diarística

A palavra diário deriva da palavra grega “ephemerides” que vem de hêmera dia. Em latim, a palavra “diarium”, proveniente de dies, significa o mesmo. Consideramos, então, diarística, a prática ou o ato de escrever um diário.

A definição de diário além de ser ambígua não é consensual. Optamos pela definição de Philipe Lejeune para quem o diário é um relato fracionado, escrito retrospetivamente, mas com um curto espetro de tempo entre o acontecido e o registo, em que um “eu”, com vida extratextual comprovada ou não, anota periodicamente, com o amparo das datas, um conteúdo muito variável, mas que singulariza e revela, por escolhas particulares, um eu-narrador sempre muito próximo dos factos.

Na realidade, nesta espécie de “pensamento em voz alta escrito num papel” (Yipner y Clark, 1988,176, Angulo V. 1988,201), o diarista vai registando os factos à medida que vão acontecendo, mas também retrospetivamente, criando uma ilusão de espontaneidade, por meio de fragmentações e elipses. Ao registar o quotidiano, anotando factos, pensamentos e procurando conter a passagem do tempo, o diarista organiza, a priori, o que não é subordinável, pelo que se entende que a base do género diarístico é a tentativa de racionalização das experiências de vidas.

Não podemos deixar de notar que os géneros confessionais, nos quais se incluem as memórias e os diários são tão antigos no universo literário quanto o desejo humano de preservar a sua existência e/ou escapar à morte. No sentido etimológico, confessar significa desvelar, manifestar e/ou dar a conhecer. Durante muito tempo, estas narrativas escritas na primeira pessoa foram consideradas menores, estando, por conseguinte, excluídas do cânone literário. Todavia, já na Antiguidade, surgem vários exemplos de exames de consciência, assim como das várias técnicas para aperfeiçoar o diálogo consigo mesmo. Não estamos ainda perante um diário, embora estas técnicas tenham evoluído ao longo do tempo, para aquilo que, a partir do século XVI, ficou conhecido como o diário espiritual.

Na verdade, esta forma de diário espiritual, de exame de consciência, pode ser considerada a primeira forma de diário íntimo, já que o diarista dialoga com Deus e consigo mesmo, em segredo. Trata-se de uma prática difundida desde os tempos da Contra-Reforma e largamente promovida pela Companhia de Jesus.

A par destes diários espirituais/ religiosos, temos notícia dos registos de conta e, já no século XIV, dos chamados livros de família, nos quais os mercadores registavam as compras e as vendas, organizando e fazendo um balanço diário. Importa notar que se tratam essencialmente de documentos coletivos que perduram durante a Antiguidade e toda a Idade Média, mas que, dada a sua fragilidade, acabaram por se perder. Em Roma, as famílias mais abastadas mantinham dois registos, um de contas e outro de crónicas. Estes “livros de razão” mantidos pelas famílias serviam sobretudo para assegurar a continuidade. Sem regras definidas, reuniam dados pessoais e familiares mas incluíam informações relativas ao local e as regiões. Sem preocupação em manter a regularidade, selecionavam e registavam o que devia ficar para a memória. Eram, regra geral, escritos por homens e foram, durante largos anos, desconhecidos do público em geral. No entanto, esta prática foi amplamente promovida pelo puritanismo inglês e pelo pietismo alemão, durante os séculos XVII e XVIII respetivamente. Estamos, ainda, perante um registo de caráter coletivo.

No final do século XVIII, a diarística surge como prática educativa, como elemento de formação moral, conceito divulgado na obra Essai sur l’emploi du temps (1810) de Marc-Antoine Julien. Aliás, na França e durante o século XIX, promoveu-se a escrita de diários que eram controlados por tutores e professores. Só a partir da Renascença, se poderá falar em diário íntimo, hábito largamente difundido graças à chegada do papel. Todavia, só a partir do século XIX, se generalizou o uso de cadernos prontos a serem usados. Por outro lado, importa notar que a proliferação da escrita diarística, ocorrida entre o final da Idade Média e o século XVIII, está intimamente ligada à invenção do relógio, do calendário e da agenda, já que, só a partir de então, a noção de tempo se aproxima daquilo que hoje conhecemos. A partir do momento em que o tempo se tornou mensurável, tornou-se, consequentemente, precioso e irreversível (e digno de registo).

