defesa

A defesa da Madeira deve ser interpretada nas várias vertentes, quer em relação às ameaças externas, quer internas, e inclusivamente em relação aos agentes atmosféricos e à ocorrência de aluviões, por ventura uma das mais graves e constantes ameaças da cidade do Funchal, dada a sua orografia e o facto de ser cortada por três caudalosas ribeiras. Este aspeto motivou contínuas querelas entre o governador e a câmara do Funchal, dado que, para o primeiro, as verbas da “imposição”, imposto criado especialmente para assuntos de defesa, deveriam ser gastas nas fortalezas e no pagamento das forças militares, enquanto para a câmara, deveriam também contemplar as muralhas das ribeiras para a defesa imediata da cidade (Imposição).

A planificação e efetivação da fortificação das Ilhas Atlânticas com vista às alterações do quadro estratégico do Atlântico Norte foram tardias, ao contrário do Norte de África, onde uma população islamizada nunca aceitou de bom grado a presença portuguesa. Para além disso, o domínio quase total das rotas marítimas pelos portugueses, entre os finais do século XV e os inícios do XVI, também não suscitava a especial necessidade de se executarem obras de fortificação nas isoladas Ilhas Atlânticas, para além de as mesmas acarretarem importantes despesas e de os proprietários locais não estarem muito dispostos a abdicar dos seus lucros para fazer face a uma hipótese que, em princípio, não se colocava com urgência.

Por 1475, teria sido solicitada à Ordem de Cristo a construção de uma fortaleza no Funchal, pois que, no ano seguinte, a infanta D. Beatriz, enquanto administradora em nome do seu filho D. Diogo, por carta de 20 de fevereiro de 1476, alegava ter visto a missiva enviada sobre a necessidade da fortificação, que apontava «o lugar e a disposição dela», mas, dada a situação da sua fazenda e outras razões não especificadas, exortava o capitão a remediar localmente a situação. O infante D. João de Portugal casara, em 1471, com a sua filha D. Leonor, que tivera um filho em 1475. Entretanto, o rei D. Afonso V entregara a regência ao futuro D. João II e invadira Castela para defender as pretensões ao trono da sua sobrinha D. Joana, a Beltraneja. Por sua vez, em janeiro de 1476, o futuro D. João II entregara a regência à jovem mulher e invadira igualmente Castela em apoio do pai, pelo que a situação da infanta D. Beatriz, mãe da rainha regente e administradora da Ordem de Cristo, era então muito delicada para decidir sobre as obras de fortificação na Madeira.

No entanto, a infanta D. Beatriz não terá descurado o assunto e, determinando a montagem de postos alfandegários na Madeira em 1477, um no Funchal e outro em Santa Cruz, enviou algum tempo depois, pelo menos para este último, algumas bocas-de-fogo. Tomando posse da administração da Ordem de Cristo, o duque D. Manuel mandou averiguar, a 22 de março de 1485, a situação dessas bocas-de-fogo, pois tinha informações de que não teriam chegado sequer a ser montadas. Mais de cem anos depois, por volta de 1595, segundo refere o mestre das obras reais na sua saída do Funchal, a situação mantinha-se e, embora seja difícil acreditar que tantos anos depois se tratassem das mesmas, tudo parece indicar que assim o fosse, pois não há informações posteriores do envio de bocas-de-fogo para Santa Cruz.

Alguns anos mais tarde, seria o rei D. João II a determinar ao duque D. Manuel a fortificação do Funchal, enviando este um completo regimento de fortificação, em 21 de junho de 1493, semelhante ao que teria sido determinado para Setúbal e que não tivera efeito. Em causa estavam as negociações com Castela para uma nova partilha dos mares, depois da viagem de Cristóvão Colombo às Antilhas, e as queixas apresentadas aos embaixadores de D. João II de que haviam partido da Madeira várias caravelas na mesma rota. Os habitantes do Funchal, entretanto, assustaram-se com o projeto de fortificação e os custos que isso representava, enviando a Lisboa dois delegados, Álvaro de Ornelas e Nuno Caiado, a fim de pedirem para se não fazerem as muralhas. Resolvido o diferendo com Castela e, nas vésperas do Tratado de Tordesilhas, a 9 de janeiro de 1494, D. João II escreveu à câmara do Funchal aceitando as razões dos procuradores e adiando o projeto.

Os contatos a esse respeito devem-se ter mantido pelos anos seguintes, pois que, por carta de 1523, D. João III, a pedido da câmara do Funchal, determinava ao capitão, ao provedor e a «alguns pedreiros e pessoas que o muito bem entendam» que se reunissem para discutirem a localização e orçamento dos baluartes a construir em Santa Catarina e no Corpo Santo, obras para as quais deveriam ser cativados os impostos das carnes e dos coiros que costumavam vir dos Açores e de Safim, em Marrocos. Desconhecemos se foi feita a reunião no Funchal e enviada a proposta para Lisboa, pois não temos qualquer informação sobre essas obras naquela data.

Nesse quadro, só depois de um ataque de um navio biscainho, que em 1528 roubara dois navios à carga no porto do Funchal, foi requerida ao rei a construção de uma fortificação, queixando-se então a população de que nada havia para a defesa no porto. A ordem veio em 1529, cativando os dinheiros da imposição das carnes, até então destinados a melhoramentos da cidade, o que se começou a fazer no ano seguinte. Porém, a inicial fortaleza, um baluarte com o seu muro, só veio a ser levantada entre 1540 e 1541, altura em que dirigia a obra o pedreiro Estêvão Gomes e em que esta deve ter sido mais ou menos concluída. No final de 1542, o rei D. João III insistia para se acabar a obra do baluarte e, pela mesma data, foi nomeado um alcaide para guarda do mesmo, Jerónimo Cabreira, com um ordenado de oito mil réis, tudo indicando que nessa data a obra estava já concluída. A fortificação encontrava-se artilhada com um conjunto excecional de peças de bronze na frente-mar, enviadas de Lisboa logo em 1529 e que, pelo menos em 1551, já se encontravam guarnecidas e com um condestável de bombardeiros, então Álvaro Afonso. Entretanto, o capitão do Funchal retirava-se para Lisboa com o alcaide Jerónimo Cabreira e, a 14 de maio de 1555, tomava posse como alcaide da fortaleza do Funchal João de Ornelas de Magalhães (Fortaleza e palácio de S. Lourenço).

A organização militar das capitanias assentava na figura de um sargento-mor encarregado do recrutamento das companhias de milícias (Sargento-mor), sob a tutela do capitão-donatário. No entanto, a ausência dos capitães das suas capitanias, limitou obviamente essa organização. O capitão do Funchal encontrava-se em Lisboa e tinha deixado a direção da capitania ao tio, Francisco Gonçalves da Câmara (c. 1510-c. 1586), o mesmo acontecendo em Machico, onde a capitania tinha sido entregue aos condes de Vimioso, que nunca a ela se deslocaram, governando-a por ouvidores. Entretanto, a corte de Lisboa enviou para as capitanias da Madeira legislação vária sobre a organização militar, mas, sem uma direção efetiva local dos capitães-donatários, esta não passou do papel e nem sequer foi feito o seu correto registo cronológico nos tombos camarários (Guarnição Militar).

