convento de nossa senhora da piedade

Na capitania de Machico equacionou-se também a hipótese de construir um convento franciscano, ideia liderada pela família dos Lomelino e expressa no testamento de Urbano Lomelino, de 1518. Os irmãos Urbano e João Baptista Lomelino dedicavam-se ao comércio e eram senhores de grande fortuna. Pertenciam então, e segundo os livros de linhagens, «a uma das 28 famílias, a que se reduziu a nobreza de Génova, em 1528» (NORONHA, 1947, 358) e eram filhos de Baptista Lomelino e de Luchineta Cattaneo, netos paternos de Napoleone Lomelino, marquês de Lomelino, e de Teodora di Negro, e sobrinhos de Marco Lomelino, cônsul dos portugueses em Génova, a quem D. Afonso V concedeu, por carta de 21 de junho de 1456, o monopólio da cortiça e do coral por 10 anos.

A fama de fonte de riqueza que constituiu o comércio do açúcar da ilha da Madeira nos meados e finais do século XV foi a responsável pela passagem à Madeira de Urbano Lomelino (c. 1450-1518), que «fez seu assento na vila de Santa Cruz, jurisdição da parte de Machico», onde «teve engenhos e navios, em cujo negócio trazia seu irmão Baptista Lomelino» (NORONHA, 1947, 353). Em 1470 ou 1471 já se encontravam na Madeira, como se conclui do contrato então celebrado entre o grupo dos genoveses Francisco Calvo, Micer Leão e Baptista Lomelino, e o infante D. Fernando sobre a exportação de açúcar.

Urbano Lomelino casou-se com Joana Lopes, filha de Isabel Correia, natural de Santana, de quem não teve descendência, e João Baptista Lomelino com sua prima Catarina Baptista Lomelino, de quem teve Jorge Lomelino (c. 1495-1548), fidalgo cavaleiro e primeiro administrador do morgado dos Lomelino. Por carta de D. Afonso V, datada de 27 de novembro de 1471, Baptista Lomelino e os seus feitores passaram a ser considerados «naturais nestas partes»; por carta de 30 de dezembro de 1476, a infanta D. Beatriz recomendou-o à câmara do Funchal (Arquivo Histórico da Madeira, XV, 78).

O mercador Urbano Lomelino edificou casa, engenho e casa de purgar no Porto do Seixo e teve muitas terras em Santa Cruz e em Santana. De parceria com Luís Dória, igualmente genovês, adquiriu vastas terras nesta última freguesia, nas Achadas de Santana, que se estendiam do mar à serra, ao longo da ribeira do Seixal, até às proximidades da Achada do Teixeira, cuja posse lhe foi depois confirmada por Tristão Teixeira, 3.º capitão de Machico e por Antão Álvares, almoxarife daquela jurisdição, por carta datada de 24 de abril de 1503. Os Lomelino negociavam com açúcar, vinhos, meles e conservas, indo os seus navios não só até à metrópole portuguesa, Flandres, Génova e Veneza, mas também à Índia, como cita D. Manuel, em julho de 1517, numa autorização de pagamento, onde se refere a armação de quatro naus para Malaca, comandadas por Diogo Mendes de Vasconcelos, de parceria com Jerónimo Sernige e onde Urbano Lomelino se fez representar pelo seu procurador Brás da Grã.

Urbano Lomelino fez o seu testamento a 9 de julho de 1518 e, em razão de não ter filhos, instituiu morgado de seus bens na esposa, se se mantivesse «viúva e vivendo bem e honestamente» e, falecendo, em Jorge Lomelino, filho de seu irmão Baptista Lomelino, caso já fosse «auto» para isso. Mais tarde, tanto Joana Lopes como Isabel Correia, sua mãe, igualmente «concorreram para a mesma instituição do morgado, como para a fundação do próprio convento». Henrique Henriques de Noronha acrescenta que eram naturais de Santana e ambas haviam edificado no convento para seu jazigo uma capela dedicada à mesma Santa (NORONHA, 1996, 255-256). No seu testamento, Urbano Lomelino, já doente, determinou que «tanto que falecer da vida presente», logo com muita diligência lhe deveriam levantar «um oratório de frades», na propriedade que ele tinha «além de S. Sebastião, onde se chama a Granja». O oratório que mandava fazer deveria ser «dois ou três côvados mais comprido» do que era a igreja de S. João de Latrão, que Nuno Fernandes mandara fazer e deveriam ainda dar terra para os frades fazerem «pomar e hortas e celas, contanto que não passe da Ladainha para cima» (GUERRA, 1997, 153).