A literatura íntima começa a fortalecer-se a partir do estabelecimento da sociedade burguesa e da difusão da noção de individuo, ou seja, quando, no Ocidente, o homem adquire a convicção histórica da sua própria existência. Textos centrados no sujeito sempre houve; porém, somente a partir do século XVIII, se pode pensar em género confessional ou em literatura íntima. Note-se que, na Antiguidade, não existiam fronteiras absolutas entre as formas ficcionais e as formas de apresentação do “eu”. Na era medieval, e segundo Costa Lima, “a observação e a descrição do mundo externo desapareceram por completo atrás da representação de factos” (COSTA, 1986, 250). Segundo Alain Girard, antes da ideia de indivíduo não é correto falar neste género e o diário é uma consequência a exaltação dos sentimentos e da moda das confissões que assolaram a Europa durante o romantismo. Tal como sustenta Witold Rybczynski ,“foi com a aparição, precisamente, do mundo interno do individuo, do eu e da família, que as pessoas começaram a considerar o lar como um contexto adequado para acolher essa vida interior” (Witold, 1991, 50).

Além do aumento da população, da maior acessibilidade ao papel com custos mais reduzidos, o facto da religião perder força e da ciência não responder a todos os anseios do homem, abriram campo para o desenvolvimento da subjetividade e para a descoberta do “eu”. A burguesia desencantada parte, então, em busca de tudo o que possa esclarecer este “novo mundo” interior. Para Sheila Maciel, o século XIX assistiu à afirmação da diarística e dos “escritos dos prisioneiros do eu” (neuróticos, obsessivos e mulheres) uma vez que um número considerável de leitores com apetite voyeur se alimentava de detalhes secretos e alheios, acreditando penetrar, assim, na intimidade do autor. Estava, supostamente, garantido o sucesso destas publicações e, talvez deste modo se explique a proliferação de diários de adolescentes, sobretudo do sexo feminino.

Se, até ao século XIX, o diário tinha objetivos utilitários, sendo tido como uma espécie de confessionário, um alívio do sofrimento, um contributo para a autoformação e, eventualmente, uma catarse feita “entre portas”, a partir do século XIX, o público começa a interessar-se por este género, enquanto manifestação literária. Na realidade, a partir de certo momento, uma série de escritores cedem ao apelo da diarística e do mercado, e começa a tornar público os seus escritos íntimos. Já no século XX, a diarística apresenta-se como género literário através do qual um sujeito dialoga consigo mesmo ou com outrem (real ou imaginário) e temos exemplos de escritores que, através do diário, foram refletindo sobre o (seu) mundo, os acontecimentos e as gentes: É o caso de Miguel Torga que, entre 1941 e 1993, publicou dezasseis volumes do seu Diário; Sebastião da Gama, cujo Diárioapenas seria publicado em 1958, após a morte do autor e José Saramago que, entre 1994 e 1998, publicou cinco volumes dos Cadernos de Lanzarote. Não parece haver dúvidas de que o século XX foi o século das memórias, onde se assistiu a uma profusão de relatos na primeira pessoa plasmados de incertezas e de interrogações.

Hoje, a diarística é entendida como uma escrita paradoxal que procura conciliar a divulgação com o intimismo. Na realidade e segundo Luana Soares de Sousa, nos nossos dias, os diários interessam à humanidade pois “a escrita do eu pode ser definida como uma forma de salvação do homem dos nossos dias em um mundo que já descre de projectos de salvação colectiva” (SOUSA, 1997, 126). Por outro lado, não podemos negar que o diário expõe amplamente o problema dos limites da arte e da escrita, construída entre o facto e o artefacto, ao justapor composições literárias e não literárias. Se um texto genuinamente literário é aquele que toca a essência humana, não há dúvida de que a diarística, voltada para a condição humana e para o sentido da vida se enquadra neste panorama (FREIXAS, 1996, 12). O diário é lido como um texto para que cheguemos ao homem, é uma espécie de testemunho pessoal. Assim, e de forma incontornável, o leitor envolve-se num diálogo de si consigo próprio e porque se desenvolve tendencialmente fora dos territórios, muitas vezes definidos como pertencentes à literatura, é tido como o género mais delicado e o mais maldito, sendo, por isso, esquecido [e menosprezado] pela crítica.

