culto dos santos

Ao longo de quase seis séculos de história, os madeirenses constroem cerca de 140 templos dedicados aproximadamente a meia centena de santos. Alguns são transformados em igrejas paroquiais e os respetivos titulares são declarados padroeiros das comunidades. Outros permanecem ainda erguidos, celebrando-se aí anualmente a festa do santo titular, enquanto outros entram em ruínas ou são destruídos para servirem de fundações a novas igrejas.

Objeto da devoção popular através dos séculos, encontramos na Madeira o seguinte registo santoral: S.ta Ana e S. Joaquim, S.ta Beatriz, S.ta Cecília, S.ta Clara, S. Cosme e S. Damião, S.ta Isabel de Portugal, S.ta Luzia, S.ta Maria Madalena, S.ta Quitéria, S.ta Rita de Cássia, S.to Amaro, S.to Ambrósio, S.to André Avelino, S.to Antão, S.to António, S. Bento, S. Bartolomeu, S. Brás, S. Caetano, S. Cândido, S. Cristóvão, S. Fernando, S. Filipe, S. Francisco de Assis, S. Francisco de Borja, S. Francisco Xavier, S. Gil, S. Gonçalo, S. João Batista, S. João de Deus, S. João de Latrão, S. João Evangelista, S. João Nepomuceno, S. Jorge, S. Lázaro, S. Luís, S. Lourenço, S. Martinho, S. Pedro e S. Paulo, S. Pedro Gonçalves Telmo, S. Roque, S. Sebastião, S. Tiago Menor, S. Vicente, S. Vicente de Paulo, Santos Reis, beato Carlos da Áustria.

O santo mais popularizado na Madeira é o português S.to António de Lisboa. É titular de 21 capelas e padroeiro de três paróquias: Santo António, no Funchal, Santo da Serra e Raposeira, na Fajã da Ovelha. Embora cada comunidade paroquial celebre a sua festa anual, com solenidade e romaria, cabe salientar a Festa de S.to António no dia 13 de junho, no Funchal, com a preparação próxima das tradicionais trezenas.

Segue-se-lhe S. João Batista, titular de 12 ermidas, sendo orago de quatro paróquias: São João, na Ribeira Brava, Álamos, no Funchal, e Fajã da Ovelha e Atouguia, na Calheta. Contudo, a primeira ermida erguida em sua honra é a Capela ainda hoje popularmente conhecida como a de S. João da Ribeira, na paróquia de São Pedro, onde por certo, fixam residência os primeiros frades franciscanos.

Em terceiro lugar estão os apóstolos S. Pedro e S. Paulo, que registam, em conjunto, nove templos, sendo padroeiros das paróquias de São Pedro, no Funchal, e de São Paulo, na Ribeira Brava. Não obstante, a festa mais popularizada em honra de S. Pedro celebra-se na paróquia da Ribeira Brava, no dia 29 de junho, dia litúrgico dos dois apóstolos, “colunas” da Igreja.

Desta forma, os santos populares celebrados no mês de junho em Portugal continental, também o são na Madeira. Com razão os canta o nosso Max: “Veio Santo António, / Depois São João, / Por fim vem são Pedro / Para a reinação”.

É nossa intenção desenvolver mais à frente o culto prestado aos três santos populares, conjuntamente com o santo padroeiro da cidade e da diocese do Funchal.

Embora sejam os mais populares, não são, contudo, os únicos. Há outras 48 testemunhas da fé que também são venerados como intermediários eficientes entre os seus devotos e o Deus supremo.

Nesta lista estão S. José, o pai putativo de Jesus e o mártir S. Sebastião, que são titulares de oito ermidas ou igrejas cada um.

S. José, por sua vez, é padroeiro da paróquia homónima, no Funchal, do Arco de São Jorge, e do Piquinho, em Machico, registando-se a construção de ermidas nos seguintes lugares: Porto Santo (1681), Ribeira Brava (1710), Calheta (1776), Santa Cruz (data desconhecida), Camacha (séc. XX), Machico (1730) Arco de São Jorge (1740-1744) e São José, Funchal (1990-1994).

S. Sebastião é orago no Caniçal e em Câmara de Lobos, sendo titular das ermidas construídas em sua honra: Câmara de Lobos (princípios do séc. XVI), Caniçal (primeiro quartel do séc. XVI), Ponta do Sol (1734), Porto Santo e Santa Cruz (data desconhecida), São Jorge (séc. XVI) e Largo de São Sebastião, hoje Largo do Chafariz, no Funchal (séc. XV).

Na ordem numérica descendente, com sete padrões de culto, seguem-se S.ta Ana e S. Joaquim, padroeiros da comunidade paroquial de Santana. As suas ermidas são erguidas nos seguintes lugares: Santana (anterior a 1537); São Roque, hoje paróquia dos Álamos (1607), São Martinho (1780), São Pedro (1790), Boaventura (1768) Machico e Estreito de Câmara de Lobos (muito antigas, mas datas desconhecidas).

Registamos ainda S. Francisco de Assis, o fundador da Ordem Franciscana, à qual pertencem os primeiros sacerdotes que viajam com Gonçalves Zarco, celebram a eucaristia em Machico a 2 de julho de 1419 e durante quase 90 anos prestam os serviços pastorais à população que se fixa na Madeira. Fundam cinco conventos, cada qual com os respetivos espaços dedicados ao culto: de S. João da Ribeira (1439) e de S. Francisco (1473) no Funchal; de S. Bernardino, em Câmara de Lobos (terceiro quartel do séc. XV), de N. S.ª da Piedade de Santa Cruz (1518) e de N. S.ª da Porciúncula da Ribeira Brava (1730). Além disso, em São Pedro, Funchal, é erguida uma capela vulgarmente denominada de S. Francisco das Furnas, em 1697, e outra em Santa Luzia, em 1675.

Com quatro ermidas, registamos as devoções a S.ta Maria Madalena, S.ta Quitéria, S.to Amaro, S. Cristóvão e S. Tiago Menor, o padroeiro da cidade e diocese do Funchal.

S.ta Maria Madalena é padroeira das comunidades paroquiais da Santa, no Porto Moniz, e da Madalena do Mar. As suas ermidas estão localizadas nas seguintes paróquias: Madalena do Mar (segundo quartel do séc. XV), Santo António (primeiro quartel do séc. XVI), Arco da Calheta (1684) e Porto Moniz (1700?).

