fichas

“Token”, do inglês antigo “tacen”, significa peça de metal estampada (em cobre, níquel, latão, alumínio, zinco, etc.), usada para substituir a moeda. Em espanhol, diz-se “guitón”, em francês, “jeton” e, em português, é popularmente conhecida como “ficha”, sendo designada por “dinheiro da necessidade”. As fichas não têm curso legal, uma vez que são cunhadas por particulares, empresas, instituições e organismos não oficiais. Os povos antigos usavam a téssera (do latim, “tessera”), peça de madeira, de marfim ou de metal (ferro ou bronze) com diversas funções, como as de contrassenha, de manifestação honorífica, de expressão de amizade, de contrato ou de declaração de direitos. As fichas, como substituto do dinheiro, chegaram à Madeira certamente por influência da comunidade inglesa, que se serviu muito delas no decurso dos sécs. XIX e XX.

Palavras-chave: Dinheiro; comércio; Ingleses; moeda; vinho.

A utilização das fichas ou tokens aconteceu em todo o mundo. Não foram usadas apenas em substituição do dinheiro (nomeadamente como meio para facilitar os trocos, pela falta de moeda metálica de valor reduzido). Por norma, as fichas não apresentam qualquer valor, pois limitam-se a cumprir a função de vale de consumo (e.g., nas discotecas), servindo também para acionar mecanismos (telefones, máquinas de jogo nos casinos, máquinas de lavar e secar, cancelas de parques de estacionamento, nos parques de atrações, nos meios de transporte, como no metro nos Estados Unidos e no Canadá). Não devem ser confundidas com os dispositivos usados para segurança pessoal nas operações bancárias pela Internet, que geram uma senha temporária de proteção para as contas em uso desta forma; esta significa “passe” e refere os dispositivos geradores de códigos aleatórios de acesso a uma conta bancária juntamente com a correspondente senha individual.

As fichas, enquanto substituto do dinheiro, chegaram à Madeira certamente por influência da comunidade inglesa, que se serviu muito delas no decurso dos sécs. XIX e XX. Para além desta tradição comercial e empresarial, deve ter-se em conta que, na Madeira, a falta de moeda foi um problema constante. Assim, para combater esta dificuldade, em especial relativa às moedas de baixo valor, surgiram, a partir do séc. XVIII, as fichas em papel (v.g., em cartolina) ou em metal pobre (alumínio, chumbo, cobre, estanho, folha de Flandres, latão, zinco), que eram emitidas pelas casas comerciais.

A primeira emissão destas fichas terá sido feita, em 1793, por João Francisco Esmeraldo, que terá apresentado aos seus clientes fichas de latão, com os valores de 50, 100, 200 e 300 réis. Rapidamente se generalizou esta modalidade de substituição do dinheiro em falta, de forma especial em importantes casas de comércio de vinho, bem como em instituições públicas, companhias de navegação, fábricas, casas de jogo e lojas. Entre estas emissões, podemos destacar as de Vicente de Oliveira (1799), J. W. Phelps & Co. (1802), Phelps, Page & Co. (1803), Colson, Smith & Robinson (1804), Cossart, Gordon & Co. (1902), Casa Blandy, Administração do Cabrestante do Comércio, Wilson & Sons, Correia, França & Fillhos, Samuel John Dreff & Co., A. Giorgi & Companhia, Carlos Teixeira, Luiz Augusto da Silva Carvalho, John Payne & Sons, Club Funchalense, Club Recreio Musical, Cory’s Madeira Coaling Company Limited, Club Restauração, Casino da Quinta Vigia, Confraria de São Vicente de Paulo, Almeida & Companhia, William J. Krohn, Krohn Brothers & Co., Luiz Gomes da Conceição, Francisco Rodrigues & Companhia, A. Izidro Gonçalves, Viúva de Romano Gomes & Filhos, Manuel Ferreira Cabral, Fábrica do Torreão (W. Hinton Sons), Carlos de Bianchi, Diogo d’Ornelas Frazão (depois visconde e conde da Calçada), Diogo Adams & Companhia, João António de Bianchi, Thaumaturgo de Sousa Drummond, Francisco da Costa & Filhos, Vicente d’Oliveira e Companhia, Café Golden Gate, Rodoeste, Supermercado Bach, Manuel dos Passos de Freitas & Cº Lda. Também encontramos esta situação em instituições públicas, como a Alfândega do Funchal, a Câmara Municipal do Funchal, a Junta Geral, o Governo Civil, e em instituições de solidariedade, como o Asilo da Mendicidade e Órfãos do Funchal.

A ficha, que havia surgido para facilitar o troco em moeda pequena, acabou rapidamente por se generalizar, sendo usada pelas firmas de vinho para pagamento do mosto entregue e do soldo de muitos trabalhadores. As fichas poderiam ser depois substituídas por dinheiro, mas, por terem aceitação nas diversas lojas comerciais do Funchal, eram frequentemente usadas em vez do dinheiro. Recorde-se que, nas tarefas ligadas ao transporte do vinho ou de cana-de-açúcar, às cargas e descargas no porto, os borracheiros, os boieiros e os carregadores recebiam diariamente fichas, que, no final da semana, vertiam em dinheiro. A par disso, deveremos assinalar que as fichas estabeleciam uma relação de dependência com a entidade emissora, difundindo-se, nomeadamente junto da comunidade britânica, como modo de dependência económica de agricultores e produtores de vinho, porque na verdade obrigavam todos a estabelecer trocas com os emissores das mesmas (Moeda).

Bibliog.: BARRADAS, Agostinho, “Catálogo das Fichas da Madeira”, Nvmmvs, vol. iii, n.º 8, abr. 1955, pp. 34-53; CARVALHO, Carlos, “Fichas Madeirenses”, in Almanach de Lembranças Madeirense para o Anno de 1908, Funchal, J. M. R. Silva, 1907, pp. 190-194; FRANCO, Zacarias G., “Estudo das Fichas de Portugal. Senhas em Papel. Bazar do Povo”, Numismática, n.º 15, out. 1979, pp. 14-15; PASCOAL, Carlos, Fichas da Madeira 1793-1920, Lisboa, Numisma, 1988; SARMENTO, A. A., Moedas, Papel Selado e Medalhas na Madeira, Funchal, Typ. Camões, 1933; SILVA, Carlos da, Almanach de Lembranças Madeirense, Funchal, ed. do Autor, 1908; TRIGUEIROS, António Manuel, “Estudos Inéditos de Notafilia Portuguesa – Catálogo do Papel Moeda Insulano: I – Introdução”, Moeda. Revista Portuguesa de Numismática e Medalhística, vol. vi, n.º 4, jul.-ago. 1981, pp. 124-134; Id., “Estudos Inéditos de Notafilia Portuguesa – Catálogo do Papel Moeda Insulano: II – Madeira”, Moeda. Revista Portuguesa de Numismática e Medalhística, vol. vi, n.º 5, set.-out. 1981, pp. 164-180; VITAL, Nestor Fatia, “Pecúnias, Tésseras e Cédulas Madeirenses”, Numismática, separata, 1982.

Alberto Vieira

(atualizado a 31.01.2017)