conventos

Conforme era costume nas armadas dos descobrimentos, acompanharam João Gonçalves Zarco, nas suas viagens, por certo, alguns franciscanos, aos quais nos inícios do povoamento se juntaram mais dois encontrados no Porto Santo, no local que ficou designado por Porto dos Frades, provenientes de um naufrágio, ao tentarem atingir as ilhas Canárias. Estes frades franciscanos foram a base da assistência religiosa aos primeiros núcleos populacionais, até o arquipélago ser doado ao infante D. Henrique e o seu cuidado espiritual à Ordem de Cristo. Com esta doação advieram várias disputas com a ordem de São Francisco e com os provinciais de Castela, e até de Aragão, que igualmente pretendiam a fixação na Madeira e, como ordem religiosa mendicante, entendiam mal não só a fixação num determinado território, como a superintendência régia, senhorial ou eclesiástica sobre o mesma, aspeto que percorreu toda a história do Antigo Regime e por certo não só na Madeira.

A doação do arquipélago ao infante D. Henrique e do seu cuidado espiritual à Ordem de Cristo em 1433 alterou a situação de hegemonia de que gozavam os franciscanos na ilha. Por esta data, e com a nomeação de freires daquela ordem para as capitanias da Madeira, começaram a surgir problemas com os frades de São Francisco, que viram, por certo, coartada a sua ação e até a liberdade de movimentos e de peditórios. Acrescia que os franciscanos possuíam uma tradicional liberdade de movimento e uma grande independência de ação, pouco se fixando na Ilha; escreveria o vigário do Funchal, frei Nuno Cão (c. 1470-1530/31), em 20 de fevereiro de 1499, que esses frades chegavam à Madeira “de passada, a ver o Mundo, cada um por sua arte e não faziam assento, e dali corriam para as outras ilhas debaixo [as Canárias, entenda-se], como caminhantes […]” (ANTT, CSF, avulsos, mç 11, doc. 1). Ora não era esse o espírito e a estabilidade que a Ordem de Cristo pretendia para a Madeira.

Se o modelo franciscano produtor de “andarilhos de todos os caminhos” que informara os descobrimentos e a expansão portuguesa já complicava a vida religiosa na Madeira, a independência da Ordem dos Frades Menores perante os poderes locais e reais ainda piorava a situação. As províncias de Aragão e de Castela tentaram mesmo a superintendência sobre os franciscanos na Madeira, conseguindo uma carta do papa Martinho V, de 9 de março de 1432, que alargava o campo de ação dos franciscanos das Canárias, e do papa Eugénio IV, de 27 de janeiro de 1436, que autorizava a província de Valência a fundar eremitérios na Madeira, independentes da jurisdição local (MONUMENTA HENRICINA, 1961, III, 53-54). Ora, numa altura em que também o infante D. Henrique reivindicava para a Ordem de Cristo, pelo menos, a superintendência sobre algumas das ilhas das Canárias, tal não podia ser aceite pelo infante.

Os atritos do infante D. Henrique com os franciscanos começaram por certo depois de 1433, data da atribuição das Ilhas à Ordem de Cristo, de que desde 1418 o infante era governador e administrador. Estes atritos aumentaram e, entre 1449 e 1459, quase todos os franciscanos tinham abandonado a ilha, fixando-se nos arredores de Lisboa e fundando uma pequena comunidade em Xabregas, sob o padroado da condessa de Atouguia. Referem as crónicas seráficas, que “por alguns casos que lhes sucederam”, os franciscanos se retiraram da Madeira (NORONHA, 1996, 232), mas não especificando quais foram os “casos”.

Só em 1450, por bula de 28 de abril desse ano, é que os franciscanos da província de Portugal, conseguiram autorização do papa Nicolau V para manterem um eremitério, que já teriam erguido na Madeira sem qualquer beneplácito, nomeadamente o estabelecido na margem direita do ribeiro de São João, no Funchal, ou Ribeira Grande, então com quase uma dezena de irmãos leigos, tendo tido como guardião frei Pedro das Covas (PEREIRA, 1967, I, 306) ou frei Pedro Mourão, “homem velho e de muita autoridade” (SILVA, 1946, 163). Mas a influência castelhana era de tal ordem que, alguns meses depois, o papa Nicolau V nas letras “Dum ad Preclara” de 10 de dezembro de 1450, dirigido ao vigário geral e demais religiosos franciscanos das ilhas Canárias, a pedido destes, os autorizou a fundarem também casa na vizinha ilha da Madeira (MONUMENTA HENRICINA, 1961, III, 328), o que, claro que não veio a acontecer.

