fortaleza do ilhéu

Face ao aumento de movimento no porto do Funchal, nos meados do séc. XVII era imprescindível procurar um outro esquema mais apertado para a vigilância e segurança do porto do Funchal. O reduto da Alfândega tinha tido em vista a segurança da fazenda régia, o embarque e o desembarque de fazendas (Reduto da alfândega), pelo que a construção de uma outra fortaleza, que controlasse mesmo centralmente o porto da cidade era uma necessidade evidente. Era muito antiga a ideia de construção de uma fortaleza no chamado Ilhéu Grande, tendo sido o primeiro advogado dessa construção Diogo Cabral, que em 1553, já escrevera da Calheta, a D. João III, a propósito das contínuas vindas de corsários à Madeira e das necessidades gerais de defesa. Num dos parágrafos desta carta descreve-se o Ilhéu Grande e salientava-se a importância da construção de um reduto naquele sítio, que poderia defender eficazmente todo o porto da cidade: “Neste porto do Funchal está um Ilhéu, de altura de trinta braças (60 metros) e mais. Nele se houvera de fazer a fortaleza, porque assegura o porto, sem se nele poder surtir e com pouca despesa se fará”. Salientava-se que “dez homens a defenderiam a todo o poder do Turco”, pois que nesta data se configurava como inimigo o grão sultão de Istambul, então com domínio sobre o porto de Argel. O ilhéu era de rocha talhada, sem ter mais de uma subida, “e poucos a podem trepar”, tendo junto do mesmo “seis braças de fundo”. De terra firme, distava tanto “quanto uma boa besta possa lançar uma seta” (IAN/TT, CC, II, 243-9).

As primeiras obras no Ilhéu Grande devem ter decorrido nos meados da primeira metade do século XVII, entre 1634 e 1636, com o governador D. João de Menezes, embora não deva ter então passado do reconhecimento do local e reunião ali de alguma pedra e cal, pelo que os seguintes governadores vêm a dizer que a levantaram “da primeira pedra”. Não foi com certeza uma construção fácil e não teria nada do aspeto atual. Era então uma construção prevista para ficar redonda, como a que viria depois a desenhar o engenheiro Bartolomeu João (c. 1590-1658) (João, Bartolomeu), em 1654, ainda numa antevisão, em princípio, do que deveria vir a ser.

As primeiras obras efetivas nasceram depois da “Restauração”, na sequência da construção do reduto da Alfândega, cuja ordem foi de 1644, e do aumento do movimento do porto do Funchal. Após esta construção, os moradores do Funchal aproveitando a chegada ao Funchal do governador Bartolomeu Vasconcelos da Cunha, em 1651, solicitam a construção efetiva de uma fortaleza no Ilhéu. O pedido foi feito a Lisboa através do provedor da alfândega Francisco de Andrada e do governador, que enviaram cartas a solicitar a construção, informando que nada custaria à fazenda real, dado ser por certo executada com o “donativo” feita feito pelos moradores para reparação e conservação das fortificações (IAN/TT, JPRFF, 396, 7 v.). A autorização veio a 10 de fevereiro de 1652, com base nas informações do provedor e do governador (ARM, CMF, RG, T6, 116 v.-117).

O rei D. João IV autoriza assim a construção com base no trabalho “da gente da terra, por companhias ou esquadras”; no material, dos moradores do Funchal: “para a alvenaria os ditos moradores se ajustariam convosco, de sorte que acudiriam à obra com as (suas) pessoas e fazendas” e para a guarnição, com o pessoal de São Lourenço, “a outra fortaleza que hoje há”, como acontecia então na barra de Lisboa, onde São Lourenço do areal da Cabeça Seca (o Bugio), utilizava o pessoal da fortaleza de São Julião da Barra, “para se escusarem outros soldados e despesas” (Ibid.).