Todavia, manter um diálogo consigo através das folhas de um diário poder ser uma espécie de resposta à solidão que ronda o ser humano nestas últimas décadas. Nesse sentido, Antonello Morea alerta que escrever uma confissão pode ser um ato próximo do comportamento mítico, já que ao descrever-se, o diarista luta contra o tempo cronológico que passa. A página em branco – um amigo, um confidente a quem tudo se pode confiar -permite fugir à pressão social e acaba por contribuir para a paz social e para o equilíbrio do indivíduo. Por outro lado, o papel [em branco] funciona como um espelho onde o diarista se projeta e se revê, sendo, simultaneamente, o lugar da construção de uma imagem positiva, mas também o lugar de exame e de introspeção: um verdadeiro laboratório – uma viagem. Dar voz aos diferentes “eus” contribui para fomentar a coragem e a ação e até mesmo a criatividade, contrariando a eventual passividade, erradamente atribuída ao diário.

A escrita de si, porque introspetiva, propicia a uma autorreflexão que se volta não tanto para a busca de um certo “universal” do homem, mas para a exploração da natureza fragmentária e contingente da condição humana, traduzida na particularidade de cada experiência individual. Regra geral, assume-se que tudo o que está registado foi o que aconteceu, ou seja, de que estamos perante um relato verídico. A impossibilidade de conferir os factos relatados leva o leitor a aceitar tudo o que está escrito. Porém, jamais se poderá confundir sinceridade do diarista com veracidade do que está escrito. Sheila Maciel alerta para o facto de que embora o diário possa ser um registo com pretensão de verdade, uma busca de si mesmo, uma escrita narcisística, um texto hermético e uma ficção, não deixa de ser, jamais, uma prática de escrita e leitura que compartilha com os leitores uma pulsão da vida, pelo “eu e pela sua permanência”. Aliás, Blanchot (1971) defende que ali se narra o que não se pode confidenciar, o que é real demais, mas não necessariamente a verdade. Como testemunho biográfico que é, o diário gravita entre a categoria de ficção e não ficção, sendo, por isso, uma prática de escrita e leitura, e sobretudo, um exercício de estar no mundo.

Na escrita diarística, poderá existir uma grande afinidade entre o texto e o leitor, já que este, ao ler, vai relembrando, revivendo e refletindo sobre as suas próprias experiências. Além do mais, o diário cria a ilusão de que o autor se desnuda, aproximando-se, portanto, do leitor e da verdade. Todavia, e tal como qualquer discurso, o diário é uma produção humana entrecortada de ficção. Segundo Rosa Montero, a adesão a este género depende do jogo de expetativas coletivas que afeta públicos variados. Na realidade, o número de diários íntimos publicados aumentou, ou porque o público busca um conhecimento íntimo sobre quem escreve ou porque os autores deixaram de temer a partilha de intimidades. No entender de Leyla Perrone Moisés, o gosto mudou e, nesse sentido, pode-se considerar o diário um acréscimo dentro do panorama literário da pós-modernidade.

Não é fácil traçar o perfil de um diarista, todavia tem em comum o gosto pela escrita. Nos tempos atuais, podemos dizer que manter um diário corresponde a uma certa noção de poder que cada indivíduo tem de se administrar a si mesmo. Outra questão pertinente prende-se com os fatores que terão influenciado o desenvolvimento da diarística. Numa primeira linha, há que ter em consideração as mudanças ocorridas no sistema educativo, bem como as várias reformas levadas a cabo ao longo dos tempos e que aumentaram significativamente a taxa de alfabetização. A invenção da folha de papel e uma maior acessibilidade a materiais de escrita foram igualmente decisivos, assim como a Reforma Protestante e o subsequente aumento da consciência individual.

Para Beatrice Didier, a regra do diário é a periodicidade, já que é preciso que o diário contenha um caminhar apoiado no calendário. Na realidade, o primeiro gesto do diarista é escrever a data. É ela que marca a entrada dos textos e, apesar da prática diarística permitir toda uma liberdade de formas e conteúdos, o diário tem de obedecer ao passar do tempo. Ao organizar os dias, o diário empresta uma identidade narrativa ao quotidiano e sendo uma construção memorialista, obedece apenas a duas formalidades: a fragmentação e a repetição. O caderno de registo poderá conter imagens, fotos, recortes ou esboços já que cada um imprime um toque pessoal ao seu documento. Nesse sentido, e tal como uma obra de arte, o diário é uma obra-prima; um exemplar único.

