feiticeiro do norte (manuel gonçalves)

Manuel Gonçalves (Feiticeiro do Norte). Versos 1994. Arquiv. Rui Carita
Manuel Gonçalves (Feiticeiro do Norte). Versos 1994. Arquiv. Rui Carita

Manuel Gonçalves, mais conhecido pela alcunha de “feiticeiro do Norte”, foi um poeta popular madeirense, cujos versos eram apreciados por toda a Ilha. Apesar de analfabeto, deixou uma obra poética singular no panorama literário insular de inícios do séc. XX. Do seu percurso de vida fazem parte as profissões de agricultor e de pedreiro. É recordado como um homem do povo, simples e humilde.

Nasceu no norte da ilha da Madeira, na freguesia do Arco de São Jorge, a 14 de outubro de 1858, onde veio a falecer, a 19 de março de 1927. Era filho de João Gonçalves de Freitas e de Maria Júlia. Casou-se com Maria de Jesus, de quem teve um filho, que morreu ainda jovem. Tendo ficado viúvo, casou-se em segundas núpcias com Maria de Jesus Pestana. Do segundo casamento nasceram oito filhos, quatro dos quais acabaram por falecer ainda jovens.

Apesar de uma vida de pobreza, marcada por dificuldades e dramas familiares, Manuel Gonçalves tinha uma personalidade alegre, era divertido e estimado por todos. Entre os seus amigos estava o pároco da freguesia, P.e Casimiro Augusto de Freitas, que tentou, inclusivamente, ensinar-lhe as primeiras letras sem conseguir obter resultados, pois o “feiticeiro” não era dado ao estudo. Vivia com entusiasmo as festividades populares e revelou possuir uma grande imaginação, surgindo sempre com algumas cantigas ou algo de novo para contar.

Segundo apurou Alberto F. Gomes, nas noites de S. Martinho, o “feiticeiro do Norte” costumava organizar uma procissão que percorria as ruas da aldeia. Seguia ao comando do cortejo com um garrafão cheio e voltava à adega para reabastecimento quando este se esvaziava; na adega, acendia uma vela sobre cada pipa e não faltavam os instrumentos regionais (uma viola ou um rajão). Pelo Natal, armava sempre um presépio, que era muito popular no local e visitado por gentes das redondezas. Na noite de Natal, na igreja da paróquia, o “Feiticeiro” organizava uma romagem, aguardada com expetativa pelos fiéis que iam à Missa do Galo. Esta era constituída pelos seus filhos e por rapazes da vizinhança e representava a chegada dos pastores e dos reis magos a Belém. Ainda na quadra natalícia, visitava a família e amigos e cantava “os reis” ao som de instrumentos regionais.

Na verdade, era acompanhado pelo som de uma viola ou de um rajão que o “feiticeiro do Norte” gostava de entoar as suas criações poéticas. Manuel Gonçalves tinha o hábito de percorrer os caminhos da Ilha para participar nos arraiais onde se reuniam romeiros de diferentes localidades, que se divertiam com cantigas e despiques, ao ritmo dos instrumentos regionais. Começou a evidenciar o seu dom para as rimas quando tinha cerca de 40 anos, e revelou, então, a sua vocação poética para a composição e o improviso de trovas e cantigas, criando versos que eram apreciados pelos populares. Depressa ganhou fama e conquistou adeptos. Tornou-se uma figura estimada em todos os recantos da Ilha. Nas terras por onde passava não era raro ser acolhido como hóspede pelas famílias. Numa época em que as deslocações entre as diferentes localidades eram feitas a pé, percorrendo grandes distâncias, por caminhos e acessos difíceis, conhecia todas as freguesias da Madeira, quando muitos madeirenses apenas conheciam as localidades mais próximas da sua.

As suas composições originais e pitorescas despertavam grande interesse e constituíam um dos atrativos nas festividades da Madeira, de tal modo que a presença de Manuel Gonçalves num arraial motivava a deslocação de muito povo para o ouvir, mesmo de locais distantes. O poeta tirou proveito da sua reputação mandando imprimir os seus versos, que depois vendia ao público que o escutava. Os poemas eram impressos nas tipografias do Funchal, sob a forma de folhetos, com edições de cerca de 2000 exemplares. Foi desta forma, vendendo os folhetos aos romeiros enquanto declamava poesia, que a voz do “feiticeiro do Norte” se fez perdurar por gerações consecutivas.

