cultura clássica

A Cultura Clássica reporta-se a um conjunto de legados civilizacionais que, ao longo dos séculos, nos chegou da Antiguidade Clássica Ocidental (Grécia e Roma). Além da forte matriz judaico-cristã, constituinte de grande parte da cultura europeia ocidental, a herança greco-latina é uma trave-mestra dessa identidade cultural.

O período da Cultura Clássica reporta-se, grosso modo, aos séculos VI e IV a.C., conhecido por «Milagre Grego» (com o desenvolvimento da Ciência, das Artes, da Literatura e da Filosofia), que depois obteve grande popularidade e permitiu o desenvolvimento político-cultural na Roma Antiga. A Grécia do período Clássico é conhecida pela evolução e vivência da Democracia Ateniense, que incrementou os pilares de uma sociedade mais laica, proporcionando o desenvolvimento da Ciência, da Filosofia, da Arte e da Literatura (tragédia e comédia). Os filósofos, os artistas e os pensadores procuraram uma solução que ligasse o divino ao humano (a nova grande área de interesse do pensamento ocidental). Associado ao sucesso democrático da «pólis», era necessário compreender a relação do homem com o universo e a relação humanizada do imanente com o transcendente.

A base da transmissão da Cultura Clássica ao longo dos tempos abrange uma expressiva diversidade de áreas, como a Filosofia, Teologia, Ciência, Jurisdição, Música, Arte Plástica, Arquivo, entre outras. Por isso, redescobrir a excelência do passado, mais não é do que o dever de redescoberta essencial de nós próprios, do que fomos e do que podemos vir a ser.

Os parâmetros estabelecidos na Antiguidade Clássica acompanharão diferentes áreas do conhecimento humano, na estruturação e manifestação do pensamento Ocidental. A diferenciação entre arte e técnica, artista e artesão, era ténue. A «tekné» grega e a «ars» latina compreenderam a habilidade e o trabalho, fazendo o conjunto perfeição e estilo, em virtude de o autor/sujeito possuir o conhecimento e a compreensão dos princípios envolvidos no desempenho. Associada ao trabalho, a arte era suscetível de ser aprendida, apreendida e aperfeiçoada, até se tornar uma competência especial na produção de um «objeto».

Os conceitos de Arte e Cultura Clássica incluem a Literatura Greco-Latina. Há padrões estabelecidos desde a Antiguidade, como a separação dos géneros, questões de estilo, motivos mitológicos e filosóficos, que marcaram toda a Literatura Ocidental. A Literatura, de facto, é um exemplo de que a tradição Clássica nunca se ocultou verdadeiramente, mesmo no período Medieval. A Literatura Clássica assentou sobre as formas dos três grandes géneros (épico, lírico e dramático) e baseou-se no conceito de arte como «poien», que significa transformar. O escritor seria como um forjador, não havendo episódio que ilustre melhor esta transformação que o «Escudo de Aquiles», na Ilíada de Homero. Na Época Medieval, houve um desvio da herança greco-latina, surgindo subgéneros específicos, como a novela de cavalaria, os autos religiosos e a lírica trovadoresca, além de produções que incorporam muitos elementos populares e orais, como o Decameron de Bocaccio e Contos da Cantuária de Chaucer.

As demais manifestações da civilização greco-romana (as crenças, a vivência cultural do quotidiano, a economia, a sociedade e a organização política, militar e religiosa) são, igualmente, importantes focos de interesse e, fundamentalmente, de compreensão da estrutura do pensamento ocidental. A Cultura Clássica, não apenas no léxico que deixou como herança, emprestou à Cultura Europeia os seus textos estruturantes em vernáculo, em Grego, e em Latim. A Europa, no alicerçar de um edifício político duradouro, não deverá esquecer o acesso ao estrato clássico dos seus «corpora», sustentáculo da consonância comum de uma Cultura Europeia.