O doador especificava ainda que, no futuro oratório, mandava que «assistam quatro frades de missa e dois que não sejam de missa», continuamente, «os quais cada dia rezarão duas horas muito devotadamente», e lhe deveriam ainda rezar cada dia, «enquanto o mundo durar» uma missa rezada e todos os domingos, uma missa cantada, assim como em todas as festas e todos os anos, «enquanto o mundo durar». Desejava também que a igreja do convento fosse ornada com certa grandeza, devendo ser comprado «um retábulo grande, que tome de parede a parede», o qual teria no meio a imagem de Nossa Senhora da Piedade e de um lado São João Batista e do outro Santo António, “e das bandas de fora” terá de uma parte São Francisco e da outra São Bernardino. Ao pé do referido retábulo deveriam figurar as suas armas e o oratório deveria ser da evocação de Nossa Senhora da Piedade (Id., Ibid., 140 e 148).

A determinação do velho doador cumpriu-se, embora o tríptico que chegou aos nossos dias não seja verdadeiramente uma Piedade, mas uma Descida da Cruz, o que à época não seria especialmente relevante, e rematado nos panos laterais por São Tiago Maior e por São Bernardino de Sena, muito provavelmente os santos protetores dos doadores mais novos: Maria Adão e Jorge Lomelino. No verso do tríptico, embora em fracas condições de conservação, figuram em grisaille Santa Luzia e São Tiago Menor, padroeiro do Funchal desde 1521. O retábulo deve ter sido encomendado à oficina de Gérard David (c.1450-1523) em Bruges, provavelmente depois de 1521, e acabado após a morte do mestre, ocorrida em 1523, mas já estaria colocado no convento em 1527, data em que passou a convento da província de Portugal e em que era guardião o padre frei Francisco de Lisboa.

A igreja ainda deveria ser lajeada com pedra do Caniçal, os degraus queria que fossem de azulejos e os emadeiramentos se fariam de madeira “de bordo muito bom e muito bem corrigido”, ou seja, de carvalho da Flandres. Ao longo do testamento ainda refere que deixa uma série interessante de paramentos, alguns com as suas armas, e várias alfaias litúrgicas, parte das quais já existiam em sua casa, como uma cruz de prata, que valeria 25.000 réis, e que deve ser a que foi posteriormente colocada no Museu de Arte Sacra do Funchal, proveniente da igreja matriz de Gaula; o mesmo se poderá dizer do turíbulo proveniente da matriz de Água de Pena, muito anterior ao povoamento da Madeira, românico e datável do século XII, assim como da cruz processional de latão, com tetramorfos aplicados, peças que devem ter sido adquiridas através dos seus contactos na área da Flandres. João Fernandes de Amil, juiz dos Resíduos e Capelas e amigo dos Lomelino, tratou logo de dar cumprimento às disposições testamentárias de Urbano Lomelino. Determinou que sobre o testamento de Urbano Lomelino, no referente à capela que o mesmo instituiu a favor do futuro convento de Nossa Senhora da Piedade, se fizesse uma declaração, da qual constasse que a intenção do dito instituidor era que sua mulher, D. Joana Lopes, “tirasse todas as despesas, que sua fazenda fizesse”, sem ficar nada para si, “mais de vinte mil réis para os frades e hábitos e cotações, que tudo sairia, do monte” e o que ficasse se repartisse em quatro partes: “três para se gastarem com pobres e órfãos e a quarta, parte para ela, administradora” (FERREIRA, 1955, 46-47).