Referiu o cónego Jerónimo Dias Leite (c. 1537-c. 1593) e transcreve Gaspar Frutuoso (c. 1522-c. 1591) que, tendo os franciscanos acompanhado o capitão Zarco, este lhes deu agasalho no Funchal numas casas em lugar ermo, donde depois se transferiram para o edifício que construíram “em baixo na vila (…), nuns chãos e terras defronte de Santa Catarina, além da ribeira” (FRUTUOSO, 1968, 86). Foi assim a sua primeira residência a pequena capela de São João Baptista, ou de São João da Ribeira, e depois o edifício do Funchal, do outro lado da ribeira e já dentro da futura cidade e perto do local então em discussão para a construção da igreja grande que viria a ser terminada para Sé.

No continente, os principais das duas ordens de São Francisco e de Cristo, procuraram um entendimento e, por certo, uma delimitação de campos de ação, o que com os franciscanos nunca era fácil de cumprir. Encontrado esse acordo, regressaram os franciscanos à ilha por 1464, voltando a ocupar o pequeno hospício de São João. Voltaram sob a direção do frei Rodrigo de Arruda, homem de certa influência junto do Geral da Ordem, em Roma, e que fora já provincial em Portugal, além de manter relações pessoais de amizade com o 2º capitão donatário do Funchal, João Gonçalves da Câmara (1414-1501).

Depois da vinda de frei Rodrigo de Arruda, a vida dos franciscanos na Madeira prosseguiu sem atritos de maior. Afastada a influência castelhana, consolidada a jurisdição da Ordem de Cristo e fundada a diocese do Funchal, em 1514, o poder real passou a exercer-se diretamente sobre o arquipélago, deixando de constituir um senhorio, e a presença dos franciscanos cessou de criar especiais problemas à direção política da povoamento insular e à expansão portuguesa africana. O aumento da influência dos franciscanos na vida madeirense, depois a presença dos jesuítas, e toda a série de atritos resultantes da utilização dos púlpitos das várias sedes de freguesia, dos testamentos, dos enterramentos, etc., haveria de levantar outro tipo de problemas.

Os conventos de frades e freiras instalados na Madeira desempenharam um papel muito importante no equilíbrio social local ao longo do Antigo Regime, em especial na consolidação das principais famílias nobres insulares, através da constituição de capelas e respetivos jazigos. A sua facilidade de relacionamento e de palavra serviu de ponte para a resolução de inúmeros conflitos pessoais, familiares e regionais, embora também tenha ajudado a ampliar outros, tendo as suas instalações e confrarias, como terreno neutro, albergado reuniões, contratos de casamento e, por certo, de negócios a todos os níveis sociais e locais. Como área com jurisdição própria, também serviram de abrigo a homiziados, como nos distúrbios de 1642 ou na sedição de 1688, como ocorreu igualmente no restante território nacional.

Para além do grande convento do Funchal, fundaram os franciscanos o convento de São Bernardino em Câmara de Lobos, hoje sede da paróquia de Santa Cecília; o de Nossa Senhora da Piedade, em Santa Cruz; e o pequeno convento de São Sebastião, na vila da Calheta, embora quase sempre denominado por São Francisco, num alto promontório sobre a igreja matriz da vila. Fundaram ainda um outro oratório, depois transformado em hospício, dedicado a Nossa Senhora da Porciúncula, na Ribeira Brava e que nunca se chegou a oficializar como convento.

Há ainda notícias dispersas de pequenos eremitérios franciscanos, como um nas encostas de Machico e junto à furna do Cavalum ou junto à ribeira, que teria sido levantado em 1462, e destruído por uma cheia em 1467, causando a morte a três frades e um irmão leigo; assim como outro em Câmara de Lobos, para além do de São Bernardino; e ainda outro no Porto Santo; mas teriam sido todos ainda mais temporários que os pequenos conventos citados, dos quais, infelizmente, tão pouco ficou. Igualmente os franciscanos terão fundado a primitiva capela de Santa Maria dos Anjos, perto da Ponta do Sol, que depois Martim Afonso Galego adquiriu (SOUSA, 5 maio 1985), encontrando-se em ruínas em 1474 e sendo posteriormente reconstruída por ordem de D. Beatriz (ARM, 1972, XV, 74-75), passando, depois a incorporar o morgado dos Reis Magos do Estreito da Calheta, fundado por Martim Homem de Sousa e Isabel Afonso.