S.ta Quitéria é padroeira da comunidade paroquial da Boaventura. As suas ermidas registam-se nas seguintes paróquias: Boaventura (1731), Santo António (1727), Calheta (1724) e Madalena do Mar (data desconhecida).

S.to Amaro é padroeiro das comunidades paroquiais de Paul do Mar e de Santo Amaro, no Funchal (desmembrada de Santo António). Este culto ao “herdeiro espiritual” de S. Bento, regista-se ainda em Santo António do Funchal (1460), Paul do Mar (fins do séc. XV), Ponta do Sol (fins do séc. XV) e Santa Cruz (anterior a 1538).

S. Cristóvão é padroeiro dos motoristas. As suas expressões de culto são registadas nas seguintes paróquias: Machico (1692), Ponta Delgada, hoje em terrenos da Boaventura (anterior a 1578), Curral das Freiras, um nicho com a respetiva imagem (?), e São Tiago, Estreito de Câmara de Lobos, também um nicho (inaugurado em 1999).

S. Tiago Menor é o padroeiro principal da cidade do Funchal e secundário da diocese. Os padrões do seu culto encontram-se nas seguintes paróquias: Santa Maria Maior (21/07/1521-25/07/1632), Canhas (anterior a 1577), São Tiago, Estreito de Câmara de Lobos (1634), e igreja da nova paróquia (2006-2009). Mais adiante desenvolvemos o culto a S. Tiago Menor, como padroeiro principal da cidade e secundário da diocese do Funchal.

Registamos ainda quatro capelas dedicadas aos Santos Reis, embora não tenham sido declarados padroeiros: Estreito da Calheta (1529), Monte (1554), Ponta Delgada (antes de 1577) e Funchal (1584).

Com três capelas, registamos S. Lourenço e S. Roque. S. Lourenço é padroeiro da Camacha e S. Roque é orago das comunidades paroquiais de São Roque do Funchal e São Roque do Faial.

Os centros de culto a S. Lourenço são edificados nos seguintes locais: palácio de S. Lourenço, no Funchal (anterior a 1566); Fajã da Ovelha (primeiros anos do séc. XVI) e Camacha (anterior a 1680).

Por sua parte, as capelas em honra de S. Roque, são edificadas em São Roque do Faial (1551), São Roque do Funchal (1578) e Machico (ignora-se a data da construção, mas sabe-se que é reconstruída em 1739).

Com dois centros de culto, encontramos S.ta Rita de Cássia, S.to Antão, S. Brás e S. Vicente. S.ta Rita de Cássia é copadroeira da comunidade paroquial da Vitória, São Martinho, tendo-lhe sido dedicada uma pequena ermida, construída em data desconhecida, supostamente no séc. XVII. A nova igreja paroquial de que é cotitular é edificada entre 1970 e 1984.

S. Brás é padroeiro das comunidades paroquiais do Arco da Calheta e Campanário. As referidas capelas são edificadas no Arco da Calheta, antes de 1572, e no Campanário, antes de 1683, data em que é reconstruída.

S. Vicente é padroeiro da paróquia homónima. O seu culto remonta aos anos 1440-1450, data em que se estima ter sido edificada a sua capela, perto da igreja paroquial atual. Em 1692, o povo constrói outra capelinha num bloco de basalto, na foz da ribeira, a qual guarda a sua imagem. A atual Igreja de S. Vicente remonta ao ano de 1664.

Além destas padroeiros protetores, ainda há o registo de outros nomes que são titulares de duas ermidas, mas não foram declarados padroeiros de alguma comunidade paroquial: S. Filipe, S. João de Latrão, S. Lázaro, S. Luís e S. Pedro Telmo.

As capelas de S. Filipe são construídas em Santo António (1536) e em Santa Maria Maior (1562); S. João de Latrão é titular em Gaula (1511) e em São Gonçalo (data desconhecida); S. Lázaro, em Santa Cruz (séc. XVI) e no Funchal (séc. XV); S. Luís, no Funchal (anterior a 1608) e no Faial (1725); S. Pedro Telmo, no Funchal (conhecida como Capela do Corpo Santo) e na Calheta (fins do séc. XV).

Finalmente o registo dos santos que são titulares de um espaço sagrado e que se tornaram padroeiros da comunidade paroquial: S.ta Beatriz, paróquia de Água de Pena (1560), S.ta Cecília, paróquia homónima, Câmara de Lobos (1996-2007), S.ta Luzia, paróquia homónima, Funchal (finais séc. XV), S. Bento, Ribeira Brava (1440), S. Francisco Xavier, paróquia homónima, Calheta (1693, nova igreja em 1984), S. Gonçalo, paróquia homónima (séc. XVII, nova igreja no séc. XX), S. Jorge, paróquia homónima (1475), e S. Martinho, paróquia homónima (capela antiga anterior a 1579, igreja atual no séc. XX).

Ainda titulares de um espaço sagrado, mas não padroeiros paroquiais: S. Cosme e Damião, Calheta (1681), S. Bartolomeu, Funchal (anterior a 1497), S. Caetano, Ponta do Sol (1780), S.to André Avelino, Carvalhal, Canhas (1776), S. Cândido, Câmara de Lobos (1732), S. Fernando, Santa Cruz (data desconhecida), S. Francisco de Borja, Porto da Cruz (1760), S. Gil, Santa Cruz (data desconhecida), S. João Nepomuceno, Porto da Cruz (1776), S. João de Deus, Santo António, Funchal, padroeiro da Ordem Hospitaleira (1791), S.ta Clara, padroeira da Ordem de S.ta Clara, Funchal (segunda metade do séc. XVII), S.ta Isabel de Portugal, padroeira do Hospital das Misericórdias, Funchal (1514), S. João Evangelista, Funchal, titular da igreja do Colégio dos Jesuítas (finais do primeiro quartel do séc. XVII).

Razões do culto dos santos

Muitos terão sido os motivos para a presença divina através dos santos, de Maria, a Mãe de Jesus, e dos mistérios da encarnação do Verbo divino, nomeadamente na construção de igrejas e ermidas dedicadas ao seu culto. Uns serão de ordem pessoal, outros de fé, cultura e identidade, outros ainda de ostentação económica e financeira, como forma de assegurar um lugar digno para a sepultura, ou ações de sufrágio para alcançar a eternidade.