Philipe Lejeune apurou que os primeiros diários foram escritos por homens, tendo igualmente concluído que a escrita de um diário se inicia numa fase de infância, sobretudo no caso das raparigas. No que diz respeito aos motivos pelos quais se inicia a escrita de um diário, estes podem ser uma crise, uma doença, um episódio marcante, uma viagem. Sabemos que, recorrentemente, a diarística tem sido recomendada como acompanhamento de terapias, atuando, de forma eficaz, sobretudo perante cenários traumáticos. Lejeune acrescenta que este hábito raramente dura a vida toda, pois, com alguma frequência, os manuscritos são destruídos.

Se, por um lado, os diários masculinos servem essencialmente para tomar notas dos acontecimentos mais marcantes, sejam eles ligados aos negócios, à política ou a família, por seu turno, os diários das mulheres são vistos como “conversas” com a família e os amigos, servindo para manter toda a gente informada, para relembrar momentos felizes ou infelizes, para contar histórias e, essencialmente, para fortalecer laços. E porque seguem o padrão do discurso oral, são igualmente narrativas interrompidas que rapidamente mudam de tópico e de tom. Porém, e porque dão sentido à vida, ajudam a construir a própria identidade.

Na tentativa de sistematizar as caraterísticas dos diários, sugerimos uma espécie de coreografia: Atividade discreta ou secreta; Acessível a qualquer pessoa; Hábito passageiro; Escrito periodicamente e de forma irregular; Pressupõe uma ordem cronológica de eventos; Narrador na primeira pessoa; Narrativa debruça-se sobre si e sobre o mundo; Revelam sentimentos e estados de espírito; Narrativa fragmentária e repetitiva; Narrativa monotemática e descontextualizada; Não visa a publicação; Desvaloriza os erros gramaticais e outros e exige uma leitura “entre linhas”; uma apreensão dos não-ditos.

Se não é fácil caracterizar o perfil do diarista, também não é tarefa fácil chegar a consenso quanto à importância do género. Em boa verdade, os próprios diaristas questionam o valor daquilo que escrevem. Já Roland Barthes se havia questionado sobre este assunto. Esta dúvida está ligada ao facto destes escritos estarem carregados de subjetividade e de serem introspetivos, assentando, por conseguinte, na assunção de que quanto mais íntimo, pessoal e trivial, menor interesse suscitará. Efetivamente, Allain Girard defende que a interioridade acaba por diminuir o valor do diário, acreditando, por oposição, que um texto que comporta uma perspetiva mais abrangente de mundo e de pensamento, terá maior numero de leitores. Por seu turno, Maurice Blanchot critica ferozmente a escrita diarística sustentando que “Há no diário como que uma feliz compensação de uma dupla nulidade. Quem não faz nada na vida, escreve que não faz nada e pronto, é como se houvesse feito alguma coisa. Quem se deixa desviar da escrita pelas futilidades de seu dia, recorre a esses nadas para contá-los, denunciá-los ou se comprazer e, pronto, mais um dia cheio… Finalmente, portanto, não se viveu nada, nem se escreveu, duplo fracasso a partir do qual o diário encontra sua tensão e sua gravidade” (Blanchot apud Lejeune, 2008, 266).

Na realidade, o diário é essencialmente tido como um processo de libertação, um método através do qual uma pessoa liberta a suas angústias e frustrações. Por outro lado, está igualmente associado à procura de um caminho, de uma orientação, pressupondo, assim, que quem escreve se encontra à deriva. Alguns críticos insistem pois na ideia de que antes de ser um texto, um diário é sim uma prática, sugerindo que a diarística é um modo de vida. Tudo isto justifica, eventualmente, o pouco interesse que estas narrativas suscitam em termos de publicação. Além do mais, estes textos fazem parte, geralmente, de arquivos familiares e, se por um lado, são documentos de difícil acesso, por outro, comportam a questão da autenticidade, e até mesmo, a dúvida em relação à revisão e edição do texto, alertando assim para os retoques que os manuscritos sofrem antes de virem a público. No que concerne ao valor literário destes textos, Jeremy D. Popkin and Julie Rak admitem que tal questão é completamente irrelevante, já que o diário não é um texto literário. A escrita de um diário não visa a publicação e os ataques de que esta forma de escrita são alvo prendem-se essencialmente com questões relativas ao desconhecimento da mais-valia que estas narrativas poderão trazer às mais variadas áreas do saber.

No que diz respeito à Ilha da Madeira, estamos em crer que o hábito de escrever um diário, embora pouco enraizado, terá seduzido as adolescentes das várias gerações. Todavia, estes manuscritos ficaram quase sempre resguardados do público e são, regra geral, mantidos em gavetas bem fechadas ou destruídos num momento de “viragem” da vida. Consequentemente, a tarefa de resgatar estes textos não foi tarefa fácil. A nossa base de trabalho foram os catálogos disponíveis na Biblioteca Pública Regional, na Biblioteca Municipal do Funchal e na rede internet.