O enquadramento social dos conventos femininos era totalmente diferente, tornando-se essencial na política de concentração patrimonial dos morgadios e, também, no equilíbrio social entre as famílias terratenentes. Uma das principais razões apontadas nos finais do século XV para a edificação de um mosteiro de freiras no Funchal residia no argumento, então de bastante importância, de já haver muitas filhas de gente principal da terra com possibilidades de entrarem num convento; tal significava não só uma expressão do sentido religioso dominante na época, mas uma solução de tipo económico, para defesa da estrutura social. Com efeito, como a “gente de qualidade”, possuidora de bens de raiz, procurava concentrar o seu património nas mãos dos filhos primogénitos, através da instituição do morgadio, em detrimento dos filhos segundos, que normalmente não eram contemplados e eram levados optar pela carreira militar ou pela religiosa, era necessário encontrar resguardo para as filhas que ficavam na ilha.

Em virtude da intensificação dos morgados, muitos dos filhos segundos emigraram, sendo a Índia e o Brasil as principais terras de destino; mas os primogénitos também tinham de cumprir obrigações militares fora da ilha, para justificarem a sua qualidade e nobreza, passando assim longos períodos fora da Madeira. Para as raparigas que não se casavam ou que aguardavam casamento, o devoto refúgio do convento oferecia-se como o melhor amparo. No seio da pequena burguesia insular, subitamente próspera com a cultura açucareira e que copiava o sistema social em curso no continente português, muitas deveriam ser então as raparigas solteiras para as quais o convento seria o único abrigo, dado, por vezes, a completa diáspora da família.

Sublinhe-se que a instituição vincular dos morgadios e capelas permitiu o aumento dos grandes desníveis económicos na sociedade insular, na medida em que, por via de casamentos entre herdeiros de morgados, os bens imóveis cada vez se concentravam mais em poucas mãos. Essa situação, aliada à tradicional diáspora insular, levava a que muitas das viúvas, por exemplo, partilhados os bens do casal, e constituído o morgadio e a sua administração, procurassem a proteção dos conventos na última fase da vida, acolhendo-se à companhia de membros da mesma família que já ali estavam, e muito especialmente o amparo económico para os seus bens que, sem um apoio adequado, corriam o risco de rápida delapidação.

Foi assim fundado o convento de Santa Clara logo pelo 2º capitão do Funchal, nos finais do século XV, dentro da chamada “segunda regra” ou “regra urbanista”, que admitia a existência de propriedades, uma das instituições mais importantes neste campo, que chegou a estender a sua influência ao continente, a ela se devendo a fundação do convento da Esperança, em Lisboa. Foi a mais importante instituição do género na ilha, com um património imobiliário incomensurável, quase não havendo freguesia rural que, de uma forma ou outra, não pagasse foros e rendas às freiras de Santa Clara, sendo inclusivamente necessário montar um cartório notarial no convento para gerir tão vasto património. O conjunto edificado que chegou aos nossos dias ainda é disso testemunho, com retábulos, imaginária e alfaias religiosas de incalculável valor, incluindo dois dos quase únicos chãos completos e cobertos a azulejaria mudéjar da transição do século XV para o XVI existentes em território nacional.

Durante a união ibérica existiu uma certa centralização régia por parte da coroa filipina, que criou uma série de entraves burocráticos às instituições pias deste género, limitando a fundação de conventos. A situação veio a mudar com a aclamação de D. João IV, que abriu algum espaço de manobra para esse tipo de fundações. No Funchal fundaram-se assim, ao longo do século XVII, os conventos de Nossa Senhora da Encarnação, também na “segunda regra” ou “regra urbanista”, e de Nossa Senhora das Mercês, na “primeira regra”, ou seja das Capuchinhas, ambos no vasto universo da ordem de São Francisco. Foram, entretanto também fundados os recolhimentos do Bom Jesus e o chamado Mosteiro Novo, mas que nunca se chegaram a instituir como conventos. Nos meados do século XVII, iniciou-se a construção de mais um recolhimento, então da evocação de Nossa Senhora do Carmo, previsto para carmelitas; mas, salvo presenças pontuais desses religiosos e religiosas na Madeira, o mesmo também não passou de recolhimento.

