (que são as carroças desta ilha)”, que sem qualquer “divertículo” se dirigiu ao novo convento da Encarnação “acompanhada de muitas senhoras nobres de todos os estados, fidalgas e virtuosas”. A madre entrou na Encarnação pelas quatro horas da tarde, sendo recebida pelas recolhidas, que a aceitaram como superiora, fechando-se as portas do novo convento e dando-se início efetivo à clausura conventual (ANTT, Conventos, Convento da Encarnação…, liv. 8, fl. 3).

A vida do convento foi nos primeiros anos dominada pelas obras, tendo quer a armazenagem dos materiais, quer os carretos, quer ainda as obras de manutenção e arranjo ocupado as preocupações das superioras do convento: no primeiro triénio, a madre Clara de São Bernardo, e no segundo a madre Teodora de Jesus. O convento foi fundado com 34 religiosas, embora os iniciais estatutos referissem 30, que entraram com um dote de 300 mil réis cada uma, a que se somaram os quantitativos da doação inicial do cónego Calaça e demais doadores do convento, e que no primeiro ano de funcionamento envolviam ainda uma verba de mais 100 mil réis de cada religiosa para as obras.

Em 1660, dois anos antes de morrer, o cónego Calaça de Viveiros doou ainda todos os seus bens ao convento. Os bens do cónego eram de certa forma importantes, especialmente a quinta de São Roque, logo vendida a Gonçalo Gomes de Castro por 1$300 réis, mas a que somou depois uma série de foros e dinheiros, que estavam emprestados a proprietários nas freguesias de Santa Cruz e do Monte. Do testamento do cónego ficaram outras verbas para se entregarem às suas sobrinhas, emprazadas numa terça com a obrigação de dois lugares no convento, onde viriam a professar, e sendo depois várias parentes do cónego eleitas madres superioras.

Com este dinheiro se assentaram melhor os iniciais muros do convento, especialmente em redor da torre, “que dos alicerces se edificou”, no levantamento do dormitório novo, na reformulação do coro e da grade que estava a par da igreja, tal como no derrube das casas velhas, entretanto incorporadas na nova cerca conventual. É interessante que vamos encontrar envolvidas nas despesas da construção grande parte das figuras importantes desta época, como as barcas de cal que vieram do Porto Santo, através do então governador daquela ilha, o tabuado de til que foi adquirido em agosto de 1665 a António do Carvalhal Esmeraldo, outras madeiras adquiridas a João de Bettencourt Henriques, então guarda da saúde do Funchal, etc. Uma das primeiras preocupações foi o abastecimento de água, para o que se contratou o mestre Gaspar de Oliveira, que construiu uma levada de pedra para o transporte da mesma, acordando-se com o morgado João de Bettencourt de Vasconcelos a serventia da água “que vinha da serra”, tendo-se-lhe pago desde o tempo em que o convento era apenas um recolhimento.

Ao terminar o primeiro triénio do lugar, a madre Clara de São Bernardo ainda deixou para a sua sucessora tabuado de til e de pinho para soalho, chaprões de cedro para as janelas, madeira de castanho para armações e mais necessidades, “vinte e oito mil e tantos réis” de pregos comprados a Diogo Fernandes Branco, “que todos ficam”, uma fornada de cal cozida, mais três barcas de pedra de cal para outra fornada, etc. Infelizmente as obras do convento nunca tiveram a direção de um mestre-de-obras real, como seria de esperar, e que nessa data deveria ter sido o filho de Bartolomeu João (c. 1590-1658), Bartolomeu João de Abreu, mas que, nomeado em 1660 e acaba por falecer em 1668 (BNP, Reservados, cód. 8391, fl. 16), não tendo o lugar sido preenchido nos anos seguintes.

A entrada de uma jovem para o convento, primeiro como educanda e depois como noviça, não deveria ser feita com menos de 12 anos, nem contra sua vontade, embora houvesse exceções. Em 1671, por exemplo, Francisco de Andrada, provedor da fazenda, pediu a entrada da filha Úrsula como educanda com apenas 8 anos, dado o falecimento da mãe. O noviciado só devia terminar com um mínimo de 16 anos, devendo o prelado ser informado um mês antes de a noviça completar o mesmo, serem ouvidas todas as freiras e aguardar-se a licença expressa da autoridade religiosa. A futura professa prometia os quatro votos: clausura, obediência, castidade e pobreza, sendo a votação de admissão secreta e por “favas brancas ou pretas” (ANTT, Conventos, Convento da Encarnação…,8,fl.17).

Os dotes de entrada encontravam-se ligeiramente abaixo dos praticados em Santa Clara, sendo no século XVII de 400$000 réis, passando nos inícios do XVIII a 500$000 e, nos meados, a 800$000. O recrutamento envolveu, logicamente o quadro de relações do cónego Henrique Calaça, como a madre Teresa de Jesus que, depois de regente, foi abadessa em 1672 e 1684. Algum tempo depois, outra sobrinha do referido cónego falecia “com sinais de santidade”: a madre Maria de Corpus Christi. Escreve o genealogista Henrique Henriques de Noronha (1667-1730) que desta madre, falecida em 15 de dezembro de 1705, “se conserva seu corpo inteiro, com tão odorífero cheiro, causa porque está vedado abrir-se a sua sepultura” (NORONHA, 1996, 280).

Lápide de Roberto Vilovi, Convento da Encarnação, Funchal. Arqui. Rui Carita.
Lápide de Roberto Vilovi, Convento da Encarnação, Funchal. Arqui. Rui Carita.