Quase todos os santos e santas cujos nomes são atribuídos a capelas ou ermidas são protetores invocados em circunstâncias determinadas. Assim, S.to Amaro é invocado contra a coriza ou rinite; S.to Ambrósio é protetor das abelhas, dos animais domésticos, em especial dos gansos; S.ta Ana é padroeira dos adelos ou vendedores de objetos usados, das mulheres que fazem renda, das donas de casa, dos marceneiros, dos torneiros, dos entalhadores, dos moços de estrabaria e dos fabricantes de vassouras, sendo também invocada em casos de pobreza e para encontrar objetos perdidos; S.to André Avelino é um dos padroeiros da boa morte, sendo invocado contra a morte súbita e a apoplexia; S.to Antão é padroeiro dos salsicheiros, porqueiros e cesteiros, invocado também contras os contágios e nas doenças da pele, protetor dos animais em geral, mas sobretudo dos porcos, em especial do “porquinho da Festa”; S.to António de Lisboa é invocado para se encontrar objetos perdidos, para encontrar um noivo, uma noiva, para abençoar o casamento; S. Bartolomeu é patrono dos carniceiros, curtidores e encadernadores; S. Bento é invocado contra as tentações do demónio, em casos de inflamações, erisipelas, febre e doenças dos rins; S. Brás é padroeiro dos tecelões de lã e cardadores, dos construtores e talhadores de pedra, invocado contra os animais ferozes, a tosse, a coqueluche, a papeira e outras doenças da garganta e ainda para sarar e proteger os porcos; S.ta Cecília é padroeira dos músicos e dos fabricantes de instrumentos de música; S.ta Clara é padroeira das bordadeiras, dos douradores, das lavadeiras e engomadeiras, invocada também contra as doenças dos olhos e para pedir bom tempo; os santos Cosme e Damião são invocados para a cura da gosma, que ataca principalmente a língua das galinhas, sendo também padroeiro dos médicos, cirurgiões, farmacêuticos e parteiras; S. Cristóvão é padroeiro dos archeiros, moços de fretes, carregadores dos mercados, negociantes de frutas e automobilistas, sendo invocado contra a morte súbita, as tempestades, o granizo, as dores de dentes e a impenitência final; S. Francisco de Borja é invocado contra os tremores de terra; S. Francisco Xavier é invocado contra a peste e é o padroeiro do turismo; S. Gil é padroeiro dos aleijados e inquietos, invocado contra o cancro, a esterilidade feminina, os terrores noturnos e a loucura; S. Gonçalo de Amarante é invocado contra as rugas, “a ele encomendam os pastores os gados, os lavradores as sementeiras; a ele pedem o sol, a ele a chuva”, diz o P.e António Vieira (LEITE, 1985, 40); S. João Batista é padroeiro dos passarinheiros, dos cuteleiros, espadeiros, alfaiates e peleiros, invocado contra os espasmos, as convulsões, as epilepsias e o granizo, protetor dos cordeiros; S. João Bosco é patrono do cinema, das escolas de artes e ofícios, dos prestidigitadores; S. João de Deus é padroeiro dos enfermos mentais e dos moribundos; S. João Evangelista é padroeiro dos teólogos, invocado contra as queimaduras e os venenos e para conseguir uma boa amizade; S. João Nepomuceno é invocado para proteger as pontes, contra a indiscrição e a calúnia; S. Jorge é invocado para a cura de hereges, patrono dos escuteiros de Portugal; S. José é patrono dos pais de família, dos carpinteiros, dos fabricantes de carros, dos marceneiros e da boa morte; S. Lourenço é invocado contra o lumbago, em casos de incêndio e para proteger as vinhas, padroeiro dos cozinheiros, cozinheiras, donas de hospedarias e vendedores de assados, sendo ainda protetor das bibliotecas; S.ta Maria Madalena é padroeira dos negociantes de perfumes, surradores de peles finas e das mulheres e raparigas arrependidas; S. Martinho de Tours é padroeiro dos hoteleiros, cavaleiros e alfaiates, invocado como protetor dos gansos; S. Paulo é padroeiro dos cordeiros, invocado contra o granizo e as mordeduras das serpentes; S. Pedro é padroeiro dos serralheiros e dos sapateiros remendões; S.ta Rita de Cássia é padroeira das viúvas e dos esposos infelizes e advogada das coisas impossíveis; S. Roque é padroeiro dos calceteiros e dos cirurgiões, sendo invocado contra a peste, dores dos joelhos e doenças dos gados; S. Sebastião é invocado contra a peste e epidemias; S. Vicente de Paulo é padroeiro dos que se dedicam às obras de caridade; S. Vicente é advogado das crianças em Portugal e padroeiro dos vinhateiros em França.

A invocação dos santos nas circunstâncias decisivas da vida é uma constante ao longo da história do cristianismo; o seu culto ao longo do ano litúrgico e civil, com festas que decorrem em especial no verão, destina-se a louvar, agradecer e continuar a implorar a mediação ao santo padroeiro e protetor.

S. Tiago, padroeiro da cidade e da diocese

S. Tiago, o Menor, é o padroeiro principal da cidade do Funchal e secundário da diocese e padroeiro de uma comunidade paroquial homónima situada no Jardim da Serra. A sua comemoração litúrgica, assim como as correspondentes festas populares, celebra-se a 1 de maio.

O primeiro voto a S. Tiago remonta ao dia 11 de junho de 1521 e é renovado a 24 de janeiro de 1523. A ata da magna reunião, que teve lugar no coro da Sé em 1521, nesta última data, recorda como tudo aconteceu, registando a presença de quantos ali estiveram: o capitão general, Simão Gonçalves da Câmara, os oficiais da Câmara Municipal, o cabido da catedral e muito povo. Deitados num barrete diversos papéis com o nome da Virgem Maria, de S. João Batista e dos 12 apóstolos, e estando os presentes todos de joelhos em oração, um menino, de nome João, de sete anos de idade, procedeu a tirar um papelinho à sorte, e nele estava escrito o nome de S. Tiago Menor. Foi assim designado o padroeiro que havia de curar a cidade da peste. Nesse mesmo dia, fez-se festa pela cidade. A 21 de julho começou-se a construir a igreja em sua honra, indo a cidade e o cabido em procissão solene, descalços, até ao terreno oferecido por António Spínola, onde deram a primeira enxadada que levou à construção da igreja.