Com o dinheiro encontrado por ocasião da morte de Urbano Lomelino, cerca de 1500 cruzados e ducados, “e muito açúcar que havia a saber: cento e quarenta e seis arrobas, as quais se vendiam a setecentos e oitenta libras, postas na Vila” e trinta e seis caixas de açúcar e quatro pipas de mel, “mandadas para a Flandres”, o bacharel João Fernandes de Amil e depois o herdeiro do morgado, Jorge Lomelino, deram início à edificação do convento. Mas, face às verbas encontradas, em vez de edificação para dois frades e dois leigos, edificaram um convento para 12 a 15 frades, assim como uma igreja bem maior, já de uma só nave, conjunto que bem dizia com a opulência dos Lomelino e que ia muito para além da vontade do inicial testador. O convento estava pronto, pelo menos em 1548, conforme afirma Jorge Lomelino no seu testamento, de 5 de dezembro desse ano, como “testamenteiro e administrador que é da alma de seu tio Urbano Lomelino”, mandando-se sepultar na capela-mor do mesmo, sob uma laje que mandara vir, em princípio da Flandres (ARM, JRC, t. 3, fl. 201), com inscrição em latão dourado, mas que em 1852 já não existia.

Conforme aconteceu com outras instituições, ao mesmo tempo com caráter pio e económico, com o andar dos tempos tiveram de sofrer modificações decorrentes, quer das condições económicas do legado inicial, quer do encargo pio a que se destinavam. Efetivamente, e na maior parte dos casos, o legado inicial, com o tempo, tornava-se absolutamente exíguo para o encargo inicialmente determinado. Assim, ainda no século XVI, em 1592, pediu e alcançou do papa o então herdeiro do vínculo, Francisco Lomelino, o Moço, a redução das missas dos legados deixados ao mesmo convento, alegando para isso a Sua Santidade a impossibilidade de as mandar celebrar, em razão de os seus rendimentos terem diminuído muito.

Alegava então Francisco Lomelino que a capela de Urbano Lomelino, no tempo da sua instituição, rendia 3000 ou 4000 cruzados em açúcares, “por estarem as terras virgens e serem cultivadas por escravos, havendo nelas cinquenta vacas parideiras”, razão pela qual o instituidor lhe tinha posto muitos encargos “acomodados ao tempo” em que a fazenda “rendia muito e se gastava pouco no seu amanho”. No entanto, naquela altura, “os encargos de missas, que se cumpriram por algum tempo”, deixaram de poder ser cumpridos, “devido à sua grande diminuição e à carestia daquela época”. Além do exposto, “a sua casa […] se achava muito diminuída, devido às grandes despesas feitas para o livrar do poder dos mouros, após a rendição da fortaleza de Cabo de Guer, onde servira” (ARM, JRC, tombo 3, fl. 609v.).

Francisco Lomelino estava na guarnição de Santa Cruz de Cabo de Guer em 1542, quando aquela praça caiu em poder do xerife de Marraquexe, tendo sido feito prisioneiro e vendido como escravo. No entanto, conta Gaspar Frutuoso (FRUTUOSO, 1968, 266) e volta a contar Noronha (NORONHA, 1947, 359) que teria conseguido, sete anos depois, convencer o mouro que o comprara para escravo ou que o mantinha em cativeiro a ir com ele para a Madeira. As relações dos madeirenses com o Norte de África ficariam ainda registadas na família com o posterior falecimento do primogénito, Jorge Lomelino, na batalha de Alcácer Quibir, a 4 de agosto de 1578.

O bispo D. Luís de Figueiredo de Lemos (1544-1608) já havia recebido uma carta da Sagrada Congregação dos Cardeais, de 4 de outubro de 1589, concedendo-lhe o poder para reduzir as capelas e a missa dos administradores do seu bispado “que se sentissem carregados com grande número de missas e encargos, ao justo e razoável, conforme as propriedades e rendimentos” (ARM, JRC, tombo 3, fls. 608-608v.). Por provisão de 4 de abril de 1603, resolveu que, vista a “vastidão dos encargos e a miséria dos tempos, conformando-se com a declaração da Sagrada Congregação dos Senhores Cardeais” e as disposições do Concílio de Trento, mandava reduzir todo “o anual de missas rezadas e cantadas”, ficando as rezadas de todos os Santos e as cantadas somente aos domingos e festas do ano; e que “o anual de missas” que o instituidor Urbano Lomelino ordenara que se dissesse em Génova, na Igreja de Nossa Senhora da Graça, “onde jaziam seus pais e outras pessoas de sua família”, tal como as do convento de Santa Cruz, se reduzisse a “duas missas rezadas cada semana”, ficando salvas todas as mais obrigações e encargos (Ibid.).