A fortaleza do Funchal e a organização defensiva militar geral mostraram-se assim totalmente incapazes perante o ataque corsário francês de outubro de 1566. A fortaleza foi atacada por terra, onde não possuía qualquer proteção, e, não sendo possível movimentar as pesadas bocas-de-fogo apontadas para o mar, não resistiu ao ataque corsário. Não apareceu qualquer organização defensiva na cidade e inclusivamente as organizadas em Santa Cruz, sob o comando dos capitães Francisco Lomelino e António de Freitas, e no Norte da Ilha, com António do Carvalhal, foram impedidas de entrar na cidade pelo governador em exercício, então prisioneiro dos franceses. O Funchal sofreu, então, um pesado saque de cerca de 15 dias a que quase nada escapou.

Na armada de socorro à Madeira vieram, entretanto, com o capitão do Funchal e o futuro herdeiro da capitania, alguns padres da Companhia de Jesus, não fosse ter havido contaminação das possíveis ideias luteranas dos corsários franceses. Em princípio, na mesma armada veio também um arquiteto militar altamente habilitado, Mateus Fernandes (III) (c. 1520-1597), ligado à família dos arquitetos do mosteiro da Batalha, e ainda alguns militares continentais para reverem a organização das companhias de ordenanças e as vigias. No Funchal acabaram por ficar o donatário e o arquiteto militar, prometendo os padres da Companhia voltarem para proceder à montagem de um colégio.

O novo mestre das obras reais da Madeira, Mateus Fernandes, recebia, nos primeiros dias do seguinte ano de 1567, ordens várias enviadas pela provedoria das obras em Lisboa, entre as quais o «Regimento de Vigias», datado de 22 de abril de 1567. Este documento serviu de ensaio ao regimento geral promulgado depois em todo o reino a 10 de dezembro de 1570. Nessa data, promulgou-se igualmente o «Regimento dos Capitães-Mores e mais capitães e oficiais das companhias da gente de cavalo e de pé, e da ordem que terão em se exercitarem» (ARM, Câmara Municipal do Funchal, Registo Geral, t. 5, fls. 105v.-107v.), assinado pelo então escrivão de puridade P.e Martim Gonçalves da Câmara (c. 1539-1613), versão ampliada dos regimentos enviados anteriormente para a Madeira (Ordenanças).

O «Regimento das Vigias» de 1567, dirigido ao capitão do Funchal, mandava montar vigias em todos os portos, «calhetas, praias ou pedras, em que parecesse que os inimigos poderiam desembarcar». As vigias seriam montadas de dia e de noite, e os sinais de alarme seriam dados por fachos, fazendo tantos sinais de fumo quantas as velas avistadas. Os sinais entre as localidades seriam dados através do rebate de sino. Este regimento avança ainda com outras diretivas respeitantes à artilharia, tendo sido a base de muitos dos pequenos fortes ou fortins depois levantados na ilha (Arquitetura Militar). Em março de 1567, Mateus Fernandes recebia ainda a visita e o apoio do grupo de dois arquitetos italianos, que lhe trouxeram um primeiro regimento de fortificação para o Funchal, datado de 14 de março desse ano. Com esta colaboração, o mestre das obras do Funchal levantou uma planta da cidade, em princípio, pois poderia já tê-la executado antes, que se encontra na biblioteca nacional do Rio de Janeiro, e imaginou uma enorme fortaleza para o morro da Pena, que descia até à praia do Funchal, ocupando toda a atual «zona velha» ou bairro de Santa Maria Maior.

Tratou-se de um planeamento que não foi aceite em Lisboa, optando-se por um esquema mais tradicional, já imaginado nas muralhas dos finais do séc. XV, que os moradores não tinham então achado necessário (Muralhas do Funchal). D. Sebastião enviou, assim, em 1572, um novo regimento de fortificação, em que a cidade era envolvida na frente-mar e ao longo das ribeiras de João Gomes e de São João por panos de muralhas, que fechariam nos morros da Pena e de São João com pequenas posições fortificadas. A fortaleza central, futura fortaleza de São Lourenço, foi ampliada com o planeamento feito por Mateus Fernandes para o morro da Pena, mas reduzida a menos de um terço das dimensões iniciais, estando já em obras para residência do capitão em 1571. Como apoio da fortaleza principal, seria executada uma pequena estância fortificada a ocupar a foz das ribeiras de Santa Luzia e de João Gomes, a futura fortaleza de São Filipe da praça do Pelourinho, havendo um pano de muralha a unir ambas, do qual quase nada ficou. A cidade considerada por D. Sebastião era um pouco maior do que a de D. Manuel, ou seja, o limite oriental passou da ribeira de Santa Luzia para a de João Gomes.

Forte de S. Filipe, Arq. Rui Carita: 1875.
Forte de S. Filipe, Arq. Rui Carita: 1875.

No verão de 1582, Filipe II mandara avançar das Canárias o conde de Lançarote, D. Agostinho de Herrera y Rojas (1537-1598), por disponibilização do mesmo a 26 de janeiro desse ano. O conde veio com cerca de duzentos milicianos, reforçados com artilheiros tudescos de Sevilha (Guarnição Militar), para fazerem face à ameaça das armadas de D. António, prior do Crato, com base no vizinho arquipélago dos Açores e por haverem, entretanto, falecido em Almeirim o capitão do Funchal e o seu filho mais velho vitimados pela peste.

A chegada destas forças causou algum pânico na população da cidade, embora o conde fosse ali conhecido, bem como alguns dos seus homens. No entanto, os artilheiros tudescos enviados pelo embaixador D. Francés de Alava foram logo dados como luteranos e os mouros da guarda pessoal do conde lembraram, de imediato, a triste memória das escaramuças de Santa Cruz de Cabo de Guer, pelo que o licenciado João Leitão e o juiz de fora Manuel Vieira tiveram de vir à rua explicar tudo à população amotinada. As primeiras preocupações do conde de Lançarote visaram a segurança interna e externa da ilha, começando por visitar de imediato as duas fortalezas com o mestre das obras reais Mateus Fernandes e inteirando-se do seu estado e das suas necessidades. Conforme informa logo a 18 e 26 de junho, a fortaleza velha era essencialmente um bom palácio residencial, infelizmente cercada de edificações muito próximas e padrastas, pouco valendo assim como defesa. A nova ainda se encontrava em piores circunstâncias, pouco havendo que fazer para melhorar as suas condições, pois não só se encontrava mal localizada, como mal construída.

