dramaturgos

A literatura dramática é entendida como aquela que implica uma comunicação direta das personagens entre si e destas com os recetores do texto. Para que essa função se cumpra, o texto dramático tenta representar as ações e reações humanas, privilegiando a dinâmica do conflito e possibilitando alguma forma de interação entre o texto e o seu público. Este serve, com frequência, o teatro, que tem como objetivo específico a representação e o espetáculo. Além disso, a literatura dramática, porque apoiada na realidade, acaba por retratar os quotidianos e, dessa forma, guardar, no reservatório da memória, a identidade do povo e o modo como sente a vida e o mundo.

Desde a Antiguidade que o teatro é detentor de uma importância fundamental na construção do homem, explicada pela função pedagógica que os textos podem cumprir: experimentando emoções, o homem é levado a refletir sobre as suas paixões e, dessa forma, a alterar os seus comportamentos.

Em Portugal, é a História que fornece, em grande parte, a matéria da literatura dramática. O teatro acaba por ser considerado um retrato do homem no tempo, evocando, no palco, os momentos fulcrais da História e mantendo, deste modo, na opinião de Luís Francisco Rebello, o esquema formal da tragédia antiga. O mesmo autor considera que as origens do teatro moderno aparecem, em Portugal também, já entre as brumas da Idade Média, confundidas com os ritos cristãos, apesar de não se esgotarem neles. Refere-se, por exemplo, aos jograis, na linha da tradição dos antigos mimos e histriões, ou aos autos apresentados durante as cerimónias do casamento da Infanta D. Leonor com Frederico III, Imperador da Alemanha, em 1451, evocados por um dos poetas do Cancioneiro Geral, Duarte de Brito, um autor da Ilha. Na Madeira, há notícia de que, nas Igrejas e nos locutórios dos conventos se representavam autos e poemas de caráter religioso.

Em finais do séc. XV, nasce, na Madeira, aquele que pode ser considerado o primeiro autor dramático na senda de Gil Vicente, Baltazar Dias, o poeta cego. Escreveu lendas de santos, feitos de heróis portugueses, casos de amores desventurados, exílios, visões de peregrinos. De acordo com alguns estudiosos, nomeadamente o Visconde do Porto da Cruz, os temas dos seus autos religiosos teriam sido sugeridos por elementos do clero, para comemorar datas litúrgicas. A sua obra está ainda imbuída dos valores medievais: o espírito da fé, do heroísmo e da renúncia. Por ela, passa ainda a ideia de criticar comportamentos e vícios, para que, uma vez conhecidos, possam ser alterados. Note-se, por exemplo, uma crítica muito marcada à luxúria, aos costumes, à administração da justiça, à violência, ao despotismo. Escreveu: Auto de Santo Aleixo, Auto de El-Rei Salomão, Auto da Paixão de Cristo, Auto da Feira da Ladra, Auto de Santa Catarina, Virgem Mártir, Auto do Nascimento de Cristo, Conselhos para Bem Casar e Tragédia do Marquez de Mantua.

O Funchal havia sido elevado à categoria de cidade, em 1508, e tudo acontecia, na azáfama de construções, de novidades que vinham do lado de lá do mar, no movimento do porto, por entre trocas comerciais e gente que se encontrava, a pretexto do comércio e das trocas que, ali, na babugem do mar, se operavam.

Neste ambiente novo, a poesia dramática é muito bem aceite. Talvez por esse motivo, Baltazar Dias foi tão admirado, quer pelo povo, quer pela nobreza, até porque as suas obras são herdeiras do humor de Gil Vicente e isso agradava a todos, não obstante alguns dos seus textos só terem sido publicadas no séc. XVII: Auto da Malícia das Mulheres, História da Imperatriz Porcina, Mulher do Imperador Lodonio de Roma e Trovas sobre a Morte de D. João de Castro.

Cidade do açúcar e do vinho, o Funchal altera-se. Os ingleses influenciam os ambientes luxuosos que acolhem as manifestações artísticas e a literatura. Sente-se, então, na ilha, a influência continental do academismo e do arcadismo. Considerado como um dos poetas mais representativos do período barroco português, Francisco de Vasconcelos (1655-1723), madeirense, escreveu uma pequena peça, Residência do Governador e Capitão General da Ilha da Madeira, que prima pela simplicidade do argumento e que pretende demonstrar que o verdadeiro governador é aquele que é humilde, justo, correto e verdadeiro. Este texto foi publicado e representado, em 1718, pelas freiras de Santa Clara, no momento da despedida de João Saldanha da Gama, que foi Governador da Ilha da Madeira entre 1715 e 1718.