A Antiguidade Clássica acompanhou o surgimento da Europa enquanto conjunto de nações distintas após a queda do Império Romano do Ocidente. Entrada na época Medieval, sob o forte domínio político-cultural do Cristianismo da Igreja de Roma, com a coroação de Carlos Magno como Imperador pelo papa Leão III, no Natal de 800, a Cultura Clássica perdeu força, o que já vinha acontecendo nos últimos tempos do Império Romano, embora permanecesse viva através do uso do Latim como língua franca e da apropriação do discurso filosófico aos propósitos Cristãos.

Com a queda de Constantinopla, em 1452, às mãos de Mehmet II, o Conquistador, o movimento Renascentista que vinha a desenvolver-se nas cidades-estado italianas acelerou e alastrou pelo Ocidente. Este facto, aliado à nova visão do mundo dada pelas Descobertas portuguesas, incrementou no Ocidente uma visão antropocêntrica do pensamento, redescobrindo os grandes pensadores gregos e romanos. Dá-se a redescoberta da Literatura, da Ciência, da Estatuária, da Filosofia, que fazem da Cultura Greco-Latina um dos alicerces do Ocidente. A Renascença devolveu à Europa a visão antropocêntrica, uma das suas matrizes culturais distintivas.

Os europeus ocidentais, encurralados pelos otomanos a oriente, valeram-se das suas raízes clássicas e da possibilidade de partirem para o Oceano na demanda do comércio oriental, uma vez que a República de Veneza havia perdido o controlo do Levante. A primeira terra a surgir nesse novo mundo é o Arquipélago da Madeira, cujo descobrimento se efetua entre os anos de 1418 e 1419. Independentemente das discussões sobre cartografia e geografia, interessa a visão da Ilha para os antigos povos mediterrânicos, nomeadamente, Gregos e Romanos, e respetivos relatos, além da dimensão mítica que, supostamente, o Arquipélago assume no pensamento da Antiguidade Clássica.

No conjunto da Mitologia Antiga, há uma referência explícita a um lugar próprio para o repouso dos heróis escolhidos pelos deuses, as Ilhas dos Bem-Aventurados ou Ilhas Afortunadas. Podemos definir sinteticamente o mito como o resultado do pensamento da imaginação sobre os atos da experiência, o produto da imaginação do Homem perante uma entidade, objeto ou acontecimento que apareça como maravilhoso ou intrigante. O fascínio pelo mito encontra-se na sua vertente explicativa que acompanhou a Antiguidade e acompanha o Homem ocidental ao longo dos tempos, até à Idade Moderna. Assim, a Cultura Clássica transmitir-se-á e será preservada não apenas nas formas visíveis (a arte), mas também sob a forma de transmissão da Filosofia e do Mito.

Presume-se que as Ilhas da Madeira e do Porto Santo seriam já conhecidas desde a Antiguidade Clássica, dadas as referências literárias que surgem no pensamento clássico, através de escritores, historiadores, filósofos, navegadores e geógrafos: Píndaro, Hanão, Hesíodo, Plínio-o-Velho e Platão, e que se supõem ter como sujeito este arquipélago. A incorporação atual do Arquipélago da Madeira num conjunto de arquipélagos atlânticos (com os Açores, as Canárias e Cabo Verde) sob a designação de Macaronésia é um vestígio da presença imagética das ilhas da Costa Ocidental Africana entre as civilizações antigas e uma ligação fortemente ao pensamento Clássico.

«Macaronésia» é um termo que designa o conjunto destes arquipélagos e que, na Antiguidade Clássica, se identificava com o lugar de repouso dos heróis mitológicos. O discurso e a curiosidade sobre as ilhas atlânticas povoaram o imaginário de navegadores e exploradores antigos, como é o caso de Hanão, navegador cartaginês. N’O Périplo de Hanão são referidas as ilhas da Costa Ocidental Africana, embora alguns especialistas defendam que este relato da viagem de Hanão seja uma efabulação, argumentando que existiam mulheres entre a tripulação e a paisagem além das Colunas de Hércules (Estreito de Gibraltar) seria em simetria com o Nilo, nomeadamente, no que concerne à descrição da fauna e da flora.