Em 1598, no “Recenseamento dos Fogos, Almas, Freguesia, e mais Igrejas”, regista-se que moravam neste mosteiro, “o qual fizeram os Lomelinos”, 16 a 18 religiosos. Os seus descendentes tinham a obrigação de dar “a certos religiosos” cada ano – parecendo deduzir-se que não a todos – hábitos e outras coisas, importando a obrigação em mais de 70.000 réis (BGUC, cód. 210).

Por volta de 1722, Henrique Henriques de Noronha faz notar que o convento estava situado num alto sobre o mar, fora da vila de Santa Cruz e a três léguas da cidade do Funchal. Tinha “bonitos” edifícios e larga capacidade para doze ou quinze religiosos, “que hoje o habitam”, embora fosse na criação somente para seis: “quatro sacerdotes e dois leigos, na forma que dispôs o fundador”. O convento possuía pequeno claustro, onde se situava a capela de Santa Ana, instituída por Joana Lopes e Isabel Correia, respetivamente mulher e sogra de Urbano Lomelino, onde se encontravam sepultadas, que servia de sala de capítulo à comunidade, e a das Almas, “onde jaz sepultado o venerável padre António de Santa Maria”. Na cerca do convento, “que tem muita extensão”, ainda existia uma capela dedicada a Santo António, “devotadamente ornada” (NORONHA, 1996, 255).

A igreja do convento da Piedade era de uma só nave, com dois altares colaterais, sendo o da parte do Evangelho dedicado a São Roque, a “cujos pés” estava sepultado Gonçalo de Freitas, fidalgo da casa de D. Afonso V e monteiro-mor do infante D. Fernando, com sua mulher Maria de Valdez de Correão (Ibid.). O cronista não menciona a evocação do altar do lado da Epístola e na sua Genealogia refere que Gonçalo de Freitas e a mulher estavam sepultados no altar de Santa Cruz (NORONHA, 1947, 285). Na capela-mor encontrava-se o carneiro do primeiro instituidor, Urbano Lomelino, que havia sido sepultado na matriz de Santa Cruz e, acabada igreja do convento, para ali foram transladados os seus restos, ficando em sarcófago parietal, depois transferido para a capela da Piedade da Quinta das Cruzes; no centro da capela-mor, localizava-se a laje flamenga do seu sobrinho Jorge Lomelino.

Segundo informa também Henrique Henriques de Noronha, os franciscanos do convento de Santa Cruz tinham conseguido alguns privilégios, como o púlpito da colegiada do Salvador, em Santa Cruz, por uma provisão da rainha D. Catarina, mulher de D. João III, governando por seu neto D. Sebastião, no ano de 1561 (Ibid., 255). Teriam depois confirmação de D. Sebastião, por alvará de 17 de novembro de 1577, que lhes confirmou com 30.000 réis de ordenado, e já tinham, desde 21 de agosto de 1559, o da ilha do Porto Santo, com idêntica remuneração. Filipe II, por alvará de 4 de agosto de 1590, concedeu-lhes o da colegiada de Machico, com idêntico ordenado; mais tarde foram todos confirmados por D. João IV, por alvarás de 14 de outubro de 1644 para o guardião do convento em relação à matriz de Santa Cruz, de 15 de outubro do mesmo ano para a colegiada de Machico, e ainda do mesmo dia em relação à matriz do Porto Santo (BNP, cód. 8391, fls. 134-134v.).

Todos os reis da dinastia de Bragança, até D. Maria I, tomaram este e os outros conventos da Madeira sob a sua real proteção, concedendo aos frades do convento da Piedade o privilégio de fazerem peditórios no reino e em toda a capitania de Machico e Porto Santo. Saliente-se que, enquanto ao convento da Piedade era dado como privilégio fazer peditórios nas capitanias de Machico e Porto Santo, ficava a capitania do Funchal como campo do convento do Funchal, onde residia o presidente geral, ou principal regional, se assim se podia escrever, mas também do convento da Porciúncula, na Ribeira Brava, de São Bernardino, em Câmara de Lobos, e ainda o pequeno convento da Calheta.

