crónica

História dos tempos por sua ordem”, a crónica tornou-se, com a explosão da imprensa periódica oitocentista, secção e género jornalístico-literário de caráter entre informativo e opinativo, até à extrema subjetividade de hoje. Enquanto historiografia e literatura, alternou (quando não se identificou) com designações como “anais”, “comentários”, “fastos”, “memórias”, “relações”, “epanáforas”, “anedotas”, “biografias”; nas crestomatias arcaicas, o vocábulo conhece várias grafias: “chronica”, “cronica”, “corónica”, “coroniqua”, “caronica”. Desta, provirá “caronista”: “cá o cronista há de ser muito certo em seu razoar”, reza a Crónica de D. João I (LOPES, II, 1949, 90). D. Francisco Manuel de Melo confessa-se, na Epanáfora Amorosa (1654), “medroso para Coronista” (CASTRO, 1975, 31). O Vocabulário Portuguez e Latino (1712) de Rafael Bluteau oferece “chrónica”, “chronico”, “chronista”, “chronologia” e manda ver “crónica”, etc. Admite já, portanto, a fórmula moderna, ainda hesitante no Diccionario da Lingua Portuguesa de Moraes (7.ª ed., 1877), que concede “chrónica”, naquele sentido e no de “secção das folhas periódicas destinada a notícias diversas do tempo presente”.

Temos recolhas quatrocentistas, ou, de autoria confirmada, as de Fernão Lopes, Gomes Eanes de Zurara, Fernão Lopes de Castanheda, Rui de Pina, Duarte Galvão, Fr. João Álvares, Garcia de Resende, João de Barros, Damião de Góis, António de Saldanha. A par da história pátria, transnacional e de monarcas ou nobres, deparamos com a “crónica da cidade ou crónica urbana” (AMADO, 2007, 25). Mas, se em Lopes temos “carrego de ordenar histórias”, após largo cuidado e diligências testemunhais, sem a preocupação de buscar “formosura e novidade de palavras” – di-lo no prólogo à crónica de D. João I (ibid.) –, são já diversas verdades e formosos entendimentos pátrios os que se nos deparam em crónicas novelescas, de um Clarimundo joanino à também quinhentista Crónica do Imperador Maximiliano, só editada em 1983. Significa que o género, de procurada metodologia historiográfica ou inçado de fantasia, pode ainda trazer-nos outras surpresas dessas eras pioneiras. Não escondendo ser “rrenenbrança” (lê-se em proémio dos Portugaliae Monumenta Historica, I, 22), isto é, lembrança, memória, logo, dentro do falível e do subjetivo, os textos coetâneos jogam-se na tensão entre o processo e método historiográficos, a situação de narrador com voz própria e os ares do tempo.

Desde meados do séc.XVIII, em artigos mau grado longos e doutrinários (O Anonymo, n.º 9, 1752, 65-72), percebe-se um à-vontade de causerie, solto, subjetivo e cum grano salis, que lançará as raízes de uma espécie cada vez mais viçosa. Deve notar-se, entretanto, que a história e destino pátrios ainda animam graves colunas d’O Chronista garrettiano, “semanário de política, literatura, ciências e artes” (1827); que em muitas folhas, caso do Diário de Notícias (1865) lisboeta e tantas havia sem a cabeça “chronica” , esta não passava do monótono informe de que “Suas Majestades e Altezas passam sem novidade em suas importantes saúdes”, seguindo-se o calendário litúrgico, nascimento e ocaso do sol, efemérides, despachos telegráficos e locais, etc. A Chronica funchalense, entre 22 de setembro de 1838 e 2 de março de 1839, dedica a mesma “chronica” à entrada e saída de vapores e informações práticas. Assim, a partir dos anos 1840, ela é modalidade folhetinesca, e aos rodapés se deve recorrer para a poética do género seja, o que se afirma do folhetim cabe à crónica e sua compreensão: fusão de útil e fútil, na imagem crescente de frivolidade e leveza associada ao colibri ou à borboleta, que sobre tudo esvoaçam. É uso olhar à definição de Eça de Queirós (Districto de Evora, 6 jan. 1867), um quarto de século mais tarde:

“A crónica é como que a conversa íntima, indolente, desleixada, do jornal com os que o leem: conta mil coisas, sem sistema, sem nexo; espalha-se livremente pela natureza, pela vida, pela literatura, pela cidade; fala das festas, dos bailes, dos teatros, das modas, dos enfeites, fala em tudo, baixinho, como se faz ao serão, ao braseiro, ou ainda de verão, no campo, quando o ar está triste. Ela sabe anedotas, segredos, histórias de amores, crimes terríveis; espreita porque não lhe fica mal espreitar. Olha para tudo, [… a crónica tem uma doidice jovial, tem um estouvamento delicioso: confunde tudo, tristezas e facécias, enterros e atores ambulantes, um poema moderno e o pé da imperatriz da China; ela conta tudo o que pode interessar pelo espírito, pela beleza, pela mocidade; ela não tem opiniões, não sabe do resto do jornal; [… não tem a voz grossa da política, nem a voz indolente do poeta, nem a voz doutoral do crítico; […”.

O que Eça diz devera aplicar-se ao folhetim; porque, no n.º 13, de 21 de fevereiro, entrevendo-se o que será propósito d’As Farpas, em maio de 1871, já olha a crónica diferentemente:

“[…] digamos uma suprema e inatacável verdade: a crónica é de combate; há muita gente que se persuade que estas futilidades que se chamam crónica, folhetim, noticiário, variedades, não têm importância num jornal político, não pesam na opinião, não atacam e não combatem. É um erro. Num jornal de oposição a coisa que mais incomoda o governo é a crónica: ela é que é temida, evitada e seduzida; nos países bárbaros e pouco conhecidos, onde o jornalismo é uma especulação, e como tal comprado e vendido, um governo que na sua política procede por corrupção, a primeira coisa que faz é comprar os vários cronistas, folhetinistas, noticiaristas, escritores de variedades, os amenos, como se diz. // E tem razão: a crónica é para o jornalismo o que a caricatura é para a pintura: fere, rindo; espedaça, dando cambalhotas; não respeita nada daquilo que mais se respeita; procede pelo escárnio e pelo ridículo; e o ridículo em política é de boa, é de excelente guerra”.

Assim viveu (e vive) entre estas duas atitudes, embora o tom do século se revisse, sobretudo, no Luís de Magalhães de Notas e Impressões (1890, 3), abrindo com imagem da crónica qual preciosa dos sécs. XVII e XVIII: “Ela tem a distinção, a allure graciosa, o capricho feminino, o espírito vivo, a erudição superficial e ligeira, a toilette provocadora e artística, bordada de imagens, guarnecida dos lavores rendilhados da palavra. Tem o malicioso sorriso mordente, […]. Tem os assuntos finamente banais, […]”. Já “rapariguita simpática, alta e boleada, branca, muito branca de olhos negros, […] olhos a um tempo meigos e travessos que ora heis de ver relampagueando ironias, ora derramando lágrimas”, é assim, “Meridional, com frouxos de riso e transes nos quais a paixão redundará em pranto, casta e voluptuosa”, que se apresenta a “Chronica” d’O Pandemonio. Hebdomadario Charadistico (Lisboa, 11 jan. 1885). Seria pouco, sem a síntese de Victor Silva Lopes (1981, 103): “A crónica é um pequeno texto narrativo que se ocupa de um episódio (às vezes, banal ou insólito) do quotidiano. O cronista prevalece [sobre] o comentário, numa linguagem expressiva, por vezes poética, mas simples e clara”.

Na variedade de assuntos, alguns tornam-se determinantes: 1. a primeira crónica, ou crónica-programa; 2. a metacrónica (que também se pode resolver na inaugural), quando a inspiração não chega, e se rebusca assunto, 2.1. o que pode redundar no anúncio tão comum da… falta de assunto, matéria-prima do dia, ou, 2.2., com algum esforço, mostrar-se-nos o artista no ato da invenção; 3. a crónica final, de despedida, cujo adeus nem sempre se cumpre. Os pontos 2.1. e 2.2. são os mais comuns. Um exemplo clássico n’A Revolução de Setembro, em que “folhetinista” subentende “cronista”: “O folhetinista português é talvez o primeiro escritor do século. Meio moralista e meio cortesão, só lhe é permitido ocupar-se dos assuntos que o público aceitou: não havendo assunto quase nunca, cumpre-lhe tratar semanalmente de coisa nenhuma.” (29 jun, 1865) Mas também na imprensa madeirense não falecem ecos: “O leitor tem já visto alguns folhetins, muitos talvez, em que o autor começa lamentando-se por não ter nada que dizer, e às vezes não diz muito mais do que isso até que acabe. Porém, se o leitor não esteve nunca em posição de soltar essas lamentações, mas só de ouvi-las ou de lê-las, mal compreenderá o que custa ter ao lado um tipógrafo intransigente, firme como um soldado russo, à espera do folhetim, e estar um homem de pena na mão, com o papel limpo diante de si, a olhar para o tipógrafo e para o papel, num dia de uma sublime estupidez. // Não há meio senão de descrever o tipógrafo, ou falar do papel” (Diário de Notícias, Funchal, 4 out. 1879). No mesmo diário, o título-tópico “A Semana”, de enigmático Rui, dá o tom e modo de ser de uma região ou psicógrafa um país:

“Resume-se nesta palavra: Nada. // Nem um escandalozinho sequer. // Estes calores afugentam tudo, até os escândalos. Toda a gente boceja, toda a gente se abana, toda a gente fica mole. // Reina, por essas ruas, uma pasmaceira entorpecedora, por esses ares, uma fulguração imobilizadora e quente. // Capacetes brancos surgem, a cada esquina, como bandeiras de paz e de preguiça e, efetivamente, há uma paz excessivamente maçadora em tudo e em todos, menos entre a poderosa e miúda nação das moscas. A natureza previdente criou a mosca no verão, para não ficar a humanidade, durante o tempo de calor, no estado dos habitantes do palácio da história para meninos – a dormir. // Se não fossem as moscas, com os seus zumbidos insuportáveis e com os seus ainda mais insuportáveis e atrevidos passeios pela cara do rei da criação, estaria sua majestade, a esta hora, estendido na cama, dormindo e suando. // A mosca é a salvação da humanidade. // Podem capacitar-se disto, que o mais que lhes poderá acontecer é acharem que não é verdade. // Contudo, não suponham que esta minha asserção é imposta como um dogma. Não, senhores. Tenho razões para afirmar que a mosca é a salvação da humanidade e razões reais. // Não sei se estão lembrados daquela história ou lenda que nos ensina a grande verdade de que todo e qualquer bicho, inclusive o micróbio, é de utilidade para o homem. // Se não se recordam, vou contá-la, declarando, desde já, que não me responsabilizo pelo sono proveniente da leitura dela”.

Resguardado na autoironia, calham outros processos: derivas, interpelação ao leitor, comentários de circunstância, um aparte localista (“hão de ter-se admirado de eu dizer que esta semana era um bagaço de cana-de-açúcar, uma coisa sem sumo, quando as novenas do Monte têm posto em agitação os moradores dos rés do chão da Rua das Queimadas e os das restantes ruas do Funchal”), conclui o afinal loquaz cronista:

“Agora, se têm muito gosto em ver isso escrito, tenham a bondade de pegar na pena e de preencher este espaço, que me tem custado o suor do rosto, para não o deixar em branco. // E podem ficar certos que hei de ler com muita atenção as suas descrições. // E… boa noite” (ibid., 5 mai. 1885).

Para responder a 2.2.,“Veremos o que sai”:

“Meus queridos leitores. Vou tratar de qualquer coisa. Mas de que há de ser? Não sei de que vou tratar. // Torno a perguntar: de que assunto me ocuparei? Com isto vou ganhando tempo. Eu deveria ter pensado antes. // Isto é grave, gravíssimo. // Ah, já sei. Vou falar do tempo. Mas não. Talvez seja melhor do espaço. // Também não. O melhor é ocupar-me da questão das subsistências, da carestia dos víveres, ou, se não, dos melhoramentos materiais… enfim, com franqueza, eu não sei de que me hei de ocupar” (ibid., 17 abr. 1880).

A falta de coesão temática não é forçosa, embora o género celebre a indeterminação, o que explica alguns protocolos: pôr-se nas mãos do leitor, cuja empatia e, simulada ou não, reação se espera ou circunscreve; recorrer ao trivial, falar do bom e mau tempo, a modos de uma familiaridade expedita. Mas o desenvolvimento reflexivo ou de comentário também pesa, e daí o aviso contra a ameaça da introdução de impostos n’A Voz do Povo (1867-1868). Se um bom governo não se faz sem impostos, urge, primeiro, que o povo tenha meios “com que trabalhar” (ibid., 28 mar. 1867), o que bem perceberam os emigrantes. Em verso corredio, que o mesmo Eça e outros experimentavam na redação da crónica, deparam-se-nos, a par de insondável autoria anónima, momentos de soltura e criatividade que os recomendam à grande antologia da sátira portuguesa.