O genealogista apoiou-se nuns documentos do padre jesuíta João Ribeiro, por certo fornecidos pelo reitor do colégio, padre Miguel Victus, de quem Henriques de Noronha era particular amigo. O padre João Ribeiro fora um dos primeiros confessores da Encarnação, ainda como recolhimento carmelita, onde as suas confessadas haviam sido todas de “insignes virtudes”, a começar por Maria da Encarnação, “mulher baça da criação do fundador”, e Maria de São José, natural de Santa Cruz, ambas da inicial instituição, mas que não tinham chegado a professar. A lista das “virtuosas” inclui especialmente as parentes do cónego Calaça e as irmãs do cónego Saldanha, quase todas com “grande opinião de santidade”, “singulares mostras de santidade”, “sinais de predestinada”, “sinais de sua salvação”, “particulares mostras de sua virtude”, etc. (Id., Ibid., 279-282)

Neste elenco encontra-se a madre Teodora de Jesus, filha de Leonardo de Spínola e de Beatriz Mendes, abadessa da Encarnação em setembro de 1675, “uma das confessadas” do padre João Ribeira e das primeiras a professar no convento. Também ocuparam cargos algumas das seis irmãs do cónego João Saldanha e do desembargador Bento Teixeira Saldanha, provedor da alfândega de Lisboa, tais como as religiosas Maria do Socorro e Catarina de Nazaré, que entraram para o convento a 6 de junho de 1683 e professaram a 15 de junho do ano seguinte (ANTT, Conventos, Convento da Encarnação…7, fl. 58). Também nos triénios de 1717-1720 e 1728-1730, foram eleitas abadessas Luísa dos Querubins e Francisca de Santo António, ambas filhas do capitão Brás de Freitas da Silva, várias vezes membro das vereações camarárias do Funchal, fidalgo real e cavaleiro do hábito de Cristo.

Retábulo do Convento da Encarnação. Arqui. Rui Carita.
Retábulo do Convento da Encarnação. Arqui. Rui Carita.

Pontuou igualmente na Encarnação a filha do mercador inglês Robert Willoughby II, cujos bisavós, em princípio, se encontravam sepultados no convento, pois em 2004 a sua lápide sepulcral foi encontrada nas imediações do cemitério de Santa Luzia, que teria ocupado parte da antiga cerca do convento. A lápide da sepultura de Roberto Vilovi, Maria Salazar de Andrada e herdeiros, datável de cerca de 1653, ano do falecimento do mercador inglês, parece indicar que teriam sido também doadores do inicial recolhimento. A depois madre Maria Bernarda do Vencimento, abadessa nos triénios de 1765-1767 e 1773-1775, devia ser neta de Alban Willoughby, que em 1668 e com o deão Dr. Pedro Moreira, foi um dos promotores da sedição contra o governador.

A organização interna pautava-se pelos estatutos da ordem urbana de Santa Clara, ou segunda ordem, sendo as madres eleitas após cinco anos de profissão, embora tal também conhecesse exceções, como ocorreu em 1681, ano em que a madre mais votada, Antónia da Ressurreição, teve de pedir isenção de idade, pois lhe faltavam três anos e nove meses para poder ocupar o cargo. À abadessa, ou “madre da ordem”, competia “governar, punir e castigar” (ANTT, Conventos, Convento da Encarnação…,8, 16 v.), propondo após a eleição com as restantes “discretas”, ou seja as freiras que já haviam ocupado o lugar de abadessas, os três nomes para a eleição da “vigária da casa” e demais lugares. As punições, que implicavam inclusivamente o encarceramento, tinham de ter confirmação do prelado. A abadessa do convento da Encarnação possuía, desde 1721, um padrão de tença anual de 45 mil réis, comutado do que se pagava ao falecido desembargador Bento Teixeira de Saldanha (BNP, Índice Geral do registo …, fl. 75).

Tal como o seu congénere convento de Santa Clara, também o da Encarnação, fundado para uma comunidade de cerca de 30 religiosas, logo a pós a visitação de D. frei António Teles da Silva (c. 1710-1682) de 24 de setembro de 1676, passou a ter direito a 60 freiras. O convento da Encarnação entrava, entretanto, no século XVIII, com mais de quatro vezes o número inicial de residentes: 130 freiras, para além da inúmera criadagem e demais pessoal. Tinha confessor e capelão apresentado pelo ordinário, como acima referido, e era patrono do altar-mor da sua igreja o antigo “provedor proprietário da Fazenda Real” Francisco de Andrade, por delegação do fundador, de 1660. Como seu herdeiro, o filho e provedor Ambrósio Vieira de Andrade (fal. set. 1699) manteve o patronato, tendo sido sepultado na igreja no altar colateral de Santa Teresa, e mantendo os descendentes uma certa ascendência sobre o convento.

Para o serviço interno do convento existiam, de acordo com o capítulo 37 das constituições, um número certo de servas, que deveria corresponder a um terço do número de freiras, existindo, inclusivamente um compartimento reservado às mesmas: a “casa das servas”. A designação, no entanto, variava, e aparece igualmente como criada ou moça, embora não seja certo que se tratasse da mesma coisa. Estas servidoras não estavam abrangidas pelas rígidas regras da clausura do convento, mas deviam respeitar a honestidade, o que no Antigo Regime tinha um âmbito muito alargado. Em outubro de 1740, por exemplo, foi expulsa a criada Maria das Neves, mas recebeu a sua comedoria por despacho do bispo. Sendo então prelado do Funchal o bispo jacobeu D. frei Manuel Coutinho (1673-1742), com um longo historial de conflitualidade com a comunidade da Encarnação, seria interessante perceber o que teria estado em causa, mas a documentação é omissa nesse aspeto.