Em 1688, veio a ser constituída a Custódia de Santiago Menor da Ordem Seráfica, a pedido do clero e nobreza da ilha da Madeira e com a anuência do geral da Ordem de São Francisco, frei Pedro Marinho. Os franciscanos do convento do Funchal, de São Bernardino de Câmara de Lobos e da Piedade de Santa Cruz, tal como as freiras de Santa Clara, ficavam assim com autonomia em relação à província de Portugal, situação sancionada por resolução régia de 6 de maio de 1688, ficando a nova custódia sob proteção régia por alvará de 23 de janeiro de 1689 (ANTT, Chanc. D. Pedro II, liv. 64, fls. 301v.-302 e liv. 18, fls. 334v.-335).

A situação, entretanto, era avaliada de outra forma em Lisboa pela província portuguesa, que se opôs à constituição da nova custódia, tentando obstruir o seu funcionamento e inclusivamente não autorizando o embarque do custódio eleito, frei Inácio do Deserto. Em defesa da custódia veio a câmara do Funchal, lembrando ao padre geral, em 1691, o comportamento escandaloso dos frades desterrados para a Madeira, que não merecia servir para terra de “religiosos delinquentes”, quando nunca servira para “degredados seculares” (ARM, CMF, liv. 108, fls. 37v.-38v.). Alguns anos antes, em 1672, dois frades franciscanos, os padres frei Raul de Santo António e frei Manuel de Santo Inácio, haviam-se envolvido em sermões muito pouco próprios, servindo-se do púlpito da sé para ataques mútuos, levando o bispo D. frei Gabriel de Almeida (c. 1600-1674) a publicar um decreto proibindo-os de pregar na sé (ANTT, CSF, liv. 3, fls. 32 v.-47). O escândalo merecera inclusivamente, em 1673, uma censura régia (ARM, CMF, liv. 1215, fls. 63) e, com outras recebidas pelo prelado, o mesmo ficou “tão molestado, que dentro em pouco se finou” (SARMENTO, 1947, II, 94)

As questões com o custódio provincial, com os franciscanos na Madeira e depois também com o governador criaram inúmeras dificuldades ao bispo seguinte da diocese, D. frei José de Santa Maria (c. 1620-1708) que levaram ao seu afastamento, em princípio para Lisboa, a 15 de setembro de 1696, sendo depois provido à frente da diocese do Porto. Os problemas mais graves ocorreram com o governador da Madeira, levando inclusivamente a uma sindicância, embora não saibamos concretamente o que se terá passado. Mas também houve problemas com o custódio provincial, provavelmente por o bispo querer instalar um convento de capuchinhos no Funchal, no que teria a anuência da câmara (ARM, CMF, 165, 17-18); mas o essencial era a reposição da custódia de Santiago Menor na Madeira.

A partir de Lisboa, D. frei José de Santa Maria fez-se representar por dois comissários delegados para a reposição da custódia de Santiago: os padres frei Manuel de Santa Maria, pregador da província dos Algarves, e frei João do Espírito Santo, membro da comunidade madeirense. Entretanto, foram enviados a Roma dois padres madeirenses, o pregador frei Inácio de Santa Maria e frei Luís da Encarnação, para conseguirem junto da Santa Sé a reposição da custódia, não sendo bem-sucedidos. Regressados a Lisboa, no entanto, conseguiram acionar o processo na Nunciatura, alcançando sentença a seu favor e patente, com data de 17 de dezembro de 1701, para um visitador: Fr. Manuel de São Boaventura, pregador da província da Arrábida, que chegou à ilha a 7 de fevereiro de 1702.

A custódia de Santiago Menor foi reposta pelo sínodo franciscano de Alenquer, por termo assinado a 15 de setembro de 1702. Por alvará de 10 de outubro de 1708 e provisão de 1734, D. João V assumiu a proteção dos conventos franciscanos da custódia de Santiago Menor da ilha da Madeira (AHU, Madeira, cx. 3, doc. 611). Na ilha passaram a decorrer os sínodos da custódia, tendo nos dias 6 e 7 de setembro de 1753, por exemplo, decorrido um deles no hospício da Ribeira Brava, sob a presidência do próprio bispo do Funchal, D. João do Nascimento (c. 1690-1753), pouco tempo antes de falecer. Os capítulos desse sínodo abrem com “D. João da Natividade, provedor, executor, comissário, visitador e presidente do capítulo custodial da santa custódia de Santiago Menor da ilha da Madeira da regular observância de São Francisco…” (ARM, PJRFF, liv. 505, fl. 7). O bispo do Funchal professara no convento de Varatojo, na ordem de São Francisco, pelo que o cargo de presidente do capítulo lhe estava logicamente reservado.