A imprensa oitocentista madeirense sofre, todavia, de um problema generalizado à província, no continente: “picar” (como se diz na gíria) peças das folhas de Lisboa e Porto. O Beija-flor (Funchal, 7 abr. e 29 set. 1842) extrai artigos da que é seu modelo, a Revista Universal Lisbonense. A Ordem (Funchal, 5 jan. 1852 e 11 ago. 1860) é dos títulos que mais reproduzem a imprensa continental, pelo que encontrar pepitas de assunto local é difícil, por vezes. Mais flagrante, O Clamor Público (Funchal, 22 mai. 1854 e 9 dez. 1857) socorre-se, ora do Braz Tizana portuense, ora de um excerto (12 mai. 1856) de “A Literatura e a Sociedade em Portugal”, por António Pedro Lopes de Mendonça, longa série em curso nA Revolução de Setembro desde 10 de junho de 1855. No intervalo, A Discussão (Funchal, 8 fev. 1855 e 28 ago. 1856), resultante de cisão n’O Clamor Público, extrai da mesma fonte outro Lopes de Mendonça, “Da Origem, e Estabelecimento da Inquisição em Portugal – tentativa histórica por Alexandre Herculano – 1.º e 2.º volume” (17 jan. 1856), e, mais interessante, metafolhetiniza sobre a típica “chronica de NADA” (28 fev. 1856). NA Justiça (Funchal, 27 mar. 1858 e 14 set. 1859), releve-se “O Brasil e os seus Poetas”, folhetim de F. Gomes de Amorim. A Reforma: Folha Política e Literária (Funchal, 14 out. 1858 e 5 jan. 1860) comporta útil “Revista do Funchal” e, para lá de muito Camilo Castelo Branco, teoriza sobre a revista enquanto género (21 out. 1858). A Revista Semanal: Propaganda e Vulgarização de Conhecimentos Úteis (Funchal, 2 jun. 1861 e 10 jul. 1862) vale pelo redator João de Nóbrega Soares e suas pequenas ficções com laivos cronísticos; em 1861, este edita Viagem ao Rabaçal (reed. 1998), sendo de 1867 Contos e Viagens. O Recreio: Periódico Litterário: Publicação Quinzenal dos Alumnos do Lyceu do Funchal (1 mai. 1863) reporta estudos sobre as artes no séc. XVI, com remake n’O Crepúsculo: Periódico Litetrário Quinzenal (Funchal, 15 fev. e 31 jul. 1865), igualmente animado por Luciano Cordeiro, que recuperava algum Camilo édito. Nesse espírito académico surge A Aurora Literária / Publicação quinzenal dos alunos do liceu do Funchal. / Revista literária, instrutiva e recreativa (1 fev. 1868), um dos vários títulos em falta na BNP, e, mais tarde, O Académico: Órgão da Associação Académica Funchalense (1884). Convirá, entretanto, rastrear algumas prosas nos seguintes: A Fusão: Jornal Político, Litterário e Commercial (Funchal, 25 jan e 6 mar. 1868; substitui O Correio do Funchal); A Madeira Liberal (Funchal, 24 jul. e 23 nov. 1872); A Lâmpada (Funchal, 21 nov. 1872 e 18 dez. 1873); A Vergasta (“Este jornal, por enquanto, não tem dia certo de publicação; aparecerá quando menos o esperarem”; Funchal, 15 out. 1873 e 1876), com muito folhetim-crónica não assinado; Eco de Santa Cruz (Santa Cruz, 24 set. 1877 e 30 mar. 1878); Diário do Funchal (5 nov. 1877; após 200 números, é Jornal do Comércio do Funchal a partir de 15 jun., até 18 nov. 1878); A Primavera: Jornal das Damas (Funchal, 1 out. e 2 nov. 1882). Para um quadro finissecular, ver, online, “O folhetim na Imprensa Madeirense entre 1880 e 1890”, historiando outros títulos de que destacaríamos O Direito, Diário Popular, [O] Diário do Comércio, A Madeira , com sugestões de recolha e o importante nome de Luiz d’Ornelas Pinto Coelho. O Diário de Notícias (Funchal, 12 out. 1876) é o órgão mais completo, e há muito o radiografámos até 1901: no seu desejo de ser um jornal nacional, transcreveu das folhas de Lisboa o que havia de mais interessante. No seu caráter seletivo, permite entender a ideia de cânone literário no último quartel de Oitocentos.

