cruz, visconde do porto da

Alfredo António de Castro Teles de Meneses de Vasconcelos de Bettencourt de Freitas Branco nasceu a 1 de janeiro de 1890, no Funchal, onde veio a falecer a 28 de fevereiro de 1962. Era filho de Luís Vicente de Freitas Branco e de Ana Augusta de Castro Leal Freitas Branco. Foi 1.º visconde do Porto da Cruz, título legalmente autorizado por D. Manuel II, no exílio, em abril de 1921, e reconhecido pelo Conselho da Nobreza em 1949. Casou-se com Beatriz Manuela Tavares de Almeida Carvalho, de quem teve cinco filhos; Silvano José de Freitas Branco (1925-2013), seu descendente, viria a ser o 2.º visconde do Porto da Cruz.

Foi jornalista, publicista, escritor, membro de várias associações culturais e um profícuo promotor da cultura madeirense. Fundou, dirigiu e colaborou em diversos periódicos de cariz político, literário e cultural. Ao longo da sua vida abraçou vários projetos, credos e ideologias: foi monárquico, integralista, regionalista, nacionalista, nacional-sindicalista, fascista, revelando ainda uma faceta germanófila e antissemita.

Passou a infância no Funchal, onde frequentou a escola do hospício. Em 1901, seguiu para Lisboa, como aluno interno no colégio de Campolide, vindo a terminar na Madeira o curso do liceu. Fez o antigo Curso das Alfândegas, posteriormente designado Curso de Ciências Económicas e Financeiras. Frequentou a Faculdade de Direito de Lisboa, sem concluir o curso, e concorreu à escola de guerra, da qual viria a ser demitido em 1919.

Após a implantação da República, face ao clima de insegurança e às perseguições dos republicanos, que levaram muitos monárquicos a sair de Portugal, Freitas Branco partiu para Espanha, onde se encontravam exilados outros camaradas. A partir da Galiza, participou nas incursões de 1911-1912, comandadas por Henrique de Paiva Couceiro, e depois do insucesso do Combate de Chaves, a 8 de julho de 1912, acabou por se fixar em Paris, onde viveu exilado até 1914.

De regresso a Portugal, aderiu ao integralismo lusitano, movimento doutrinário (e político) introduzido, no início de 1914, por um grupo de monárquicos inspirados no movimento da Action Française de Charles Maurras. Iniciou, assim, um período de intensa atividade em defesa dos princípios integralistas, proferindo conferências e publicando na imprensa.

Em maio de 1915, no Funchal, fundou com Ramon Rodrigues O Realista, um semanário monárquico, que foi suspenso no mesmo mês, devido ao golpe das espadas de Pimenta de Castro. Nesta fase, publicou as suas primeiras obras, O Destino: Romance Histórico (1915); Anna Clara (1916); No Exílio: Scenas da Vida dos Conspiradores Monarchicos (1917) e Charcos (1917), que refletem o seu pensamento e as suas vivências durante o período agitado que o país viveu no primeiro quartel do séc. XX.

Em 1917, fez parte da comissão instaladora do núcleo integralista madeirense, e dirigiu O Realista, que reapareceu naquele ano como órgão da junta regional do integralismo da Madeira. Mais tarde, foi nomeado presidente da secção escolar de Lisboa do integralismo lusitano e colaborou no quotidiano A Monarquia, o órgão do grupo integralista. Defendeu ainda os princípios integralistas, entre 1917 e 1930, em conferências realizadas no Círculo Católico de Lisboa (“A acção do Estado nas suas relações com a Igreja Católica”); no núcleo regional de Lisboa das Juventudes Monárquicas Conservadoras (“A questão social – Sindicalismo-Morte, Sindicalismo-Vida”, apresentado em quatro conferências); no centro Sidónio Pais (uma palestra com o mesmo título da anterior) e no centro monárquico da Madeira (“Questão Social”).

Com a subida de Sidónio Pais ao poder, a atuação política organizada do integralismo lusitano ganhou maior relevância. Alfredo de Freitas Branco, que era na época cadete da escola de Guerra, ficou fascinado pela figura do presidente e passou a ser um dos seus mais fervorosos apoiantes. Após a morte deste, e uma vez que era um dos responsáveis pela formação das juntas militares, que visavam a defesa do regime sidonista, acabou por ser demitido do exército (a 29 de maio de 1919). Anos mais tarde, dedicaria a Sidónio Pais a obra Paixão e Morte de Sidónio (1928).