O desenho de Bartolomeu João apresenta-a como um reduto circular, artilhado com seis bocas-de-fogo e com casa da guarda central e isolada. A comunicação com o exterior fazia-se por um portal largo de cantaria trabalhada, com arco de volta perfeita e nicho superior inscrito no arco, o que hoje não existe. À frente da porta nascia um balcão e uma longa escadaria de três lanços que chegava ao mar. A atestar estas obras mandou-se colocar uma inscrição sobre a porta, onde se pode ler: “Esta Fortaleza fez o Governador e Capitão general Bartolomeu Vasconcelos da Cunha da primeira pedra do cimo, no ano de 1654. Neste tempo era provedor da Fazenda Francisco de Andrada, que assistia às despesas da fortificação e ajudou muito esta obra”. Claro que não era totalmente verdade, pois a construção da fortaleza ocupou toda a segunda metade do séc. XVII. Embora desenhada e artilhada, a fortaleza, para além do título: “Fortaleza do Ilhéu Nª. Sª. da Conceição que o governador Bartolomeu Vasconcelos mandou fazer na ilha da Madeira”, não apresenta descrição, sinal provável de se encontrar ainda em projeto.

O provedor descreveria, depois, em carta de 21 de abril de 1664, as difíceis obras do Ilhéu. Era sua opinião, no entanto, que a fortaleza em breve estaria quase pronta e que o relativo atraso se devia a ter-se dado “por uma parte dela com quantidade de rocha rija”, pelo que “os gastadores” estavam “desbastando sempre” e assim se iria “continuando a romper a dita pedra, até ficar capaz de se poder obrar com pedra e cal”. Em breve, segundo opinião do provedor, estaria apta para receber 6 peças: 3 de bronze e 3 de ferro e, quando pronta, “capaz de 12”. Salientava ainda que as peças que ali deveriam ser colocadas “haveriam de ser de alcance, e não como as que possui, que são meios-canhões” (IAN/TT, PJRFF, 396, 36). A fortaleza possuía pessoal em permanência desde 1658 e, pelos vistos, já se encontrava artilhada.

A 23 de março de 1670, o provedor volta a escrever sobre o andamento das obras do Ilhéu: “A fortaleza do Ilhéu se começou a fabricar havia 14 anos, pouco mais ou menos. E há 12 anos que assistem nela soldados em casas que têm, com 6 peças de artilharia: 3 de bronze e 3 de ferro; com um mastro no meio dela, com um estandarte que dá sinal a esta cidade porque parte aparecem os navios”. Nesta carta solicitou o provedor que fosse atribuída uma verba para lenha e azeite para o corpo da guarda do Ilhéu, alvitrando mesmo que se deveria fazer como se fazia em São Lourenço, vindo “um escrito” à Alfândega, para que o almoxarife o pudesse pagar (Ibid., 52). A autorização ainda veio nesse ano com data de 30 de agosto (BNL, IRAPJRFF, 12 e IAN/TT, Chanc. Ordem de Cristo, 46, 45v).

Nesse ano de 1670 solicitaram os soldados em serviço na fortaleza do Ilhéu a construção de uma capela. Na petição ao Príncipe Regente, “os soldados do presídio da ilha da Madeira” advogavam “que por sua devoção se iam instituindo em uma confraria de Nossa Senhora da Conceição, que serviam com muito zelo na fortaleza do Ilhéu do Mar, onde metiam suas guardas e faziam vigias”. Saliente-se que os soldados se intitulam de São Lourenço, ali de serviço, pelo que era então ainda tudo pessoal da fortaleza central da cidade e ali destacado. Os soldados começavam por contar que tinham levantado um oratório, mas que estava “com grande indecência, sem o devido ornato, etc.”. Tinham então intenção de fazer “uma ermida, em parte da mesma fortaleza que não fizesse dano, o que não podiam conseguir por serem pobres e não terem mais que o seu soldo”, acabando por pedir ao futuro D. Pedro II a construção da capela, comprometendo-se a tomar à sua conta as imagens, retábulo e todos os demais ornamentos necessários.

O príncipe D. Pedro despachou favoravelmente a petição a 9 de novembro de 1672, mandando medir o lugar e ordenou que, “com o mínimo de despesa possível”, se fizesse a construção. No entanto, a ordem para o Funchal só veio dez anos depois, expedida de Lisboa a 27 de outubro de 1682 e registada no Funchal, a 28 de janeiro de 1683 (IAN/TT, PJRFF, 996, 256 e BNP, IRAPRFF, 12-12v). A construção deve ter ficado pronta com a cisterna, em 1687, conforme o então governador mandou gravar noutra inscrição: “Esta igreja e cisterna fez o governador e capitão geral Pedro de Lima no ano de 1687”.

