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Pelo facto de ter sido o primeiro espaço de ocupação atlântica com sucesso, pela sua posição estratégica e pelo valor comercial das suas produções, a Madeira despertou, desde muito cedo, o interesse dos europeus, que aparecem sob a forma de aventureiros, navegadores, mercadores, cientistas, doentes ou turistas. De entre estes últimos grupos, ficaram registados testemunhos e estudos sobre a botânica, a geologia e a biologia do arquipélago, assim como imagens e registos das vivências e do quotidianos dos madeirenses, assinados na sua maioria por ingleses.

A estrutura socioeconómica do mundo insular articula-se, assim, de modo direto com as solicitações da economia europeia-atlântica. Como região periférica dos negócios europeus, as ilhas ajustam o seu desenvolvimento económico às necessidades do mercado europeu e às carências alimentares europeias. Depois, esta vinculação aperta-se, mercê da situação de mercado consumidor das manufaturas, acrescendo a tudo isto, por vezes, a função de intermediário nas ligações entre o Novo e o Velho Mundos. Note-se que, a partir de princípios do séc. XVI, o Mediterrâneo atlântico se define como centro de contacto e apoio aos comércios africano, índico e americano. Este sistema de trocas que se constrói na Ilha é definido por três grandes áreas europeias: Inglaterra e Irlanda: fazendas de lã, ferragens, trigo, farinhas, manteiga, carne de vaca e porco, e velas de sebo, estando muitos destes produtos em trânsito para a América espanhola; Europa do Norte (Noruega, Dinamarca, Suécia e portos franceses do Norte): farinha, manteiga, peixe de salmoura, material de construção naval, e aguardente francesa; e Portugal continental: sal, sabão, tabaco, géneros comestíveis, como gorduras (azeite, óleo), frutas algarvias, cereais (milho), produtos manufaturados diversos ligados à construção (tijolo, telhas), e vestuário.

Partindo desta situação subalternizadora do mercado insular, é comum definir a economia das ilhas pelo caráter periférico da função estratégica onde se jogaram os interesses hegemónicos europeus além-Atlântico. A função de apoio à navegação resulta apenas do posicionamento geográfico. O elo europeu é mais forte que o americano ou o asiático, sendo responsável pelo seu desenvolvimento económico. A estrutura comercial esboça-se de modo complicado, definindo-se de forma heterogénea. Não existe uma linearidade na sua definição, mas sim uma variedade de áreas e circuitos comerciais, e a intervenção de agentes nacionais e estrangeiros.

O comércio insular com a Europa definia-se por uma multiplicidade de produtos, agentes, rotas e mercados. Neste aspeto, a Península Ibérica apresentar-se-á como o principal mercado consumidor ou redistribuidor para as mais importantes praças europeias. Não obstante persistir uma tendência centralizadora nos portos de Lisboa e Sevilha, o certo é que a sua expressão real, nomeadamente no caso português, foi muito mais ampla, abrangendo os principais portos de comércio a sul (Lagos e Silves) e a norte do país (Caminha, Viana, Porto e Vila do Conde).

Nos primeiros decénios, a presença de mercadores estrangeiros, empenhados no comércio dos produtos insulares portugueses, estava limitada à cidade de Lisboa, mercê das dificuldades impostas no início do séc. XV à intervenção direta nos mercados produtores. Mas isto não poderia manter-se por muito mais tempo, e cedo apareceram os primeiros estrangeiros avizinhados ou com licença para fazer comércio e fixar residência. Depois, abriram-se-lhes as portas, como forma de promover o comércio excedentário do açúcar. Mesmo assim, a troca esteve, por muito tempo, sujeita a inúmeros impedimentos da livre circulação dos agentes e da mercadoria.

No início do povoamento da Madeira, o produto que de imediato cativou a atenção dos portugueses foi aquele que deu nome à Ilha, isto é, as madeiras. Estas eram de alta qualidade, tendo usos múltiplos dentro e fora da Ilha. Muitas foram exportadas para o reino e também para as praças africanas (Mogador e Safim) e os portos europeus (Ruão). Tal como nos elucidam os cronistas, estas madeiras revolucionaram o sistema de construção civil e naval no reino.