Sendo um homem do povo, identificava-se com as queixas e os anseios dos seus conterrâneos. A feição crítica e reivindicativa dos seus cantos, bem como a forma como tratava temas do interesse do povo, dando-lhes um caráter humorístico, tornava-o merecedor da estima dos camponeses. Era através da voz do trovador popular, que expressava aquilo que os outros pensavam, mas não tinham coragem de repetir, que as gentes mais desfavorecidas faziam chegar aos governantes as denúncias da condição miserável em quem viviam. Segundo Alberto F. Gomes, a poesia de Manuel Gonçalves é uma reminiscência do jogral medieval, que simultaneamente divertia e censurava, ganhando popularidade essencialmente pela sua sinceridade, espontaneidade, limpidez e originalidade, sendo a sua principal característica criar e não imitar, como tantos outros vates populares.

Manuel Gonçalves tinha por motivos de inspiração acontecimentos que ia aprendendo e observando nas suas vivências quotidianas, ora denunciando e criticando o abuso e a exploração dos ricos, dos senhores, dos morgados e dos políticos, ora relatando as lutas de sobrevivência dos lavradores. Os versos assentam na sua experiência pessoal de vida, nas suas emoções, aspirações ou frustrações individuais, também partilhadas pela sua gente.

Este feiticeiro da Palavra falava sobre vários assuntos do seu tempo e também de cariz autobiográfico, como em A Vida do Feiticeiro do Norte, onde traça o seu retrato físico. Manuel Gonçalves evidenciava-se pela sua farta barba e apresentava-se vestido com um fato de seriguilha e calçado com “botas de capado”. Conforme revela pelas suas palavras, tinha uma deformidade física, “era cambado das pernas” e tinha um “corpo malfeitaço”. Afirma, entre versos divertidos, que foi alvo de troça das “bilhardeiras” em vésperas do seu casamento. Noutro poema, refere-se à morte de uma filha que o acompanhava nas suas jornadas pela Ilha, a cantar nos arraiais. O poema é constituído por duas falas, a da filha, que se despede da vida, e a do pai, que lhe roga que ela seja sua advogada no reino de Deus. É um poema que assume um tom de natureza lírica e de pendor religioso, ao contrário do habitual estilo satírico que o caracteriza.

Pelos seus versos conhece-se a vida da terra, a pobreza e as histórias da existência do camponês. Em A Antiguidade de Meu Pae, menciona o trabalho árduo do pai, que é um retrato do camponês madeirense, na sua luta diária para ganhar o pão, desafiando as intempéries e estando à mercê do senhorio e do feitor. Trata-se ainda de uma crítica às condições miseráveis em que viviam muitos lavradores naquele tempo. Invoca novamente o seu pai em O Lavrador, onde enaltece os agricultores, cujo trabalho considera não ser devidamente valorizado, apesar da sua importância para o sustento de todos. Critica todos aqueles que exploram os lavradores, desde juízes, reverendos e inspetores até funcionários públicos. Faz ainda um reparo aos homens que deixaram a agricultura para se dedicarem ao “emprego do governo” e a todos os letrados que não querem trabalhar nos campos. Os comentários e ataques feitos ao fisco e à administração pública são nada mais que o reflexo do descontentamento geral da sua comunidade, como expõe nos versos intitulados A Imigração da Madeira, a propósito do êxodo e das razões que levam a população a procurar outros destinos. O “feiticeiro” aproveita o ensejo para criticar as falsas promessas partidárias por altura das eleições: reprova as obras inacabadas e os melhoramentos por cumprir, como a falta de levadas ou os caminhos deteriorados e intransitáveis. Insurge-se contra os pesados impostos que oprimem e empobrecem ainda mais os trabalhadores e alerta os governantes para a situação precária em que vivem os camponeses.