A fortaleza do Ilhéu começou a trabalhar na sua verdadeira força no último quartel do séc. XVII, sem depender então de São Lourenço, como acontecera até então. Teria sido nessa altura que a fortaleza passou a registo do porto, salvando os navios que entravam e assinalando para terra a sua proveniência. Até essa altura, como podemos ver pelos pagamentos da fortificação de 1673, feitos pelo tesoureiro António Monteiro e o provedor Ambrósio de Andrade, o movimento das despesas do Ilhéu ia essencialmente para os batéis de Brás Moniz, que faziam os transportes de “serviço dos soldados” (IAN/TT, PJRFF, 781, 2-7 e 14). Com o aumento do movimento do porto, passaram as despesas da pólvora a aumentar, assistindo-se a um contínuo pedido de provisões neste âmbito, desde 1675 até 1689. Perante o esforço suplementar pedido aos artilheiros do Ilhéu e de São Lourenço, o rei concedeu-lhes, em 1691, um suplemento de “meio tostão por dia, na forma como são os soldados pagos do dito castelo de São Lourenço” (Ibid., 966, 135). Em 1693, a fortaleza do Ilhéu veio a ter mesmo capelão privativo, lugar em que foi provido o padre José de Andrada, com um ordenado de 18$000 réis (Ibid., 186v).

Em 1691, por carta patente do governador D. Rodrigo da Costa, como alcaide-mor das fortalezas da Ilha, foi nomeado governador do Ilhéu D. Jorge Henriques, filho do mestre de campo D. Francisco Henriques, atendendo aos serviços prestados por seu pai nas campanhas da Restauração. Nessa época e com base no provimento de João Fernandes na praça de artilheiro pago do Ilhéu, temos a descriminação dos artilheiros do Funchal. Assim encontravam-se no Ilhéu: o condestável, Simão Fernandes Fortes, com 24 anos de serviço; como cabo dos artilheiros, Manuel da Costa, com 13 anos de serviço em São Filipe e 3 no Ilhéu; Matias Gonçalves, com 36 anos de serviço no Ilhéu, logo o mais antigo; Diogo Nunes, 20 anos de serviço e então no Ilhéu; Martinho Gomes, com 15 anos de serviço no Ilhéu; Inácio Miranda, sem referência; e Francisco Fernandes da Silva, com 2 anos de serviço em São Lourenço e 3 no Ilhéu.

Mais tarde, em 1693, foi nomeado o bombardeiro José do Couto, com meio tostão de ordenado e, em 1698, foi nomeado condestável do Ilhéu Manuel Martins, tanoeiro, pelo falecimento do irmão Simão Fernandes Fortes, com um ordenado anual de 48$000 réis (Ibid., 966, 184 e BNP, IRAPRFF, 12v). Pouco depois dessa data, em 1690, era reformado e colocado como condestável no “fortim” dos Louros, atendendo-se a ter 20 anos de serviço no Ilhéu e “por ser incapaz”, “assim por ser já velho, como por falta de vista”, pelo que se dava mais uma pipa de vinho por ano (Ibid., 968, 67). A guarnição era composta por 12 artilheiros, ganhando cada um 50 réis por dia, o que era então pouco, pelo D. José fez-lhes mercê do acrescentamento de 30 réis, sobre os anteriores 50, ficando assim com 80, vencimento que se manteve todo o século XVIII, como “dois patacos grossos” (BNP, IRAPRFF, 12v).