Cooperou ainda em várias conspirações monárquicas para derrubar o Partido Democrático, mas acabou por se refugiar na Madeira devido ao fracasso de uma revolução. De regresso a Lisboa, aderiu à ação tradicionalista portuguesa, movimento surgido na sequência de divergências no seio dos monárquicos. Depois do Pacto de Paris (assinado a 17 de abril de 1922 pelos representantes de D. Manuel II e da infanta D. Aldegundes de Bragança, tutora de D. Duarte Nuno), a organização da ação tradicionalista passou a ser conhecida por ação realista portuguesa, tendo como órgão a revista mensal Acção Realista, então dirigida pelo madeirense Ernesto Gonçalves. Naquela revista, Freitas Branco, já visconde, publicou dois textos nos quais revelou um caráter antissemita, insurgindo-se contra os judeus e confessando a sua aversão ao povo judaico.

O visconde participou ativamente no movimento militar de 28 de maio de 1926, que pôs fim aos 16 anos da Primeira República portuguesa, vindo a ser reconhecido por Luís Acciaiuoli pelos bons serviços prestados à organização. Em 1931, durante a Revolta da Madeira, apoiou as forças salazaristas, sendo mais tarde louvado por Fernando Augusto Borges, comandante das forças expedicionárias à Madeira, pela cooperação com a ditadura no restabelecimento da ordem no Funchal. Todavia, acabou por se afastar da política devido ao seu desencanto pelo rumo seguido pelo Estado Novo, embora a sua desilusão nada tivesse a ver com a figura de Salazar, que admirava e a quem dedicou a obra Olhando o Passado… Considerando o Futuro (1949).

Porto da Cruz revelou uma faceta regionalista que o levou a fundar, em 1928, no Funchal, o semanário Independência, para defender os interesses da sua terra. Acabou, no entanto, por atrair sobre si algumas hostilidades por se envolver em combates públicos, quer criticando, quer denunciando dificuldades, ou ainda reclamando autonomia para o arquipélago. Em 1930, continuou a defender o regionalismo no quotidiano O Jornal, visto o Independência ter interrompido a sua publicação. Naquele periódico publicou, também, textos sobre o fascismo, ideologia que entretanto o seduziu e que o fez aderir, em 1933, ao movimento do nacional-sindicalismo, dirigido por Francisco Rolão Preto. Três anos depois, comemorou a vitória do fascismo italiano sobre a Abissínia na noite de 11 de maio, na festa dos estudantes nacionalistas da Universidade de Lisboa, pronunciando um discurso sob o título de “A Vitória Latina”, que publicou em folheto.

O visconde do Porto da Cruz era germanófilo, simpatia, aliás, assumida publicamente nos seus textos biográficos e obras de memórias políticas. Durante a Segunda Guerra Mundial esteve ao serviço da Alemanha, proferindo na Emissora de Berlim um conjunto de palestras radiofónicas sob o título “Pontos nos ii”, através das quais procurou transmitir aos falantes de língua portuguesa uma propaganda favorável do governo alemão. Anos mais tarde, publicou três livros em que descrevia o seu contacto com os acontecimentos do conflito mundial durante o período em que esteve na Alemanha: Como Vi o Fim da Guerra na Alemanha (1946); Memórias da Guerra na Alemanha (1954) e Contos Vividos na Guerra (1954).

Na déc. de 1950, teve outra experiência como locutor radiofónico, num programa semanal da Rádio Madeira, “Comentários ao Acaso”, em que apresentava o seu ponto de vista sobre diversos assuntos de interesse público, da sociedade do seu tempo.

Ao longo dos anos, Porto da Cruz abraçou sucessivos credos políticos e ideologias, mas também demonstrou carinho pela Madeira e interesse em tudo o que representava o progresso do arquipélago, estando inclusivamente entre os promotores de iniciativas como a Exposição Agrícola, Pecuária e Industrial do Funchal (inaugurada em 1927), com o objetivo de impulsionar a economia, a indústria e o turismo madeirenses. Aliás, em abril de 1930, expôs a sua visão sobre a realidade agrícola e industrial madeirense numa conferência proferida na Associação Central da Agricultura Portuguesa. Como considerava, igualmente, o turismo um setor importante para a prosperidade da Madeira, chegou a publicar, em 1929, a revista Ilustração Madeirense, com o intuito de promover a Madeira no estrangeiro; e em 1936, no I Congresso Nacional de Turismo, realizado na Sociedade de Geografia de Lisboa, apresentou algumas propostas para o desenvolvimento do turismo da Ilha.