Donald Silva elaborou, em 1987, um catálogo intitulado A Bibliography on Madeira Islands, ao qual recorremos no intuito de completar a nossa listagem. Sem surpresa, o maior número de publicações são diários de viagem embora tenham surgido alguns diários pessoais, pertencentes a coleções particulares e , por conseguinte, não disponíveis ao público. No que concerne aos diários de viagem, temos a referir seguintes obras: Great Niece’s Journal: Being Extracts from the Journals of Fanny Anne Burney From 1830-1842 e editado por Margaret S. Rolt, em 1926. Foi dado à estampa em Boston e é composto por 359 páginas; Journal of na excursion around the Island of Madeira de Charles J. Cossart e de J. Starkie Gardner e que se reporta a uma viagem realizada entre 29 de maio e 9 de setembro de 1880; Journal of the late Embassy to China de Henry Ellis, publicado em Londres, em 1817; Journal of an African Cruise (by an officer of the US Navy) editado por N. Hawthorne em Londres de 1845 e composto por 179 páginas e A trip to Madeira, being the jornal of Edward Watkinson Wells presented to the English Rooms by Mr. James Hayden Wells  e que relata uma estada no Funchal entre outubro de 1836 e junho de 1837 e que pertence à coleção da família Cossart. No que diz respeito a diários íntimos, salientamos, o diário de Stephen Gaselee que se reporta a outubro 1848 (manuscrito entregue a Harry Cossart); o diário 1863, da autoria de Joseph Habasham, publicado pela King Spencer Bidnell em 1958; Notebooks de George Harvey Hayaward, composto por 4 volumes e que abarca os anos de 1849 a 1894; e o diário de Elisabeth Phelps 1836-37 que faz parte da coleção Cossart.

Tal como já referimos, os diários de viagem, sobretudo escritos por estrangeiros que passaram ou ficaram alojados no Funchal durante a época de oitocentos, são os mais representativos. Note-se que os diários de bordo precederam os diários de viagem. Os Fenícios foram os primeiros a descreveram as suas peripécias e, mais tarde, durante os séculos XII e XVI, os navegadores foram-nos aperfeiçoando. No que diz respeito à Madeira, foi, durante o século XIX, que se assistiu a um maior número de publicações.

O Journal of the Voyage to the Niger, editado por William Jackson Hooker (1785-1865), relata, e tal como o nome indica, uma viagem, mas enumera as plantas recolhidas pelo Dr. Theodore Vogel, botânico que acompanhou a primeira expedição britânica ao rio Niger realizada em 1841 e comandada pelo Capitão H. D. Trotter. Está incluído na coleção C.B.A.M. William Jackson Hooker  (Norwich, 6 de julho de 1785 — Londres, 12 de agosto de 1865), sócio daRoyal Society de Londres, foi um botânico  especialista em micologia e emcriptogâmicas, que se celebrizou como diretor dos Royal Gardens de Kew, instituição que dirigiu na fase decisiva do seu desenvolvimento inicial, de 1841até ao seu falecimento em 1865. A ele se deve o alargamento do Jardim, a sua abertura ao público e a construção da famosa Palm House, durante muitas décadas a maior estufa do Mundo. Foi professor de botânica da Universidade de Glasgow (1820 a 1841), e supervisor do Jardim Botânico daquela cidade. Editou diversas publicações científicas, entre as quais o mensário Botanical Magazine (1826 a 1865), o qual ilustrou entre 1826 e 1834, ano em que Walter Hood Fitch (1817-1892) gradualmente assumiu essa responsabilidade. Apesar de não ter formação académica em botânica, foi um dos principais naturalistas do seu tempo, tendo publicado mais de duas dezenas de obras de grande fôlego e valor científico, as quais trouxeram significativos avanços no conhecimento dos fetos,algas, líquenes e fungos, bem como das plantas superiores.