O convento da Encarnação possuía confessor residente, clérigo do hábito de São Pedro, eleito pelo prelado, que habitava, pelo menos desde 1688, numa residência anexa ao convento, que teve obras de vulto em 1742, provavelmente com mais um piso, pois que a partir de 1767 a loja dessa casa passou a ser alugada. O confessor só entrava no convento em casos excecionais, como era o ter de ouvir uma freira doente, altura em que deveria ser acompanhado pelo capelão, ambos paramentados de estola e não devendo falar com nenhuma freira, pois só podiam fazê-lo no palratório e nas grades da igreja. Possuía igualmente capelão, assim como sacristão, este último geralmente dado como estudante, mas que em muitas alturas era igualmente um padre. O convento possuía um procurador, também geralmente eclesiástico e igualmente denominado por administrador ou feitor, que zelava pelos interesses económicos da comunidade, representando-a nas execuções e nas questões de divisão de propriedades.

Existia ainda um médico, um boticário e um cirurgião, embora nem sempre facilmente identificáveis ao longo da história do convento. Este pessoal só entrava no convento mediante licença da abadessa e permanecia só o tempo estritamente necessário. Uma destas personalidades foi o Dr. José Fernandes Tavares, médico do convento entre 1741 e maio de 1767, data em que adoeceu, falecendo pouco depois, tendo o convento feito uma série de despesas com a sua doença e depois com o seu funeral. Nos finais do século XVII, em 1676, o médico do convento foi o Dr. António Spínola Teixeira, sobrinho da então abadessa, pelo que nesse ano não cobrou ordenado. Em apoio deste existia também um sangrador ou barbeiro, assim como, em casos especiais, um cirurgião.

Quase todos os conventos possuíam enfermaria, onde recolhiam as professas, noviças ou serviçais quando doentes, havendo instruções especiais para a entrada do médico, sangrador ou barbeiro, que tinha de se fazer acompanhar pela porteira do convento. Havia sempre uma madre enfermeira na Encarnação e, em épocas especiais, podiam ser duas. A compra dos medicamentos nos boticários era mais ou menos pontual, não havendo botica no convento e sendo a aquisição feita fora, variando os fornecedores.

Havia ainda vários mestres em serviço mais ou menos permanente no convento, como pedreiros, carpinteiros e respetivos serventes, para obras de manutenção. Pontualmente, e em determinadas campanhas de obras, eram os mesmos reforçados. O convento possuía ainda um arrieiro ou almocreve, que trabalhava com as bestas para os diversos transportes necessários, como o caso da lenha, que tinha, por vezes um ajudante, um moço das bestas, que podia fazer outros trabalhos pontuais, como levar e trazer recados das freguesias rurais, tal como existiam jornaleiros para a exploração da vasta cerca do convento.

O convento possuiu ainda escravos, que habitavam numa loja do mosteiro, onde tinham enxerga com direito a lençol e cobertores, como os pretos João e Gaspar; em 1679 entrou para o convento o Feliciano. Este último escravo viveu 13 anos no convento, tendo vindo do Porto Santo, onde pertencia a um meeiro do convento, Manuel Vasconcelos Viveiros, que por insolvência o teve de entregar ao convento. Feliciano acompanhava o procurador do convento nas várias diligências, mas em 1692, provavelmente por dificuldades económicas da comunidade, foi vendido, em princípio para o Brasil, tendo sido pago em caixas-de-açúcar, uma de 43 arrobas, entregue em dezembro de 1692, e outra de 23 arrobas, em setembro do ano seguinte. O final da presença do Feliciano no convento da Encarnação ficou marcado, no entanto, pela sua fuga a nado da embarcação, “andando o navio à vela”, pelo que houve que pagar depois aos quadrilheiros do Funchal para o prenderem e levarem ao porto e a embarcação de cabotagem que o levou ao navio de longo curso, custando 200$000 réis o serviço dos quadrilheiros e 1$500 a embarcação de cabotagem.

A comunidade ainda veio a ter outros escravos, como em 1708 um mulato, cujo nome não é referido, e, nos meados do século, um outro, chamado Manuel Jorge. Já antes temos referência a uma escrava, Maria, que pertencera ao cónego Calaça, e que por sua morte e testamento, em 1662, teve carta de alforria e “uma lojinha para morar” (ANTT, Convento da Encarnação do Funchal, liv. 8), herdando depois, pela legítima da madre Lauriana Natividade, em 1748, também uma mulata, mas que rapidamente foi vendida.

O convento possuía uma Irmandade das Almas, cuja obrigação essencial era o sufrágio pelas irmãs falecidas, irmandade que não detetámos em Santa Clara, tal como, por 1750, também teve uma irmandade das Escravas de Nossa Senhora do Monte, devoção incentivada pelo bispo franciscano D. frei João do Nascimento (c. 1690-1753), mas que não resistiu muito à morte do prelado. Nos finais do século XVII foi erguida na cerca uma capela de São Francisco, autorizada pelo ordinário a 22 de abril de 1698, e uma outra devotada a São João Batista, em princípio já dos inícios do século XVIII.

Convento da Encarnação, 1900. Arqui. Rui Carita.
Convento da Encarnação, 1900. Arqui. Rui Carita.

O convento possuía uma Irmandade das Almas, cuja obrigação essencial era o sufrágio pelas irmãs falecidas, irmandade que não detetámos em Santa Clara, tal como, por 1750, também teve uma irmandade das Escravas de Nossa Senhora do Monte, devoção incentivada pelo bispo franciscano D. frei João do Nascimento (c. 1690-1753), mas que não resistiu muito à morte do prelado. Nos finais do século XVII foi erguida na cerca uma capela de São Francisco, autorizada pelo ordinário a 22 de abril de 1698, e uma outra devotada a São João Batista, em princípio já dos inícios do século XVIII.