Perante o conflito que opunha as forças de Filipe II às de D. António, Prior do Crato, com franceses e ingleses, e envolvendo muitas centenas de homens de parte a parte, a pequena estância «Nova» da praça do Pelourinho do Funchal era mínima para as necessidades. A fortaleza tinha umas pequenas casas para a guarnição, calculada por Mateus Fernandes, 10 anos antes, em não mais de 15 ou 20 homens. As fortalezas e o seu autor, o mestre das obras reais Mateus Fernandes, receberam as mais duras críticas dos governadores e técnicos desse final de século, dado não estarem preparadas para fazer frente a um conflito como o que se desenrolava.

Com a união das coroas de Portugal e Castela, especialmente com as dificuldades sentidas nos Açores, por cujos mares passavam periodicamente as armadas de França e da Inglaterra em apoio às pretensões de D. António, prior do Crato, foram novamente repensadas as defesas do Funchal. Efetivamente, o regimento promulgado em 1572 não previa então a possibilidade de um inimigo como o configurado com as armadas inglesas de Francis Drake e outros corsários ou piratas, pelo que foi de imediato repensado o esquema então levantado, que não defendia conveniente a frente-mar do Funchal, nem o lado poente, por onde haviam entrado os corsários franceses em 1566.

Nos primeiros meses da estadia do conde de Lançarote, organizou-se a defesa da cidade. Entregaram-se as fortalezas às forças do «presídio», ou seja, a uma guarnição militar profissional (Presídio Militar), ficando para as forças de milícias madeirenses a guarda das muralhas, o sistema de sentinelas e rondas. Foram efetuadas ainda três obras importantes na área da defesa nesse espaço de tempo: a construção de um pequeno baluarte junto do convento de S. Francisco, para onde foi transferida uma das grandes bocas-de-fogo da fortaleza de S. Lourenço, com alcance de fogo sobre a torre da sé, que, dada a sua altura e proximidade da fortaleza, teria de possuir um ponto exterior de onde pudesse ser batida eficazmente em caso de ocupação. Outra construção foi a de uma casa para a pólvora, construída na costa e a expensas da câmara, provavelmente na área de Santa Catarina, sendo ainda de destacar uma série de trincheiras que se cavaram nos principais lugares de acesso à cidade.

O conde de Lançarote montou na então fortaleza velha um «gabinete de guerra», ou uma «junta militar», que se reunia todas as segundas-feiras (Comando Militar), gabinete que seria mantido pelos governadores seguintes. Outra das diretivas da junta foi a organização das rondas e do sistema de vigias noturno, encargo que veio a recair sobre o capitão Fernão Favila de Vasconcelos (1536-1601), morgado dos Piornais e comandante de uma das companhias do Funchal. Foram, entretanto, estabelecidos postos especiais entrincheirados junto à igreja de Santiago e às fortalezas Nova e Velha, e, para apoio àquelas fortalezas, fortificou-se a foz da ribeira de Gonçalo Aires, com especial cuidado para evitar as aluviões, como especificou mais tarde, por 1595, o mestre das obras reais.

Mapa, Louros, Arq. Rui Carita.
Mapa, Louros, Arq. Rui Carita.

Logo nos primeiros meses da sua estadia à frente dos destinos da defesa do Funchal e da Madeira, e embora praticamente não interferindo em qualquer das restantes áreas da governação, deixando a justiça e a alfândega entregues ao desembargador João Leitão e a câmara ao juiz de fora Manuel Vieira, o conde de Lançarote, dada a instabilidade vivida nos Açores, foi pressionando sucessivamente o governo de Lisboa, onde se encontrava Filipe II, no sentido de se criar no Funchal uma força militar permanente e profissional. Esta força militar permanente foi a primeira da Madeira, bem como a primeira a instalar-se em São Lourenço, onde haveria de permanecer até aos finais do séc. XVIII, com a sucessiva reposição dos seus elementos. O capitão Juan de Aranda era assessorado pelo segundo oficial Luís de Benevides e pelo sargento Francisco de Hermosilla. As primeiras ações procuraram que essa força não interferisse de forma alguma na vida da cidade, daí a designação de “presídio”, criando-se inclusivamente na fortaleza condições para que os soldados não aparecessem na rua. Assim, foram feitas ampliações nas casernas, com madeira e ladrilhos cedidos pela câmara do Funchal, e criou-se uma padaria, um talho e até uma taberna. Com esta instalação estavam criadas as condições para os milicianos das Canárias voltarem às suas casas, tal como o conde de Lançarote, saindo todos do Funchal a 11 de novembro de 1582.

Com a chegada das forças do capitão Juan de Aranda, o conde de Lançarote pôde passar a preocupar-se com outros assuntos, como eram os aspetos específicos da defesa com a fortificação e organização das forças de milícias e profissionais. Por exemplo, em reunião de setembro de 1582, com a presença do sargento-mor Mateus Cabral, dos capitães Melo, Barrancos, Mauzinho e João Gago Ballanes, assim como do mestre das obras reais Mateus Fernandes, ficou assente a construção de uma importante fortaleza no Pico dos Frias, cujo projeto foi enviado a Filipe II, embora a ordem de construção só tivesse sido concretizada mais de vinte anos depois.

Com o novo governador Tristão Vaz da Veiga (1537-1604), antigo governador de Macau e de São Julião da Barra, foram tomadas, ainda em Lisboa, uma série de providências em relação à organização defensiva, especialmente no que dizia respeito à delimitação de competências e de poderes em relação às forças do presídio. Pouco depois de 1585, quando tomou posse da capitania do Funchal, ampliou ainda o sistema de defesa com a criação de «armadilhas» na forma de embarcações que, sob o aspeto de navios comerciais, se pudessem rapidamente transformar em navios de guerra. O problema do porto do Funchal era então, essencialmente, o pequeno corso inglês e francês, pelo que estas embarcações desempenharam um importante papel na caça desses corsários.

O problema de ampliação efetiva da muralha do Funchal à frente-mar foi resolvido por Tristão Vaz da Veiga, que determinou o prolongamento da muralha para nascente, confrontando com o que passou a ser a entrada do hotel levantado no antigo arsenal de S. Tiago ou de Santa Maria Maior. As obras do novo troço de muralha confinavam com os arrifes existentes por baixo da antiga igreja de Santiago Menor, justificando a construção de uma fortaleza nessa baixa. A fortaleza de Santiago deverá ter tido projeto de Mateus Fernandes, mas este terá sido reformulado depois por Jerónimo Jorge (c. 1570-1618), enviado de Lisboa em 1595, onde esteve até então a trabalhar nas obras de São Julião da Barra e do forte do Bugio. A vinda do novo fortificador parece ter sido pressionada pelo governador Diogo de Azambuja de Melo, na ilha a 3 de janeiro de 1595, que contava com bons serviços prestados na Índia como capitão e com a participação no cerco de Goa, em 1589, já como capitão-mor.

Mapa, Louros, Arq. Rui Carita: 1862.
Mapa, Louros, Arq. Rui Carita: 1862.