Hesíodo, nos seus Trabalhos e Dias, refere-se às Ilhas Afortunadas como o lugar onde descansam os semideuses, intocados pela tristeza. Essas ilhas situam-se ao longo das costas do profundo e serpenteado oceano. Píndaro, nos Epinícios, tal como o poeta da Beócia, também menciona as Ilhas Afortunadas como o lugar onde estão os heróis, imaculados de toda a injustiça, que viajam pela estrada de Zeus até à torre de Cronos. Nessas ilhas, brincam os ventos do Oceano e ardem as flores douradas. O motivo mitológico das Ilhas Hespérides continuou a ser caro a outros escritores e um dos mais importantes é o testemunho de Plínio- o-Velho, que na sua História Natural volta a falar das ilhas atlânticas, embora, neste caso, o relato se identifique com o Arquipélago das Canárias. Pensa-se que estas ilhas poderão ter sido visitadas pelo cartaginês Hanão, apesar da primeira citação explícita às Canárias seja de Plínio-o-Velho, que se refere à viagem do rei Juba II da Mauritânia às «Fortunatae Insulae».

A transmissão deste mito clássico foi continuada durante a Idade Média e no período de preparação dos Descobrimentos Portugueses. As Ilhas dos Bem-Aventurados, ao longo da Idade Média, começaram a ser identificadas com a ilha de São Brandão, ponto geográfico que aparece em alguns portulanos (por exemplo, o de Angelino Dulcert, 1339) no lugar do Arquipélago da Madeira. Igualmente, no mapa de Pizigani (1367), o arquipélago é referido como as Ilhas do Sono ou Ilhas de São Brandão «Ysole detur sommare sey ysole pone, ysole brandani». No mapa de Beccario (1426), há uma referência explícita ao Arquipélago da Madeira como as ilhas de São Brandão e Afortunadas. O mesmo acontece com os mapas de Weimar (+/-1424), de Pareto (1455) e Benincasa (1482). Por este roteiro, depreende-se que há uma forte tradição clássica de identificar a primeira terra do novo mundo com as Ilhas dos Bem Aventurados.

Outra referência de natureza diferente às ilhas atlânticas é o mito da Atlântida, em que Platão fala de um povo que habita uma grande ilha para lá das Colunas de Hércules, no Grande Mar Oceano, que tem por intento dominar os povos da bacia do Mediterrâneo. A Atlântida, uma potência naval, desaparece misteriosamente, implodindo na vastidão azul do oceano, e pressupõe-se que o testemunho da sua existência seja os Arquipélagos da Madeira e dos Açores. Ainda hoje, a busca da Atlântida se repercute pela investigação de entendidos e curiosos, além de fazer parte do fantástico da Madeira e dos Açores. De notar que, em Platão, o mito da Atlântida é uma justificação para a supremacia civilizacional de Atenas, pois trata-se de uma dicotomia entre dois mundos antagónicos, sendo que, 9000 anos antes da existência do filósofo, a potência atlântica desaparece.

Mais próximos dos nossos dias e no que se refere à Cultura Clássica, a Madeira, sendo uma sociedade de cariz europeu ocidental, projeta no seu quotidiano os vetores orientadores das traves-mestras do pensamento europeu. É uma sociedade influenciada pelo universo Judaico-Cristão e, igualmente, pela orientação Greco-Latina.