Para além destas áreas, o visconde do Porto da Cruz estudou e promoveu a cultura madeirense no seu património material e imaterial, recolhendo elementos etnográficos e registando diversas manifestações culturais do povo, nos seus usos e costumes, nas lendas, nas crenças e superstições, nas danças, nas músicas, no traje, na medicina popular e na culinária. Os seus estudos foram apresentados em conferências realizadas no país e publicados em periódicos, depois reunidos e editados em opúsculos e em volumes, na sua maioria entre 1954 e 1955; deles se destaca Folclore Madeirense (1955).

Na verdade, a cultura popular despertou fortemente o interesse de Porto da Cruz, que começou a investigar o folclore do arquipélago da Madeira nas primeiras décadas do séc. XX, numa época em que o ambiente em Portugal era de exaltação nacional, de valorização das tradições, de interesse pelo passado do povo português e de defesa do seu património pelos vários movimentos nacionalistas, nos quais se incluem os integralistas. Imbuído do espírito do seu tempo, entre 1924 e 1930 o visconde apresentou o folclore da Madeira em conferências realizadas em Lisboa, na Associação dos Arqueólogos Portugueses, com os temas: “Algumas Lendas e Alguns Monumentos do Arquipélago da Madeira”; “Trovas e Cantigas Madeirenses” e “Crendices e Superstições e Costumes do Arquipélago da Madeira”. Publicou também uma série de textos de teor etnográfico na imprensa, nomeadamente, no Diário de Notícias, no Independência, n’ O Jornal e nas revistas Arqueologia e História e Ilustração Madeirense.

A partir de 1933, a curiosidade de Porto da Cruz pelos assuntos de âmbito folclórico e etnográfico ganhou maior relevância, com o surgimento, já na vigência do Estado Novo, do Secretariado de Propaganda Nacional, cujo foco era procurar uma identidade nacional e despertar no espírito dos portugueses o interesse para os assuntos relacionados com a cultura popular. Neste sentido, entre 1936 e 1944, apresentou alguns aspetos da cultura popular madeirense em conferências proferidas em Lisboa, no Liceu Pedro Nunes (“Danças e Músicas”) e na Casa da Madeira (“Trovas e Músicas” e “Danças Madeirenses”). Deu ainda a conhecer, no I Congresso de Ciências Agronómicas, realizado entre 24 e 31 de outubro de 1943, um estudo que fez sobre “A Flora Madeirense na Medicina Popular”, que voltou a expor na década seguinte, na I Conferência da Liga para a Proteção da Natureza, organizada no Funchal entre 10 e 18 de abril de 1950. Durante estes anos, foi publicando vários textos sobre a cultura popular madeirense na Brotéria, na Revista de Arqueologia, na Revista Portuguesa, no Arquivo Histórico da Madeira e em Das Artes e da História da Madeira (primeiro como suplemento de O Jornal e depois como revista independente).

O património cultural material da Madeira, nos seus monumentos e estatuária, também foi alvo do seu interesse. Procurou identificar bens materiais, que considerava serem os principais monumentos do arquipélago, entre os quais se contam castelos, palácios, fortalezas, conventos, igrejas, capelas, cruzeiros, chafarizes e estatuária diversa. Publicou estes trabalhos na imprensa, nomeadamente no Independência e nas revistas Ilustração Madeirense e Das Artes e da História da Madeira. Nestes textos, além de fazer fortes críticas ao desleixo da preservação do património material, e de referir a história dos monumentos, procurou promover os artistas e as artes visuais madeirenses, em particular a pintura, a escultura e o artesanato.

Freitas Branco teve uma intensa atividade como colaborador, diretor e fundador de revistas e jornais de cariz literário, cultural e político; assinava os seus textos alternadamente como Alfredo de Freitas-Branco; Visconde do Porto da Cruz; Visconde de Porto da Cruz; V.P.C.; V. do Porto da Cruz e V. do P.C.. Em Lisboa, publicou o seu primeiro texto literário no jornal A Nação e colaborou, como se referiu, em várias publicações. Fundou e dirigiu A Tradição, uma revista literária e política; fundou o semanário O Combate (com Ascânio Pessoa e Aragão Paiva); o semanário Visor, com o objetivo de defender os artistas portugueses e divulgar os espetáculos realizados no país; e a Revista Portuguesa, de propaganda e turismo, que dirigiu até 1961. Na Madeira, teve os abundantes contributos para o fomento do jornalismo atrás mencionados, abordando diversos temas de cariz político, económico, social e cultural.