Nesse mesmo dia, fez-se a renovação do voto, porquanto ainda a peste não fora totalmente erradicada. Estavam também presentes o capitão João Gonçalves da Câmara, o Senado com os seus vereadores, diversas entidades oficiais, todo o cabido e muito povo, e todos tomaram o compromisso solene, em nome dos habitantes do concelho, de celebrarem anualmente e para sempre a festa do glorioso S. Tiago que, nessa época, é precisamente no 1.º de maio. A festa deveria constar dos seguintes atos: na véspera, procissão da Sé até à sua igreja, onde seriam cantadas as vésperas solenes; a procissão seria repetida no dia seguinte, com missa solene. As duas procissões seriam como a do Corpus Christi.

Os historiadores reconhecem unanimemente que, a partir desta data, começa a sentir-se de forma mais eficaz a proteção de S. Tiago. E muito mais no ano de 1538, quando grassa uma nova e terrível peste. No dia da festa, o guarda-mor da Saúde, vendo que eram inúteis os seus esforços, diz no meio da ermida, em alta voz: “Senhor, até aqui guardei esta cidade como pude; não posso mais, aqui tendes a vossa vara, sede vós o Guarda da Saúde” (SILVA e MENESES, III, 36). Largou imediatamente a vara, e deu-se por desobrigado das suas funções. A partir desse momento, todos os feridos melhoraram e a peste desapareceu da cidade. Desde então, os vereadores da Câmara, quando entram na igreja do Socorro, depositam as varas nos degraus do altar, entregando o poder ao padroeiro. A 22 de junho de 1632, lavra-se outro auto, desta vez para agradecer e louvar o santo padroeiro, constatando que “nunca mais nesta ilha houve o dito mal da peste […]”(Id., Ibid.). A cura estende-se até aos que estão de passagem.

É tradição de séculos, portanto, a procissão do voto e missa solene na igreja que lhe é dedicada na paróquia de Santa Maria Maior, ou do Socorro, no 1.º de maio, promovida e participada pelos autarcas do Funchal.

Mas nem sempre são rigorosamente cumpridas as homenagens ao padroeiro. A partir de 1942, a Câmara Municipal do Funchal (CMF) decidiu retomar as festividades e a procissão do 1.º de maio, dedicando exclusivamente este dia a honrar S. Tiago e transferindo para o dia 21 de agosto o feriado municipal, gesto que foi muito apreciado e louvado pela população.

Na sequência da reforma do concílio Vaticano II, e sobretudo depois da instituição da Festa de S. José Operário no 1.º de maio, a liturgia passa a comemorar S. Tiago, o Menor, conjuntamente com seu amigo Filipe, no dia 3 de maio. Mas o voto continua, a ser cumprido no dia 1 de maio, assim como a sua solenidade na diocese do Funchal.

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Igreja de S. Tiago, Funchal. BF.

A Igreja de S. Tiago, depois denominada do Socorro ou de S.ta Maria Maior, onde está sediada também a respetiva paróquia desde o ano 1803, não é certamente a primeira construção, pois dela nada resta. Aquela, para além de ter sido de menores dimensões, faz parte do voto de 11 de junho de 1521. O terreno foi oferecido por António Spínola, natural de Génova, a quem el-rei D. Manuel concede brasão de armas e foro de fidalgo da sua casa, por escritura de 30 de abril de 1524. A primeira pedra ou primeira enxadada é lançada no dia 21 de julho deste ano. A construção sofreu importantes reparações no decorrer dos anos e foi benzida pelo bispo diocesano, D. Jerónimo Fernando, a 25 de julho de 1632. Passado um século, apresentando já um estado ruinoso, a CMF resolve construir um templo de maiores dimensões. A velha ermida é demolida em 1752 e as obras do novo templo são dadas por concluídas em 1768.

Quando a Igreja de N. S.ª do Calhau é arrastada para o mar pela aluvião de 1803, a Igreja de S. Tiago é cedida pela Câmara para servir de sede da paróquia, com a condição de ali ser sempre conservada a imagem do orago e padroeiro da cidade. Ainda se conserva a lápide colocada então no frontispício da igreja, que reza o seguinte: “Hic lapis indicat liberalitatem senatus et populi hanc ecclesiam Fidelissimo Principi Regenti offeretium in locum parochiae per inundaciones aquaram destructae. Ano Domini MDCCCIII” (Esta lápide demonstra a liberalidade do senado e do povo que oferecem esta igreja, no lugar da paróquia destruída pelas inundações das águas. Ano do Senhor, 1803).

S. Tiago dá nome a toda aquela zona da cidade, de tal forma que ali também é erigida a fortaleza chamada de S. Tiago, a qual indica no pórtico o ano da sua construção: 1614.

Também na paróquia dos Canhas, no sítio que foi depois denominado São Tiago, é erigida uma capela dedicada a S. Tiago, onde é sediada a paróquia, ao ser criada, pelos anos de 1577. O chão desta capela terá sido traçado numa ladeira pelo próprio Zarco, aquando da primeira exploração daquelas terras que, posteriormente, vêm a fazer parte da freguesia dos Canhas. Divergem os historiadores sobre a data da sua fundação, assim como sobre os construtores. O que sabemos com certeza é que, ao ser criada a paróquia de São Tiago dos Canhas, por alvará régio de 30 de janeiro de 1577, tem a sua sede provisória na referida capela.

Uma das novas paróquias criadas pelo bispo D. David de Sousa por decreto de 20 de novembro de 1960, desmembrada do Estreito de Câmara de Lobos, no Jardim da Serra, recebe o nome de São Tiago. A sua sede provisória é a Capela do Foro, ao sítio do mesmo nome, e o seu orago é S. Tiago Menor.

A Capela do Foro, construída no ano de 1634, recebe diversos titulares ao longo dos tempos, talvez de acordo com as devoções particulares dos seus sucessivos proprietários. Chamava-se assim porque estava construída no sítio do Foro; ou então, como em tantos casos semelhantes, terá dado nome ao sítio onde foi construída. N. S.ª do Socorro terá sido a primeira titular; em data e circunstâncias desconhecidas, passa a denominar-se N. S.ª da Consolação; também se conhece como Capela de S. Tiago, designação que terá certamente dado origem ao nome da nova paróquia e ao seu padroeiro.

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Igreja da Paróquia de S. Tiago Menor, Jardim da Serra. BF

Uma vez criada a paróquia, construiu-se uma igreja que também era provisória, pois não reunia as condições necessárias para uma ação pastoral condizente. Em finais de 2002, surgiu um novo projeto, que desembocou na igreja sagrada por D. António Carrilho a 15 de novembro de 2009. As obras começam em 2006, com o apoio do Governo Regional da Madeira (GRM), e terão custado 1.900.000 euros, sendo da conta da paróquia a verba de 700.000. O projeto é da autoria do Arqt. João Cunha Paredes que acompanhou todos os trabalhos de execução. Trata-se dum espaço muito amplo, com 425 lugares sentados, numa área de 1075 m2, com capacidade para receber, em dias de festa, de 900 a 1000 pessoas.