Desde cedo, essa diretriz faz-se sentir no campo da estruturação dos «curricula» presentes nas aulas do Colégio e, a posteriori, do Liceu do Funchal. O ensino dos Jesuítas, responsáveis pelo Colégio, baseava-se no documento que preconizava um currículo uniforme para todas as escolas da Companhia de Jesus, a Ratio Studiorum (1599). Baseada nas orientações do pedagogo romano Quintiliano, o ensino assentava sobre a aprendizagem do Latim, veículo de ligação da civilização europeia e transmissor de toda a cultura superior, o que reforça o elo com a Antiguidade Clássica. Após a saída dos Jesuítas de Portugal, expulsos pelo Marquês de Pombal, foram abertas, no Funchal, as «Aulas do Páteo», que constavam de três aulas de Latim, uma de Grego, outra de Retórica e outra de Filosofia, o que mantém um ensino intensamente ligado aos clássicos greco-latinos. Com a instalação definitiva do Liceu do Funchal, o currículo volta a sofrer alterações mais significativas, embora constem as disciplinas de Gramática Portuguesa e Latina, Clássicos Portugueses e Latinidade e de Oratória, Poética e Literatura. Nos dias atuais, além das escolas secundárias da Região, a Universidade da Madeira é responsável pela divulgação da Cultura Clássica, através dos seus cursos em Humanísticas, dos trabalhos científicos dos seus investigadores e da realização de ações de formação e de divulgação desse vasto património cultural.

Em termos literários, algumas personalidades se evidenciaram no cultivo/divulgação da Literatura Clássica. O Padre Manuel Álvares, famoso jesuíta nascido na Ribeira Brava, autor de De Instituione Grammatica Libri Tre, compilou uma seleção do Livro XIV dos Epigramas de Marcial, editada por João Barreiro, em 1569 (Lisboa).

Relembramos também a obra do Deão António Joaquim Gonçalves de Andrade, nascido no Funchal a 7 de dezembro de 1795 e falecido em Lisboa a 16 de janeiro de 1868. Viveu em Itália durante algum tempo, tendo fixado, posteriormente, residência em Lisboa. Em 1844, regressou à Madeira para combater a efervescência protestante do pastor Robert Kalley. Mais tarde, foi nomeado Deão da Sé do Funchal (1853). Da sua ação em relação à Cultura Clássica ficam as notas para a tradução d’Os Fastos («Fasti») de Ovídio da autoria de Castilho, um calendário poético romano que aponta as principais festividades romanas com a respetiva origem e explicação mitológica. Esta obra encontra-se incompleta, devido ao exílio do poeta Ovídio «Ex Punto».

A narrativa Argonáutica da Cavalaria, de Tristão Gomes de Castro, século XVI, é uma outra reminiscência clássica na produção literária madeirense. Sendo a novela de cavalaria um género comum na Península Ibérica do século XVI, o apontamento clássico reporta-se à invocação da Mitologia Clássica, através da explícita referência do título à obra de Apolónio de Rodes, Argonáutica. O título induz o leitor numa possível ligação erudita da obra em questão, o que resulta bem na figura das aventuras de Jasão e dos restantes ocupantes da embarcação Argos, os Argonautas, em busca do velo dourado, além de transmitir um caráter épico. Tristão Gomes de Castro nasceu no Funchal a 3 de setembro de 1539 e morreu a 14 de março de 1611 e é descente de João Gomes, conhecido pelo «Trovador».

A Cultura Clássica, nas Letras, conta com outros admiráveis registos, como a tendência para a publicação de epopeias clássicas, inspiradas na Eneida de Virgílio, e a recursividade à presença de elementos mitológicos na poesia e outros géneros. No primeiro caso, destaca-se Francisco de Paula de Medina e Vasconcelos (n. Funchal, 20-11-1768 / m. Ilha de Santiago, 1824) com dois poemas épicos, a Zargueida (Lisboa, 1806) e Georgeida (Londres, 1819), em que o título das obras oferece, pelo sufixo «–eida», uma associação erudita à obra de Virgílio. A estrutura das obras é a de uma epopeia clássica, sendo Zargueida o poema do descobrimento da Ilha da Madeira e Georgeida um texto épico dedicado a Robert Page. No que concerne à presença de elementos mitológicos da Antiguidade Clássica na poesia, destaca-se o poeta Eduardo Ernesto de Carvalho, de cariz parnasiano.