A importância da fortaleza do Ilhéu era patente nos inícios do século XVIII, sendo referido na carta patente de Duarte Sodré Pereira, que deveria “dar nova forma ao forte do Ilhéu, em que se amarram as embarcações que vão àquele porto” e meter ali mais nove peças de artilharia (ARM, CMF, RG, T 7, 233-253v e IAN/TT, Chanc. de D. Pedro II, 45, 250v-251 e 63-69v), mas não temos informação de nesses anos terem ocorrido ali obras. Pelo Livro de Carga da Fortificação, em 1724 tinha esta fortaleza 15 peças montadas, 4 de bronze e 11 de ferro, de calibres de 6 até 24 libras, assim como 4 peças de ferro desmontadas de calibre de 36 libras. Era então condestável da fortaleza João Martins de Araújo que, em 1733 foi substituído por João Teixeira de Freitas. Foi com o primeiro condestável, a 23 de Fevereiro de 1731 que se dera um rebentamento de uma das peças de ferro, “que se fez em migalhas”, matando um dos artilheiros (ARM, GC, 418, 17-19). Nos meados do século XVIII, em 1755, na “Relação das pessas de bronze & Ferro”, o Ilhéu aparece com 17 peças, o número mais importante do Funchal. Tinha então 2 colubrinas de bronze capazes, de calibre 16; 2 colubrinas incapazes de calibre 14; 4 canhões de ferro de calibre 48 e 6 de calibre 30; e 3 quartos de canhão de ferro, de calibre 8, também incapazes (AHU, Madeira, 47). Depois do desgaste da ocupação inglesa, cujas forças levaram as melhores peças das fortalezas da Madeira, em 1817, segundo escreve Paulo Dias de Almeida (c. 1778-1832), ainda possuía 4 peças de calibre 3; 5 de 4; 2 de 12; 6 de 18 e 6 de 24, num total de 23 peças (ALMEIDA, 1817).

Nos meados do séc. XVIII se processou a reformulação do porto do Funchal e da fortaleza do Ilhéu, muito provavelmente com projeto de Tosi Colombina (1701-c. 1770), ou de Francisco de Alincourt (1733-1816) que, em 1771, propôs a união dos dois ilhéus para aumentar o cais de acostagem do recém-construído forte de S. José da Pontinha, construção que só se veio a efetivar-se quase 100 anos depois, entre 1885 e 1890. A fortaleza do Ilhéu teria sido reformulado nesses meados do século com larga plataforma ou esplanada, edifício de instalação da guarda com dois pisos, na sequência da capela já existente e esplanada rematada por fortes guaritas, que o mar e o descuido dos homens foram deixando cair, somente duas tendo chegado aos nossos dias.

Ao longo dos sécs. XVIII e XIX a fortaleza do Ilhéu foi também utilizada como prisão, registando-se alguns casos de elementos da primeira nobreza insular, como os morgados António de Carvalhal Esmeraldo e Câmara (c. 1662-1730), procurador da câmara do Funchal, poeta gongórico de certa nomeada do seu tempo, por determinação do bispo do Funchal D. frei Manuel Coutinho (1673-1742), em 1727, ou Henrique Correia de Vilhena (1769-c. 1830), irmão diplomata Fernando José Correia Henriques (1768-1821), futuro visconde de Torre Bela, pelo governador D. José Manuel da Câmara, em 1803. Se no primeiro caso, o infeliz procurador da câmara do Funchal ali passou três anos, inclusivamente aí escrevendo os seus versos e só saindo, quando doente e estando para morrer, só tendo o gabinete de D. João V interferido no assunto depois da sua morte, no segundo, de imediato, a corte de Lisboa, através do visconde da Anadia, mandou libertar o morgado e, inclusivamente admoestou o governador.

Era este forte que controlava a entrada de navios no porto da cidade, salvando-os de acordo com os cumprimentos da praxe. Aliás, nem sempre passíveis, constando que, a 12 de setembro de 1768, quando da visita do célebre almirante inglês James Cook (1728-1779), então a iniciar a sua primeira volta ao mundo, houve qualquer mal-entendido com os ingleses e os tiros trocados não foram de salvas, mas verdadeiros (AHU, Ibid., 549). James Cook e o seu Endeavour entraram no Funchal no dia seguinte, a 13 de setembro, saindo a 19 para o Rio de Janeiro. Este incidente foi registado pelo naturalista polaco Johann Reinhold Forster (1754-1794), que acompanhou a viagem de 1772, a segunda viagem de circum-navegação, já no navio “Resolução”, mas referindo-se à primeira viagem e que demandou a Madeira a 29 de julho desse ano de 1772 (SILVA e MENESES, 1998, 314-315).