Trata-se de um texto de temática local que testemunha a sociedade madeirense da época, uma sociedade marcada pela fé e pela justiça, num mundo barroco, cheio de contrastes e de imprecisões. Para este autor, o teatro assume uma função muito importante na construção da sociedade, quer como diversão, quer como espaço de reflexão, assumindo a sua função de espetáculo, enquanto música, canto, dança, mas também a sua função pedagógica. O teatro apresenta-se como um meio privilegiado para a transmissão de princípios que deveriam nortear o comportamento dos homens, face a um mundo cheio de contradições e de excessos, evidenciando o sentido da justiça e da razão.

Numa listagem de nomes que Cabral do Nascimento apresenta como pedreiros livres, Manuel Caetano Pimenta de Aguiar (1765-1832) aparece como “dramaturgo”. Na verdade, o autor é considerado por alguns como o verdadeiro percursor de Almeida Garrett. Seguindo a orientação dos trágicos franceses, escreveu algumas tragédias que, à época, tiveram algum sucesso. Em 1816, publicou Virgínia, seguindo-se, até 1820, data da sua última peça, as seguintes obras: Os Dois Irmãos Inimigos, D. João I, Arria, Destruição de Jerusalém, D. Sebastião em Africa, Conquista do Peru, Eudoxia Liciana, Morte de Socrates e Carácter dos Lusitanos. Tal como é próprio da tragédia, escreveu as suas composições em verso, imitando, desta forma, os trágicos gregos e franceses.

Há ainda que referir Francisco Manuel de Oliveira (1741-1819), poeta, tradutor e professor que nos deixou alguns dramas líricos, com destaque para aquele que escreveu para a reabertura do Teatro Público da Cidade do Funchal.

No séc. XIX, os autores dimensionavam o texto dramático e a sua representação como uma forma de espelhar o quotidiano, aproximando o espectador da cena, na medida em que este se revia naquilo que se passava no palco. Apesar de envolvida numa certa atmosfera romântica, a escola francesa exerce grande influência nos autores dramáticos portugueses: a realidade toma conta do palco e o dramaturgo reflete acerca dela, dos problemas políticos, sociais e culturais. Neste século, na Madeira, é também no texto dramático que se escreve a própria vida, que autores como João Nóbrega Soares, João de Andrade Corvo e Álvaro de Azevedo trazem para cena. Além disso, o teatro é uma das formas mais eficazes de comunicação e os dramaturgos recorrem a alusões históricas e à metáfora para exprimir os seus sentimentos liberais, mesmo que muitas das peças escritas no princípio do século, apesar de impressas, não tivessem acesso aos palcos. Será a Revolução de setembro de 1836 e a restauração da Carta Constitucional que farão a restauração do teatro português (e em português).

No terceiro quartel daquela centúria, a literatura dramática muda de direção: a par do romance da atualidade, surge o drama da atualidade, que se caracteriza pela reprodução dos costumes contemporâneos da vida e da sociedade da época. A literatura dramática apresenta-se, deste modo, como uma forma de intervenção sobre o espectador, sobre a sociedade e sobre o mundo.

Na Madeira, o teatro passou pelas mesmas fases por que passou o teatro nacional. Há casas de espetáculo referenciadas no Funchal antes do séc. XIX, o que demonstra a importância desta atividade. É, porém, neste século de novecentos que a literatura dramática ganha um maior protagonismo, ou que, pelo menos, é mais conhecida.

Influenciado pela escrita de Almeida Garrett – que é considerado um precursor do drama romântico, abrindo caminho para o teatro da atualidade –, surge, na Madeira, João Nóbrega Soares (1831-1890), com um texto de sucesso, A Virtude Premiada. Este autor, que tocou, ao longo da sua vida, vários géneros literários, entendia que a literatura dramática tinha de ser um espaço de reflexão e transformação social da ilha.

Álvaro de Azevedo (1824-1898) é um outro autor desta centúria que, apesar de não ter nascido na ilha – sendo natural de Vila Franca de Xira –, a ela dedicou o seu tempo e o seu trabalho. Escreveu o drama A Família do Demerarista (1959), no qual demonstrou a sua sensibilidade aos problemas madeirenses desse tempo, nomeadamente ao tema da emigração e a todos os dramas daí provenientes.