A trama de relações com o velho continente não se resumia apenas aos portos reinóis, uma vez que as culturas locais cativaram o interesse dos mercados mediterrânicos e nórdicos: primeiro, a urzela e outras plantas tintureiras, como o sangue-de-drago e o pastel, e, depois, o açúcar e o vinho foram produtos que estiveram na mira dos mercadores estrangeiros. A par disso, o reino não dispunha de todos os artefactos solicitados pelas gentes insulares, cada vez mais exigentes quanto à sua qualidade. As riquezas acumuladas com este comércio apelavam para um luxo ostensório no ornamento da casa, desiderato que só poderia ser satisfeito nas praças de Ypres, Ruão e Londres.

Nos sécs. XV e XVI o madeirense, ao contrário do açoriano, estava orientado para o tradicional mercado do Mediterrâneo, tendo como principal aposta o açúcar. Neste caso, surgem três áreas: as praças espanholas de Sevilha, Valência e Barcelona, as cidades italianas (Génova, Veneza e Livorno) e os portos do Mediterrâneo Oriental (Chios e Constantinopla). As primeiras foram imprescindíveis para este comércio, funcionando como praças de redistribuição para o mercado levantino.

O comércio do açúcar surge no mercado madeirense como o principal animador das trocas, no decurso dos sécs. XV e XVI, com o mercado europeu. Durante mais de um século, o açúcar foi a riqueza das gentes e a contrapartida para o suprimento de bens alimentares e artefactos. O seu regime de comércio é assim definido por Vitorino Magalhães Godinho: “entre a liberdade fortemente restringida pela intervenção quer da coroa quer dos poderosos capitalistas, de um lado, e o monopólio” (VIEIRA, 1987, 129). Deste modo, o comércio do açúcar só se manteve em regime livre até 1469, altura em que a quebra do preço condicionou a ação do senhorio, que estipula o exclusivo aos mercadores de Lisboa. Esta política de controlo e monopólio do comércio não contou com o apoio dos madeirenses, que sempre manifestaram opinião contrária. Todavia, havia de persistir até 1508, altura em que foi revogada toda a legislação comercial, restritiva da livre intervenção de madeirenses e estrangeiros. Em 1498, no sentido de controlar esse comércio, estabeleceu-se como limite de exportação as 120.000 arrobas, divididas pelos principais mercados do Mediterrâneo e Norte da Europa. Este estabelecimento das escapulas (valores determinados de saída de açúcar) deveria definir com precisão o mercado consumidor do açúcar madeirense, que se circunscrevia a três áreas distintas: o reino, a Europa nórdica e a Europa mediterrânica. As praças do Norte dominavam esse movimento, recebendo mais de metade do açúcar. Aí evidenciam-se as praças da Flandres, enquanto no Mediterrâneo a posição cimeira é atribuída a Veneza, conjuntamente com as praças levantinas de Chios e Constantinopla.

A partir de meados do séc. XV, a Madeira atraiu uma vaga de forasteiros, mercê da prioridade da ocupação e da exploração do açúcar, que só não foi maior dadas as dificuldades colocadas pelos madeirenses à sua residência na Ilha. Mesmo assim, a Coroa continuava a facultar a entrada e a fixação de italianos, flamengos, franceses e bretões por meio de privilégios especiais, como forma de assegurar um mercado europeu para o açúcar. A elevada demanda do pastel e do açúcar nos mercados europeu, do Mediterrâneo e do Norte da Europa conduz a esta aposta.

As ilhas desempenharam um papel fundamental não só enquanto terras acolhedoras e geradoras de riqueza para os primeiros colonos, mas também como bases de apoio ao processo de expansão europeia-atlântica em curso, à navegação e ao suprimento das carências alimentares, e à disponibilização de produtos para troca vantajosa com os africanos. Primeiro madeirense e depois açoriano, o cereal desempenha aqui um papel fundamental. O provimento das praças africanas, mas, acima de tudo, o comércio com a Guiné, entra na rede de relações comerciais que fazem chegar à Europa o ouro e os escravos. Papel idêntico assumiram o sal de Cabo Verde e os cavalos marroquinos. A conquista de novos mercados para o domínio da rota transaariana obriga necessariamente à criação desta lógica de interdependência, que não pode, de modo algum, ser ignorada. Aqui, o papel das ilhas é fundamental.