No ato da dedicação, D. António Carrilho tem palavras de gratidão para com a comunidade paroquial e seu pároco, o P.e Emanuel Eleutério Figueira de Ornelas, os membros da comissão de obras, pelo empenhamento posto na sua igreja, e o Governo Regional, na pessoa do seu presidente, Alberto João Jardim, pelo apoio recebido, assim como expressa reconhecimento ao Arqt. João Cunha Paredes e ao bispo D. Teodoro de Faria, seu antecessor, pelas diligências que resultaram na construção daquele templo.

S.to António de Lisboa

Imagem Sto. António - Fuinchal
Imagem de Sto. António de Lisboa, Igreja de S. António, Funchal. Arqui. Rui Carita.

S.to António de Lisboa é padroeiro das comunidades paroquiais de Santo António do Funchal, do Santo da Serra e da Raposeira, na Fajã da Ovelha. É o primeiro santo popular do mês de Junho.

O “santo de todos” também o é dos madeirenses desde os princípios da colonização. Com efeito, existem muitas capelas que lhe são dedicadas, algumas transformadas em igrejas paroquiais; e tem um altar reservado em muitas das igrejas que foram construídas ao longo dos tempos pelas diversas comunidades paroquiais, embora dedicadas a outro titular.

Igreja de Santo António, Funchal. BF.
Igreja de Santo António, Funchal. BF.

A paróquia de Santo António, no Funchal, muito provavelmente criada como curato em 1557 e logo transformado em paróquia em 1566, tem a sua sede numa capela dedicada a S.to António, construída anteriormente, em meados do séc. XVI, e que dá lugar ao sítio e depois à paróquia. Desde então tem sido o padroeiro dessa comunidade paroquial, que, através dos séculos, na medida em que se vai tornando necessário para atender aos diversos serviços do culto, primeiro amplia a capela, para logo depois construir uma nova igreja no primeiro quartel do séc. XVII, e em 1783 começa a erguer a igreja que é concluída em 1789.

A chama da devoção ao santo popular português tem continuado acesa através das gerações. A sua festa popular coincide com a sua memória litúrgica, a 13 de junho. É sempre celebrada com grande empenho, não só pela comunidade paroquial, mas também pelos romeiros que ali acorrem de todos os quadrantes. A sua programação é geralmente grandiosa em todas as suas vertentes – religiosa, social e cultural –, incluindo marchas populares.

No Santo da Serra, Gil de Carvalho é fundador de uma ermida dedicada a S.to António, onde está a igreja paroquial, construída pelos fins do séc. XVI ou princípios do séc. XVII. Após ter passado por diversas situações, é ali estabelecido um curato em 1813 e só em 1848 fica constituída a paróquia autónoma. A antiga Capela de S.to António foi sendo sucessivamente ampliada e adaptada às circunstâncias dos tempos, vindo a constituir uma igreja, em cujos arredores é construída a Casa do Romeiro em 1808; apesar de ter sido posteriormente votada ao abandono e rápido desmoronamento, a devoção popular ao S.to António manteve-se viva, não só por parte da comunidade residente, mas também dos romeiros.

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Igreja de Sto. António, Fajã do Penedo, S. Vicente. Arqui. Rui Carita.

Em 1960, aquando da criação de uma série de novas paróquias, a paróquia da Raposeira, na Fajã da Ovelha, é dedicada a S.to António. Tendo por sede provisória a igreja paroquial da Fajã da Ovelha, os paroquianos tomam consciência da necessidade de uma nova igreja paroquial. A primeira pedra é assentada numa segunda-feira do mês de julho de 1961, segundo nos informa Eduardo Gonçalves Sousa, o “sabidinho”, que andou nas obras da construção: “depois continuaram, levou a primeira laje no princípio do ano 1962, fins de janeiro, princípios de fevereiro” (GAMA, 2014, 58), e aí começaram a atender os paroquianos. Como informam outras pessoas, a pedra foi tirada de uma pedreira que fica próxima e veio para o local às costas dos paroquianos. Terá sido inaugurada na década de 70, passando posteriormente por obras de remodelação e melhoramento, sendo colocado um vitral evocativo da vida do padroeiro.

S.to António é considerado o protetor dos agricultores e dos animais na paróquia da Ponta do Pargo. A sua festa é custeada pelos produtos da terra, levados em romagem em tabuleiros na véspera da festa. Os tabuleiros são de madeira e os cones de cartolina. Também há bordados em papel de seda azul para os rapazes, e branco ou rosado para as raparigas. O percurso das romagens é longo e as ofertas vêm dos nove sítios da freguesia. No adro da igreja é preparada uma mesa onde se colocam os tabuleiros. No domingo, após a missa, leiloam-se os produtos, que são adquiridos pelos comerciantes. Também se fazem peças de croché, bordados que são rifados ou arrematados. Recorda-se ainda que alguns elementos da comissão de cada sítio escolhem um talhão incultivado, e cada um cuida da plantação. Uns regam, outros mondam e no fim toda a gente cava, cultivando aquela terra, sendo os produtos colocados nos tabuleiros da romagem de S.to António.

Ao longo de toda a geografia madeirense, encontramos mais 18 capelas erguidas a S.to António: em Santana (último quartel do séc. XVI), na Ribeira Brava (1696), em Santa Maria Maior (1682), na Ponta do Sol (1853), na vila da Ponta do Sol (data desconhecida), no lugar de Baixo, Ponta do Sol (data desconhecida, reconstruída nos fins do séc. XIX), na Calheta (data desconhecida), no pátio da Alfândega, no Funchal (1714), na antiga R. da Laranjeira (data desconhecida), no Monte (1718), em Santa Luzia (1727), no Curral das Freiras (fins do séc. XVI), no Estreito de Câmara de Lobos (1705), no Arco da Calheta (1724), em Machico (data desconhecida), na Ponta Delgada (data desconhecida), no Porto da Cruz (1760), na Quinta Grande (1883). Há cerca de 21 capelas dedicadas a S.to António em toda a diocese do Funchal.