O jornal de Emily Shore datado de 1831-39 foi escrito pela jovem britânica Emily Shore (1819-1839) que se recolheu no Funchal com intuito de melhorar o seu estado de saúde. A jovem Shore era filha de Thomas e Juliana Shore e tinha duas irmãs, Arabella e Louisa e um irmão, Richard. Emily viveu essencialmente “entre-portas”, privando com os seus familiares e com a comunidade britânica. O diário está dividido em 12 volumes e inicia-se a 5 de julho de 1831 e termina a 24 de junho de 1839, dias antes de a jovem falecer. A média de páginas por volume é de 150. Inclui desenhos e esboços feitos pela própria, assim como poemas, vários fragmentos, a história de Roma e ainda 3 contos. A preparação da obra para publicar esteve a cargo das irmãs, Louisa e Arabella, em 1891, ou seja, mais de 50 anos após a sua morte. O relato inicia com a descrição da família e a localização e descrição da residência. A restante narrativa vai se desenvolvendo por vários lugares em Inglaterra tais como Casterton, Woodbury, Exeter, onde a jovem vai dando conta da sua rotina, ao mesmo tempo que partilha as suas emoções, os seus medos, as suas angústias e peripécias. O capítulo 13 inclui a preparação e partida para a Ilha da Madeira, onde a jovem, por recomendação médica, veio restabelecer-se. As páginas que se seguem contam da vivência insular e sobretudo da tentativa de apreciar a beleza natural da ilha, da força, da energia que contrasta fortemente com a condição física da jovem que, contudo, se esforça por plasmar o deslumbramento. Todavia, a saudade de casa nunca a abandona e, à medida que a jovem sente as forças diminuírem, aumenta o desejo de poder regressar e gozar do aconchego da terra que a viu nascer.

O journal of a visit to Madeira and Portugal, 1853-54, de Isabella de França, foi alvo de publicação bilingue: inglês e português, em 1970. Trata-se de uma iniciativa inédita e que esteve a cargo da Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal. Isabella Hurst de França (1797-1880) veio ao Funchal em lua-de-mel (e liquidar os bens que o morgado ainda possuía na ilha), na companhia do seu marido, o Morgado Henrique de França, tendo tido a oportunidade de privar com a elite madeirense e estrangeira, ao mesmo tempo que foi confrontada com o pouco desenvolvimento da ilha e das suas gentes. O jornal é composto por 8 capítulos e apresenta um número total de 263 páginas. Inclui ilustrações elaboradas pela própria autora. Oferece um prefácio e uma introdução. O relato inicia-se com a partida de Londres para o Funchal e termina com a passagem por Lisboa e o regresso a casa do casal. Isabella foi uma observadora atenta do modo de vida madeirense na época de oitocentos e o seu olhar, critico, e por vezes, mordaz, suscita alguma polémica.

Eberhard Axel Wilhem, refere o diário da governanta alemã Augusta Werlich, intitulado na versão original por Reisetagebuch, e da qual faz parte um relato da passagem pela ilha da Madeira, sob o titulo Seis meses e meio na Madeira (1854-1855) que abrange 97 páginas. O manuscrito alemão encontra-se na posse da família Vidal, pois a governanta acompanhou esta família hamburguesa numa viagem que fizeram à Itália e à Madeira por recomendação médica. Permaneceram no Funchal entre 17 de novembro de 1854 e junho de 1855, tendo ficado alojados na Quinta dos Santos. Tiveram a oportunidade de conviver com a comunidade alemãs tendo participado em almoços, jantares, bailes e passeios a cavalo. Através deste relato foi possível verificar que os filhos do casal Vidal tinham aulas de línguas: português, espanhol e francês, com o professor Rodriguez Cascalho. A dama de companhia lamentou a falta de lojas de comércio no Funchal e queixou-se da longa espera pela chegada da correspondência e da falta de sabonete. Notou também a habilidade em bordar e classificou os madeirenses como muito belos. Durante a estada, aproveitou para dar passeios pela ilha e socializou igualmente com a elite madeirense.

O diário de Mary Phelps (1822-1893) foi escrito enquanto a jovem, filha de Joseph Phelps, viveu no Funchal e permite caracterizar não apenas a família mas também aferir acerca da restante comunidade britânica residente no Funchal, do negócio do vinho, das relações entre a ilha e as autoridades nacionais e estrangeiras, bem como entender de que modo os ingleses se relacionavam com as gentes locais. Ao mesmo tempo, o leitor partilha as ansiedades, os medos, os desejos e os sonhos de uma adolescente. Trata-se de um documento manuscrito, composto por 14 cadernos e que se encontram depositados numa biblioteca londrina. Abarca os anos de 1839 a 1843.