Antologia abrangente que já entra por este século, Crónica Madeirense (1900-2006) reúne 69 nomes sob a égide de um ausente suficientemente citado para ser septuagésimo, Herberto Helder. Alicerça-se em colunas d’O Athenista, Comércio do Funchal, Das Artes e da História da Madeira, Diário da Madeira, Diário de Notícias, Garajau, Heraldo da Madeira, Jornal da Madeira, Margem 2, Notícias da Madeira, Saber, Tribuna da Madeira, isto só para referir publicações ilhoas. José António Gonçalves, que se estreara em volume com o seu único livro de crónicas (Réstea de Qualquer Coisa, 1973, fruto da profissionalização no Jornal da Madeira) e José Viale Moutinho (citem-se A Sala dos Espelhos, 1993, e Os Sapatos do Defunto: Crónicas & Afins, 2000) haviam comparecido em Fernando Venâncio, Crónica Jornalística. Século XX (2004). Se este se não ativesse aos cem nomes, talvez acrescentasse Albino de Menezes, Helena Marques, Maria Aurora Carvalho Homem, Vicente Jorge Silva, pela projeção nacional que outros, entretanto Luzia, Isaura Jardim, o visconde do Porto da Cruz vieram perdendo. Se olharmos, contudo, à produção cronística em trânsito para livro (sonho da mais singela prosa, mas critério duvidoso, numa alegada vitória sobre o efémero), poucos seriam dignos de citação, esquecidos na imprensa. Convém, ainda assim, inscrever Francisco de Freitas Branco, Francisco Fernandes, Carlos Nogueira Fino, João França (Mar e Céu por Companheiros: Crónicas Madeirenses, 1979; O Prisioneiro do Ilhéu e outras Crónicas, póstumo, 1994), Alfredo Vieira de Freitas, João dos Reis Gomes, Ricardo França Jardim, Ricardo Nascimento Jardim, Carlos Lélis, Ana Teresa Pereira, Alberto da Veiga Pestana, José Luís Rodrigues, Artur Sarmento. Irene Lucília Andrade torna-se marcante na variedade de Crónica Breve da Cidade Anónima. À Hora do Tordo (2008); e, na sua peugada, outras vozes femininas tomam a dianteira, Luísa Paolinelli ou Diana Pimentel. Salientaríamos, entretanto, dois casos.

De Nelson Veríssimo, Passos na Calçada, com novo fôlego online, já em 1998 convocava um passado a harmonizar com presente ainda desleixado, quando não em falsete. Esse dizer solto, à atenção dos poderes públicos, não surpreendia menos do que faúlhas à flor da memória. Mercearias dos anos 60, confeitarias, montras, revoltas populares, uma tão epistolar senhora Maria (verdadeira secretária de amantes), o fotógrafo do jardim eis argumentos de dias, situações quase fictas e figuras que em nós ancoram, como se pede ao verdadeiro cronista. Mas salientemos, enquanto modelo desta espécie, nome maior também na ficção.