Desde a união das duas coroas que se discutia no Funchal a muralha poente e a edificação de uma fortaleza no Pico dos Frias, monte “padrasto”, ou seja, mais alto que toda a cidade e, inclusivamente, com comandamento sobre a fortaleza de S. Lourenço. A possibilidade que se configurava era a de um grande desembarque, novamente na Praia Formosa, como o ocorrido no continente, em 1594, quando Francis Drake desembarcara importantes forças em Peniche que chegaram por terra às portas de Lisboa. Se assim acontecesse e os invasores se instalassem no Pico, poderiam varrer toda a cidade, sendo quase impossível desalojá-los dali. A fortaleza veio a ser levantada por determinação do governador Cristóvão Falcão de Sousa, que, após tomar consciência das necessidades da defesa do Funchal, em finais de 1601, enviou a Lisboa o sargento-mor do Funchal, Roque Borges de Sousa, com a respetiva planta. Regressado o sargento-mor ao Funchal, logo a fortaleza foi levantada, então somente em madeira, embora estivesse já guarnecida nos inícios de 1602.

Os saques na ilha do Porto Santo executados por piratas ingleses, em 1595 e em 1617, por argelinos, constituíram fortes motivos para acelerar as obras de fortificação na Madeira. Avançaram, assim, o muro do Corpo Santo e a fortaleza de S. Tiago, o muro de São João e a fortaleza do Pico. O provedor da Fazenda desta altura, António Antunes Leite, em carta posterior datada de 29 de agosto de 1632, em resposta a um pedido de informação sobre mais uma tentativa de se levantar forças na Madeira para combater no Brasil, contava que, entre 1618 e 1621, a cidade ficou toda murada. Escreve então que a obra dos muros se acabou no tempo em que serviu e que a fortaleza do Pico ficou quase acabada, o que é um certo exagero. Entenda-se que o provedor só muito pontualmente saía do Funchal e que esta carta visava essencialmente a justificação da quase impossibilidade de, mais uma vez, se levantar uma companhia de soldados para combater no Brasil, sobretudo numa altura de profunda crise, como era a que se vivia.

O antigo provedor descreve a cidade com quatro fortalezas, S. Tiago e o Pico, já citadas, a da Praça, “no meio da cidade, junto da qual de uma e outra parte passam duas ribeiras”, e a de S. Lourenço, “que é remate da cidade”, entendendo a do Pico como fora do Funchal. A fortaleza de S. Lourenço era então “inexpugnável, por razão da sua grandeza, obra, sítio e fontes de água que dela nascem”, destacando-se o “bom provimento que tem de artilharia, pólvora e mais munições”, para além de ser o quartel das forças profissionais estacionadas na ilha. Refere ainda o antigo provedor que existiam fortificações em Câmara de Lobos, provavelmente o reduto de S. Sebastião, no alto do Ilhéu, que datava da época de Mateus Fernandes; duas na vila da Ponta do Sol, possivelmente os desaparecidos fortins de que temos referência no séc. XIX, o do Passo e o da praça da Vila, tendo tido este último a evocação de S. João; duas também na Calheta, uma das quais o igualmente desaparecido forte de S. Jorge; no Caniço, “termo do Funchal, para a parte da vila de Santa Cruz”, aquele que deveria ser o forte/vigia da ponta do Areeiro, então dedicado a S. Sebastião; outro em Santa Cruz, de que sabemos ter havido ordem de construção, mas de que só conhecemos referências dos finais do séc. XVII (então a vigia da ponta do Guindaste) e inícios do XVIII (o forte de N.ª S.ª da Graça); e dois em Machico, o forte de S. Roque, que ficava junto à capela desta evocação e que Mateus Fernandes cita como já levantado sumariamente nos finais do séc. XVI, e um outro (ANTT, Corpo Cronológico, I, fls. 118-151), provavelmente onde se levantou depois o do desembarcadouro de São João.

Ruínas de um Forte, Desenho, Arq. Rui Carita: 1850.
Ruínas de um Forte, Desenho, Arq. Rui Carita: 1850.

Nos inícios do séc. XVII, a alfândega do Funchal teve francas dificuldades em conseguir encontrar rendimentos para pagar ao clero local e aos militares castelhanos aqui estacionados. Desta situação nasceram questões melindrosas, com o bispo do Funchal a excomungar os oficiais da pagadoria e os soldados a colocarem cerco ao provedor, não o deixando contactar ninguém, receber água ou comida sem primeiro lhes pagar. Assumindo o 9.º bispo, D. Jerónimo Fernando (c. 1590-1650), que excomungara os oficiais da Alfândega, o lugar de governador, este determinou a fortificação dessas casas, muito provavelmente para obstar a situações como as decorrentes dos cercos dos soldados do presídio castelhano. Foi o próprio bispo que declarou essas obras numa vereação geral camarária, em 1630, no sentido de tentar um financiamento da câmara para as restantes obras de fortificação da cidade, no que não foi muito bem-sucedido.

Em 1644, fazendo referência à necessidade de controlar o contrabando e defender o desembarcadouro das fazendas, o rei determinou a construção de uma fortificação nas casas da Alfândega. A portaria determinava que «se fizesse um reduto que servisse a praia, com respeito à distância que havia de uma a outra fortaleza (São Lourenço e São Filipe do largo do Pelourinho) e se abrisse uma porta para o embarque e desembarque das fazendas». O documento referia ainda que todos os embarques e desembarques se deveriam fazer apenas por essa porta e que, acabadas essas obras, as fazendas que o não fizessem «seriam perdidas para os proprietários» (ARM, Câmara Municipal do Funchal, Registo Geral, t. 6, fl. 70). A fortaleza teria sido construída de imediato, conforme o governador e o provedor mandaram exarar no portal então virado à Rua da Alfândega, em 1644. O principal pormenor da fortificação, como veladamente se fez referência no portal, era o de fechar a fazenda régia à cidade e dar, assim, uma certa segurança ao pessoal ali em serviço. Nesse ano de 1644, reiniciou-se no Funchal a prática da fragata de vigia do porto, ordenando o rei a construção de nova embarcação «para defensão dos navios desta ilha», devidamente armada e equipada, batizada com o nome «São João» (Armadilha) (Ibid., fl. 109).

No entanto, face ao aumento de movimento, revelou-se imprescindível, nos meados do séc. XVII, procurar um outro esquema mais apertado para a vigilância e segurança do porto do Funchal, o que, para além da construção do reduto da Alfândega, obrigava à construção de uma outra fortaleza que controlasse mesmo o porto da cidade (Fortaleza do Ilhéu). As primeiras obras no Ilhéu Grande deverão ter decorrido nos meados da primeira metade do séc. XVII, entre 1634 e 1636, com o governador D. João de Menezes, embora então não deva ter ido além do reconhecimento do local e da reunião de alguma pedra e cal. O pedido oficial foi feito a Lisboa através do provedor da alfândega Francisco de Andrada e do governador, informando que as obras nada custariam à fazenda real dado serem executadas com a «imposição» feita sobre os moradores para reparação e conservação das fortificações. A autorização veio a 10 de fevereiro de 1652, mas as obras arrastaram-se por quase todo o século.

