estreito, joão afonso

João Afonso, navegador, povoador e armador do século XV, é vulgarmente conhecido como João Afonso do Estreito. Sabe-se, por carta de 1469 (FERRAZ, 1962, 167), que o Infante D. Fernando desejava que os portugueses controlassem o comércio de açúcar e que se constituísse um monopólio para a fixação dos preços deste produto. A este propósito, no dia 14 de outubro de 1471, João Afonso Esteve reunido na Câmara com alguns donos de fazendas de cana-de-açúcar para debater e votar este contrato. Dentro das fronteiras da capitania do Funchal existiam dois Estreitos: o de Câmara de Lobos e o da Calheta; só neste último se produzia cana-de-açúcar, a que João Afonso está ligado; logo, o nome gentílico deste madeirense pode ser associado ao Estreito da Calheta.

A relevância de João Afonso está, indelevelmente, associada a Ferdinand van Olmen (conhecido em Portugal como Fernão Dulmo) que foi um povoador flamengo da Terceira e donatário da pequena capitania das Quatro Ribeiras no ano de 1486. Dulmo propõe a D. João II descobrir “uma grande ilha ou ilhas ou terra firme per costa, que se presume ser a ilha das Sete Cidades” (Alguns, 1892, 58) custeando ele mesmo esta expedição. Por carta régia de 3 de Março de.1486, D. João II assevera, antecipadamente, a “real doação da dita ilha ou ilhas ou terra firme” (Alguns, 1892, 58). El-Rei doa-lhe a capitania hereditária das terras a descobrir, delas podendo ele retirar todas as rendas e direitos e nela exercendo jurisdição criminal. Contudo, para esta empresa, Dulmo procurou um associado, pois não tinha condições de assegurar as despesas que a necessária armada exigia.

João Afonso é o madeirense com quem Dulmo lavra um contrato, em Lisboa, a 12 de julho de 1486. Este documento é confirmado por El-Rei a 24 de Julho de 1486, e os termos do mesmo permitem perceber a dimensão do projeto. Segundo este documento, João Afonso do Estreito fica obrigado a armar duas caravelas, pagar os “soldos das equipagens” e adiantar, aquando do contrato, uma quantia que permitia a Dulmo regressar à ilha Terceira, da qual partiria a expedição, em março do ano seguinte. Em contrapartida, Dulmo pagaria os fretes das duas caravelas e repartiria, a meias com o seu sócio, a capitania concedida por D. João II. Comandando cada um um navio diferente, a viagem teria a duração de seis meses. Nos primeiros 40 dias seria orientada por Dulmo e o restante da viagem seria feito sob orientação de João Afonso.

Este navegador assegura a força do seu contributo, tal como revela a carta régia de 4 de agosto de 1486. Por este documento concede-se-lhe a capitania das terras que fossem descobertas durante a parte da viagem sob sua orientação. O conseguimento, junto de El-Rei, desta prerrogativa é “indício claro das grandes esperanças com que entrara no pacto” (PERES, 1968, 49).

O projeto de navegar para oeste é relevante para a historiografia dos Descobrimentos. Muitos assumem a preparação desta viagem como uma etapa proeminente – a primeira empresa conhecida e preparada para a descoberta do Oeste antes de Colombo, figurando os seus organizadores como precursores daquele. Todavia, parece que a viagem não se realizou, pelo menos na data prevista, pois sabe-se que dia 18 de junho de 1487, três meses após a data agendada para o início da expedição, Dulmo ainda estaria na ilha a tentar assegurar a sua capitania numa disputa com Antão Martins (Capitão da Praia). Não há registo de resultados desta possível expedição. Sabe-se que ao contrário do que ocorreu com o projeto de Dulmo e João Afonso, D. João II não creditou o projeto de Colombo, que se socorreu da coroa espanhola para custear as despesas da expedição. A prioridade do projeto de Dulmo e João Afonso de Estreito tem relevância, mesmo que não se possa, aparentemente, inferir que os portugueses tivessem um conhecimento pré-colombiano da costa central americana, na medida em que pelo menos admitiam a “probabilidade de existir um continente nas regiões ocidentais do Atlântico” (PERES, 1968, 48), convicção exposta na doação do próprio El-Rei: “veio ora a nós e nos disse como ele nos queria dar achada uma grande ilha, ou ilhas, ou terra firme per costa, que se presume ser a Ilha das Sete Cidades” (Alguns, 1892, 58-59).

Bibliog.: Alguns Documentos do Arquivo Nacional da Torre do Tombo Acerca das Navegações e Conquistas Portuguesas Publicadas Por Ordem do Governo de Sua Majestade Fidelíssima ao Celebrar-se a Comemoração Quadricentenária do Descobrimento da América, Lisboa, Imprensa Nacional, 1892; CORTESÃO, Armando, Cartografia e Cartógrafos Portugueses, vol. 1, Lisboa, 1935; FERRAZ, José Joaquim de Freitas, “João Afonso do Estreito: Biografias”, Revista da Junta de Investigações do Ultramar, Separata de Garcia de Orta, vol. 10, n.º 1, Lisboa, 1962, pp. 167-168; PERES, Damião, “Considerações Relativas ao Projeto de Navegação Ocidental Gizado por Ferdinand van Olmen em 1486”, Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, 1952, pp. 343-347; Id., O Descobrimento do Brasil por Álvares Cabral – Antecedentes e Intencionalidade, 2ª ed., Lisboa, Comissão Executiva do V Centenário do Nascimento de Pedro Álvares Cabral/Bertrand, 1968; VIGNAUD, Henri, Histoire Critique de la Grande Entreprise de Christophe Colomb, vol. 2, Paris, H. Welter, 1911.

Rui Gonçalo Maia Rego

(atualizado a 24.08.2016)