Foi membro de várias associações, como a Associação dos Arqueólogos Portugueses; a Sociedade de História, Arqueologia e Etnografia; a Sociedade de Intelectualismo Espanhol; a Associação dos Escritores e Homens de Letras do Porto; a Academia Brasileira de Ciências Sociais e Políticas; a Academia Francesa de l’Ordre de Bevain; a Sociedade Humanística de Paris; a Sociedade Portuguesa de Escritores; a Liga para a Proteção da Natureza; e a Sociedade Columbófila da Madeira. Em 1920, recebeu a distinção de cavaleiro da Unión Caballeresca e em 1952 recebeu o grade de commandeur dans l’Ordre du Devoir pelo Institut Humaniste de Paris, pelos seus serviços culturais.

Deixou uma vasta obra, da qual fazem parte textos de diferentes géneros literários, que abordam variadas temáticas, entre as quais se destacam os romances, as novelas, os contos, o teatro, as biografias, as memórias, a política, a etnografia e ainda vários estudos ou textos sobre a natureza, a economia e o turismo madeirenses.

Obras do visconde do Porto da Cruz: O Destino: Romance Histórico (1915); Ana Clara (1916); Charcos (1917); No Exílio – Scenas da Vida dos Conspiradores Monarchicos (1917); Auto da Primavera (1919); Madrinha de Guerra: Comédia em um Acto (1919); A Canção de Solveig: Peça em 3 Actos (1922); Esboços (1926); Paixão e Morte de Sidónio (1928); Um Escândalo “Elegante”: Novela Satírica (1928); A Viagem Aventurosa de Suvenine Boliface a Zelztrufs (1934); Fauna Marítima do Arquipélago da Madeira (1934); Trovas e Cantigas Madeirenses (1934); Os Primos Teixeiras: Fantasia Humorística (1935); A Estada de Cristovam Colombo na Madeira (1936); A Revolução Literária de Ibsen (1937); A Fauna Marítima da Madeira (1940); O Romance de Ana Clara (1943); Como vi o Fim da Guerra na Alemanha (1946); Danças Madeirenses (1946); Notas e Comentários para a História Literária da Madeira, I Volume 1º. Período, 1420-1820 (1949); Olhando o Passado… Considerando o Futuro (1949); Auto da Primavera (2.ª ed., 1950); Notas e Comentários para a História Literária da Madeira. II Volume 2º. Período: 1820-1910 (1950); O Mistério de João Cristóvão (1950); Fantoches (1951); No Mundo dos Bichos (1951); A Política Social na Lição de História (1953); Notas e Comentários para a História Literária da Madeira. III Volume 3.º Período: 1910-1952 (1953); A Revolta: Romance (1954); Contos Vividos na Guerra (1954); Crendices e Superstições do Arquipélago da Madeira (1954); Danças e Músicas do Arquipélago da Madeira (1954); Lendas do Arquipélago da Madeira (1954); Memórias da Guerra na Alemanha (1954); Trovas e Cantigas do Arquipélago da Madeira (1954); Folclore Madeirense (1955); O Trajo do Arquipélago da Madeira (1955).

Bibliog. manuscrita: ARM, Fundo Visconde do Porto da Cruz, caixas n.os 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12 e 13; impressa: CLODE, Luís Peter, Registo Bio-bibliográfico de Madeirenses: Séculos XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; CRUZ, Manuel Braga da, “O Integralismo Lusitano nas Origens do Salazarismo”, Análise Social, vol. XVIII, n.º 70-1.º, 1982, pp. 137-182; GOMES, Sílvia Gilberta, Memória e Promoção Cultural Madeirense na Obra do Visconde do Porto da Cruz, Dissertação de Mestrado em Gestão Cultural apresentada à Universidade da Madeira, Funchal, texto policopiado, 2013; JANES, Emanuel, Nacionalismo e Nacionalistas na Madeira nos Anos Trinta (1928-1936), Funchal, Secretaria Regional do Turismo e Cultura, Centro de Estudos de História do Atlântico, 1997; MARINO, Luís, Musa Insular (Poetas da Madeira), Funchal, Editorial Eco do Funchal, 1959; MATTOSO, José (dir.), História de Portugal, 8 vols., Lisboa, Círculo de Leitores, 1993.

 Sílvia Gomes

(atualizado a 17.02.2016)