A memória familiar Victorian Hangover , da autoria de Frances Roper, está disponível on line e relata a história da família Hubbard, que tem ligações com a família Phelps, razão pela qual existe um capitulo dedicado à Madeira e aos Phelps. Contém o relato de uma viagem à Madeira, em 1954.

Igualmente disponível numa versão online, temos Elisabeth Macquaire: 1809 Journal, onde se relata a passagem pelo Funchal entre os dias 12 a 19 de junho de 1809, numa viagem que o casal Macquaire fez com destino a South Wales. Elisabeth Macquarie foi a segunda mulher de Lachlan Macquarie, nomeado governador de South Wales, entre 1810 e 1821. Acompanhou o marido nesta viagem e enquanto viveu na Austrália viajou consideravelmente. O casal teve 2 filhos, uma rapariga e um rapaz.

Foi ainda possível encontrar diários de viagem escritos por madeirenses, embora em número reduzido. Foram os casos de um relato e uma viagem de barco à volta da ilha da Madeira e dois registos de viagem espiritual já que os próprios autores identificam o trajeto/diário como uma peregrinação.

A obra intitulada Vinte e um dias em bote, de Humberto Passos Freitas, apresenta como subtítulo “relatório de uma pequena excursão marítima em torno da Ilha da Madeira”. Foi publicada em 1923 e foi dedicada à esposa. Estamos perante um diário de viagem, já que o relato das peripécias desta viagem se encontra organizado, de forma cronológica. Num total de 130 páginas, Passos Freitas inicia a sua narrativa a 8 de outubro de 1923 e termina no dia 30 de setembro do mesmo ano. O relato está dividido em capítulos nomeadamente, o barco, a tripulação, as provisões e, por fim, a viagem.

  1. Reis Gomes assina uma obra intitulada Através de França, Suiça e Itália que apresenta como subtítulo “diário de viagem” e foi dedicado “aos amigos que tomaram parte na peregrinação de 1926”. O livro apresenta uma fotografia do autor e inclui 24 gravuras. Apresenta um total de 369 páginas e está dividido em capítulos, a saber, notas de viagem; Lourdes, Marselha; Nice; Mónaco; Génova; Pisa; Roma I, Roma II, Roma III, Roma IV, Nápoles, Pompeia; Assis; Loreto; Florença; Pádua; Veneza, Milão; Suíça; Lyon; Paray; Paris; Versailles e Bordéus que correspondem aos sítios por onde o autor passou, entre julho e agosto de 1926. Reis Gomes adverte o leitor de que não se tratam notas de viagem mas sim de “rápidos apontamentos tomados em toda a parte” e relembra que como se trata de uma peregrinação, guardará “recolhimento em relação a este assunto”. Antes da publicação, refere que “expurgou o caderno dos apontamentos mais pessoais” e pede desculpa pela “falta de interesse, os lapsos e pelo estilo telegráfico”. Reis Gomes saiu do Funchal no dia 5 de julho, pelas 21 horas, a bordo do “Formose” e chegou a Lisboa pelas 11h onde prosseguiu até La Rochela. Daí, tomou o comboio em direção a Lourdes. Os amigos que o acompanharam regressaram 15 dias antes do próprio, a bordo do vapor “Hoedic”.

Maria Celina de Sauvayne da Câmara publicou, em 1899, um diário de viagem intitulado “De Napoles a Jersusalém”, obra que dedicou à avó. O livro não tem índice e as entradas estão organizadas por ordem cronológica e com um título: a bordo do Regina Margherita; Alexandria; Cairo, Jaffa; Jerusalém e Bethem. O relato inicia-se a 12 de março de 1898 e termina a 19 de abril do mesmo ano. Apos uma estada de 5 meses em Nápoles, a autora saiu a bordo do vapor “Regina Margherita”. Celina da Câmara intitula-se peregrina e, ao longo da sua narrativa, vai retratando os locais, descrevendo monumentos e pessoas, assim com a beleza das paisagens, ao mesmo tempo que fala dos seus estados de alma. O texto está repleto de estrangeirismos tais como bello; shocking ou revês. A peregrina (é assim que se autodenomina) termina o seu diário de viagem dizendo: “Deixei a Palestina (…) faz-me pensar que volto para a Europa, o centro da civilização com todos os seus defeitos, loucuras, ambições e misérias, que são o fito da humanidade irrequieta e nunca satisfeita com a sua sorte (…) justamente é esta hora das confidências a parte do dia em que mais vivemos pela imaginação! (…) a última página deste jornal que emudeceu e fechei”. Está aqui bem patente como o diário se ajusta adequadamente a uma introspeção, a um balanço da vida, a um (re)pensar que ajudará a retomar os ânimos e a seguir em frente. Todavia, esta passagem espelha igualmente que realidade e imaginação se encaixam, colocando eventualmente dúvidas quanto à verdade contida na diarística.