O sistema de salvas foi reformulado a 14 de outubro de 1799, embora e para questões pontuais, pudessem haver instruções específicas, aconteceu assim com as armadas inglesas de ocupação, por exemplo e sendo o último regulamento de 1849, emitido pelo então marechal António de Pádua da Costa. A partida das forças inglesas da primeira ocupação, a 25 de janeiro de 1802, foi rodeada de complicadas instruções. Assim, o Ilhéu deveria salvar com 9 peças quando passasse para bordo o brigadeiro general William Henry Clinton (1769-1846) no seu escaler. O Ilhéu receberia logo depois a salva da fragata “Aretim”, a que deveria responder peça a peça. As instruções para estas cerimónias foram assinadas pelo major graduado António Rodrigues de Sá, então “comandante da parada” (SARMENTO, 1930, 11) e que, uns anos antes, tinha sido o autor das cartas respeitantes aos planos de fortificação do major Inácio Joaquim de Castro, de 1799.

Quando Paulo Dias de Almeida escreveu a sua Descrição, em 1817, cita esta praça como construída no alto de um rochedo, separado de terra firme. Pela sua altitude os tiros só a poderiam ofender a grande distância. No entanto, como os combatentes se encontravam descobertos, qualquer metralha varreria a guarnição e com facilidade se calaria, alvitrando-se o levantar dos parapeitos para defesa da guarnição. O engenheiro alertara também para as condições do mar, por vezes altamente perigoso e que, em caso de temporal se não deviam os navios chegar ao Ilhéu, para que não acontecesse como em 1803, quando uma galera norte-americana que ali se abrigara fora afundada por uma vaga que galgou o mesmo ilhéu. Já havia caído nos inícios do século XIX, não só o parapeito do lado do mar alto, como as duas guaritas desse lado, tendo sido Paulo Dias de Almeida a elaborar o relatório, com o governador e o secretário Gervásio Ferreira Rego, a 23 de julho e 17 de agosto de 1821 (ARM, GC, 195, 50-52).  

Desde os finais do séc. XVIII que a fortaleza do Ilhéu se tornara um quase ex-libris do porto do Funchal, especialmente na documentação inglesa, onde aparece com a designação de Loo Rock, designação não facilmente explicável.  Uma das primeiras representações deve ser a do gravador Thomas Hearne (1744-1817), que esteve no porto do Funchal em 1772 (Col. CMF) a que se seguem inúmeras outras, como a do tenente Lawrence R.N., de 1808, feita para o general William Carr Beresford (1768-1854) e onde esta e outras fortalezas aparecem com a bandeira inglesa hasteada, seguindo depois inúmeros óleos, aguarelas, litografias, com destaque para as do reverendo James Bulwer (1794-1879) e de Andrew Picken (1815-1845), tal como, depois fotografias e bilhetes-postais, tendo, inclusivamente a fortaleza do Ilhéu sido um dos temas favoritos da indústria de embutidos madeirenses da primeira metade do séc. XX (Indústrias do turismo).

Ilhéu da Pontinha-1800
Ilhéu da Pontinha-1800

Nos meados do séc. XIX a fortaleza passou por algumas obras, como em 1838, a cargo do engenheiro Tibério Augusto Blanc (c. 1810-1875), altura em que foram reformuladas as latrinas a céu aberto e, por volta de 1845, a cargo do capitão António Pedro de Azevedo (1812-1889), quando se iniciou a construção de um enorme paiol na fortaleza de Nossa Senhora da Conceição do Ilhéu, ocupando quase cinquenta por cento do espaço disponível (Paiol geral). Foi então levantado um guindaste inglês da firma Brown, Lenox & Co., que ainda recentemente ali existia e das peças mais antigas da arqueologia industrial na Ilha. A aquisição fora comunicada pelo tesoureiro interino da alfândega, a 8 de março de 1844, estando o local pronto desde meados de 1845, e competindo a chegada e receção, a 11 de setembro de 1846, ao então comandante da 9.ª Divisão Militar, José Maria de Barcelos e ao secretário do mesmo governo militar, António Caetano da Costa Moniz.