Noutros campos de apropriação da Cultura Clássica, ao visitante saltam à vista dois exemplos evidentes no roteiro turístico da cidade do Funchal (na Câmara Municipal e no Mercado dos Lavradores). A temática é a mesma e referem-se ao episódio mitológico de Leda e o Cisne. As fontes literárias deste mito, na Antiguidade, têm duas fontes, As Bacantes, do tragediógrafo grego Eurípides, e As Metamorfoses, do poeta latino Ovídio.

Leda era uma princesa, filha de Téstio, rei da Etólia, e de Eurítemis. Tinha como irmãs Hipermnestra e Alteia. Casou com o exilado Tíndaro de Esparta, que obteve refúgio no palácio de Téstio. Quando Héracles devolveu o trono a Tíndaro, o casal regressou à Lacedemónia. Aconteceu que Zeus, atraído e encantado com a beleza de Leda, ao vê-la banhar-se no rio Eurotas, quis possuí-la. Anteriormente, Leda já haveria recusado essa união, mas, desta vez, o pai dos deuses aproximou-se ardilosamente sob a forma de um cisne. Apresentou-se como perseguido por uma águia, despertando a compaixão da princesa e conseguindo a desejada união. Desta, juntamente com a união com Tíndaro, nunca recusada por Leda, resultaram dois ovos, cada um com um par de gémeos, os famosos Dioscuros, Polux e Clitemnestra, Helena e Castor. Cada par era constituído por um gémeo divino, da união com Zeus (Polux e Helena), e por um gémeo humano, da união com Tíndaro (Clitemnestra e Castor).

«Leda e o Cisne» ilustra uma das funções primordiais da mitologia, a relação entre os deuses (o transcendente) e o mundo dos humanos (o imanente). Nesta situação, a relação deu origem a novos seres, onde se encontram, lado a lado, deuses e humanos. O cisne é, igualmente, um animal gracioso e de porte majestático, pleno de elegância, equilíbrio e força, surgindo como um animal misterioso, transformista e símbolo de fertilidade, a que não será alheio o facto de o painel de mosaicos ter sido colocado primeiramente num local de prosperidade para o comércio da cidade. O chafariz que representa essa lenda e que, presentemente, se encontra no átrio do Palácio do Conde Carvalhal, atual edifício da Câmara Municipal do Funchal, foi, originalmente, colocado no Mercado D. Pedro V (aberto a 19 de dezembro de 1880), na foz da Ribeira de Santa Luzia. A estátua em mármore que encima o chafariz (conjunto de quatro bacias encimadas pela representação de Leda e o Cisne) data de 1880 e foi encomendada em sessão camarária de 27 de novembro de 1879 a Germano José Salles, com oficina em Lisboa, à Rua do Arsenal, 26. No atual Mercado dos Lavradores há uma referência ao Mercado D. Pedro V e ao famoso chafariz de Leda e o Cisne, através de um azulejo exterior numa das laterais do edifício, concebido pela Faiança Battistini de Maria de Portugal, em Lisboa. No Museu da Quinta das Cruzes, encontramos a recorrência a este motivo da mitologia clássica numa pintura do século XVIII, exposta na Sala do Espólio do Major João dos Reis Gomes.

No Museu de Arte Sacra do Funchal há uma representação do deus Jano, entidade com duas cabeças, uma que olha para o passado (para trás) e outra para o futuro (para a frente), numa salva exposta e que faz parte do Tesouro da Sé do Funchal. Jano é uma divindade latina, sem paralelo na mitologia grega, a quem Saturno atribuiu o dom da dupla ciência, a do passado e a do futuro, da passagem de estados ao longo da vida. O seu culto na Roma Antiga supõe-se ter sido introduzido por Rómulo, aquando do rapto das sabinas pelos romanos. Os sabinos, fruto da traição de Tarpeia, penetraram em Roma para reaver as suas mulheres, aparecendo Jano para socorrer os romanos, ao fazer brotar uma torrente de água quente que obrigou a retirada dos invasores. Assim, sempre que Roma se encontrava em guerra, as portas da cidade permaneciam abertas de modo a facilitar a ajuda de Jano, daí que os seus símbolos sejam a chave e o cajado dos porteiros da cidade. Jano é um deus cujo poder protetor se estende a todo o interior e exterior. A ele são atribuídas as habituais caraterísticas da Idade do Ouro: honestidade dos homens, abundância e paz profunda. A salva de Jano carateriza-se também por uma legenda circular a envolver as duas cabeças: «SEM/DE/FE/REM/SA».