Nos inícios do século XVIII, o cronista Henrique Henriques de Noronha descreve o convento como um nobre edifício, em sítio “dominante à cidade e fronteiro ao convento da Conceição” de Santa Clara, “com larga e aprazível vista, extensão do dormitório e oficinas”. Possuía ainda “um dilatado território” para hortas, pomares e vinhas, “e todo o mais regalo”, mas não refere as duas capelas da cerca. É este cronista que descreve a “excelente e antiga pintura” de Nossa Senhora da Encarnação, “que deu título a esta casa, por ser o seu Orago” (NORONHA, 1996, 278), retábulo depois transferido para a igreja matriz de São Martinho, atribuível à oficina de Antuérpia de Joos van Cléve e datável de cerca de 1510 a 1515, depois colocado no Museu de Arte Sacra do Funchal.

Possuímos ainda abundante informação sobre a alimentação das freiras da Encarnação, o que permite ter uma visão interessante da vida conventual feminina no século XVIII. A base da alimentação das religiosas era o pão de trigo, confecionado no próprio convento. Seguia-se a carne de vaca, na qual se gastava metade a um terço do valor gasto na farinha de trigo. A ração de carne constituía o conduto mais importante, só quebrado pontualmente pelas restrições religiosas. A importância da carne na alimentação levou a que as freiras da Encarnação reivindicassem a possibilidade de terem açougue, queixando-se a D. João V de que a carne do açougue camarário vinha geralmente “pouco limpa”. As freiras alegavam que o mesmo tinha sido já concedido às de Santa Clara e que, sendo da mesma congregação, não vendo razão para se sujeitarem “à jurisdição do ordinário” e ao pagamento de pensões. D. João V emitiu o alvará de autorização a 7 de março de 1726 (ANTT, Chanc. D. João V, 70, 5 v.-6).

Em pequena escala, encontramos ainda referências à exploração agropecuária no Porto Santo, nas terras, de certa forma vastas para a ilha, das freiras da Encarnação. Principalmente no século XVII e na primeira metade do século seguinte, as freiras recebiam periodicamente das suas propriedades do Porto Santo trigo, centeio e cevada, a que pontualmente se juntavam vacas e novilhos, cordeiros para abate, fruta, perrexil, galinhas, lentilhas, abóboras, gofé e melancias. No século XVII, ainda existe referência ao envio de açafrão. Infelizmente, a crise dos meados do século XVIII reduziu drasticamente as produções do Porto Santo e teve um grande impacto negativo na vida económica deste convento.

As freiras da Encarnação comiam carne de vaca, carne de galinha nas épocas festivas, ou quando doentes, e carne de carneiro, por exemplo, no dia de Ano Bom. A carne de porco só aparece referida na mesa dos servos e servas, na época de Natal, não havendo referência ao seu consumo por parte das freiras. Igualmente aparece referido o peixe, especificamente fresco, alanhado, salgado e fumado. Existem inúmeras referências a bacalhau, atum, quer fresco, quer salgado, sardinhas, tanto frescas, como salgadas e fumadas, arenques, pargo fresco e salgado, chicharros, cherne, etc. Quando havia jejum, paralelamente ao peixe, ou em sua substituição, comiam-se ovos.

Câmara de Lobos aparece como o principal fornecedor de peixe deste convento, a uma grande distância dos demais locais. No entanto, igualmente se consumia naquele convento peixe proveniente de Santa Cruz, de Machico, da Madalena do Mar e das Desertas, isto enumerando os lugares do Arquipélago. De fora importavam-se sardinhas de Lisboa e outro peixe das costas de Marrocos, “da Berbéria”, como se refere, por certo indicando Santa Cruz do Cabo de Gué, e das Canárias. No comércio local inglês, ainda adquiriam as freiras, arenques e bacalhau. A ligação com os comerciantes ingleses é ainda patente no aluguer de várias propriedades urbanas do convento a esses comerciantes.

Paralelamente ao trigo, aparece igualmente o arroz e, em épocas especiais, o cuscuz. A única referência encontrada de aquisição de milho destinou-se ao “comer” dos “homens da cerca”; o centeio também não se destinava às freiras, mas à alimentação da criadagem, servindo para fazer pão de mistura. Entre os vegetais, os mais citados são agrião, couve, fava, ervilha, feijão, lentilha, nabo e abóbora, para além de uma série de grãos não especificados. Um dos aspetos mais interessante da cozinha das freiras, que por certo não se afastaria muito da cozinha das casas abastadas do Funchal, era a excecional variedade das especiarias, com cravo-da-índia e do Maranhão, pimenta, canela, erva-doce, açafrão, almíscar, cominhos e gengibre, entre outras.

Falta referir um dos aspetos que celebrizaram os conventos portugueses e que seria referido por todos os viajantes estrangeiros: o dos doces e, logicamente, a obesidade geral das freiras. As próprias Constituições e Estatutos recomendavam a distribuição de determinadas iguarias nos principais dias festivos, como Natal, Páscoa e festa da Madre (Santa Clara), não só às freiras em geral, como aos principais doadores e benfeitores do convento. Eram as chamadas “obrigações da casa” e “obrigações de fora” (GOMES, 1995, 130-135).