As relações entre os padroeiros do convento de Nossa Senhora da Piedade e os franciscanos nem sempre foram fáceis, dado estes entenderem que competia ao padroeiro a manutenção do edifício. Ora, vivendo os franciscanos de esmolas e com uma administração nem sempre famosa, rapidamente os seus edifícios começavam a necessitar, não de pequenas obras, mas de total reconstrução. Estas questões foram levantadas nos finais do século XVI, havendo despachos vários do prelado diocesano, mas não conseguindo o mesmo levar os morgados a assumir decididamente as obras em questão.

Em 1603, Francisco Lomelino, uma vez alcançada a redução dos encargos e número de missas dos legados deixados ao convento, requereu à autoridade eclesiástica que também lhe fosse reduzida a quantidade de cera, duas arrobas e vinte libras, que estava obrigado a fornecer aos frades “para as missas e evangelhos dos domingos e dias santos”. Alcançou sentença favorável e ficou apenas obrigado a dar para as missas conventuais de todos os domingos e festas de guarda do ano, “para uma missa cantada cada semana e para duzentas e oito missas uma arroba e meia de cera, entrando nesta duas tochas para os evangelhos”. Não se conformou o síndico do convento com a sentença e, em 1617, tentou obrigar o padroeiro de então a dar mais vestiário e cera. De novo alcançou o morgado Estêvão Lomelino sentença favorável, que só o obrigava a dar 20.000 réis para o vestiário dos frades e arroba e meia de cera para os seus ofícios (FERREIRA, 1955, 50).

As demandas, estudadas por Jorge Guerra (GUERRA, 1997, 150-156), continuaram ao longo do século seguinte e, passando o legado dos Lomelino para a importante casa dos Freitas da Madalena do Mar, seguiram os franciscanos, de instância em instância, até ao Tribunal da Relação, onde obteriam sentença favorável, em 1759, embora abaixo das suas expetativas. Assim, pretendendo a reconstrução do convento com acomodações para os 10 a 12 religiosos então existentes, a sentença somente refere o quantitativo de 6 inicialmente previsto pelo instituidor. No entanto, ainda não foi dessa vez que se efetuaram as obras.

Em 1785, o morgado Nuno de Freitas da Silva, casado com a morgada Ana Guiomar Luísa Antónia de Moura Acciauoli Lomelino (1747-c. 1820), padroeira do convento, fez uma escritura de composição com o custódio e síndico do dito convento, pela qual os religiosos franciscanos se comprometiam a reconhecer o dito administrador e os seus sucessores como seus padroeiros; a conservar as armas da sua família; a dar uma cadeira com estrado alto para o padroeiro, e estrado na capela-mor para sua mulher e filhos; a dar repique de sino para o padroeiro e seu imediato sucessor e “incenso e paz” ao mesmo nas missas solenes; a renunciar a todo o direito que tinham sobre as sepulturas no mesmo convento, que ficavam pertencendo ao mesmo padroeiro; e a não citar o seu padroeiro “sem sua vénia” (ARM, Registos Notariais, n.º 1028, fls. 61-62v.).

Em contrapartida, os padroeiros responsabilizavam-se, finalmente, pelas obras de reconstrução do velho convento, ou seja, por “reedificar e conservar” na forma como fora determinado na sentença da Relação. No entanto, também não foi dessa vez que se iniciaram as obras e foi necessário esperar por nova “composição amigável”, desta vez em nome da nova morgada das Cruzes, a viúva Ana Guiomar Lomelino de Moura Acciauoli, com data de abril de 1789, para que as mesmas tivessem efeito (Ibid., n.ºs 1042 e 1058, fls. 64-65v. e 61v.-62v.).