Nos versos intitulados “A Cana-de-Açúcar” discorre sobre a economia da Ilha, a propósito da cana-de-açúcar e da vinha, as principais culturas e fontes de rendimento da Madeira. Refere as diferentes castas e qualidades de ambas as culturas e menciona os diversos intermediários no setor, que lucram com a sua produção, desde o lavrador, o regador, o senhorio, o feitor, o carreteiro, o fabricante e o “levadeiro”, até ao vendeiro, e à própria Câmara. A indústria dos bordados da Madeira veio facilitar a vida de muitas mulheres de baixo extrato social, porque passaram a receber um salário, o que lhes permitiu ter uma vida mais independente, adquirir roupas e apresentar-se bem. Esta realidade não passou despercebida ao olhar atento do “feiticeiro do Norte”. Ao cantar As Raparigas dos Bordados, retrata a vaidade e o estilo destas moças que arranjam noivo com facilidade mas depois de casadas enfrentam alguns problemas.

Compôs ainda versos de cariz religioso, para cantar em ocasiões festivas, como “Os Reis Magos”, entoados na igreja na noite de Natal, para representar a chegada dos reis magos que prestam homenagem ao Menino Jesus. E “O São Martinho”, improviso destinado ao dia de São Martinho, dia de cumprir a tradição de provar o vinho. Invocou igualmente os santos populares, nomeadamente o “Santo António”, aludindo aos pedidos das solteironas, que ambicionavam casar e recorriam ao santo para conseguirem um companheiro.

Relatava tudo o que via e descobria à sua volta e descrevia a paisagem da Ilha. Nos versos sobre a Madeira intitulados A Madeira, dedica uma quadra a cada freguesia, apontando pormenores que as caracterizam: os pescadores de Câmara de Lobos, as castanhas da Quinta Grande, as festas da Ribeira Brava, a comarca da Ponta do Sol, o cultivo da bananeira na Madalena do Mar, as lapas nas praias de Ponta Delgada, a produção de milho em São Jorge, o gaiado no Caniçal, a cebola do Caniço, entre outros detalhes curiosos das diferentes localidades madeirenses. Relativamente à cidade, cria o poema A cidade do Funchal, que constitui um roteiro em verso da cidade do Funchal da época. Refere vários elementos e locais emblemáticos: o Pilar de Banger, o palácio da Fortaleza, a Sé, o Bazar do Povo, o teatro, o largo do Chafariz ou, até, a rede de eletricidade, elogiando simultaneamente a boa gestão camarária. Descreve também a paisagem que descobre, sobretudo no verão, na poesia “A Fruta do Verão”, na qual destaca as frutas que surgem nesta estação do ano. Vai contando histórias que divertem e fazem rir o público, como “O Boi”, uma sátira a um caso ocorrido na Calheta com um proprietário ilustre da localidade, que foi enganado com a venda de um boi, quando julgava ter comprado um touro; e “O meu galo preto”, uma narrativa em que conta as peripécias do referido galináceo.

O “feiticeiro do Norte” tem o mérito de relatar, em verso, alguns acontecimentos de interesse para a história da Madeira ocorridos em finais do séc. XIX e inícios do século seguinte. São ilustrativos os textos: As Inundações de 1895, que relata os acontecimentos e as consequências da aluvião de 1895, verificado na Madeira nos dias 2 e 3 de outubro daquele ano; A Chegada de Suas Majestades, em 1901, em que descreve as festividades da cidade e manifestações de regozijo, tanto as de caráter oficial, como as populares, quando da visita do rei D. Carlos e da rainha D. Amélia; e “A Peste do Lazareto”, no qual conta um período da vida na cidade, em novembro de 1905, relacionado com o surgimento de alguns casos de cólera, que deram origem a internamentos no Lazareto. Ali foram mantidas algumas pessoas em isolamento, mas entretanto surgiram boatos em torno da possibilidade de se tratar de uma falsa epidemia, o que deu azo a um motim popular. Foi um caso muito comentado na época e é também um dos seus poemas mais procurados.