No mesmo museu, existe uma outra salva com a representação de Lucrécia. Esta dama romana era filha do perfeito romano Espúrio Lucrécio Triciptino e esposa de Lúcio Tarquínio Colatino. Segundo conta o historiador Tito Lívio em Desde a fundação da cidade, Lucrécia teria sido violada por Sexto, filho do rei Tarquínio, o Soberbo. Perante isto, e sendo uma mulher virtuosa, suicidou-se após ter contado o episódio ao esposo e ao pai. Com o motivo de Lucrécia, existe uma outra salva em prata dourada, no Museu Quinta das Cruzes, em que a representação virtuosa de Lucrécia (sempre o momento do suicídio) é circundada pelos Sete Pecados Capitais. Quer a salva com Jano, quer as salvas com Lucrécia, são objetos utilizados no culto Cristão e que, apropriado de duas figuras pagãs da Antiguidade Clássica, servem os propósitos da evangelização. Por um lado, temos um Jano protetor e uma entidade querida pelos seus princípios idóneos, por outro lado, deparamo-nos com a figura de Lucrécia e a virtude perante a violentação de que foi alvo. A representação da Mitologia Clássica na ourivesaria também se explica pela permeabilidade do maneirismo aos motivos da arte italiana.

No Universo de Memórias de João Carlos Abreu existe uma pintura da escola holandesa/alemã intitulada «A morte de Lucrécia» (século XVII/XVIII) com a representação do suicídio de Lucrécia, mais recente que as referidas salvas de ourivesaria portuguesa e flamenga, que, estando num museu de referência no contexto da Ilha, expressa o facto da Cultura Clássica ser um mundo sempre presente na construção da atualidade e de assumir uma importância capital na transmissão e formação do pensamento ocidental. Outros símbolos da Cultura Clássica aparecem nas sociedades ocidentais, como é o caso da Justiça, representada por uma estátua da deusa romana homónima e que constitui o principal pilar da democracia. A obra de 1962 presente no Tribunal do Funchal é da autoria de António Duarte.

Ao passearmos pela capital madeirense e, certamente, por outros lugares da Ilha é de realçar a influência clássica em edifícios públicos, como é o caso da entrada do Banco de Portugal, ladeada por duas colunas de estilo clássico. O hábito de nas dedicatórias ou objetos de homenagem a personalidades relevantes da sociedade estar a citação de um poeta clássico é uma outra forma de nos mantermos ligados à grandiosidade eloquente herdada da Antiguidade Clássica. Há notícia, no Elucidário Madeirense, de que quando José Silvestre Ribeiro se despediu do cargo de Governador Civil (1846-1852), a população, por encargo público, decidiu entregar a esta personalidade um colar de ouro ricamente trabalhado por Vicente Gomes da Silva, com uma medalha na qual constava o verso 609 do Livro I da Eneida de Virgílio: “A tua honra, o teu nome e a tua glória permanecerão para sempre”.

A Cultura Clássica é uma das heranças mais ricas e importantes que continua bem visível no quotidiano das sociedades contemporâneas ocidentais. Pelos exemplos demonstrados nos vários campos da expressão humana, a Madeira pauta-se por uma estruturação assente nas raízes da cultura e no passado greco-latino, em simultâneo com o judaico-cristão. A recorrência à Mitologia e às diversas formas de expressão artística clássicas, presente no espaço exterior profano e sagrado, bem como na conservação da memória nos espaços museológicos, transmite uma legitimação social e cultural baseada numa Cultura Clássica incontornável e, ao mesmo tempo, essencial para a edificação das gerações hodiernas.

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Paulo Figueira

(atualizado a 28.07.2016)