Horácio Bento de Gouveia é um repórter da cor à maneira do Raul Brandão de Os Pescadores e Ilhas Desconhecidas. Pelo exercício impressionista de nítida influência queirosiana, reúne, em Crónicas do Norte (póstumo organizado por José António Gonçalves, 1994), que sucede às Páginas de Jornalismo (1933) prefaciadas por Hernâni Cidade, o que a crónica tem de história desde Plínio e Plutarco , de literatura e de jornalismo. Não imune aos acidentes de que nasce a metacrónica – veja-se “Como nasceu uma crónica” (GOUVEIA, 1994, 69) –, é moderno quando intercala diálogos de terceiros, numa contaminação ficcional agora tão costumada na cronística de António Lobo Antunes. A evocação, sob forma de diálogo, é um olhar de fora, que, a pouco e pouco, regressa à impositiva primeira pessoa. Reunião de 57 textos, maioritariamente no Diário de Notícias, entre 1935 e 1981, dividem-se em sete capítulos: “Vida e natureza”; “Ponta Delgada e a paisagem”; “Respigos de fonética”; “Do passado e do presente”; “Das festas e dos santos populares”; “Memórias da ilha”; “Roteiro sentimental”. Dá-se-nos um narrador desdobrado, aqui, em foneticista, acolá, em historiador local, rememorador, e, sempre, voz muito particular, que ora etnografa uma quadra festiva, reflete sobre um provérbio, opera analogias espácio-temporais. Sobressai a viva correnteza imagética do descritivista, em quem se admira o gesto de vocabulizar o fugidio, arriscar o instante que nos calha, no propósito de veicular uma “impressão”: “Vai-se alçando o nevoeiro pelo dia já crescido” (ibid., 11), “Grela a manhã. São cinco horas. O sol começa a escalar o céu” (ibid., 33). Assim visuais, sincopados, em sintaxe escorreita, borbulham inesperados sentidos. O artista insulado mostra endividar-se aos pequenos azulejos de alma, que pinta incessantemente, e mais se o espetáculo de fora é tão variado, e mutável, como no arquipélago. Nesta perspetiva, rompe, mesmo, um inesperado poeta, que o cronista tantas vezes é. Para leitor alheio a pormenores de vidas, lugares, nomes, fica também à vista a criação lexical de proveniência vária (vocabulário local, padronizado, fernão lopesino, etc.), instalando-se inventiva individual que contorna as facilidades de prosa de jornal.

Bibliog.: AMADO, Teresa, O Passado e o Presente. Ler Fernão Lopes, Lisboa, Editorial Presença, 2007; O Anonymo Repartido pelas Semanas para Divertimento e Utilidade do Publico, n.º 9, Lisboa, Na Officina de Pedro Ferreira, 1752; O Beija-flor, Funchal, Na Typ. do Defensor, 1842; CASTRO, José Manuel de (ed.), Descobrimento da Ilha da Madeira. Ano 1420. Epanáfora Amorosa, s.l., 1975; A Chronica, Funchal, Na Typographia Nacional, 1838-1840; Diário de Notícias da Madeira, Funchal, 1879-1885; Diário de Notícias: Noticiario Universal, Lisboa, Typographia Universal, 1865; Districto de Evora, Evora, Imprensa do Districto d’Evora, 1867; FIGUEIREDO, Fernando et al. (orgs.), Crónica Madeirense (1900-2006), Porto, Campo das Letras, 2007; GARRETT, Almeida, O Chronista: Semanario de Politica, Litteratura, Sciencias e Artes, Lisboa, Impr. do Portuguez, 1827; GOUVEIA, Horácio Bento de, Crónicas do Norte, São Vicente, Câmara Municipal, 1994; HERCULANO, Alexandre (org.), Portugaliae Monumenta Historica, vol. 1, Olisipone, Typis Academicis, 1756; LOPES, Victor Silva, Iniciação ao Jornalismo, 2.ª ed., Lisboa, Centro do Livro Brasileiro, 1981; MACEDO, Jorge Borges de, Cronicões, Crónicas e Cronistas na Torre do Tombo, Lisboa, ANTT, 1993; MACHADO, Bernardo Francisco Lorato, O Clamor Público, Funchal, Tipographia de B.F.L. Machado, 1854; MAGALHÃES, Luís de, Notas e Impressões. Artes e Letras-Politicas e Costumes, Porto, Livr. Portuense, 1890; MELO, José Marques, “A Crónica”, in AA. VV., Jornalismo e Literatura, Lisboa, Vega, 1988, pp. 41-53; A Ordem, Funchal, Typ. da Ordem, 1852-1860; O Pandemonio. Hebdomadario Charadistico, Lisboa, Typographia da Viuva Sousa Neves, 1885; RODRIGUES, Ernesto, Mágico Folhetim. Literatura e Jornalismo em Portugal, Lisboa, Editorial Notícias, 1998; SÁ, Sebastião Ribeiro de, Revista Universal Lisbonense, Lisboa, Imprensa Nacional, 1841-1859; A Voz do Povo, Funchal, Typ. de Voz do Povo, 1860-1881; VENÂNCIO, Fernando, Crónica Jornalística. Século xx, Lisboa, Círculo de Leitores, 2004.

Ernesto Rodrigues

(atualizado a 29.01.2017)