fonte, césar teixeira da

O P.e César Teixeira da Fonte foi um sacerdote católico que se tornou uma figura ímpar da história da Madeira pelo papel que desempenhou na Revolta do Leite, movimentação que, em 1936, opôs parte da população da Madeira ao regime salazarista.

Cesar Teixeira da Fonte_9276
Padre César Teixeira da Fonte.

César Teixeira da Fonte nasceu no Estreito da Calheta, a 29 de setembro de 1902, e enveredou pela carreira eclesiástica, tendo frequentado o seminário do Funchal, cujo curso concluiu em 1927.

Enviado a paroquiar, ocupou sucessivamente lugares em Câmara de Lobos, como coadjutor, entre setembro e dezembro de 1927, após o que foi transferido para o Porto Santo, onde permaneceu até outubro de 1928. Daí partiu para ocupar o lugar de vigário da Calheta, tendo, finalmente, em 1930, assumindo responsabilidades paroquiais no Faial. De 1934 em diante, passou a acumular esta freguesia com a de S. Roque do Faial.

Nas paróquias em que foi cumprindo o seu múnus ficou conhecido por ser bom orador e por se preocupar genuinamente com o seu rebanho, a quem prodigalizava informação significativa, procurando descodificar acontecimentos de natureza política e social, no sentido de fazer entender às pessoas as circunstâncias que as rodeavam.

Esta sua postura pedagógica cedo lhe acarretou problemas. As opiniões que ia exprimindo nem sempre eram do agrado do regime e acabou por ter dissabores, como aconteceu quando foi multado pela Comissão de Censura, por causa de um artigo publicado na imprensa local; ou quando foi alvo de um abaixo-assinado em que alguns paroquianos se insurgiram contra ele.

Em 1936, deixou-se impressionar por um problema que veio a afetar a vida dos seus paroquianos e das populações rurais do arquipélago, episódio que a história da Madeira registou com o nome de Revolta do Leite.

A polémica foi levantada pela promulgação do Decreto de 4 de junho de 1936, fundador da Junta de Laticínios da Madeira, instituição que pretendia monopolizar a indústria do leite, e que esteve na origem de uma forte reação popular, por se ter entendido que a sua ação iria prejudicar muitos dos pequenos produtores, tal como já se tinha verificado em relação às farinhas. Na déc. de 30, na Madeira, o leite e a manteiga ocupavam um lugar central na economia insular, ultrapassando em importância o vinho e o açúcar. Sobretudo nas encostas norte da Ilha, os pequenos produtores entregavam a sua produção a um dos cerca de 1100 postos de recolha do leite com vista ao fabrico da manteiga, e o facto de a procura ser superior à oferta contribuía para elevar os preços e equilibrar os orçamentos familiares. A intenção de Salazar, de extinguir boa parte dos pontos de desnatação e entregar a gestão dos laticínios a uma Junta, agitou as gentes, e muito em breve a revolta rebentava, congregando insurretos sobretudo no Faial, na Ribeira Brava e no Machico.

O P.e Teixeira da Fonte, contrariando os poderes que se fiavam na habitual passividade do clero face às sublevações populares, colocou-se ao lado do povo, em consequência do que viria a ser preso, a 11 de setembro de 1936, conjuntamente com muitos dos seus paroquianos, nos calabouços da polícia, de onde saiu para ser interrogado a 14 desse mesmo mês. Depois deste interrogatório foi transferido para a cadeia subterrânea apelidada de Forno do Lazareto, onde permaneceu durante 11 meses, sem que nunca tivesse conseguido ser ouvido pelo governador. Todos os seus movimentos eram observados e estava privado de aceder a qualquer meio de distração ou orientação espiritual. Após este período de detenção, seguiu para Caxias.

Em meados de janeiro de 1938, foi restituído à liberdade e regressou à freguesia do Faial, onde continuou a paroquiar. No fim desse ano partiu novamente para Lisboa onde, a partir de 5 de dezembro de 1938, passou a exercer o seu múnus sacerdotal na paróquia de São Sebastião da Pedreira. Por esta altura, matriculou-se também em Direito, curso que concluiu a 21 de julho de 1943. Concluída a licenciatura, exerceu advocacia a par das suas funções eclesiásticas, interessando-se pelas causas dos pobres e por assuntos jurídicos relacionados com a vida eclesiástica das paróquias do Patriarcado. Faleceu em Lisboa, a 18 de junho de 1989. João Abel de Freitas, que em 2011 publicou uma obra sobre a Revolta do Leite, considerou que o P.e Teixeira da Fonte foi “a personalidade de maior destaque na Revolta do Leite, quer por caraterísticas próprias, quer porque as autoridades políticas da Madeira a isso o empurraram” (FREITAS, 2011, 117).

Obras de César Teixeira da Fonte: Todos Cantam (1934); A Prisão de Um Padre Católico. Um Brado de Justiça (1937); O Estado de Necessidade em Direito Criminal (1943).

Bibliog. impressa: FREITAS, João Abel de, A Revolta do Leite, Madeira 1936, Lisboa, Edições Colibri, 2011; digital: DUARTE, Raul, “Personalidades da Freguesia”, A Freguesia do Faial (Madeira), 22 mar. 2006: http://juntafreguesiafaialmadeira.blogspot.pt/ (acedido a 28 out. 2015); “Padre Dr. Cesar Teixeira Fonte” Câmara de Lobos – Dicionário Corográficowww.concelhodecamaradelobos.com/dicionario/fonte_padre_cesar_teixeira.html (acedido a 28 out. 2015).

José Luís Rodrigues

Cristina Trindade

(atualizado a 06.09.2016)