ferreira, pe manuel juvenal pita

03-Padre Manuel Juvenal Pita Ferreira_1935
Padre Manuel Juvenal Pita Ferreira_1935

Nasceu na freguesia de Câmara de Lobos, a 16 de abril de 1912, e faleceu no Funchal, a 9 de outubro de 1963. Era filho de Francisco Ferreira e de Filomena Celeste Pita Ferreira. Foi sacerdote, professor, escritor e um estudioso da história e da cultura popular e religiosa madeirense.

Teve uma intensa vida clerical, exercendo funções eclesiásticas em várias freguesias, na Madeira e em Porto Santo. Foi ordenado sacerdote a 25 de agosto de 1935 e, cerca de um mês depois, foi nomeado capelão da Catedral do Funchal, escrivão do Juízo Eclesiástico e professor do Seminário. No ano seguinte, assumiu o cargo de secretário interino da Câmara Eclesiástica. Cumpriu, ainda, funções de capelão na Capela de N.ª S.ª da Conceição em Câmara de Lobos e no Asilo da Mendicidade. Em 1938, desempenhou o múnus de coadjutor da Ribeira Brava, sendo transferido, a 26 de outubro de 1940, para S. Vicente, onde executou as mesmas funções. Em 1941, foi incumbido de praticar o sacerdócio na ilha de Porto Santo, regressando à Madeira em fevereiro de 1945, tendo sido nomeado pároco de S. Gonçalo, freguesia onde permaneceu até à data do seu falecimento, aos 51 anos.

Pita Ferreira desenvolveu uma profícua atividade na literatura católica, editando catecismos para o ensino da religião às crianças; foi nomeado diretor do Secretariado Diocesano de Catequese em reconhecimento da sua colaboração nesta área. Acumulou, ainda, as funções de professor de história sacra e pastoral no Seminário Maior Diocesano e foi membro da Comissão Conservadora do Museu de Arte Sacra da Diocese do Funchal.

Revelou interesse pela preservação do património artístico madeirense, dando o seu contributo na realização de duas exposições de bens culturais da Igreja. Em 1951, esteve envolvido na organização da Exposição de Ourivesaria Sacra, patente no Convento de S.ta Clara do Funchal, e em 1954, no mesmo local, fez parte da comissão executiva da Exposição de esculturas religiosas. Dessas exposições, resultaram dois catálogos, que elaborou em coautoria com Luís Peter Clode, numa edição da Junta Geral do Distrito Autónomo do Funchal.

Publicou vários trabalhos de investigação, em volume, e também na revista Das Artes e da História da Madeira, fazendo emergir a sua faceta de historiador, embora, segundo fontes da época, não estivesse empenhado em fazer história, mas apenas em esclarecer acontecimentos que considerava obscuros. Nestes textos, Pita Ferreira apresentou algumas notas para a história da ilha da Madeira, da descoberta e do início do povoamento, e realizou um vasto estudo histórico sobre a freguesia de Santa Cruz, focalizado, essencialmente, nos elementos religiosos daquela localidade. Destacou também a Igreja Paroquial de S. Gonçalo, inventariando as suas peças de ourivesaria e o tríptico (Descida da Cruz) da Igreja da Ribeira Brava. Descreveu diversos aspetos relacionados com a história da Sé do Funchal, a sua arquitetura e os seus elementos artísticos (ourivesaria, pinturas e esculturas), e realizou estudos sobre artistas e ourives que criaram obras de arte sacra na Madeira entre os sécs. XVI e XVIII.

No que diz respeito ao folclore do arquipélago, Pita Ferreira foi um estudioso das tradições madeirenses, dirigindo o seu interesse especialmente para a época do Natal. Em 1953, publicou na revista Das Artes e da História da Madeira um texto sob o título de “A oração dos simples: estudo etnográfico”, no qual observa a simplicidade das orações do povo relativas à quadra natalícia. Três anos depois, deu à estampa O Natal na Madeira: Estudo Folclórico, em que retrata como era celebrado o Natal no seu tempo em várias freguesias da ilha. Quer observando o modo de viver do povo, quer recolhendo elementos etnográficos, próprios daquela época festiva, quer, ainda, reunindo partituras musicais e orações populares, o padre madeirense fixou as tradições populares nas suas festas, cantigas, músicas e jogos, numa simbiose entre o profano e o religioso. No livro, apresenta também alguns quadros dos costumes do povo, desde os preparativos para o Natal até às Missas do Parto, ao ritual da matança do porco, à Noite do Pão, à armação da “lapinha” (presépio), à Missa do Galo, à culinária e doçaria do Natal, às oitavas e às comemorações dos dias dos Reis Magos e de S.to Amaro que eram vividos de forma intensa e davam um colorido especial ao seu viver.