Por volta de 1530, Giulio Landi traça-nos o retrato do burgo funchalense: “Aqui chegam frequentemente mercadores de países muito distantes: de Itália, França, Flandres, Inglaterra e da Península Ibérica, que para lá levam aquelas coisas que fabricam panos da ilha e dela transportam aquelas de que a ilha é produtora, tais como açúcar e vinho, por lá haver em grande abundância” (ARAGÃO, 1981, 83). O mesmo autor refere que a Madeira se abastecia de cereais nas ilhas vizinhas e que o vinho era vendido “a mercadores que o levam à Península Ibérica e para outros países setentrionais” (Id., Ibid., 86).

O momento de esplendor de finais do século, conforme descrições de Frutuoso e Torriani, resulta certamente do comércio do vinho, que, desde a déc. de 70, vinha conquistando mercados na Europa e na América. O primeiro exalta a opulência madeirense: “A ilha da Madeira […] tão afamada e guerreira com seus ilustres e cavaleiros capitães, e tão magnânimos, e com generosos e grandiosos moradores; rica com seus frutos; celebrada com seu comércio que Deus põe no mar oceano ocidental por escala, refúgio, colheita e remédio dos navegantes que de Portugal e de outros reinos vão, e de outros portos e navegações vêm para que diversas partes, além dos que de força ela somente navegam, levando-lhe mercadorias estrangeiras e muito dinheiro para se aproveitar do retorno que dela lutam para suas terras, […] com seu licor e doçura, como um néctar e ambrósio provê as Índias ambas, a Oriental aromática e a Ocidental dourada, chegando e adoçando seus frutos de extremo a extremo quase o mundo todo” (FRUTUOSO, 1968, 99-100). O segundo salienta a intensa atividade comercial do porto funchalense com a África e a Europa: “El comercio es muy importante, y se hace navios que vienen a esta ciudad de Funchal de todas las partes del África Cristiana, de Italia, España, França, Alemaña y Escocia, de modo que se ha apodado de ‘pequeña Lisboa’” [O comércio é muito importante e faz-se com navios que chegam a esta cidade do Funchal provenientes de todas as zonas da África cristã, de Itália, Espanha, França, Alemanha e Escócia, de tal maneira que se lhe chamou ‘pequena Lisboa’”] (TORRIANI, 1978, 266). Lisboa inseria-se de modo evidente na economia europeia atlântica, participando do trato com o Velho e o Novo Mundos e servindo de entreposto de comércio para as suas riquezas e das áreas vizinhas. A oferta madeirense baseava-se, essencialmente, na produção agrícola.

Vimos em muitos autores a afirmação desta apetência da Ilha para satisfazer as expectativas dos primeiros povoadores. Assim o enuncia Gaspar Frutuoso: “[…] a terra foi mostrando seus frutos e dando a fama deles no Reino, e enobrecendo-se com moradores ricos” (FRUTUOSO, 1968, 96). Esta riqueza foi o motor do sucesso do povoamento da Ilha, tal como nos elucida o mesmo autor: “[…] crescendo e multiplicando seus frutos, assim iam crescendo as povoações e moradores com a fama de sua fertilidade” (Id., Ibid., 97). Primeiro, ergueram-se os socalcos (poios), depois adaptaram-se as técnicas e as alfaias agrícolas aos condicionalismos do novo espaço cultivado. Rapidamente o cereal cedeu lugar aos canaviais, que, em pouco tempo, dominaram todo o espaço agrícola. A indústria que se promoveu na retaguarda para o fabrico do açúcar exigiu muito do quadro natural, lançando a Ilha para um processo de desflorestação de consequências imprevisíveis. Esta situação arrastou o solo agrícola da Madeira para a quase total exaustão. Em 1689, John Ovington testemunha, de forma lapidar, a realidade: “A fertilidade da ilha decaiu muito relativamente ao período das primeiras culturas. A cultura sem descanso dos terrenos tornou os fracos espaços em muitos lugares e de tal modo que os abandonam periodicamente, tendo de ficar de poisio três ou quatro anos. Depois desse tempo, se não crescer nenhuma giesta como sinal de fertilidade futura, abandonam-nos, com estéreis. A atual aridez de muitas das suas terras, atribuem-na simploriamente ao aumento dos seus pecados” (ARAGÃO, 1981, 201).