Outros autores madeirenses fizeram da literatura dramática madeirense uma página importante da dramaturgia nacional, por entre o séc. XIX e o séc. XX. Luís da Costa Pereira (1818-1893) dedicou-se às coisas do teatro, tendo traduzido e adaptado à cena portuguesa algumas peças de teatro estrangeiro. Foi ator, autor, ensaiador, diretor técnico, professor de declamação e da arte de representar. Está referenciado no capítulo XXXIII do livro de Ferdinand Denis, Resumé de l’Histoire Littéraire du Portugal. Manuel Luís Viana de Freitas (1820-1861) era considerado uma autoridade em assuntos teatrais. Escreveu a peça D. Luis d’Atayde. Carolina Dias de Almeida (?-1895), atriz e autora, publicou a peça Henriette, Cena Cómica (Funchal, 1887). Matilde Sauvayre da Câmara (1871-1951), detentora de uma cultura humanística fora do vulgar para a sua época, levou à cena algumas operetas da sua autoria, no Teatro D. Maria Pia, e, aquando da visita do rei D. Carlos I e da rainha D. Amélia, em 1901, organizou uma festa de gala, apresentando duas peças da sua autoria – Morte à Força e Arraial Madeirense. De Major João dos Reis Gomes (1869-1970), destaque para a sua obra dramática Guiomar Teixeira, uma peça histórica em que, no fundo da tela presente no palco, se desenrola, pela primeira vez, uma cena do cinema. É ainda considerado por alguns autores o primeiro crítico de teatro do país. Eugénia Rego Pereira (1875-1947), professora de coreografia e escritora teatral, escreveu algumas peças levadas a cena no Teatro Municipal: Gente do Mar, Sol e Gelo, De Norte a Sul, Asas Misteriosas, Feitiço Quebrado, Espuma de Champanhe, Ana Maria (com Teodoro Silva) e No Hotel do Descanso. João Maximiliano d’Abreu Noronha (1875-?) escreveu dois dramas alusivos à guerra de 1914-1918: Coração de Criança e Alma de Portugal. Alberto Artur Sarmento (1878-1953), oficial do exército, professor e naturalista, escreveu, entre muitas obras, a letra da opereta regional, Primeiros Aspetos, levada à cena no Teatro Funchalense, em 1917. José Jorge Rodrigues dos Santos (1879-1958) dedicou-se à poesia e ao teatro, tendo escrito duas peças que foram representadas no Teatro Nacional, em Lisboa: Festa de Actriz e Crime de Amor. Álvaro Manso de Sousa (1896-1953) deixou algumas peças de teatro para amadores e publicou, numa edição da Câmara Municipal do Funchal, Auto do Voto e Auto de São Tiago Menor. De Augusto Elmano Vieira (1892-1962), foram apresentadas as peças A Madeira, por Dentro (revista), A Menina dos Bordados (opereta) e A Última Bênção (drama). João França (1908-1996) escreveu várias peças em um ato, os dramas Mimi, O Regenerado e Amor Sem Deus. A 7 de julho de 1944, foi estreada, no Teatro Avenida, a opereta da sua autoria O Zé do Telhado, que teve um grande sucesso em Lisboa e no Porto, cidades onde esteve em cartaz mais de quatro meses.

Na primeira metade do séc. XX, outros nomes aparecem no panorama da literatura dramática madeirense: Ernesto Leal, com Afonso III, um texto de 1970, António Aragão, com a peça Desastre Nu (1980), e Carlos Cristóvão, que assinou, entre outros textos, O Senhor dos Milagres (peça em dois atos), de 1971, e, do mesmo ano, A Morgadinha que o Amor Levou.

À semelhança do que acontece no país, também na Madeira surge um grupo de autores a escrever para operetas, teatro de variedades e teatro de revista a partir do princípio do séc. XX, no âmbito do teatro musicado. Os textos que lhe estão subjacentes pretendem apresentar factos e situações da atualidade, críticas sociais e políticas, através de uma linguagem muitas vezes eivada de comentários picantes e de trocadilhos. Em termos gerais, é composto de várias cenas de cariz cómico, satírico, entremeadas com números musicais. Caracteriza-se por um guarda-roupa exuberante – muitas plumas e lantejoulas – e por um tom especial na forma de declamar o texto.

Consta que teria sido Festejo dum Noivado, de Braz Martins, a primeira revista a subir à cena, em Portugal, no ano de 1852, no Teatro Gymnasio. Entre 1854 e 1870, outras se lhe sucederam, em vários teatros de Lisboa. De realçar Fossilismo e Progresso (1856), de Manuel Roussado, A Revista de 1858, de Joaquim António de Oliveira, e Os Melhoramentos Materiais (1860), de Andrade Ferreira.

