esquadras de navegação terrestre

Os barcos eram quintas, a Armada composta pelos burgueses, empregados das lojas, médicos e advogados do Funchal e o mais importante era o convívio e um bom almoço, que era como acabavam todas as manobras nas fragatas, corvetas e canhoneiras das esquadras de navegação terrestre. As esquadras, na verdade, eram clubes onde os membros se entretinham a brincar à Armada Real. Uma brincadeira séria no que dizia respeito a patentes, uniformes e formatura, tanto que se apresentaram ao rei D. Carlos durante a visita à Madeira em 1901.

Estes clubes existiram durante 30 anos – entre 1880 e 1916 –, inspirados nas antigas milícias, mas apenas para divertimento dos membros. No auge da moda, houve três destas esquadras: a Submarina de Navegação Terrestre, a Torpedeira de Navegação Terrestre e a Independente de Navegação Terrestre, sendo dissidentes umas das outras. A Esquadra Torpedeira de Navegação Terrestre, fundada em 1903, foi a mais poderosa e numerosa, com perto de 200 homens. As esquadras começaram com assaltos às adegas dos membros com propriedades nos arredores do Funchal. A navegação era terrestre e submarina, pois as tropas aproximavam-se do barco adversário – a quinta – escondidas debaixo dos canaviais e dos campos de bananeiras. As comunicações faziam-se por um código de sinais em bandeiras hasteadas nos mastros dos mirantes das quintas e moradias dos oficiais das esquadras. O que começou como uma brincadeira entre amigos e para passar bem o tempo acabou por ganhar outro requinte, dado o gosto pelas coisas da Marinha.

A esquadra passou a ser uma recriação de uma milícia com hierarquia, regulamento disciplinar, com treino de infantaria, uma bateria de peças de artilharia velhas e espingardas de museu ou emprestadas pela polícia. Já não eram as tropas que corriam por entre as bananeiras num ataque para um bom almoço: as esquadras marchavam na baixa, nem pareciam uma paródia. Para as manobras navais e desembarques, as esquadras alugavam o vapor Ernesto e o iate Maria, embarcações da cabotagem: «Yath Maria e o Ernesto, terminados os exercícios ou a sortida naval da Marinha Terrestre após o desembarque em Santa Cruz ou o bombardeamento e a tomada, por exemplo, da vila de Machico pelos fuzileiros navais do Funchal, eram devolvidos aos armadores no dia seguinte, retornando à cabotagem» (PESTANA, 1981, 12). Os membros destes clubes eram os burgueses, os empregados de escritório e profissionais liberais que no Funchal de finais do século XIX não tinham como se entreter. A brincadeira exigia trabalho, aprumo, marcha com cadência militar. As fardas eram copiadas da Marinha e as patentes dividiam-se em oficiais, sargentos e praças, de acordo com a origem social de cada um. As unidades chegaram a ter oficiais médicos e capelães. Também os barcos eram diferenciados consoante a dimensão das quintas, o que explica a existência de fragatas, corvetas e canhoneiras. César Pestana, autor da monografia As Esquadras Submarinas de Navegação Terrestre, refere que este corpo se apresentou ao rei D. Carlos e à rainha D. Amélia, em 1901.

Os reis, de visita à Madeira, estavam a passeio no Monte quando, no Largo da Fonte, lhes foram prestadas honras militares por uma companhia da Armada, bem formada e com aprumo. O rei quis saber a que unidade pertenciam e o governador teve alguma dificuldade em explicar que aquela era uma esquadra de navegação terrestre. D. Carlos não gostou da confusão e mandou dissolver a farsa. As esquadras acabaram por capitular em 1916, pouco antes da entrada de Portugal na I Grande Guerra. Além de o ambiente não ser favorável a brincar à guerra – havendo já uma a matar soldados nas trincheiras –, as unidades enfrentavam um problema sério: o de haver mais oficiais do que marinheiros. Todos queriam ser oficiais; terão mesmo chegado a comprar patentes. O convite do governador militar da Madeira, o cor. Alencastre, à desmobilização dos almirantes acabaria assim por se traduzir num verdadeiro alívio. As esquadras extinguiram-se, mas durante anos as manobras navais foram faladas e lembradas no Funchal. Segundo a monografia de César Pestana, os ecos desta paródia fizeram-se sentir por vários anos. Houve até o caso de uma detenção pela PIDE, 50 anos após a extinção das esquadras: uma denúncia na polícia política sobre a existência de armas subversivas em casa de Valentim Maltês, antigo almirante da Esquadra Torpedeira de Navegação Terrestre. O velho comandante teve sérias dificuldades em explicar que os três canhões não passavam de lembranças dos tempos das esquadras, do tempo em que tinha sido o vistoso almirante da mais numerosa e poderosa esquadra de navegação terrestre.

Bibliog: PESTANA, César, As Esquadras Submarinas de Navegação Terrestre, 3.ª ed., Funchal, Edições Ilhatur 1981; GOMES, Reis J., De Bom Humor…, Coletânea, Funchal, s.n., 1942, pp. 183-188.

Marta Caires

(atualizado a 25.08.2016)