Uma das mais interessantes alterações do convento, logo no início do século XVIII foi o consumo de tabaco, que aparece a partir de 1705, por alturas do Natal, mas que se generalizou a partir de então, nessa quadra e na festa da madre. Por meados do século XVIII, a propina do pastel e do açúcar passou a ser entregue em dinheiro, mas a do tabaco, dada a importância do seu consumo, manteve-se em género. Ao longo do século XVIII, as quantidades adquiridas aumentaram sensivelmente na proporção do aumento da comunidade, situando-se, a partir de 1720, sensivelmente, nos 12 arráteis anuais, ainda aumentando ligeiramente a partir de 1746. No entanto, nem todo este tabaco era consumido pelas freiras, que utilizavam algum, para mimos aos seus funcionários (um arrátel) e como pagamento aos trabalhadores da cerca do convento (um quarto de arrátel). O preço manteve-se estacionário, cerca de 1$200 réis o arrátel, salvo nos anos de 1705 a 1708, dadas as dificuldades de transporte ocasionados pela entrada de Portugal na guerra de Sucessão de Espanha.

A década de 30 do século XVIII marca, decididamente o maior problema por que passou o convento na sua história: o confronto com o bispo jacobeu D. frei Manuel Coutinho, que se manteve com os prelados seguintes. O crescente exponencial da população monacal e as razões que lhe estavam subjacentes, que nem sempre eram as de verdadeira vocação, contribuíram para um decréscimo do fervor religioso e um progressivo apego a mundanidades a que, em princípio, a vida de clausura deveria obstar. A entrada de senhoras que, não sendo freiras, obtinham autorização para passar alguns dias de recolhimento e oração dentro dos muros do convento, tal como as frequentes visitas de familiares que não se ficavam pelo locutório, entrando nos limites da clausura, desde que munidas de licença eclesiástica e régia, alterou profundamente a vida interna destas instituições, alterações que um prelado religioso como D. frei Manuel Coutinho não podia deixar de condenar.

Um exemplo desta perda de valores religiosos encontra-se na adoção de novas modas no vestuário, que levaram, nos inícios do século XVIII, por exemplo, à substituição do burel cinzento de Santa Clara por outros tecidos, cores e cortes, conforme testemunha, em 1757, o padre vicentino Alásio, que acompanhara para a Madeira o novo bispo, D. Gaspar Afonso da Costa Brandão (1703-1784). Escreveu este visitador, após ter estado no convento da Encarnação, que as freiras “traziam véus de seda veiados de pano fino” e ornamentavam a testa “(pouco juízo havia nela!)”, com um bico muito comprido. Acrescentava ainda que andavam vestidas de azul “(linda cor) e para afetar a gravidade”, arrastavam uma grande cauda em que faziam constituir parte dos seus “efeitos e adornos, tão opostos à regra e estatutos aprovados” (TRINDADE, 2012, 167-168).

O bispo D. frei Manuel Coutinho, dentro das suas atribuições, tentou delimitar as alterações no convento da Encarnação e, como primeira opção, nomeou uma nova porteira, o que levou a um levantamento no convento, logicamente instigado por fora. Descreve a câmara do Funchal, em março de 1726, a ocorrência com as freiras da Encarnação, que sendo religiosas, desde o tempo da fundação do seu convento, “muito observantes da sua clausura”, “romperam a mesma clausura desesperadamente, a 15 do corrente mês de janeiro”, para serem recebidas pelo prelado. As freiras tinham sido detidas junto ao largo do colégio dos padres da Companhia, “em distância de um tiro de escopeta do palácio”, pelo desembargador José de Siqueira, que veio a servir de interlocutor entre as mesmas e o bispo. O desembargador tinha então conseguido convencer as freiras a recolherem ao convento da Encarnação, não sem ouvir o “dito ilustríssimo prelado, proferir palavras muito indignas do seu carácter e do carácter das mesmas religiosas, como já tinha feito diante de outras pessoas seculares e eclesiásticas e religiosas” (ARM, CMF, liv. 1436, fls. 62-65 v.).

As razões eram, claro, outras e bem mais alargadas, integrando-se no longo braço de ferro entre o prelado e a vereação camarária, assim como a provedoria da fazenda, sendo proprietário do lugar de provedor Jorge Vieira de Andrade, herdeiro do protetor do convento. Por sua vez, a madre Francisca de Santo António, que rompeu a clausura do convento da Encarnação, era filha de Brás de Freitas da Silva e tia de vários dos vereadores do Funchal, da poderosa família dos Freitas da Madalena, assim se explicando as acusações ao bispo por parte da vereação do Funchal, como atrás se referiu.

Alguns anos depois, em meados de 1770, por exemplo, constou que o bacharel Manuel Caetano Tavares teria emitido, no convento da Encarnação, opiniões pouco abonatórias sobre o prelado, então D. Gaspar Afonso da Costa Brandão. Tal levou a um pedido do prelado para uma devassa nesse convento, levada a efeito pelo juiz de fora do Funchal, António Filipe Bulhões da Cunha, em agosto, e a um cerco ao convento, efetuado pelos militares às ordens do governador João António de Sá Pereira (1719-1804), de tal forma, que dali “não saísse carta ou papel” (ARM, GC, liv. 526, fls. 149 e 156 v.-157v.). Dez anos depois, o bispo D. José da Costa Torres (1741-1813), em ofício para o ministro Martinho de Melo e Castro sobre vários assuntos da diocese e do convento da Encarnação, refere ter lido um registo do seu antecessor, D. frei Manuel Coutinho, de “há mais de quarenta anos”, onde se referia “que melhor seria se o não houvesse”. O ofício em questão abordava o pedido da madre da Encarnação para a entrada de noviças, que o bispo do Funchal protelara, acrescentando que “se não fossem certas considerações” que o embaraçavam, teria mandado era “pôr fora do convento uma grande parte” das freiras (AHU, Madeira, cx. 4, 842).