A política de isenção da dízima no movimento de exportações e importações entre o arquipélago e o continente português, para além de favorecer as ligações aos portos do reino e o consumo dos produtos nacionais, contribuiu para estabelecer vínculos de dependência com a metrópole em termos do comércio externo da Ilha, situação que se tornará desfavorável em muitos casos. Por outro lado, fará com que uma importante e significativa receita local, nomeadamente da exportação do açúcar, fique nas alfândegas de Lisboa, Porto e Viana do Castelo, por onde se exportava muito deste para os principais mercados europeus.

No séc. XV, havia em Lisboa a ideia de entregar o comércio do açúcar da Ilha, sob a forma de contrato, a sociedade comerciais residentes em Lisboa, tendo os madeirenses recusado esta forma de monopólio. Todavia, não puderam impedir os contratos que a Coroa estabeleceu para a administração da mercadoria resultante dos direitos que onerava, por exemplo o açúcar, cujo circuito seguia muitas vezes por Lisboa, retirando à Ilha a possibilidade de cobrar a dízima da exportação do vinho, do açúcar, dos cereais, da urzela e do pastel. Tudo isto porque os circuitos da navegação oceânica se estabelecem por redes internacionais que fogem à lógica local, acabando muitas vezes por dar origem a esta situação. Acresce que uma análise de alguns valores da economia local relacionados com a produção de vinho e açúcar evidencia disparidades nas receitas tributárias cobradas na Ilha à saída da alfândega, por força desta circunstância.

Na época senhorial, o donatário considerava-se o proprietário do espaço da Ilha e, portanto, tudo o que recebia dos povoadores que haviam aceitado dadas de terras era um tributo que resultava de um direito de posse, que os povoadores retribuíam com estes encargos; daí a ideia de direitos e não tributos senhoriais. A ideia de “horta do senhor infante” (ANTT, Corpo Cronológico, pt. I, mç. 27, n.º 52), como é referido num documento do capitão do Funchal, no séc. XVI, implica, precisamente, esta subordinação do espaço da Ilha aos interesses do seu proprietário. O próprio infante não hesita, em 1460, em afirmar esta forma privada de posse, ao declarar que “comecei a povoar a minha ilha da Madeira haverá ora XXXV anos […]” (MARQUES, I, 1944, 549). A Madeira foi, na verdade, uma terra que se transformou num espaço de fruição, por força da humanização portuguesa, funcionando como um dos principais suportes económicos da casa senhorial, bem como de expansão no espaço atlântico. Poucos assentaram aqui morada e passaram a usufruir dos produtos e das condições oferecidas pelo novo espaço, mas muitos foram os beneficiários de fora para esta riqueza. As ilhas são, assim, espaços de apropriação da riqueza para fruição no reino, sendo para este uma solução mais eficaz e rentável, tal como expressa o cronista João de Barros, quando se refere à costa da Guiné: “[…] eu não sei neste Reino jugada, portagem dízima, sisa ou algum outro direito real e mais certo em que regularmente cada ano assim responda sem rendeiros alegarem esterilidade ou perda, do que é o rendimento do comércio de Guiné. E tal que se o soubermos agricultar e granjear com pouca semente nos responderá com mais novidade que os reguengos do Reino e lezírias do campo de Santarém” (BARROS, 1932, 119).

Se compararmos as escapulas com o açúcar consignado às diversas praças europeias no período de 1490 a 1550, verificamos que o mercado daqui emergente não estava muito aquém da realidade. As únicas diferenças relevantes surgem com a Turquia, a França e a Itália, sendo de salientar na última um reforço da posição. Todavia, esta diferença (quase 22 %) poderá resultar da atuação das cidades italianas como centros de redistribuição no mercado mediterrânico.