As muralhas do Funchal só seriam definitivamente encerradas quase nos finais do século, na vigência enquanto governador de D. Lourenço de Almada e por determinação régia de 2 de abril de 1688. O portão dos Varadouros veio a ser concluído no ano seguinte, como o governador mandou escrever numa lápide, em latim, que muitos governadores teriam querido acabar aquela obra, mas que lhe coubera a ele fazê-lo. As obras tiveram a direção do ajudante de engenheiro da praça de Setúbal, Manuel Gomes Ferreira, e do ainda estudante de engenharia António Rodrigues Ribeiro, como atesta a certidão do Funchal de 30 de setembro de 1690.

A defesa e a fortificação da Madeira foram revistas várias vezes nesse século. Infelizmente, quer os pressupostos desses trabalhos, quer os elementos intermédios que sabemos terem sido trocados entre o Funchal e Lisboa, assim como os planos finais, não chegaram até nós. Da estadia do capitão de engenheiros António Rodrigues Ribeiro e do engenheiro Manuel Gomes Ferreira, por exemplo, apenas sabemos que teria sido executado o portão dos Varadouros, datado de 1689 (Muralhas do Funchal). Mais tarde, no entanto, em 1705, Manuel Gomes Ferreira referiria que haviam feito um levantamento quase total das costas da Ilha, do qual nada conhecemos. Tudo leva a crer que estes trabalhos tenham ido com os seus autores para Lisboa e aguardado ali despacho favorável, perdendo-se entretanto.

Entre a Praia Formosa e o Funchal, mais especificamente na praia do Gorgulho, ainda se levantou um outro forte, que ficaria com essa designação. As primeiras informações datam de 1618, citando-se, nas Vereações do Funchal (ARM, Câmara Municipal do Funchal, cód. 1321), as «férias do serviço» do pessoal que tinha começado a trabalhar «nos muros e baluarte» que ali se fazia, trabalho que começou a 15 de maio de 1618. O forte, no entanto, foi reformulado mais tarde, ao longo desse século e até ao final do seguinte, articulando-se depois com outras estruturas defensivas (Forte do Gorgulho).

O capitão engenheiro e mestre das obras da Madeira gozava de uma certa independência, embora fosse dependente do governador e do provedor da fazenda, que superintendia a parte económica. Assim, competindo ao mestre das obras reais a superintendência técnica sobre todas as obras decorrentes no arquipélago com dinheiros reais, ou seja, da fazenda real, abarcando a fortificação, as igrejas e, inclusivamente, algumas das edificações feitas nos municípios, este gozava de um amplo espaço de manobra. Nas obras especificamente militares, o mestre das obras era sempre acompanhado por um apontador, responsável também pelo pagamento ao pessoal empenhado nas mesmas. Este lugar foi ocupado por Francisco Homem del Rei desde 1706, sendo ainda confirmado como proprietário do ofício em 1754 o seu filho homónimo. Como seria de calcular, dada a distância da Madeira a Lisboa, assim como da própria alfândega aos vários lugares onde decorriam obras, os conluios e os desvios eram imensos e levaram a posições de certa forma rígidas por parte da coroa e do conselho da fazenda. Em 1721, houve ordem expressa para que não se fizesse qualquer medição nas obras reais sem a assistência do capitão engenheiro, a fim de se evitarem os «conluios» entre os empreiteiros e o escrivão dos contos da ilha, dado ter sido medida exageradamente a igreja, que seria talvez a da matriz de São Pedro, e a sua torre.

A primeira grande campanha de obras de fortificação decorreu no governo de Duarte Sodré Pereira, um fidalgo-mercador que tomou posse a 29 de abril de 1704, como ficou exarado no demolido forte Novo de São Pedro, na praia do Funchal, onde se levanta hoje o Campo Almirante Reis: «No último ano de governo del rei D. Pedro II, nosso senhor, mandou levantar este forte de S. Pedro, o governador e capitão general Duarte Sodré Pereira e juntamente os de Machico, Santa Cruz e Ribeira Brava, que se guarneceram de artilharia que meteu nesta Ilha, que foram 54 peças, além de munições, armas e outros reparos que fez fazer em todas as fortificações dela. E tudo se acabou no ano de 1707». A data refere o forte Novo de São Pedro, pois a campanha geral de obras só estava completa entre 1708, data limite das lápides, e 1711, ano das últimas nomeações. Foram assim construídos nesta campanha de obras os dois fortes de Machico (Fortes de Machico), o da praia da vila de Santa Cruz, dedicado a N. S. da Graça e Águas Belas, em homenagem ao governador (Fortes de Santa Cruz), o de S. Bento da Ribeira Brava (Fortes da Ribeira Brava), assim como dois redutos na costa norte, no Porto da Cruz e no Porto do Moniz, que não teriam passado então de simples organizações de terreno, só passadas a pedra e cal ao longo do século (Fortes da Costa Norte). Também a este governador se ficou a dever o aprovisionamento destas fortificações com o chamado «pão de munição», principalmente no difícil ano de 1712, durante o qual decorreram vários ataques franceses às nossas possessões ultramarinas e foram tomadas especiais medidas de defesa. Tratou igualmente do provimento de pólvora, munições e bocas-de-fogo, que mandou vir de Lisboa e mesmo de outros locais, como de Londres e de Amesterdão, usando os rendimentos da fazenda do Funchal.

Em relação ao Porto Santo, a posição do governador Duarte Sodré Pereira foi de alguma forma ambígua, dado não ser governador dessa ilha, que só seria integrada no governo do Funchal com o gabinete pombalino. Assim, quase se deduz de um parecer seu, datado de 30 de janeiro de 1710, que não havia qualquer necessidade de construção de uma fortaleza naquela ilha. O governador da Madeira alvitra então a construção de um pequeno forte junto à praia, com seis peças de artilharia para bala de dez a doze libras, a fim de que os moradores pudessem defender o lugar dos ataques de algum corsário. Esta fortaleza permitiria, pois, a retirada da população para o Pico. A fortificação deveria ser feita por arrematação e a despesa deveria sair da décima da Ilha, a ser futuramente implantada, pois naquela Ilha se não pagava décima, nem usual, nem, acrescenta, «tributo algum que eu tenha notícia, salvo o do tabaco». Como saíam então da Ilha cerca de oitocentos moios de trigo e de cevada por ano, havendo pedra, cal e areia, poderia fazer-se uma obra em condições: «correndo a obra por mão de quem a zele, ainda melhor e nessa ocasião, se poderá fazer algum reparo preciso no dito forte do Pico» (ANTT, Conselho da Guerra, Consultas, mç. 124). Só perto dos finais do século o novo forte viria a ser levantado (Fortes do Porto Santo).