Como se pode ver, não era fácil a vida destas pequenas comunidades religiosas, principalmente quando franciscanas, ou seja, vivendo quase em absoluto da caridade de padroeiros e da comunidade pública. E dizemos quase em absoluto porque, bem vistos os seus privilégios, acabavam por ter pelo menos os dois púlpitos das matrizes de Santa Cruz e do Porto Santo, assim como mais um benefício na colegiada de Machico, para além de outras benesses no corte de madeiras, a possibilidade de terem açougue próprio e de procurarem gado por toda a Ilha, acesso ao pescado no mercado de Machico, etc. E se por um lado, e na linguagem da época, se podia dizer que eram esmolas da Fazenda Real, por outro lado, eram na verdade ordenados e deviam corresponder a serviços determinados, pagos mediante comprovação da sua efetivação, embora, e como se escreveu, tal nem sempre fosse cumprido, como referem os visitadores e registam os provedores da alfândega.

Apenas ficou para a posteridade um livro deste convento, o das Receitas de 1772-1774, quando era guardião o padre pregador frei Manuel de São Bernardo. Por este livro se pressentem as dificuldades económicas da pequena comunidade, que vivia essencialmente das pregações em Santa Cruz e Machico, mas também em Água de Pena, Gaula e Porto da Cruz, e do acompanhamento de funerais. O livro encontra-se muito danificado, mas o principal rendimento desta pequena comunidade nesses anos parece ter sido a venda hábitos de franciscanos para os enterramentos, não havendo mês em que não se tenham enviado vários buréis e saiais para as freguesias limítrofes. No âmbito da Reforma geral eclesiástica empreendida pelo ministro e secretário de Estado Joaquim António de Aguiar – que ficou conhecido por “mata-frades” – e executada pela Comissão da Reforma Geral do Clero (1833-1837) com base no decreto de 30 de maio de 1834, foram extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens religiosas. O recheio e o edifício do convento viram a ter uma vida francamente atribulada pois, extintas as ordens religiosas e incorporados os seus bens na fazenda Real, foi a propriedade do convento reclamada pelos descendentes dos Lomelino e, após complicada demanda, conseguida.

O recheio do convento, no entanto, tinha sido na sua quase totalidade transferido para a matriz do salvador de santa Cruz, onde permaneceu parte do conjunto dos azulejos mudéjares que decoravam o convento. Nos anos seguintes, o mesmo recheio acabou por ser distribuído pelas matrizes limítrofes e, quando os descendentes o reclamaram, quase nada conseguiram recuperar; assim, o morgado das Cruzes, Nuno de Freitas Lomelino (1820-1880), só veio a recuperar as ruínas do velho edifício e as peças mais ou menos fixas, como o túmulo do fundador, que recolheu na capela da sua residência urbana, na Quinta das Cruzes, acabando por vender o terreno e o edifício por ser demolido em 1864.

Para se imaginar a dispersão do património do convento, basta referir o circuito que teve o famoso retábulo da capela-mor. Conforme conta o padre Eduardo Nunes Pereira, o retábulo foi transferido para a matriz do Santo da Serra (tal como o sacrário); terá sido depois guardado e, em 1915, colocado pelo padre Eduardo Honório Henriques no batistério. O sucessor desse pároco, o padre Lino da Costa, acabou por retirá-lo do batistério, dado o avançado estado de degradação que apresentava, em consequência da humidade do local. Por razões que se desconhecem, as tábuas do retábulo vieram a aparecer numa vizinha oficina de carpintaria, cujo proprietário as vendeu, pela irrisória soma de 40 escudos, ao major Américo Olavo Correia de Azevedo (1882-1927), que o levou para Lisboa. Reconstruído e restaurado por Luciano Freire, veio a ser vendido ao antiquário Adolphe Weiss, de Viena de Áustria, por 400 contos de réis, voltando a ser intervencionado nessa cidade pelo Prof. Sachs e sendo depois vendido para a Suíça. Foi finalmente adquirido, em março 1954, pelo Estado, por 500 contos de réis (PEREIRA, 1968, II, 742-743).