Em 1910, esteve no Brasil, chegando a editar folhetos naquele país. Na cidade de Santos, publicou alguns versos, intitulados Oferta de Manoel Gonçalves Natural da Ilha da Madeira aos Pobres da Santa Casa da Misericórdia desta Cidade. Estes foram criados com o intuito de serem vendidos, para que o produto da venda revertesse a favor da Misericórdia local. No outro poema, Pedro Alvares Cabral e Portugal e Brasil, editado naquele país, procura focar alguns períodos da história, mas enquadrando aspetos da realidade que conhece, sempre enaltecendo o trabalhador, reprovando o funcionalismo público e criticando as lutas políticas. Decorrido pouco tempo, regressou à Madeira, retomando o costume de percorrer os caminhos da Ilha e participar nos arraiais que se iam realizando. No Funchal, era também solicitado para cantar em casas particulares e no Hotel Monte Palace, onde era apreciado por um público mais restrito.

A sua carreira artística não terá sido muito longa. Foi por volta de 1920, aos 62 anos, que deixou de cantar e, a partir de então, era visto junto de um moledo, ou sentado à porta da sua residência, no Arco de S. Jorge, a repetir em voz baixa os seus versos.

Para homenagear o filho da terra, foi denominada do Feiticeiro do Norte uma Biblioteca e Centro Multimédia inaugurada a 17 de março de 2009, na freguesia do Arco de São Jorge, com o intuito de promover a literatura popular madeirense. O trovador, uma das personalidades mais representativas da cultura popular e tradicional daquela localidade ao norte da Ilha, inspirou também o nome de uma associação cultural, criada em 2013, designada de Teatro Feiticeiro do Norte.

Foto - BF
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Foto: BF
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A maior parte dos seus versos está impressa em folhetos avulsos. Em 1959, foi editada, em separata do semanário Voz da Madeira, com prefácio e notas de Alberto F. Gomes, a coletânea póstuma Versos de Manuel Gonçalves (Feiticeiro do Norte), que inclui “O Meu Galo Preto”; “A Cana-de-Açúcar”; “A Fruta do Verão”; “O São Martinho”; “O Santo António”; “Os Reis Magos”; “O Boi”; “Na Morte da Filha” e “A Peste do Lazareto.

Obras de Manuel Gonçalves: A Ressurreição do Feiticeiro do Norte (s.d.); O Lavrador (1901); A Chegada de Suas Majestades (1901); As Raparigas dos Bordados (1902); A Imigração da Madeira (1902); A Cidade do Funchal (1902); As Inundações de 1895 (1902); A Antiguidade de Meu Pae (1908); A Madeira (1908); A Vida do Feiticeiro do Norte (Manoel Gonçalves) Descrita Por Ele Mesmo (1908 e 1910); Oferta de Manoel Gonçalves Natural da Ilha da Madeira aos Pobres da Santa Casa da Misericórdia desta Cidade (1910); Pedro Alvares Cabral e Portugal e Brasil (1910); Versos de Manuel Gonçalves (Feiticeiro do Norte) (1959).

Bibliog.: FLORENÇA, Teresa, “Estudo dá a Conhecer ‘Feiticeiro do Norte’”, Diário de Notícias, Funchal, 21 fev. 2009, p. 27; GOMES, Alberto F., “Prefácio”, in GONÇALVES, Manuel, Versos de Manuel Gonçalves (Feiticeiro do Norte), Funchal, separata de Voz da Madeira, 1959; HENRIQUES, Paula, “Teatro Feiticeiro do Norte entra na cultura madeirense”, Diário de Notícias, Funchal, 3 jul. 2013, p. 25; HUGO, Vítor, “Feiticeiro do Norte foi o sentir e a alma do povo”, Diário de Notícias, Funchal, 18 mar. 2009, p. 31; MARINO, Luís, Musa Insular (Poetas da Madeira), Funchal, Editorial Eco do Funchal, 1959; MENESES, Maria Bela de Sousa, Facto e Ficção em Versos de Manuel Gonçalves, o “Feiticeiro do Norte”, dissertação de Mestrado em Literatura Comparada apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Lisboa, Texto policopiado, 1999; PORTO DA CRUZ, Visconde do, Notas e Comentários para a História Literária da Madeira, volume III, 3.º período: 1910-1952, Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 1953; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, vol. II, 4.ª ed., Funchal, SREC, 1978.

Sílvia Gomes

(atualizado a 10.04.2016)