Parece que Duarte Sodré Pereira, pelo menos durante algum tempo, trabalhou sem mestre das obras reais, opondo-se à nomeação oficial de Manuel de Vasconcelos para tal lugar e para o de engenheiro, pois, ainda que o tenha provido interinamente, não o achava com competência para provimento definitivo. Em carta datada de dezembro de 1711, expõe a situação a Paulo Freire de Noronha, pedindo a sua intercedência no Conselho da Guerra (SILVA, 1992, 47). Parece que as razões de Duarte Sodré Pereira foram ouvidas, uma vez que, nesse ano de 1711, seria nomeado para o lugar Inácio Gomes Fragoso. No entanto, dado ser continental, este ficou pouco tempo na ilha, acabando Manuel de Vasconcelos por conseguir o lugar pretendido.

O mapa das fortalezas da ilha da Madeira em 1754, enviado pelo governador Manuel de Saldanha de Albuquerque, refere que algumas das fortalezas que se fizeram «no tempo da última guerra, sem para elas precederem ordens de Sua Majestade, nem concorrer a sua real fazenda» se achavam «com ruína, porque pela provedoria da fazenda da Ilha se duvida fazer a despesa do seu concerto» sem autorização de Lisboa. Esta referência do governador deve indicar as fortificações levantadas na vigência do governador Duarte Sodré Pereira, quase por sua exclusiva responsabilidade e direção. Aponta ainda esta referência para o contínuo conflito institucional entre a direção do governador para este tipo de obras e despesas e a do provedor da fazenda do Funchal, responsável pelo seu efetivo pagamento. A partir dos finais do séc. XVII ou inícios do séc. XVIII, o governador passou a dispor, em São Lourenço, de uma carga geral da fortificação, embora só conheçamos o terceiro livro, de 1725 a 1730, mandado fazer pelo governador Francisco da Costa Freire (ARM, Governo Civil, liv. 418), o que representa uma certa centralização desta área em São Lourenço em relação à provedoria da fazenda.

O Livro de Carga da Fortificação de 1725-1730 menciona os «fortes» de São Lourenço, da Alfândega, São Filipe da Praça, São Pedro, Santiago, São João do Pico, Penha de França, Ilhéu, Loures e Gorgulho no Funchal. Na área oeste da ilha, regista somente o reduto da Praia Formosa, quando ali havia cinco redutos fortificados, o do lugar de Câmara de Lobos, de São Bento da Ribeira Brava, da vila da Ponta do Sol, do lugar da Madalena do Mar, da vila da Calheta e do lugar do Paul do Mar. Para nascente, o reduto do Caniço, o forte da Graça da vila de Santa Cruz, os fortes do Amparo e de São João de Machico e, na costa norte, somente o reduto do Porto do Moniz (Ibid.).

Mais tarde, o «Mapa do Presídio Militar pago da ilha da Madeira», enviado em outubro de 1754 pelo governador Manuel Saldanha de Albuquerque (1712-1771), posteriormente conde da Ega e vice-rei da Índia, depois da sua tomada de posse, assinala, referindo-se à fortificação, que nas fortalezas e vigias se vai «fazendo o necessário». Acrescenta que da mesma sorte, e havendo falta de armas e munições, se compravam pela provedoria com o dinheiro “dos quatro e meio por cento”, que para isso era aplicado. A maior necessidade que havia era de «artilharia de bronze, colubrinas e de balas do seu calibre» (AHU, Madeira, doc. 47), porque as que existiam na ilha se consideravam inadequadas.

Foi nesta sequência, e na tentativa de prover a direção das obras do porto do Funchal, que o governador conseguiu a vinda do engenheiro Francisco Tosi Colombina (1701-c. 1770) para o Funchal, com patente de capitão de infantaria e «com exercício de engenheiro», datada de 11 de março e 5 de junho de 1756, dia em se apresentou na ilha (ANTT, Provedoria…, liv. 973, fls. 287-288v.). Convém salientar que Tosi Colombina veio especificamente como engenheiro para as obras do porto do Funchal, não ocupando o lugar de mestre das obras reais, que continuou com o capitão de engenheiros Domingos Rodrigues Martins (c. 1710-1781) (Martins, Domingos Rodrigues). Nessa medida, não esteve sob a superintendência do provedor da fazenda, ficando somente sob a do governador, daí a série de complicações surgidas com as obras do porto, acabando as verbas em causa por passarem para o controlo do governador.

Nos inícios do século, por volta de 1712, foi reformulada a antiga fortaleza de N.ª S.ª da Penha de França, que já figura na planta do Funchal de 1567 ou 1570, da qual era sota-condestável, em 5 de abril de 1713, Matias Gonçalves da Cruz. Esta fortaleza passou a cruzar fogos com a do ilhéu de Nossa Senhora da Conceição, definindo com o chamado «Ilhéu Pequeno» uma área de ancoradouro, que catalisou as hipóteses de construção das instalações de apoio a um futuro porto da cidade. Tosi Colombina dirigiu assim a construção do forte de S. José no chamado «ilhéu pequeno», frente à fortaleza da Penha de França, que foi feito em homenagem ao então rei de Portugal e com o objetivo de proteger o cais da Pontinha então em execução. Igualmente sob a sua inicial direção deveriam ter decorrido as obras de ampliação da fortaleza de S. Tiago, mandando o governador seguinte exarar sobre a nova porta de armas que a «fortaleza foi renovada e acrescentada, sendo governador José Correia de Sá» e que, para a mesma fortaleza, mandara vir de Londres cinquenta peças de artilharia com todos os reparos, no ano de 1767. Tratando-se de uma obra de certa envergadura, foi com certeza projeto daquele engenheiro, sendo de destacar que as obras decorreram durante os anos seguintes (Fortaleza de S. Tiago). Por essa altura também se executaram obras no pequeno forte da Madalena do Mar, de que era ajudante Ambrósio Rodrigues de Sousa Rocha. Em 1758, este pedia um soldo de quarenta mil réis anuais pelo serviço aí prestado, bem como no forte de S. João Baptista do Porto do Moniz, não devendo, no entanto, estar sob a direção do engenheiro Tosi Colombina, pois o modelo de fortificação executado é precisamente o anterior e em tudo semelhante aos fortes do Amparo, em Machico (Fortes de Machico), Novo de São Pedro, do Funchal (Forte Novo de S. Pedro), e São Bento, na Ribeira Brava (Fortes da Ribeira Brava). As primeiras obras do forte do Porto do Moniz teriam tido início na vigência de governador de Duarte Sodré Pereira, por volta de 1711, e sido levadas a cabo pelo capitão-cabo Manuel Rodrigues Ferreira Ferro, a cuja família foi dado o encargo do respetivo forte. Este voltaria, assim, a ser reformulado em 1751, correndo com as despesas a provedoria do Funchal e sendo seu inspetor o capitão-cabo desse distrito, Francisco Ferreira Ferro. As obras foram orçamentadas pelo mestre das obras reais Domingos Rodrigues Martins, mas só terminadas na vigência de governador do conde de S. Miguel, em 1758, conforme ficou exarado na inscrição que existiu sobre a entrada.