O tríptico da Piedade foi exposto em 1955 no Museu Nacional de Arte Antiga e, no mesmo ano, seria transferido para o Funchal. O museu nacional optou por ficar com o tríptico de Nossa Senhora da Misericórdia com os doadores, São Sebastião e São Cristóvão, atribuído a Jan Provoost (1462/5-1529) e datável de 1512 a 1515, proveniente da capela de São João de Latrão, em Gaula, que foi vendido em 1876 pelo diplomata Agostinho de Ornelas e Vasconcelos Esmeraldo Rolim de Moura (1836-1901). Este tríptico tem sido dado como proveniente da Misericórdia do Funchal; mas, dado o proprietário que o vendeu e a documentação que o acompanhou, era com certeza da capela de São João de Latrão.

Em 1961, durante a construção do aeroporto do Funchal, foi a área do velho convento objeto de uma escavação arqueológica de emergência (a primeira ocorrida na ilha da Madeira), sob direção do Dr. António Aragão Mendes Correia, e os elementos arquitetónicos que foi possível recuperar, assim como mais alguns azulejos mudéjares, recolheram à casa solarenga dos antigos proprietários, então transformada em Museu e dotada de parque arqueológico. Em 1997, foi criada, na antiga Quinta do Reboredo, a Casa da Cultura de Santa Cruz, onde foram recolhidos os elementos arquitetónicos para remontagem nos seus jardins, na base dos acessos ao aeroporto, ou seja, bem perto do seu local de origem.

Bibliog.: manuscrita: ARM, Juízo de Resíduos e Capelas, Tombo 3 do Juízo de Resíduos e Capelas; ARM, Registos Notariais, liv. 43, 57 e 73 do tabelião António Rodrigues do Carmo e Costa, n.º 1028, fls. 61-62v., 1042, fls. 64-65v. e 1058, 61v.-62v.; BGUC, códice 210, Reçençeamento dos foguos Almas freguesias, e mais Igrejas, que tem a ilha da Madeira tirado pelos Rois das Confições, assi em geeral com em particular, 1598; BNP, Reservados, cód. 8391, Índice Geral do registo da antiga Provedoria da Real Fazenda, acrescentado com algumas notícias e sucessos da Ilha da Madeira desde o ano de 1419 do seu descobrimento até ao de 1771 da extinção da mesma Provedoria (o original está na Câmara Eclesiástica), cópia no ARM, proveniente do espólio do padre Fernando Augusto da Silva; ANTT, Conventos, Convento de Nossa Senhora da Piedade de Santa Cruz, liv. 1 (Receita 1772-1776); impressa: Arquivo Histórico da Madeira, trans. e coord. Luís Francisco de Sousa Melo, vol. XV, 1972; CARITA, Rui, História da Madeira, I vol., Povoamento e Produção Açucareira (1420-1566), reed., Funchal, SRE, 1999; FERREIRA, Juvenal Pita, “Notas para a História da Freguesia de Santa Cruz”, in Das Artes e da História da Madeira, n.os 19 e 20, 1955, pp. 46-57; GOMES, Filipa Catarina Gouveia, Convento Nossa Senhora da Piedade, Vestígios do Passado, dissertação de Mestrado em Arte e Património apresentada à Universidade da Madeira, Madeira, texto policopiado, 2008; GUERRA, Jorge Valdemar, “O convento de Nª. Sª. da Piedade de Santa Cruz, subsídios para a sua história”, Islenha, n.º 20, jan.-jul. 1997, pp. 125-156; NORONHA, Henrique Henriques de, Nobiliário Genealógico das Famílias: que Passarão a Viver a Esta Ilha d’a Madeira Depois do Seu Descobrimento, que Foi no Ano de 1420, São Paulo, Revista Genealógica Brasileira, 1948; Id., Memórias Seculares e Eclesiásticas Para a Composição da História da Diocese do Funchal na Ilha da Madeira, Funchal, CEHA, 1996; PEREIRA, Eduardo Nunes, Ilhas de Zarco, 2 vols., 3ª ed., Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 1967; VERÍSSIMO, Nelson, Relações de Poder na Sociedade Madeirense do Século XVII, Funchal, DRAC, 2000; VERÍSSIMO, Nelson e GUERRA, Jorge Valdemar, “O Hospício Franciscano e a capela de S. José da Ribeira Brava”, Islenha, n.º 19, jul.-dez. 1996, pp. 61-94.

Rui Carita

(atualizado a 24.08.2016)