Além de textos publicados na revista Das Artes e da História da Madeira, no Jornal da Madeira e no boletim Arquivo Histórico da Madeira, e dos catálogos que elaborou em coautoria com Peter Clode, o P.e Manuel Juvenal Pita Ferreira deixou uma vasta obra literária de teor religioso, histórico, didático-pedagógico e etnográfico, consolidando o seu nome entre os grandes vultos da cultura contemporânea madeirense.

O reconhecimento público pela sua vida e obra surgiu em 1964, tendo sido atribuído o nome de largo P. Pita Ferreira ao largo fronteiriço à igreja de S. Gonçalo, no Funchal. A placa toponímica foi colocada no dia 15 de outubro, homenageando o seu dinamismo que foi crucial para o início das obras da residência paroquial, em 1946, e da igreja matriz, em 1947. No mesmo ano, a Câmara Municipal de Câmara de Lobos deliberou atribuir a denominação de rua P.e Manuel Juvenal Pita Ferreira à parte já terraplenada e aberta ao trânsito da estrada de ligação entre Câmara de Lobos e Estreito de Câmara de Lobos, construção iniciada a 1958 e concluída em finais dos anos 70. A decisão, tomada a 11 de novembro de 1964, só se concretizou dois anos mais tarde, no dia 26 de agosto, realizando-se uma sessão solene pública nos paços do concelho, seguida da cerimónia de descerramento da placa toponímica.

Obras do P.e Manuel Juvenal Pita Ferreira: “A oração dos simples: estudo etnográfico”, Das Artes e da História da Madeira (1953); A Santa Missa: diálogo para formar as crianças da catequese no espírito com que hão-de assistir ao Santo Sacrifício da Missa (1955); O Natal na Madeira: Estudo Folclórico (1956); O mais belo presente da primeira comunhão (1957); Notas para a história da Ilha da Madeira (1957); O arquipélago da Madeira, terra do senhor infante: de 1420-1460 (1959); As “notas para a história da Ilha da Madeira” no pelourinho (1959); O Infante D. Henrique e a Descoberta e Povoamento da Ilha da Madeira (1960); Curso de iniciação catequística (1960); “Artistas Madeirenses”, Das Artes e da História da Madeira (1960); A santa missa (1961); Curso de iniciação catequista (1962); A Relação de Francisco Alcoforado (1962); Achegas para a história do Arquipélago (1962); A Sé do Funchal (1963); em coautoria com Luiz Peter Clode, Património Artístico da Ilha da Madeira: Catálogo Ilustrado da Exposição de Ourivesaria Sacra realizada no Convento de Santa Clara do Funchal em 1951 (1951) e Exposição de esculturas religiosas no convento de Santa Clara (1954).

Bibliog.: ARAGÃO, António de Freitas e VIEIRA, Gilda França, Madeira Investigação Bibliográfica, vol. II, Funchal, DRAC-CACH, 1984; FIGUEIREDO, Fernando et alii, Crónica madeirense: (1900-2006), Porto, Campo das Letras, 2007; [não assinado], “Morreu um historiador madeirense”, DN, n.º 28924, 10/10/1963, pp. 1, 5 e 7; Id., “Morreu o Padre Manuel Juvenal Pita Ferreira”, Jornal da Madeira, n.º 9715, 10/10/1963, pp. 1, 7 e 8; Id., “Padre Pita Ferreira”, Diário da Madeira, n.º 9034, 12/10/1963, pp. 1 e 5; Id., “Padre Pita Ferreira”, Das Artes e da História da Madeira, n.º 34, vol. VI, 1964, p. 39; Id.,, “Homenagem a três filhos ilustres do Concelho de Câmara de Lobos”, Jornal da Madeira, n.º 10724, 27/08/1966, pp. 1, 7 e 8; SILVA, P.e Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 3.ª ed., 3 vols., Funchal, SREC, 1921-1984.

Sílvia G. Gomes

(atualizado a 07.07.2016)