A situação tinha acalmado pontualmente com o bispo franciscano D. frei João do Nascimento (c. 1690-1753) que, embora igualmente jacobeu, ao contrário do seu antecessor, protegeu as freiras da Encarnação, instituindo um serviço religioso diário, através de uma ampla doação de 6000 cruzados, ou seja, 2$400 réis. Em meados do século XVIII e na ampla campanha de obras desenvolvida após o terramoto de 1748, a igreja e o convento sofreram obras de vulto, sendo então construído um novo coro, maior que o anterior. Em 1750, por alvará régio de 10 de fevereiro, a fazenda real contribuiu para estas obras com um conto de réis. No ano seguinte, a fazenda real contribuiu com 750$000 réis para a construção do muro que ladeava a estrada que conduzia à igreja de Santa Luzia.

 Se as freiras de Santa Clara, dada também a situação mais desafogada em que viviam, souberam desenvolver uma certa atividade e rentabilizar o seu património, o mesmo não aconteceu com as freiras da Encarnação. A partir de meados do século XVIII, a situação atingiu proporções graves e as freiras da Encarnação tiveram de vender grande parte do seu património imobiliário urbano. Assim, com propriedades, em 1764, no Corpo Santo, na Calçada da Encarnação e nas ruas dos Tanoeiros, Direita, Murças, Queimada, Santa Maria e Monteiro, em 1768 somente se registavam prédios do convento da Encarnação nas ruas Direita, Queimada e Tanoeiros.

As propriedades do convento da Encarnação sofreram assim grande depreciação ao longo do século XVIII. No entanto, a instituição mantinha, nos meados desse século, algumas casas da Rua dos Tanoeiros em que, por exemplo em agosto de 1745, gastou 2$600 réis na reparação do muro da ribeira de Santa Luzia, o que não obstou a que algumas dessas casas desaparecessem na aluvião de 1803. Ora, embora possamos ali encontrar outros mestres de ofícios, como um carpinteiro, um cabeleireiro e até um dos porteiros da Alfândega, a grande maioria dos inquilinos destas casas eram tanoeiros. Entre 1751 e 1767, em uma parte da casa “junto do poço”, vivia o tanoeiro José da Silva e, na outra parte, “de alto a baixo”, o tanoeiro Silvério Leandro. Em 1742, também nesta rua e numa outra casa do convento, pagava renda, por uma loja, o tanoeiro António Moniz.

Possuía o convento da Encarnação uma outra casa na Rua das Murças, rua vocacionada para o comércio, especificamente estrangeiro. A casa em questão seria por certo de algum aparato. Era constituída por residência e loja, escada, frontal, forno e “soalho de madeira” na cozinha, e foi arrendada, em 1740, a Roberto Franches, e em 1752 a Guilherme Murdoch. Por sua vez, a loja da casa esteve alugada a diversos comerciantes ingleses, de várias formas associados aos anteriormente citados: Tomás Lamar, em 1753, 1756 e 1757; Mateus Hiccox, em 1754, 1756, 1757, 1768 e 1769; e Mateus Franches, em 1757 e 1769, comerciantes que igualmente encontrámos ligados ao convento de Santa Clara. Algumas destas ruas conseguiram mesmo manter a natureza dos seus habitantes nos topónimos, como as Ruas dos Tanoeiros e dos Ferreiros.

No primeiro quartel do século, voltaria a Madeira a ser ocupada por forças inglesas, em consequência da invasão do território continental por forças francesas e espanholas, instalando-se os ingleses, a partir do dia 25 de dezembro de 1807, conforme fora previsto em Londres, nas fortalezas da baía da cidade e depois no antigo colégio dos jesuítas. O número de forças inglesas, no entanto, era muito superior ao da ocupação de 1801-1802, pelo que houve que procurar outras alternativas de alojamento, alvitrando-se a cedência do convento da Encarnação. Acordada a transferência das poucas freiras da Encarnação subsistentes para o convento de Santa Clara, onde havia espaço para as mesmas, não foi contudo fácil concretizar a operação.

A 3 de janeiro de 1808, insistia o general William Carr Beresford (1768-1854) com o vigário-geral da diocese para a transferência das freiras do convento da Encarnação, mas só as poucas freiras que ali viviam só foram transferidas no dia 7 de janeiro, dia em que entraram em Santa Clara e a abadessa elaborou uma relação das mesmas. As freiras deslocaram-se “de cruz alçada”, pomposamente e em procissão, descendo o Pombal e seguindo pelos Moinhos, visitando o Convento das Mercês antes de entrarem em Santa Clara.

Foram então acompanhadas por um numeroso séquito de “nobreza e clerezia”, assim como ladeadas por tropa portuguesa da guarnição, o que despertou “o mais vivo interesse na população por ser uma coisa nunca vista na ilha”, como escreveu depois o tenente-coronel Sarmento (SARMENTO, 1952, III, 184). De que despertou o mais vivo interesse na população não temos dúvidas; o nunca visto é que não é verdade, pois tanto as freiras de Santa Clara como as da Encarnação já noutras alturas haviam rompido a clausura. Terminada a ocupação inglesa, as freiras da Encarnação voltaram ao seu convento, tendo-se então escrito que os britânicos tinham danificado o edifício com as obras levadas a cabo para a sua instalação, nomeadamente transformando a igreja em templo anglicano. Segundo o Elucidário, “a fundação patriótica e genuinamente católica de Henrique Calaça, estava ocupada por tropas estrangeiras e dedicada a um culto herético!” (SILVA e MENESES, 1998, I, 307).