Os finais do século adivinhavam um conflito de largas proporções, levando à tentativa de implementação de profundas reformas militares, como a montagem dos terços de ordenanças, que acabaram por não sair do papel. O governo da ilha acompanhava a situação com profunda preocupação, tomando mesmo a opção de iniciar os preparativos para o conflito que se adivinhava e solicitando, assim, urgentes apoios continentais em material de guerra e em oficiais de engenharia, que pudessem rever em moldes modernos as desfalcadas construções defensivas da ilha. Decretou inclusivamente uma ordem de mobilização da população, a 4 de março de 1793, determinando o levantamento do número de homens disponíveis, armamento existente, particular ou distribuído, e mandando levantar o antigo sistemas de vigias e facheiros.

Ao longo desses meses de 1793, e dos anos de 1794 e de 1795, foram chegando reforços em material, ainda que fossem uma gota de água para as necessidades da Madeira e do Porto Santo. Entretanto, os mares da Madeira continuavam perfeitamente infestados de corsários de várias nacionalidades, sendo o controlo, fiscalização e apreensão feito pelas forças inglesas, pelo que o governador no Funchal assistia apenas como simples espectador.

Só nos finais do século se procedeu a novo estudo de defesa da Ilha, determinado por D. Maria I e com data de 11 de junho de 1797, como vem referido na cartografia então levantada, visto não conhecermos os registos desses trabalhos na documentação do governo da Madeira. Para cumprir o plano determinado por D. Maria I, deslocou-se no ano seguinte para a Ilha o major do Regimento de Artilharia da Corte, Inácio Joaquim de Castro, nomeado cavaleiro da Ordem de Cristo a 4 de dezembro de 1778 e, depois, governador da ilha de São Miguel, nos Açores, e da Torre de São Julião da Barra, em Lisboa. Do plano levantado, somente conhecemos seis elementos: um esquiço da planta da ilha e outro da do Funchal – esta última executada sobre elementos da planta do coronel Skinner de 1755, editada em Londres em 1 de janeiro de 1791 –, e quatro cartas parciais, duas delas respeitantes aos arredores do Funchal: «Plano particular, desde o Forte do Gorgulho, até à nova Bateria do Calaça» (futuro Club Naval), de 20 de dezembro de 1798 (Mapoteca da Sociedade de Geografia de Lisboa, cota 6-A-4), e «Plano particular da Praia Formosa, desde a Bateria da Ponta da Cruz até à ponta da Praça Alta da bateria do Areeiro», 26 de janeiro de 1799 (Centro de Estudos de Cartografia Antiga, cota 33-16). As restantes duas cartas diziam respeito a outras localidades: Santa Cruz, com data de 28 de agosto de 1799 (Ibid., cota 33-19), e Machico, de 22 de agosto de 1799 (Ibid., cota 33-20), consistindo nas mais antigas representações planimétricas que conhecemos destas vilas (Fortes de Santa Cruz; Fortes de Machico). Nestes trabalhos, o coronel teve o apoio de António Rodrigues de Sá, ajudante de milícias do regimento do Funchal, sendo a dispersão de tais documentos pelos arquivos nacionais demonstrativos da profunda crise vivida nos anos seguintes.

Os acontecimentos dos inícios do século seguinte, com a saída da Corte para o Brasil, as ocupações inglesas do Funchal e mesmo a terrível aluvião de 1803, não só alteraram profundamente estes estudos, como os levaram a outras resoluções, equacionando-se outros cenários para além da defesa imediata contra um ataque exterior. Com a aluvião de 9 de outubro de 1803, foi destacada para o Funchal uma equipa de engenheiros militares chefiada pelo brigadeiro de origem francesa Reinaldo Oudinot (1747-1807), da qual fazia parte o então tenente Paulo Dias de Almeida (c. 1778-1832), cujo primeiro trabalho foi o levantamento da planta do Funchal e dos estragos causados pela aluvião, que consiste porventura na melhor peça cartográfica efetuada na Madeira até essa data (Instituto Geográfico Português, cota 0539). A equipa veio essencialmente para colmatar os estragos da aluvião de 1803, mas, num curto espaço de tempo, alargava o seu trabalho à reforma da carta topográfica da ilha da Madeira e à defesa do Funchal, não só relativa às intempéries, mas militar propriamente dita.

Ao longo do ano de 1805, em abril, por exemplo, o brigadeiro Oudinot e Paulo Dias de Almeida ainda executariam as plantas da nova bateria das Fontes, que representava toda uma outra forma de entender a defesa e a arquitetura militares. A ideia já não era a da construção de fortificações adaptadas ao terreno, mas de grandes esplanadas capazes de receber as novas bocas-de-fogo, que, sendo muito maiores do que as anteriores, necessitavam de todo um outro campo de manobra. Mais tarde, em 1824, sob a direção do brigadeiro engenheiro Raposo, o então tenente-coronel Paulo Dias de Almeida planearia uma estrutura idêntica de bateria rasante para a frente da velha fortaleza de São Tiago, integrada então no novo molhe do cais do Funchal, que o mar rapidamente haveria de destruir na sua totalidade. Nos anos seguintes, Paulo Dias de Almeida dirigiria uma ampla campanha de obras militares nos pequenos fortes e vigias do Funchal até Machico, face à possibilidade de desembarque dos absolutistas, o que viria a acontecer a 22 de agosto de 1828, na baía daquela vila. A mais importante estrutura defensiva desta área era o novo forte do Porto Novo, inclusivamente reforçado com forças mercenárias inglesas, mas a explosão do seu paiol levou à debandada das forças liberais, entrando os absolutistas no Funchal sem qualquer resistência.

Os meados do séc. XIX assistiram à emergência dos engenheiros militares, que ao longo de décadas estiveram à frente do governo português, o mesmo tendo acontecido, embora pontualmente, na Madeira. Aí, a liderança da engenharia militar nos meados desse século foi do engenheiro António Pedro de Azevedo (1812-1889), que faleceria como general de engenharia, embora por vezes também do brigadeiro Manuel José Júlio Guerra (1801-1869), cuja atuação não teria sido particularmente notável, e do major Tibério Augusto Blanc (c. 1810-1875). As atuações destes engenheiros não foram, no entanto, especialmente na arquitetura militar, mas sim no domínio da arquitetura civil e das obras públicas. O mesmo se viria a passar na transição do séc. XIX para o XX com os irmãos Trigo, o coronel Adriano Augusto Trigo (1862-1906) e o engenheiro Aníbal Augusto Trigo (1865-1944), que, embora também oriundo da antiga Escola do Exército, optou depois pela carreira administrativa, sendo promovido a inspetor superior das Obras Públicas em 1932.