Resta acrescentar que S.to António, além de português, também é franciscano. O seu culto na Madeira é certamente uma herança da espiritualidade e da ação da pastoral dos franciscanos que atenderam as populações durante os primeiros 90 anos de povoamento da ilha.

S. João Batista

João Batista, popularmente conhecido como S. João, é padroeiro das paróquias da Fajã da Ovelha, de São João (Ribeira Brava), dos Álamos (Funchal) e do Atouguia (Calheta). Além disso, é titular de algumas capelas.

Desde que foi habitada, a Madeira passou a ser também terra devotada a S. João Batista, um dos três santos populares do mês de junho. Além de ser celebrado com todas as características do arraial madeirense onde está constituído como padroeiro, é também festejado nas capelas de que é titular e em outras comunidades paroquiais, tais como Porto da Cruz, São Roque do Faial, Santa Cecília, Porto Santo, Ponta do Sol, São Martinho, São Pedro (Capela de S. João da Ribeira), etc. Podemos afirmar que todas as comunidades paroquiais estão em festa no 24 de junho, celebrando e honrando o popular S. João no dia do seu nascimento.

Para além do culto litúrgico, também próprio do dia, há muitas expressões celebrativas, que vão desde as fogueiras da vigília, da ementa tradicional do atum salpresado com semilhas ao murro e das sardinhas do S. João, dos mergulhos na água do mar, de madrugada, até à decoração das casas com ramos de ervas aromáticas, como o alecrim, o loiro e o manjerico, às marchas do S. João, aos altares de S. João, no centro do Funchal, e muitas outras expressões.

Os altares são uma tradição que consiste em levantar altares em honra de S. João nos sítios mais simbólicos da cidade, em ruas determinadas, junto de restaurantes populares, para aí celebrar o tradicional arraial do S. João. Inicialmente, tinham o caráter de novenário, pois ante deles era celebrada uma espécie de novena pelos devotos da zona. Era na casa do artífice-sapateiro José de Sousa, na R. do Hospital Velho, que se efetuavam com maior empenho: o trono ocupava o vão de uma das janelas do lado da rua e toda a casa, desde a entrada, se revestia de colgaduras, ramagens e balões venezianos; era oficiante o “manilhinho”, o “papa-a-beca”, muito popularizado em atos daquela natureza, que, na altura própria, fazia uma preleção referente à solenidade do dia.

Um dos centros mais antigos do culto a S. João Batista na Madeira é a Capela de S. João na margem direita da ribeira que leva o seu nome, no Funchal, pertencente à paróquia de São Pedro, pois até há quem afirme que foi mandada edificar pelo próprio Zarco. O certo é que é uma das mais antigas capelas da diocese e uma das poucas do séc. XV que ainda existem, muito embora nada se conserve ali da primitiva construção. Segundo as crónicas da Ordem Franciscana, esta capela foi começada a erguer-se em 1432 pelos frades franciscanos que ali viviam como eremitas, devido a ter aumentado o seu número, “com algumas esmolas e trabalho das suas mãos” (SILVA e MENESES, III, 248). Em 1459, deixam o hospício e capela e só regressam 15 anos depois. E, em 1476, instalam-se em São Francisco. No princípio do séc. XVIII, uma impetuosa enchente destruiu a capela e parte do hospício adjunto, que foram restaurados em 1720; a aluvião de 1803 também lhes causou estragos consideráveis.

Em 1672, o bispo diocesano D. Gaspar Afonso da Costa Brandão funda ali uma Confraria de S. João Batista, destinada a manter as funções religiosas. Em meados do séc. XIX, António Fernandes Nogueira e Manuel Fernandes Jardim realizam, à sua custa, importantes obras de reparação, restituindo a capela ao exercício do culto. Chega a ser centro de uma concorrida romagem, aonde acodem romeiros de toda a ilha. O culto nesta Capela foi posteriormente confiada aos padres franciscanos, residentes na casa anexa à Capela da Penha de França.

S. João Batista é também o padroeiro da paróquia da Fajã da Ovelha desde a sua criação. Primeiro é constituído um curato anterior ao ano de 1553, e, pouco antes de 1573, constitui-se paróquia autónoma. Com o crescimento da população, é criado um curato pelos fins do séc. XVIII. Tanto o curato como a paróquia têm a sua sede na capela dedicada a S. Lourenço até ao segundo quartel do séc. XVIII. É curioso e sintomático notar que, muito embora sediada na Capela de S. Lourenço, a paróquia tem como padroeiro S. João Batista, sinal evidente da devoção que pelo santo nutre a maioria da população. Construída nova igreja, no local mais apropriado, conhecido por Fajã da Ovelha, que dá nome à nova comunidade paroquial, por autorização régia de 24 de janeiro de 1747, conserva-se a dedicação a S. João Batista, cujas festividades são celebradas com grande solenidade a 24 de junho de cada ano.

Em 1783, João Baptista Teixeira, manda erigir outra capela dedicada a S. João Batista, esta no Lombo do Atouguia, na Calheta, também conhecida pelo nome de S. Pedro de Alcântara. Ali é constituída a sede provisória da nova paróquia do Atouguia, criada por decreto de D. David de Sousa, de 24 de novembro de 1960 e por desmembramento da paróquia da Calheta. É-lhe atribuído como padroeiro S. João Batista, nome e devoção do fundador da capela; e o nome da paróquia advém do nome do primeiro povoador que deu nome ao respetivo Lombo, Luís de Atouguia, que ali tem terras de sesmaria e institui um morgadio. A sua sede provisória permanece ali até o dia 24 de junho de 2012, quando é dedicado o novo templo.

Igreja de S. João, Atouguia
Igreja de S. João, Paróquia de Atouguia, Calheta. Arqui. Rui Carita.

Ao instituir a nova paróquia nestas circunstâncias, D. David respeita não só as origens socioculturais daquela população, como também a piedade e espiritualidade de antanho que, de certa forma, se apresentam naquele momento. Não será temerário afirmar que também por esta razão a nova comunidade paroquial corresponde enormemente às propostas da construção de uma nova igreja paroquial, dedicada ao seu padroeiro de sempre.