O culto anglicano no coro de baixo do convento da Encarnação, no entanto, tinha sido autorizado pelo bispo D. Luís Rodrigues Vilares (c. 1740-1810) e confirmado pela corte do Rio de Janeiro, em junho de 1813, enquanto se não fizesse uma igreja anglicana no Funchal. Também na mesma data, o então bispo vigário apostólico D. frei Joaquim de Meneses e Ataíde (1765-1828) autorizava que os ingleses celebrassem o seu culto na igreja do Colégio, pelo que os lamentos dos autores do Elucidário, feitos 100 anos depois, não têm grande sentido. O problema do convento da Encarnação era a sua demasiada abertura ao exterior, reconhecida inclusivamente pelo bispo vigário apostólico que, com o regresso das freiras, em 1815, voltava a determinar que o acesso de visitas só fosse concedido mediante expressa autorização sua por escrito.

Nos inícios do século XIX já haviam tentado os poderes regionais e nacionais conseguir a reunião dos dois conventos de clarissas, não só pelas dívidas acumuladas pelo convento da Encarnação, como pelo espaço então disponível em Santa Clara, cujos quantitativos igualmente haviam sido substancialmente diminuídos. O assunto já tinha sido colocado, a 10 de agosto de 1788, pelo bispo D. José da Costa Torres que pretendia entregar o convento da Encarnação a freiras Salésias ou Ursulinas, mais vocacionadas para a “educação de meninas” (AHU, Madeira, doc. 842), juntando as duas comunidades de clarissas. A proposta chegaria depois inclusivamente a Roma, o que motivou um breve do papa Pio XII, de 25 de setembro de 1807, autorizando a incorporação sob a obediência à ordem franciscana, assunto logo determinado para o Funchal pelo visconde da Anadia, mas ordem que nunca se cumpriu.

O governador Sebastião Xavier Botelho (1768-1840) chegou a queixar-se, em janeiro e em março de 1820, do bispo Luís Rodrigues Vilares que, “pela sua demora em Lisboa”, não tinha executado as ordens que tinha para a transferência. Acontecia ainda que “as suas moléstias haviam de sobremaneira afrouxado o seu espírito na última época do seu episcopado, pelo que só tivera tempo de se preparar para morrer”. Por tudo isso e pela “rebeldia, desobediência e relaxação das religiosas, a anexação se tornava urgente”. Acrescentava ainda que as freiras tinham contraído imensas dívidas, que tinham dificuldade em pagar, mas que mantinham um “trato sucessivo de novos empréstimos para se poderem manter” (ARM, GC, liv. 202, fls. 151-153 v. e 158-159). Mais tarde, o governador viria a saber que o novo bispo e vigário apostólico também tinha recebido ordem para a transferência, mas escondera o documento.

Em 1834, com a implantação das diretivas do novo governo liberal e no âmbito da reforma geral eclesiástica empreendida pelo ministro e secretário de Estado Joaquim António de Aguiar, que ficou conhecido pelo “mata frades”, e executada pela Comissão da Reforma Geral do Clero (1833-1837), pelo decreto de 30 de maio, foram extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens, ficando as de religiosas sujeitas aos respetivos bispos, até à morte da última freira, que seria a data do seu encerramento definitivo. Os bens foram incorporados nos proprios da Fazenda Nacional, embora só tenhamos conhecimento da inventariação dos bens do convento da Encarnação em 1863.

A 20 de abril de 1890, o convento fechou, na sequência do falecimento da última freira, a madre Vicência Violante do Céu. Na edição do Diário de Notícias do Funchal de 11 de novembro seguinte, lamentava-se: “Extinguiu-se há pouco, com a morte da última freira, o convento da Encarnação; e as pobres senhoras que ali se achavam recolhidas e as pupilas empregadas no serviço do coro e cerimónias rituais da comunidade, tiveram de abandonar aqueles lares tranquilos, aqueles tetos hospitaleiros que durante anos lhes serviram de abrigo e de lenitivo à pobreza de umas e aos desenganos e dissabores de outras”. A 6 de junho de 1891 era novamente feito o inventário do recheio do convento, então por Cândido Pereira (1869-1935), professor da Escola de Desenho Josefa de Óbidos do Funchal, que infelizmente desapareceu quase todo. Uma parte já havia sido fortemente danificada por uma faísca que caíra na torre do convento em outubro de 1819, derretendo parte das pratas e danificando a torre e sacristia.

A extinção do convento foi algo anárquica, pois que, na recolha de 21 de junho de 1894 feita pelos técnicos da Torre do Tombo, somente metade da documentação foi para Lisboa, ficando o resto no Arquivo Regional da Madeira; o mesmo se deve ter passado com o restante espólio. A repartição da Fazenda do distrito do Funchal não lavrou termo de entrega dos livros e manuscritos, que foram entregues antes de 15 de abril de 1899. Alguns livros foram remetidos ao Arquivo da Torre do Tombo, de acordo com a relação inserta, assinada por Roberto Augusto da Costa Campos, conservador Inspetor dos Arquivos Públicos. Esta relação compreende um caderno da descrição e avaliação dos prazos pertencentes à comunidade do Convento de Nossa Senhora das Mercês, sendo abadessa soror Maria Madalena do Monte do Carmo (1858-1861). A documentação menciona bens situados nos concelhos do Funchal, da Calheta, de Porto Moniz, de Santa Cruz, de São Vicente, de Santa Ana, de Machico, de Ponta do Sol e de Câmara de Lobos, entre outros.

Salvou-se, no entanto, aquela que será a mais importante peça: o já citado retábulo da Encarnação, de Josse van Cléve, ao qual falta o remate superior, e que nos inventários é dado como uma Assunção da Virgem. Ora tendo o retábulo uma altura, quase ímpar na época, de cerca de três metros, o facto de ser ainda rematado por mais um painel torna-no numa peça verdadeiramente excecional.