No que diz respeito à obra de Carlos Olavo (1881-1958), Prisioneiro de guerra na Alemanha (1918), trata-se de notas escritas durante o período de cativeiro, pois o autor combateu na Flandres na Primeira Guerra Mundial como oficial miliciano de artilharia. Olavo  nasceu no Funchal a 7 de julho de 1881. Formado em Direito, na Universidade de Coimbra, foi expulso em 1907, por envolver-se em atividades políticas contra a Monarquia, pelo que só concluiu os estudos em 1908. Exerceu advocacia e foi nomeado secretário-geral do Governo Civil de Lisboa (1910-1911), secretário-geral do Tribunal Arbitral das Associações de Socorros Mútuos de Lisboa. Foi ainda deputado à Assembleia Nacional Constituinte (1911) e ao Congresso da República (1911-1915; 1915-1917; 1919-1921; 1921-1922; 1922-1925). Morreu em Lisboa a 16 de novembro de 1958. No preâmbulo, o autor explica, que “ellas sofrem, portanto, dos altos e baixos d’um estado d’espirito desigual que umas vezes era tomado d’uma viva excitação e outras cahia nos desânimos d’uma depressão doentia a que não eram estranhas nem as humilhações que me infligiram, nem as vicissitudes que me fizeram passar. Mas exaltado ou abatido, colérico ou sereno, o espirito só comunicou ao papel factos incontestáveis, impressões vividas, reflexões sinceras, observações exactas.” Esta publicação está disponível na Biblioteca Municipal do Funchal.

Mais recentemente, em 2003, foi publicado mais um diário de guerra da autoria de Lídio Araújo. A obra “Os Bravos da picada” refere-se à 2ª Companhia do Batalhão Expedicionário 5014 que cumpriu serviço em Zobué, Moçambique entre novembro de 1973 e dezembro de 1974. O texto organizado por entradas cronológicas vai relatando o teatro de guerra desde a partida do contingente para o Ultramar até ao regresso a Lisboa, a bordo do boeing 707, Pedro Alvares Cabral, “onde não se canta, grita!” e cuja viagem culminou ao grito “Companhia, destroçar” que antecedeu o reencontro com as famílias em Figo Maduro. A obra inclui um epílogo e um conjunto de fotos, bem como a lista com os nomes de todos os membros da companhia.

A obra de Irene Lucília Andrade, Um lugar para os dias, saiu à estampa em outubro de 2013. É composta por 7 capítulos que correspondem aos anos de 2007 a 2013 e tem um total de 283 páginas. As entradas estão organizadas por ordem cronológica. Estamos perante uma espécie de cartas dirigidas a um amigo (anónimo) onde a autora discorre sobre os dias que já passaram, relatando viagens, experiências, peripécias, anseios e sonhos, fazendo como que uma espécie de balanço da vida que se foi construindo. Termina dizendo que “aqui te deixo o que chamo “a vida sobre a vida”, ou como queiras, “um lugar para os dias”.

Nos dias que correm, a diarística mudou o suporte. Abandonou o papel e substitui écran do computador. O mundo virtual está repleto de blogues alimentados diariamente e nos quais, o autor vai dando largas à sua imaginação, quer através de textos inéditos quer através de colagens ou fragmentos que ajudam a construir um perfil (real ou imaginário). Mantém a organização cronológica mas dá a possibilidade do texto ser partilhado/ publicado em tempo real embora também possa ser mantido em segredo. Aliás, a possibilidade de criar um perfil falso assegura não só o anonimato como poderá (ou não) aumentar a autenticidade.

Bibliog.: BOGAERT, Catherine e LEJEUNE, Philipe, Le Journal intime, Histoire et anthologie, Les Editions Textuel, Paris, 2006; GANNET, Cinthia, Gender and the Journal: Diaries and Academic Discourse, Suny Press, 1992; MALLON, Thomas, A book of one’s own: People and their diaries, 1995; POPKIN, Jeremey, Rak, Julie, On Diary, Biographical Research Center, Hawaii University, 2009.

Cláudia Faria

(atualizado a 16.08.2016)