Pensando continuamente no projeto da nova igreja, através da oferta dos terrenos, da angariação de donativos, quermesses, festas, romagens e ofertas de paroquianos residentes no estrangeiro, as obras propriamente ditas são iniciadas em 2010, apesar de o terreno ter sido benzido por D. Teodoro de Faria a 2 de abril de 2006, por ocasião duma visita pastoral a esta comunidade. Os projetos arquitetónicos, da autoria de João Cunha Paredes, e os projetos de execução e respetivo caderno de encargos são apresentados publicamente no dia 18 de abril de 2010 ao bispo D. António Carrilho; a 10 de abril de 2011 é benzida e lançada a primeira pedra. A 24 de junho de 2012, dia de S. João Batista, dedica-se a nova igreja; tem o custo de 1.750.000 euros, tendo o GRM comparticipado com a importância de um milhão de euros, e sendo a parte restante suportada pela comunidade paroquial.

As cerimónias da dedicação começam com uma celebração na sede provisória, na noite do dia 23, seguida de uma procissão que leva até à nova igreja a imagem do padroeiro. No dia 24, a partir das 16 horas, D. António Carrilho, bispo da diocese, preside à cerimónia da dedicação, na presença das autoridades regionais e locais, encabeçadas pelo presidente do Governo Regional, que aproveita a oportunidade para justificar o apoio concedido a esta comunidade em virtude do princípio democrático da presença governamental junto do sentimento e das necessidades e problemas concretos das populações.

Igreja de S.João, Álamos
Igreja de S. João, Alámos, Funchal. Arqui. Rui Carita.

A paróquia dos Álamos é outra que tem como padroeiro S. João Batista desde a sua constituição, segundo o decreto episcopal de D. David de Sousa, de 26 de novembro de 1960. A sua sede provisória é a Capela de Santana, onde ficará sediada durante alguns anos, mas o pároco, o P.e Manuel Sancho de Freitas, quer avançar para a construção da igreja definitiva Consegue o terreno, que é oferecido por uma benemérita, Eugénia Bettencourt. A bênção e o lançamento da primeira pedra são realizados passados apenas seis meses, precisamente no dia do santo protetor, 24 de junho de 1961, em cerimónia presidida pelo vigário geral, o cónego Francisco Camacho. A nova igreja, também com projeto do Arqt. João Cunha Paredes, será dedicada a 26 de setembro de 2004, por D. Teodoro de Faria.

Imagem S. João, Álamos
Imagem de S. João Baptista, Alámos, Funchal. Arqui. Rui Carita.

Posteriormente a esta igreja, foi construída uma capela dedicada a S. João Batista na denominada Terra Batista, no Porto da Cruz, em terreno cedido por Manuel de Freitas Patrício; não se trata de igreja nem de um centro paroquial, mas de um “centro de oração, muito útil, de modo especial, para as pessoas de idade que não podem deslocar-se, facilmente, à igreja situada junto ao mar e um centro propício ao ensino da catequese” (GAMA, 2014, 248).

Embora seja desconhecida a data da sua construção assim como o nome do seu fundador, existe ainda uma capela de que S. João Batista é titular no sítio do mesmo nome, na Ribeira Brava. A sua devoção é ancestral e arraigada na povoação, de tal forma que D. David de Sousa, em 1960, ao fazer a divisão das paróquias, decide criar, com sede provisória nesta capela, uma nova paróquia, denominada precisamente paróquia de São João. Esta é mesmo a única paróquia madeirense que adota o nome do precursor de Cristo, embora outras o tenham como padroeiro. Presume-se que a sua festa, a 24 de junho, tenha caráter de romaria desde tempos remotos.

Outras cinco capelas dedicadas a S. João são erguidas em toda a geografia madeirense: na Ponta do Sol, no sítio do Lombo de São João (data desconhecida); em Câmara de Lobos, ao sítio do Serrado da Adega (1700); na Ribeira da Calheta (1651); no Campanário (1728) e em Santana (1660).

S. Pedro e S. Paulo

S. Pedro é padroeiro da comunidade paroquial de São Pedro, no Funchal, e da Ponta do Pargo, no extremo oeste da costa sul da Madeira. Além disso, tem grande devoção na Ribeira Brava, Porto Santo, Lombada de Santa Cruz e outras paróquias. S. Paulo é padroeiro da paróquia homónima, criada na Ribeira Brava em novembro de 1960.

É dentro da área da paróquia de São Pedro, no Funchal, que começa a colonização e o povoamento da Madeira. Zarco estabelece o seu primeiro assentamento no alto a que depois chama de Santa Catarina. As caravelas abrigam-se da primeira e segunda vez nos ilhéus da Pontinha, sitos na área paroquial de São Pedro.

Por outra parte, as classes mais abastadas vão-se afastando da parte baixa da cidade do Funchal e instalando na vertente da cidade ao longo da então Ribeira Grande, também denominada de São Francisco.

Imagem de S. Pedro, Funchal. Arqui. Rui Carita.
Imagem de S. Pedro, Funchal. Arqui. Rui Carita.

Zarco manda edificar a Capela de S. Paulo e S. Pedro, sentindo a necessidade de um novo templo para atender a esta população. O alvará régio de D. Sebastião de 20 de junho de 1566 autoriza a criação da nova paróquia de São Pedro, tendo como limites a ribeira de Santa Luzia a leste e a dos Socorridos a oeste. Não obtendo a concordância dos responsáveis pela Sé do Funchal, a ordem não é implementada e a freguesia é extinta pelo alvará do infante D. Henrique, de 3 de março de 1579, ficando a parte urbana integrada na Sé, e sendo criadas na parte suburbana, por este mesmo alvará, as freguesias de São Roque e São Martinho, cuja população tem maior dificuldade em deslocar-se ao centro do Funchal. Vencidas as barreiras iniciais, a paróquia volta a ser ativada por alvará de D. Filipe I, de 14 de agosto de 1587, com os limites que mantém até 26 de novembro de 1960, quando D. David de Sousa funda 52 novas paróquias.

O culto e a devoção a S. Pedro no Funchal são, portanto, coevos de João Gonçalves Zarco. Consciente desta realidade, a população continua a invocar, a agradecer e a preitear o santo que, no dizer popular, “tem chaves para abrir tudo”. A sua festa popular coincide com o seu dia litúrgico, 29 de junho, ou acontece no domingo seguinte. Devido à sua condição de pescador no mar da Galileia, S. Pedro galvaniza grande número de devotos entre as classes piscatórias.

Ponta do Pargo é a freguesia que fica no extremo oeste do sul da Madeira. Está situada no alto de rocas sobranceiras ao mar, formando uma gigantesca planície, sem grandes alterações de terreno. Segundo Gaspar Frutuoso, o seu nome advém da pesca de um peixe grande que parecia um pargo, feita pelos homens do batel de Tristão e Álvaro Afonso, quando Zarco, na viagem de reconhecimento pelo sul da ilha, chega àquelas paragens.