O bispo seguinte, D. Gaspar Afonso da Costa Brandão (1703-1784), era oriundo do clero secular e veio para a ilha já com a missão de reformar determinados aspetos, vindo acompanhado de dois padres da Congregação da Missão, os padres Alasia e Reis. Assim, haveria de ter carta de visitador apostólico, presidindo ao sínodo de 10 de abril de 1758 como “D. Gaspar Afonso Brandão, por mercê de Deus e da Santa Sé Apostólica, bispo do Funchal, Porto Santo e Arguim, do conselho de Sua Majestade Fidelíssima e governador das armas destas ilhas pelo mesmo Senhor…”, pois nessa altura era também governador. O discurso inaugural do principal de São Francisco do Funchal começava assim: “Nós, os seguidores do Patriarca dos Pobres, que somos filhos de Sião, afamados em todos os ângulos da terra…” (ANTT, JPRFF, liv. 505, fl. 15).

Sente-se assim, logo nos inícios do século XVIII, uma maior intervenção real, com a reconstituição da custódia de Santiago Menor, sob a proteção real, por alvará de 1708. Esta situação significava uma certa independência dos conventos franciscanos insulares masculinos, a que se juntava o feminino de Santa Clara, do prelado diocesano, que respondiam diretamente perante o sínodo da província portuguesa e a coroa. O mesmo se não passava com o convento feminino da Encarnação, somente dependente do prelado, e com o qual sempre houve uma verdadeira guerra institucional, com devassas contínuas sobre o funcionamento e a administração do mesmo, chegando as freiras da Encarnação, a 15 de janeiro de 1726, a abandonar a clausura e avançar de cruz alçada para o paço episcopal para serem recebidas pelo bispo, D. frei Manuel Coutinho (1673-1742), mas não o conseguindo (ARM, CMF, liv. 1436, fls. 62-65v.).

Em 1770, por exemplo, constou que o bacharel Manuel Caetano Tavares teria emitido opiniões pouco abonatórias sobre o prelado no convento da Encarnação. Tal levou a um pedido do prelado para uma devassa nesse convento, levada a efeito pelo juiz-de-fora do Funchal, António Filipe Bulhões da Cunha, em agosto, e a um cerco ao convento, efetuado pelos militares, às ordens do governador João António de Sá Pereira (1719-1804), de tal forma que dali “não saísse carta ou papel” (ARM, GC, liv. 526, fls. 149 e 156v.-157v.).

O convento das Mercês passava ligeiramente ao lado destas questões, essencialmente pelo maior rigor da sua clausura e, também, pela exiguidade de verbas de que usufruía. Embora também dependente diretamente do prelado, como a primeira regra de Santa Clara, das capuchinhas, também dependia do convento da Madre de Deus de Lisboa. Tinha confessor e capelão, tal como o convento da Encarnação, apresentado pelo ordinário, mas como era de rígida clausura, tinha aspetos totalmente diferentes dos atrás citados e recebeu por isso algumas mercês régias, que não foram dadas aos restantes. Já quase nos finais do século XVIII, e quando as instituições anteriores se tornavam menos rígidas, continuavam as freiras capuchinhas a lutar pelo seu completo isolamento, tendo sempre como principal preocupação o muro que cercava o convento, que voltou a ter obras no início de 1782 (ARM, GC, liv. 520, fl. 11).

A partir de 1764, com o gabinete pombalino, tinham sido francamente restringidas as entradas nos conventos (AHU, Madeira, docs. 624-627); e, com a progressiva centralização também do governo eclesiástico, o controlo sobre as rendas conventuais levou à sua quase completa asfixia, o que aconteceu igualmente às confrarias. Basta analisar o número de frades e freiras dos finais do século XVIII e inícios do XIX, em comparação com os séculos anteriores, para entender que havia todo um clima religioso, económico e social em total reformulação.