Nessa sequência, em 1850 foi instalada na fortaleza do Ilhéu uma estação semafórica que dava conta, pelas bandeiras içadas, dos vapores que chegavam ao porto, anunciando a mala, proveniência e destino de cada um. Em 1886 passou mesmo a servir de farol, com um farolim vermelho, que começou a funcionar a 18 de maio desse ano, depois ainda melhorado com as lentes rotativas que herdou do farol do Ilhéu de Cima, no Porto Santo. Passou então a transmitir luz vermelha e branca, alternadamente, mecanismo substituído por um novo a 1 de agosto de 1931.

Com a construção e ampliação da muralha do porto, nos finais do séc. XIX, entre 1885 e 1890, foi o antigo ilhéu incorporado na muralha de acostagem, perdendo toda a sua antiga altivez de registo e de controlo de navios. Com a posterior ampliação do molhe do porto, entre 1934 e 1939, seria rasgado o interior do rochedo para construção de acesso automóvel ao molhe para nascente. Entretanto, tem sido ocupado com instalações militares relacionadas desde a década de 50 do séc. XX, com as transmissões militares, que ampliaram o antigo edifício de comando e casernas com mais um andar, instalações desocupadas dessa função nos meados da década de 70.

Tendo sido manifestado interesse por parte do Governo Regional na sua reestruturação, foi entregue, na sequência do sucedido à fortaleza de Santiago, por protocolo assinado a 22 de maio de 1992, no qual se fez a entrega da fortaleza ao GRM para atividades culturais, tendo então sido apresentado um projeto de recuperação feito pela equipa do Arq. José Luís Meneses. A 8 de fevereiro de 1996 foi lançado de concurso público para um restaurante, com base no anterior projeto, sendo inaugurado um restaurante panorâmico em 1997, que no ano seguinte, a 13 de setembro, receberia o Prémio de Recuperação de Património atribuído pela CMF à equipa do Arq. José Luís Meneses, responsável pela recuperação do Forte, aproveitando o Dia Nacional dos Centros Históricos, nesse ano comemorado no Funchal. A 20 de janeiro de 2012, procedendo-se a obras de reabilitação do conjunto, procedia-se à desmontagem do guindaste de 1845.