Os dados disponíveis para o comércio do açúcar na Madeira, neste período, evidenciam a constância dos mercados flamengo e italiano. O reino, circunscrito aos portos de Lisboa e de Viana do Castelo, surge em terceiro lugar, apenas com 10 %. No período de 1581 a 1587, Viana é mesmo o único porto do reino mencionado nas exportações de açúcar, mantendo uma posição inferior a 1490-1550. Nas transações com o mundo mediterrânico, existiam igualmente alguns entrepostos, como são os casos de Cádis e Barcelona. No período de 1493 a 1537, estas cidades surgem com os portos de apoio ao comércio com Génova, Constantinopla, Chios e Águas Mortas.

A partir do séc. XVII, a criação de consulados de países europeus no Funchal – primeiro, o consulado dos flamengos (1608), depois o de França (1626) e o de Espanha (1667) – revela a necessidade de institucionalizar estas relações europeias da Ilha. O consulado inglês, comummente referenciado como tendo aparecido em 1656, parece ser anterior, pois, a 2 de março de 1647, há referência a Jorge Pasmer como “mercador inglês e nesta Ilha cônsul da dita nação” (ANTT, Provedoria e Junta…, liv. 980, fl. 157). No séc. XVIII, temos os de Malta (1748), Génova (1749), Nápoles (1766), Toscana (1768), República de Veneza (1796), Estados Unidos da América (EUA) (1791) e Suécia (1796) e, no seguinte, os da Dinamarca (1804), Rússia (1812), Sardenha (1826), Áustria (1855), Havai (1855), Uruguai (1888), Argentina (1888) e os vice-consulados do Brasil (1827) e das duas Sicílias (1828).

A conjuntura política decorrente das ambições imperiais de Napoleão Bonaparte repercutiu-se, de forma evidente, no espaço atlântico, provocando uma alteração no movimento comercial. O mútuo bloqueio continental entre a França e a Inglaterra lançou as bases para uma nova era na economia atlântica. Os tradicionais circuitos comerciais que se iniciavam e finalizavam nos portos europeus pararam. O bloqueio não foi assumido e fiscalizado na totalidade, significando, apenas, a alteração de algumas rotas comerciais. A Madeira perdeu os portos do reino e do norte da Europa, mas, em contrapartida, ganhou nos contactos com os Açores e com as colónias inglesas do Índico.

A Europa era o principal mercado do vinho, sendo os britânicos os seus mais destacados apreciadores. Shakespeare insiste na presença do Madeira nas tabernas e à mesa da aristocracia. A referência mais antiga à exportação europeia é para Rouen e Orleans, em 1532. Contudo, segundo Paulo Perestrelo da Câmara, já em 1478 o vinho Madeira era conhecido em Inglaterra e terá sido a corte de Francisco I, rei de França (1495-1547), a receber os primeiros vinhos. Rebelo da Silva diz que, a partir da segunda metade do séc. XVI, o vinho Madeira era apreciado no mercado europeu. Lopes, nas suas memórias de viagens (1588), publicadas no Purchas Pilgrinages, refere que o vinho assumia em finais do séc. XVI um peso significativo nas exportações.

Para Álvaro Rodrigues de Azevedo, o surgimento dos estabelecimentos consulares da Bélgica (1608), de França (1626), de Inglaterra (1658), da Holanda (1667) e de Espanha (1668) não só mostra com que nações comerciava a Madeira os seus vinhos, mas indica também a gradação do desenvolvimento deste comércio: Flandres, França, Inglaterra, Holanda, Espanha. Só mais tarde o vinho Madeira foi diretamente levado para a Alemanha, a Rússia e, por último, para os Estados Unidos da América, sendo as relações comerciais da Madeira com a metrópole talvez as menos importantes.