Os terrenos que formam a freguesia da Ponta do Pargo pertenciam primitivamente à paróquia da Fajã da Ovelha, e desta são desmembrados ao constituir-se a paróquia autónoma. Os historiadores não possuem documentação que assegure a data da criação da paróquia, nem da construção da Capela de S. Pedro, que serve de primeira sede; considera-se no entanto que a criação da paróquia é anterior ao ano de 1560, porquanto o alvará régio de 4 de março desse ano acrescenta um moio de trigo e um quarto de vinho à côngrua do pároco.

A Capela de S. Pedro dá nome ao seu orago ou padroeiro. Embora se desconheça quem mandou construí-la e em que data, podemos presumir que se trata de uma pessoa devota do chefe da Igreja. Tendo sido objeto de acrescentamentos e reedificações, em datas ainda não documentadas, é ordenada a sua reconstrução por mandado do Conselho da Fazenda de 20 de julho de 1620, sendo as obras orçamentadas em 2231$606 réis. Em 1851, executam-se obras importantes de reparação, que custam 1700$000 réis. Durante estas reconstruções e reparações, o templo teria ocupado três lugares diferentes: primeiro, no Pé do Pico, depois, na Achada da Igreja, finalmente, na Ponta do Pargo. É criado um curato nos fins do séc. XVIII.

Em Santa Cruz, a oeste da cidade e à beira da estrada antiga, ergue-se outra Capela de S. Pedro, que foi instituída por João Escórcio Drummond nos princípios do séc. XVI. Tendo sido destruída pela aluvião de 1803, foi reconstruída pelo povo alguns anos depois. É precisamente nesta Capela que é instalada a sede da nova paróquia da Lombada, criada em 1960, desmembrada da de Santa Cruz. A sua padroeira é N. S.ª de Fátima, mas a grande festa, mais conhecida e participada, mais solene e popular, é a de S. Pedro, celebrada com grande fervor e empenho.

No sítio da Achada de São Jorge, o povo construiu uma ermida dedicada a S. Pedro. Ignora-se a data precisa da sua construção, mas sabe-se que deve ser anterior a 1598, pois a ela se refere um documento manuscrito da Universidade de Coimbra, desta data, referido pelo P.e Silvério Matos em São Jorge e Suas Ermidas. Tendo evidenciado diversos estados de ruína, passa por consequentes reparos através dos tempos, sendo também restaurada pelo bispo D. Manuel Agostinho Barreto, que a benze e restitui ao culto a 7 de agosto de 1901.

Também no lugar que ficou chamado Terra de São Pedro houve uma pequena ermida dedicada a S. Pedro, da qual não restam vestígios, mas que deverá ter dado nome ao sítio.

No sítio dos Lamaceiros, depois paróquia da Santa, encontra-se outra capela dedicada a S. Pedro, para a qual foi trasladada a imagem do pescador da Galileia que estava na outra capela acima. Já em 1726 se encontrava em estado adiantado de ruína, vindo a ser consertada por diligências de Manuel Rodrigues Amarelo. Tendo sofrido danos importantes no terramoto de 1748, logo são reparados. Já no séc. XX nela se realizam obras importantes. Durante muitos anos é conservado o Santíssimo Sacramento, permanecendo a capela aberta para quem quisesse prestar o devido culto.

Quase no extremo ocidental da costa sudoeste do Porto Santo, integrada posteriormente na paróquia do Espirito Santo, encontra-se uma capela dedicada a S. Pedro que também anexa uma casa de romeiros, prova evidente de que era foi um centro de romarias. Esta capela é palco de uma procissão que começa na vigília da festa de S. Pedro, na praia, no Ribeiro Salgado, no mesmo lugar que foi centro piscatório, rumando à encosta da montanha.

Por sinal, está melhorado o seu acesso, a instâncias do P.e Duarte, quando ali é pároco. A sua festa é realizada no Dia de S. Pedro, com grande solenidade e romaria.

Igreja de S. Paulo, S. Paulo, Ribeira Brava. Arqui. Rui Carita.
Igreja de S. Paulo, S. Paulo, Ribeira Brava. Arqui. Rui Carita.

S. Paulo na Ribeira Brava é a única paróquia madeirense que tem como orago o “apóstolo das gentes”. Como já se referiu, foi criada pelo decreto de 24 de novembro de 1960, de D. David de Sousa. Não existe memória alguma de antes se ter prestado algum culto em honra de S. Paulo nestas serranias. O nome da paróquia poderá ter nascido por influência de emigrantes da Ribeira Funda residentes em São Paulo, Brasil, que terão enviado a primeira imagem de S. Paulo venerada nesta igreja. A igreja terá sido benzida a 30 de agosto de 1966, tendo a primeira “enxadada” – o lançamento da primeira pedra – ocorrido dois anos antes. “A imagem de S. Paulo veio do Brasil, enviada por uma emigrante da Ribeira Funda, Virgínia de Abreu, que entre os seus vizinhos, também do mesmo sítio, conseguiu os fundos necessários para comprar a imagem de S. Paulo e enviá-la para cá. Depois também voltaram a enviar algumas alfaias religiosas” (GAMA, 2014, 335).

A igreja foi construída pelas mãos dos paroquianos; “alguns materiais de construção, como sejam a areia, a pedra, a cal, o cimento, etc., tudo veio da Ribeira Brava, carregado às costas de voluntários.

Imagem de S. Paulo. Arqui. Rui Carita.
Imagem de S. Paulo. Arqui. Rui Carita.

Algum material veio mesma da praia e outro da Ribeira Funda, aonde chegava a estrada. Daí para cima, foi tudo levado às costas” (Id. Ibid.). Entretanto, “uns deram o terreno, outros deram os castanheiros, outros os carvalhos, outros deram os pinheiros e outros ajudaram a construir, trabalhando gratuitamente. A alguns só se lhe dava a comida. Dias e noites inteiras trabalharam aqui. A troco de comida e bebida” (Id. Ibid.). O templo foi inaugurado por D. David de Sousa e pelo P.e Roque Dantas. Foi nesta igreja de S. Paulo que teve lugar, a 28 de junho, o encerramento solene do ano paulino decretado para toda a Igreja em 2009. A festa popular é celebrada no primeiro domingo de agosto.

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Manuel Gama

(atualizado a 02.09.2016)