A literatura dramática madeirense tem, aqui também, alguns representantes: João Maximiliano d’Abreu Noronha (Tito Lívio) escreveu as revistas Basta que Sim!, levada à cena no Teatro Municipal, Teatro Circo e Pavilhão Paris, nos Açores, Ora Bolas! e De Pernas para o Ar; Adão de Abreu (1885-1958) escreveu algumas revistas que foram representadas no Teatro Municipal do Funchal, o posterior Teatro Baltazar Dias: Semilha e Alface (1917), Água Vai (1921), Golpe de Vista (1929), A Novela (1934) e Lá Vai Fogo (1935); Pedro Gonçalves Preto (1907-1973) escreveu uma revista levada à cena a 24 de agosto de 1933, intitulada O Fim do Mundo; Teodoro Clemente da Silva (1900-1976), nome indissociável da literatura dramática funchalense, sobretudo a do teatro de revista. Entre outras, assinou À Pressa, A Madeira é Isto, Cá e Lá, Viva a Loucura, Bolas de Sabão, Ana Maria (em colaboração com Eugénia Rego Pereira), Tudo Louco (com Adão Nunes), Amor sem Deus (com João França) e Rosário de Cantigas.

Algumas revistas marcaram épocas. A censura sempre espreitou estes textos que aproveitavam a linguagem – muitas vezes metafórica e cheia de trocadilhos – para passar mensagens de crítica aos regimes vigentes ou às autoridades desportivas, civis ou religiosas do país e da ilha.

A literatura dramática parece ter passado a ter poucos adeptos na ilha da Madeira, por razões de ordem vária. Apenas um registo: João Francisco de Sousa Pestana nasceu na Ribeira Brava, em 1969. É ator profissional desde 1972, sendo um dos fundadores da Comuna. Iniciou-se na escrita teatral em 1992. Em 1994, a peça A Ilha de Argüim valeu-lhe o prémio do concurso Inatel/Novos textos.

O Funchal parece, deste modo, seguir os modelos do continente, as modas culturais e literárias do país. A sociedade funchalense tenta, sobretudo até ao séc. XIX, copiar o que se passa na corte. A literatura dramática madeirense percorre, então, os mesmos caminhos da que se produz em Lisboa. Assim, de um modo geral, os escritores do arquipélago nunca se desligaram da tradição literária portuguesa, o que se pode explicar, em larga medida, pelo facto de muitos deles terem estudado no continente, nomeadamente em Coimbra, onde a cultura e a literatura se desenhava, ou desempenharem funções em Lisboa.

Não nos podemos também esquecer que o Funchal é um lugar de chegadas. À ilha chegavam escritores que, naturalmente, influenciavam os que nela viviam. Há, ainda, que acrescentar que os visitantes, sobretudo ao longo dos sécs. XVIII e XIX, buscavam, na Madeira, remédio para os seus males do corpo – nomeadamente a cura da tísica pulmonar – e da alma e procuravam distrações para o tempo que passavam na cidade. A literatura dramática cumpre, dessa forma, a sua função no limiar da modernidade, do mesmo modo que já o tinha feito no princípio: tendo sido uma arma doutrinal, pedagógica, servia agora para fruição do público.

O séc. XX traz a revista que, para além de divertir e de inserir no palco outras formas de arte, nomeadamente a música, o canto e a dança, revela novas temáticas, sendo portadora de marcas regionais. É a história do arquipélago e dos seus mais importantes representantes; é a vida da cidade e do campo; são referências humanas, sociais, históricas, culturais e políticas.

Bibliog.: impressa: BAPTISTA, Elina Maria Correia, Emigração e Teatro em Portugal, no Século XIX. Retratos da Madeira e de Madeirenses, Funchal, Funchal 500 anos, 2008; CLODE, Luiz Peter, Registo Bibliográfico de Madeirenses, Séculos XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; NASCIMENTO, João Cabral do, Os Pedreiros Livres na Inquisição e Corografia Insulana, Funchal, Arquivo Histórico da Madeira, 1949; REBELLO, Luís Francisco, O Teatro Romântico (1838-1869), Lisboa, ICALP/MEC, 1980; Id., O Primitivo Teatro Português, ICALP/MEC, Lisboa, 1984; RODRIGUES, José Joaquim, Catálogo Bibliográfico do Arquipélago da Madeira, Funchal, CMF, 1950; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo, Elucidário Madeirense, 4.ª ed., Funchal, SREC, 1978; VISCONDE DO PORTO DA CRUZ, Notas & Comentários para a História Literária da Madeira, vols. 1, 2 e 3, Funchal, CMF, 1949, 1951, 1953; digital: DINIS, Cidália, “Francisco de Vasconcelos Coutinho: A Magia do Teatro Barroco”, Revista Pandora Brasil: http://revistapandorabrasil.com/revista_pandora/teatro/cidalia.pdf (acedido a 9 out. 2015).

Graça Maria Nóbrega Alves

(atualizado a 05.04.2016)