Em 1834, no âmbito da reforma geral eclesiástica empreendida pelo ministro e secretário de Estado Joaquim António de Aguiar (que ficou com o apelido de “mata-frades”), executada pela Comissão da Reforma Geral do Clero (1833-1837), pelo decreto de 30 de maio, foram extintos todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens religiosas, ficando as instituições femininas sujeitas aos respetivos bispos, até à morte da última freira, data do seu encerramento definitivo, o que só veio a acontecer muito perto dos finais do século.

Nos finais do século, no entanto, já havia sido autorizada a existência de congregações religiosas, pelo que o funcionamento de algumas destas instituições se prolongou intermitentemente; foi o caso do convento de Santa Clara do Funchal. Em 1896, parte das instalações foi entregue à congregação das Franciscanas Missionárias de Maria, que ali permaneceram até à implantação da República, e, depois de cedidas à câmara municipal do Funchal, voltaram as instalações a ser ocupadas pelas Irmãs Franciscanas, que ali estabeleceram um colégio e uma creche para crianças de famílias com poucos recursos, mas alargadas a outras.

Os bens dos conventos e demais casas religiosas foram incorporados nos próprios da Fazenda Nacional, mas a maioria das alfaias religiosas foi transferida para as igrejas mais próximas, o mesmo chegando a acontecer com altares completos, como é o caso do altar do Senhor do Milagre do convento de São Francisco do Funchal, transferido, a pedido do cabido, em março de 1835, para a sé do Funchal (ANTT, CSF, liv. 42). O mesmo aconteceu com os principais conjuntos retabulares, sucessivamente transferidos dos antigos conventos e similares para outras instituições, constituindo depois o primeiro núcleo dos principais museus nacionais e, na Madeira, do Museu de Arte Sacra do Funchal. A documentação dos conventos madeirenses veio a ser depositada na fazenda do Funchal, sendo alguns livros depositados em São Lourenço; os depositados na fazenda seguiram depois para os arquivos centrais de Lisboa, encontrando-se na Torre do Tombo e os de São Lourenço acabaram por ficar na Madeira, incorporando o núcleo do Governo Civil do Arquivo Regional da Madeira.

Alguns conjuntos conventuais, entretanto, possuindo instituidores e patronos, foram reivindicados pelos mesmos, conseguindo alguns desses proprietários recuperar a sua posse. Assim aconteceu com o convento da Piedade de Santa Cruz, que voltou, já arruinado, à posse do morgado das Cruzes, Nuno de Freitas Lomelino (1820-1880), que transferiu para a capela da sua residência o túmulo dos seus antepassados. Outros edifícios conseguiram sobreviver e, inclusivamente, quase dentro das suas funções iniciais, como foi o caso do convento de Santa Clara do Funchal e dos recolhimentos do Bom Jesus e do Carmo; outros receberam ocupações totalmente diferentes, como o chamado Mosteiro Novo, que foi posteriormente o Laboratório Regional de Análises.

O governo liberal não contou com a longevidade das freiras e, inclusivamente, a entrada mais ou menos clandestina de noviças, pelo que algumas destas instituições ainda se encontravam a funcionar aquando da proclamação da República; foi o caso do convento de Nossa Senhora das Mercês do Funchal. As freiras foram então obrigadas a sair e vieram a instalar-se numa residência do Lombo dos Aguiares, com algumas das suas imagens de devoção, lideradas pela madre Virgínia da Paixão, que ali viria a falecer, em odor de santidade, a 17 de janeiro de 1929. Nasceria assim o pequeno convento de Santo António do Lombo dos Aguiares, dentro da primeira regra de clausura de Santa Clara.

A 16 de abril de 1931, seis das irmãs que haviam acompanhado a madre Virgínia da Paixão optaram por se reunir numas casas anexas à pequena capela da Piedade, no sítio da Caldeira, em Câmara de Lobos, e a 1 de junho do mesmo ano se instituíam o convento de Nossa Senhora da Piedade. As casas em questão eram propriedade do padre António Henriques que, tendo falecido a 6 de janeiro de 1922, as legara à diocese, a qual, por sua vez e após obras de adaptação, as legou às seis religiosas vindas do Lombo dos Aguiares, comunidade que nos meados do século possuía já quinze membros. O convento foi canonicamente ereto em 1975, sendo a sua subsistência garantida por esmolas e pelo trabalho das freiras desenvolvem, nomeadamente o fabrico de hóstias e a realização de trabalhos manuais.

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Rui Carita

(atualizado a 26.08.2016)