A primeira metade do séc. XIX foi marcada por mudanças no mercado consumidor, representando o período de rutura do Velho com o Novo Mundo. O mercado colonial cedeu lugar ao europeu. As colónias, agora em processo rápido de quebra dos vínculos europeus, afastavam-se dos circuitos de distribuição do vinho Madeira. A Ilha acompanhou o processo indo ao encontro dos apreciadores, de regresso ao velho continente.

Os portos da Índia, das Antilhas dos Estados Unidos da América deram lugar aos europeus, como Londres, Hamburgo, São Petersburgo e Amesterdão, como testemunha Álvaro Rodrigues de Azevedo em 1873, ao afirmar que estes vinhos, entre 1830 e 1840, foram ganhando importância nos mercados das cidades hanseáticas, da Rússia e da Holanda, noutros portos da Europa e nos Estados Unidos. Os dados de exportação confirmam a viragem do mercado a partir de 1831.

Londres surge, entre 1831 e 1834, com um número significativo de pipas importadas. Idêntica foi a situação de São Petersburgo em 1832, e entre 1833 e 1839 esta cidade suplantou o mercado londrino. O mercado de Hamburgo apresenta-se igualmente com valor significativo. O facto mais saliente resulta da quebra momentânea das exportações para o mercado colonial das Índias Orientais e da América do Norte.

Na déc. de 60 do séc. XX, o bordado da Madeira chegava a novos e tradicionais mercados, como os Estados Unidos, a Suíça, a Suécia, a Dinamarca, a Alemanha, a França, Inglaterra, Espanha, a Austrália e a África do Sul.

Bibliog.: manuscrita: ANTT, Provedoria e Junta da Real Fazenda do Funchal, liv. 980, fl. 157; Corpo Cronológico, pt. i, mç. 27, n.º 52; impressa: ARAGÃO, António, A Madeira Vista por Estrangeiros, Funchal, DRAC, 1981; BARROS, João de, Ásia: dos Feitos que os Portugueses Fizeram no Descobrimento e Conquista dos Mares e Terras do Oriente – Primeira Década, vol. i, Coimbra, Impr. da Universidade de Coimbra, 1932; CÂMARA, Benedita, A Economia da Madeira (1850-1914), Lisboa, Instituto de Ciências Sociais, 2002; FRUTUOSO, Gaspar, Livro Segundo das Saudades da Terra, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1968; GOMES, José Luís de Brito, “A Madeira e a Rússia”, Atlântico, n.º 4, 1985, pp. 298-305; KELLENBENZ, Hermann, “Relações Comerciais da Madeira e dos Açores com Alemanha e Escandinávia”, in CEHA (org.), Actas do II Colóquio Internacional de História da Madeira, Funchal, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1990, pp. 99-113; MARQUES, João Martins da Silva, Os Descobrimentos Portugueses, vol. i, Lisboa, Instituto para a Alta Cultura, 1944; PEREIRA, Fernando Jasmins, Estudos sobre a História da Madeira, Funchal, CEHA, 1991; RIBEIRO, J. Adriano, “O Tratado de Utrecht e a sua Projecção Económica”, Atlântico, n.º 20, 1989, pp. 289-294; SOUSA, João José Abreu de, O Movimento do Porto do Funchal e a Conjuntura da Madeira de 1727 a 1810: Alguns Aspectos, Funchal, DRAC, 1989; TELO, António José, “A Europa e as Ilhas – Uma Dinâmica Milenar”, in As Ilhas e a Europa, a Europa das Ilhas, Funchal, CEHA, 2011, pp. 10-33; TORRIANI, Leonardo, Descripción e Historia del Reino de las Islas Canárias antes Afortunadas, con el Parecer de sus Fortificaciones, Santa Cruz de Tenerife, Goya Ed., 1978; VIEIRA, Alberto, O Comércio Inter-Insular nos Séculos XV e XVI, Madeira, Açores e Canárias, Funchal, CEHA, 1987; Id., “A Propósito das Ilhas Atlânticas e da Europa: um Percurso Histórico a partir da Madeira”, in As Ilhas e a Europa, a Europa das Ilhas, Funchal, CEHA, 2011, pp. 34-70.

Alberto Vieira

(atualizado a 19.08.2016)