Bibliog. impressa: CARITA, Rui, Paulo Dias de Almeida e a sua Descrição da ilha da Madeira de 1817/1827, Funchal, DRAC, 1982; Id., O Regimento de Fortificação de D. Sebastião, 1572 e a Carta de Bartolomeu João, 1654, SRE, Funchal, 1984; Id., História da Madeira (1600-1700), III vol., As dinastias Habsburgo e Bragança, Funchal, SRE, 1992; Id., A Fortaleza de São Tiago, catálogo da exposição realizada para a entrega da fortaleza em parceria com Nelson Veríssimo e José de Sainz-Trueva, ed. DRAC, Funchal, jul. 1992; Id., A Arquitetura Militar na Madeira nos séculos XV a XVII, Funchal/Lisboa, EME e Universidade da Madeira, 1998; Id., História da Madeira, As Ocupações Inglesas e as Lutas Liberais: O processo Político (1801-1834), Funchal, DRAC, 2002; COSTA, António de Pádua da, marechal, Nona Divisão Militar, Instruções para a Fortaleza do Ilhéu, Funchal, Tyipografia de L. V. Júnior, 1 de jul. 1849; DILLON, Frank e PICKEN, T. (litografias), Scketches in the Island of Madeira, London, Day and Son Lith, 1850; PICKEN, Andrew, Madeira Ilustrated, London, Day & Haghe, 1840; RODRIGUES, Paulo Miguel, A Política e as Questões Militares na Madeira. O Período das Guerras Napoleónicas, Funchal, CEHA, 1999; SARMENTO, Alberto Artur, Madeira-1801 a 1802; 1807 a 1814, Notas e Documentos, Funchal, 1930; SILVA, Fernando Augusto da, e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 3 vols., ed. fac-simile, Funchal, SRTC, 1998; TOMÁS, Manuel, Insulana, Antuérpia, Joam Mevresio, 1635; VERÍSSIMO, Nelson, Relações de Poder na Sociedade Madeirense do Século XVII, Coleç. História da Madeira, 1, DRAC, Funchal, 2000; manuscrita: Arquivo Histórico Ultramarino, Mapa do Presídio Militar pago da ilha da Madeira; do das Milícias da Ordenança que guarnecem e vigiam; das suas Fortalezas, Armas, Munições e apetrechos de Guerra existentes, Ano de 1754, doc. 47, 549 e 1363-1364; Arquivo Regional da Madeira, Alfândega do Funchal, 676; Arquivos particulares (em organização); Câmara Municipal do Funchal, 1219; Registo Geral, Tomos 6 e 7; Descrição da Ilha da Madeira, Paulo Dias de Almeida, 1817 (aquisição 2010); Governo Civil, 195, 197 e Livro de Carga das Fortificações 1724-1730 (L. 3º), cod. 418; BNP, Index Geral do registo da antiga Provedoria da Real Fazenda, acrescentado com algumas notícias e sucessos da Ilha da Madeira desde o ano de 1419 do seu descobrimento até o de 1775 da extinção da mesma Provedoria, Reserv., cod. 8391; IAN/TT, Chancelaria da Ordem de Cristo, 46, Habilitações, 94-57; Chancelaria de D. João IV, 23; Chancelaria de D. Pedro II, 45; Corpo Cronológico, Parte II, 243-9; Junta da Provedoria da Real Fazenda do Funchal, 396, 781, 966, 968 e 969; cartografia e iconografia: ALINCOURT, Francisco de, Pranta dos dois Ilheos com seu projeito de os fichar, aguarela s/ papel, 48,5 x 37,5; 51 x 39,5 cm., 1771, Centro de Estudos de Cartografia Antiga (n.º 18, pasta 34), Instituto de Investigação Científica do Ultramar; Planta e perfil do Ilheos com seu projeito de os fichar, aguarela s/ papel, 48,5 x 37,5; 51 x 39,5 cm., 1771, (Direção do Serviço de Infraestruturas do Exército, Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar, 1309, 2-22A-109); ALMEIDA, Paulo Dias de, Planta de Fortaleza do Ilhéu, 1817 (BNL, res., cod. 6.705); Fortaleza do Ilheo, 1817 (c.) (DSIE, GEAEM, 7481-1A-12A-16); AZEVEDO, António Pedro de, Planta da Fortaleza do Ilheo, 1841, 1855, 1865 e segs. (DSIE, GEAEM, 5576-1A-12A-16; 5557-1A-12A-16; 10228-1A-12A-16; etc.); BLANC, Tibério Augusto (atr.), Planta e Perfil da Fortaleza do Ilhéu, c. 1838 (DSIE, GEAEM, 1310, 1311 e 1312-2-22A-109);  BULWER, James, Views in the Madeiras, Londres, litografado por William Westall A.R.A, Londres, 1827;  HEARNE, Thomas, desenho panorâmico da cidade do Funchal, 1772 (Núcleo museológico da Cidade do Açúcar, Funchal); JOÃO, Bartolomeu, Descripção da Ilha da Madeira, Cidade do Funchal, Villas, Lugares, Portos e Enseadas, e mais secretos, feita por Bertolameu João Inginheiro della em tempo do Governador Bertolameu Vasconcelos da Cunha, capitão geral desta ilha no anno de 165[4]. Coleção dos Herdeiros de Paul Alexander Zino; LAWRENCE, RN, G. B., Plan of the Fortifications of Funchal in the Island of Madeira, Dez. 24 th 1808, which was given up to the British Forces under Admiral Sir Samuel Hood K. B. and Gen.l Beresford, Arquivo Histórico Militar, 47.ª sec., n.º 16750 (não assinado) e antiga col. particular Peter Cossart (assinado); PICKEN, Andrew, Madeira Ilustrated, London, Day and Son Lith to The Queen e Published by Mess.re Paul and Dominic Colnaghi and CP Publishers to Her Magesty, 1840.

Rui Carita

(atualizado a 18.08.2016)