Seria necessário chegar aos alvores da primeira Grande Guerra para se fazerem obras especificamente militares no Funchal, de certa forma improvisadas, com as novas baterias de costa da antiga Quinta Vigia e a bateria da Cancela, que, dotadas com material do século anterior, pouco efeito tiveram nos dois bombardeamentos sofridos pela cidade. Em 1940 e com o deflagrar da segunda Guerra Mundial, novamente se efetuaram obras especialmente militares, como foi a construção da bateria de Costa do Pico da Cruz. A instalação de uma bateria de 15 cm de defesa de costa naquela encosta apresentou problemas de engenharia deveras complicados, tais como a construção dos circuitos enterrados entre as posições das peças e os paióis e o transporte das bocas-de-fogo, de origem alemã, cujos tubos pesavam, cada um, cerca de cinco toneladas.

A construção, iniciada a 5 de julho de 1940, foi entregue a uma empresa de construção civil madeirense que, sob a direção do capitão Floriano Bernardo das Neves, e quase totalmente executada à força de braço, foi concluída num curto prazo de tempo, muito inferior ao inicialmente contratado. A bateria foi entregue à recém-formada Bateria Independente de Defesa de Costa e efetuaria os primeiros fogos reais a 2 de novembro de 1940, sob o comando do capitão de artilharia Manuel da Costa. A partir da década de 70 do séc. XX, o aumento da pressão urbanística da área inviabilizou a execução de fogos reais, passando-se à utilização de redutor de calibre, em 1982, e acabando-se por fazer o último exercício a 29 de novembro de 1996.

No início de 1941, encarava-se igualmente a defesa antiaérea da baía do Funchal. As baterias antiaéreas, de material inglês, chegaram ao Funchal a 10 de janeiro e 20 de março de 1942, ficando as tropas instaladas no antigo paço episcopal entretanto libertado pelo Liceu do Funchal. Nos anos seguintes, a Madeira receberia o restante material, de escuta, referenciação e projetores, instalando-se as baterias no Pico de São Martinho e no Palheiro Ferreiro, embora as instalações das baterias fixas de 9,4 cm só estivessem prontas por volta de 1950.

Desde 1942 que se equacionava igualmente a construção de um novo quartel para as forças de infantaria, tendo sido a primeira opção a baixa da zona da Nazaré, em São Martinho, no Funchal. A escolha da mesma zona para um possível aeroporto da Madeira e a exiguidade de terrenos planos na Ilha levaram à suspensão dessa hipótese, pelo que a construção de um novo quartel apenas se iniciou com a decisão definitiva, em 1956, da construção do aeroporto na área de Santa Catarina, em Santa Cruz. As obras entretanto conheceram diversos atrasos, especialmente com o início das guerras coloniais, em 1961, só tendo vindo a ser pressionadas perto de 1970, com a nomeação, em agosto de 1968, do então brigadeiro José Manuel de Bettencourt Rodrigues (1918-2011) como ministro do Exército do último governo do professor Oliveira Salazar, o qual seria dos poucos elementos a serem depois reconduzidos com o governo do professor Marcello Caetano. A 31 de outubro de 1971, Bettencourt Rodrigues acompanharia o novo ministro, general Sá Viana Rebelo, na inauguração do novo quartel de São Martinho.

Bibliog.: manuscrita: AGS, Guerra y Marina, leg. 127-42, 46, 48, 49 e 52, 128-105, 130-51 e 133-272; AHU, Madeira, docs. 47 e 1580-1582; ANTT, Cartas Missivas, maç. 2, nº 53; Chancelaria de D. Filipe I, liv. 28 e Chancelaria de D. Maria I, liv. 6; Cartório dos Jesuítas, mç. 34, nºs. 31 e 32; Conselho da Guerra, Consultas, mç. 58, n.º 145, e mç. 124; Corpo Cronológico, Parte I, mç. 39, n.º 75, mç. 118, n.º 515, mç. 219, n.os 201 e 222; Junta e Provedoria da Real Fazenda do Funchal, livs. 396, 953, 963, 970, 973 e 974; Ministério do Reino, Decretos, mç. 8, n.º 13; ARM, Câmara Municipal do Funchal, liv. 134, Avulsos, mç. 1, n.º 12 e mç. 4, n.º 490; Registo Geral, Tombo Velho, t. 2, 3, 5, 6 e 9, livs. 1320 e 1321; Governo Civil, liv. 90, 418 e 519; BNP, Reservados, cód. 8391, Index Geral do registo da antiga Provedoria da Real Fazenda, acrescentado com algumas notícias e sucessos da Ilha da Madeira desde o ano de 1419 do seu descobrimento até o de 1775 da extinção da mesma Provedoria; impressa: BOTELHO, João e VICENTE, Ramiro, Regimento de Guarnição n.º 3, das Origens à Atualidade, 1864-2008, Uma Viagem ao Passado pelas Unidades da Madeira, Funchal, 2008; CARITA, Rui, O Regimento de Fortificação de D. Sebastião, 1572 e a Carta de Bartolomeu João, 1654, Funchal, SRE, 1984; Id., História da Madeira, A Crise da 2.ª Metade do Séc. XVI (1566-1600), vol. II, Funchal, SRE, 1991; Id., História da Madeira (1600-1700), vol. III: As dinastias Habsburgo e Bragança, Funchal, SRE, 1992; Id., “A Viagem de Pompeu Arditti aos Arquipélagos em 1567”, Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, vol. 48, Angra do Heroísmo, 1993, pp. 98-101; Id. “A defesa do Atlântico nos Séculos XV e XVI”, in A Arquitectura Militar na Expansão Portuguesa, Lisboa, Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses, 1994, pp. 120-121; Id., A Arquitectura Militar na Madeira nos Séculos XV a XVII, Funchal/Lisboa, EME/UMa, 1998; Id. e CASTILHO, José, “O Saque Inglês de 1595 ao Porto Santo”, Islenha, n.º 16, Funchal, DRAC, jan.-jun. 1995, pp. 83-87; GUERRA, Jorge Valdemar, “O Ataque dos Argelinos à Ilha do Porto Santo em 1617”, Islenha, n.º 8, Funchal, DRAC, jan.-jun. 1991, pp. 57-78; RUMEO DE ARMAS, Antonio, El Conde de Lanzarote, Capitán General de la Isla de la Madeira (1582-1583), sep. do Anuario de Estudios Atlanticos, n.º 30, Madrid/Las Palmas, 1984; SILVA, Maria Júlia Oliveira e, Fidalgos-Mercadores no Século XVIII, Duarte Sodré Pereira, Lisboa, INCM, 1992; VERÍSSIMO, Nelson, Relações de Poder na Sociedade Madeirense do Século XVII, colç. História da Madeira, n.º 1, Funchal, DRAC, 2000.

Rui Carita

(atualizado a 25.08.2016)