S. Jerónimo
S. Jerónimo, atribuída a Marinus Van Reymerswalle (c. 1490-c. 1566), arqui. Rui Carita.

Terá sobrevivido também uma pequena tábua atribuída a Marinus Van Reymerswalle (c. 1490-c. 1566), representando São Jerónimo, que passou igualmente ao Museu de Arte sacra e três imagens em madeira, que serão um Senhor da Coluna, dado como Senhor da Capa, que passou à capela de Nossa Senhora da Estrela, na Calheta, e que é tradição local ter vindo para aquela capela durante as lutas liberais, e os baixos-relevos da Virgem e de São João Evangelista, atribuíveis à oficina de Manuel Pereira, da altura da fundação do convento. A tradição atribui também ao convento da Encarnação uma imagem de uma oficina portuguesa continental da Rainha Santa Isabel, que pertenceu ao Museu Municipal do Funchal, passando depois ao Museu da Cidade e de seguida ao Museu de Arte Sacra (MASF 310/A). No entanto, nenhuma descrição avaliza essa tradição, não constando de nenhum inventário ou descrição, pelo que, dadas as dimensões, deve ter vindo do convento de São Francisco, onde houve altar devotado à Rainha Santa e entregue aos Irmãos Terceiros.

A imagem do grandioso edifício ficou perpetuada numa litografia de Frank Dillon (1822-1909), de 1850, e em algumas fotografias dos finais do século XIX, pois que logo por portaria de junho de 1895 foi provisoriamente cedido para nele se instalar uma oficina de São José, da Câmara Municipal do Funchal, depois as instalações da Santa Casa da Misericórdia do Funchal e ainda para a Junta Geral do distrito do Funchal ali estabelecer o Manicómio Câmara Pestana, cuja cerca foi escolhida pelo Dr. Júlio de Matos para esse fim.

Em 1905, no entanto, foi cedido à diocese para ali se instalar o seminário diocesano, dadas as anteriores opções se não terem concretizado. O edifício foi então demolido e, na ampla cerca, foi levantado o novo seminário, que a tradição católica regional indica inclusivamente como tendo sido construído a expensas pessoais do então bispo do Funchal, D. Manuel Agostinho Barreto (1835-1911), no que haverá algum exagero.

Convento de Encarnação- from the Ponte Novo_9770
Convento da Encarnação, por Frank Dillon (1822-1909). Arqui. Rui Carita.

Bibliog.: manuscrita: APE, cx. n.º 25, Convento de Nossa Senhora da Encarnação (docs. avulsos); ARM, Conventos, Convento da Encarnação, 50 livros; BNP, Reservados, cód. 8391, Índice Geral do registo da antiga Provedoria da Real Fazenda, acrescentado com algumas notícias e sucessos da Ilha da Madeira desde o ano de 1419 do seu descobrimento até ao de 1771 da extinção da mesma Provedoria (o original está na Câmara Eclesiástica); ANTT, Arquivo Histórico do Ministério das Finanças, cx. 2707 (docs. avulsos); Conventos, Convento da Encarnação do Funchal, 41 livros e vários maços de documentos n/class.; impressa: ARAGÃO, António, A Igreja da Encarnação, Funchal, Boletim da Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos nacionais, n.º 84, junho de 1956; CARITA, Rui, História da Madeira, vol. III: As Dinastias Habsburgo e Bragança (1600-1700), Funchal, SRE, 1992; Id., História da Madeira, vol. IV: O Século XVIII: Arquitectura de Poderes, Funchal, SER, 1996; Id., História da Madeira, vol. VI: As ocupações inglesas e as lutas liberais: O Processo Político, Funchal, SER, 2003; Id.,História da Madeira, vol. VII: O longo Século XIX: do Liberalismo à República. A Monarquia Constitucional, Funchal, SER, 2008; CLODE, Luísa, e PEREIRA, Fernando António Batista, Museu de Sacra do Funchal, Arte Flamenga, Funchal, Edicarte, 1997; Diário de Notícias, Madeira, 11 nov. 1890; DILLON, Frank, Scketches in the Island of Madeira, Londres, Paul and Dominic Colnaghi and CP Publishers to Her Magesty, 1850; FONTOURA, OSC, Otília Rodrigues, As Clarissas na Madeira – Uma presença de 500 anos, Funchal, CEHA, 2000; GOMES, Eduarda Maria de Sousa, O convento da Encarnação do Funchal, subsídios para a sua História: 1660-1777, Funchal, CEHA, 1995; NASCIMENTO, João Cabral do, “As Freiras e os doces do convento da Encarnação”, in Arquivo Histórico da Madeira, 5, 1937, pp. 68-75; Id., A Restauração de Portugal e o Convento da Encarnação, Funchal, Arquivo Histórico da Madeira, 1940; NORONHA, Henrique Henriques de, Genealogia… Ilha da Madeira, ano de 1700, São Paulo, Revista Genealógica Brasileira, 1948;Id., Memórias Seculares e Eclesiásticas… 1722, Funchal, CEHA, 1996; PEREIRA, Eduardo Nunes, Ilhas de Zarco, 2 vols., 3ª ed., Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 1967; SARMENTO, Alberto Artur, Ensaios Históricos da Minha Terra. Ilha da Madeira, Funchal, Junta Geral, 1947; SILVA, Fernando Augusto da, Subsídios para a História da Diocese do Funchal, Funchal, s. n., 1946; SILVA, Fernando Augusto da, e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 3 vols., Funchal, Secretaria Regional de Turismo e Cultural, 1998; TRINDADE, Ana Cristina Machado, Plantar Nova Christandade: um desígnio jacobeu para a Diocese do Funchal. Frei Manuel Coutinho, 1725-1741, Funchal, DRAC, 2012; VERÍSSIMO, Nelson, Relações de Poder na Sociedade Madeirense do Século XVII, Funchal, DRAC, 2000.

Rui Carita

(atualizado a 30.08.2016)