fortaleza do pico

Fortaleza do Pico_1600[
Fortaleza do Pico_1600

O regimento de fortificação de 1572 determinava a construção de uma “estância” no pico dos Frias, como fecho da muralha sobre a ribeira de São João, ao tempo designada como Ribeira Grande, embora não expressamente declarado como fortaleza (ARM, CMF, RG, T2, 139 e ss.). O regimento não era assim muito explicito nesta construção, colocando-a como final de todos estes trabalhos e limitando-se a determinar que “depois de construída a muralha da Ribeira Grande”, tal como se devia fazer para a estância na foz da ribeira de João Gomes, se faria uma outra a fechar a muralha poente. No entanto, estabeleciam-se prioridades: primeiro, a estância do largo do Pelourinho; depois a muralha desse lado, ou seja da ribeira de João Gomes; depois a fortaleza grande, ou seja a depois fortaleza de S. Lourenço e a muralha junto ao mar; e só depois a muralha da ribeira Grande (Ibid.), ou seja hoje a de São João, pelo que a fortaleza sobre o pico dos Frias ou das Freiras, ficava para último.

As primeiras informações que temos da absoluta necessidade desta construção foram as apresentadas logo no Funchal, em reunião da junta militar com D. Agostinho de Herrera y Rojas (1537-1598), conde de Lançarote, face à reunião das coroas ibéricas, a 16 de setembro de 1582 e enviadas para Filipe II, a 1 de novembro de 1582. As necessidades de defesa do Funchal voltariam a ser apresentadas em Lisboa pelo capitão Gaspar Luís de Melo, acabado de regressar do Funchal, ao encarregado geral da artilharia de Filipe II, D. Francés de Alava y Belmonte (1518/19-1586) que, ainda em 1582 as transmitia ao rei (Ibid., 421-313). A cidade teria então duas fortalezas, que na informação e nos desenhos enviados são referidas como “castelos”, mas era dominada por um monte, logo imprescindível de ocupar para assegurar a defesa do Funchal. Em face disso ter-se-iam feito já algumas obras, reunindo-se pedra e cal no local.

As queixas voltaram a surgir com os distúrbios ocorridos no Funchal com os soldados castelhanos do presídio ( Guarnição militar), tendo então se deslocado ao Funchal o sargento-mor Pedro Borges de Sousa. Nas reuniões havidas foi de novo evocada a necessidade de uma fortaleza naquele pico, igualmente transmitidas para Filipe II (AGS, GA, 147-226), chegando-se a elaborar, depois uma planta, talvez por Mateus Fernandes (c.1520-1597) e que o conde e depois marquês levou, quando saiu da ilha e se dirigiu a Madrid, nos meados de novembro ou inícios de dezembro de 1583. Mas parece que não se foi mais além que a reunião de materiais de construção, só voltando a haver informações a respeito da construção a partir de 1601.

Com a chegada do governador Cristóvão Falcão de Sousa, em meados de 1601, mandou-se mesmo efetuar a fortificação, embora então em pau-a-pique e guarneceu-a com soldados castelhanos, o que criou logo uma série de problemas aos padres da companhia de Jesus (Colégio dos jesuítas). Em princípios de 1602 os jesuítas assustaram-se com a possibilidade de se concretizar a fortificação, até por terem entretanto comprado o Pico às freiras de Santa Clara, e não só o Pico, como a nascente de água que ali havia, compra efetivada a 30 de julho de 1600 (AHU, Madeira, 389). Esta nascente encontrava-se ligada à da Fundoa, devidamente canalizada e que abastecia então o convento de Santa Clara e o colégio do Funchal. Essa água tinha sido canalizada para um aqueduto pelas freiras, em 1527, segundo um complicado contrato efetuado entre as mesmas, Gomes Annes e o bacharel Lopo Dias e que envolvia para o convento a cativação de dois lugares de freiras para as filhas do dito bacharel (Ibid., 390).

Com a montagem duma fortaleza naquele Pico, os jesuítas viam perigar o seu abastecimento ao colégio e pediram então o apoio do “principal”, em Lisboa (IAN/TT, CJ, 34-32). Os jesuítas nunca tinham até então acreditado na construção, tendo comprado o Pico quando já havia pequenas obras na área. Foram então enviadas várias cartas e até um certificado do sargento-mor do Funchal Roque Borges de Sousa, em como tinha ido, a 12 de abril de 1602, a Valladolid e sido recebido do próprio rei D. Filipe II, ao qual entregou uma maquete de madeira com a fortaleza a construir no pico dos Frias no Funchal. Com o certificado enviaram também uma cópia da carta do rei para o vice-rei de Portugal sobre a futura fortaleza do Pico do Funchal. O rei indica de onde deveriam sair os dinheiros para esta construção: as terças de Portugal; que deveria ser informado de qual o mestre-de-obras que deveria assumir a obra, se havia alguém habilitado na ilha para tal, ou se teria que se deslocar à Madeira o engenheiro-mor Leonardo Torriano (1559-1628), e qual o ordenado a dar-lhe; e sobre a sua guarnição, que deveria ser de soldados de Portugal (Ibid., 34-31), o que não aconteceu, sendo guarnecida pelo presídio castelhano.

A fortaleza a pedra e cal deve ter sido iniciada pouco tempo depois, encontrando-se um entendimento entre os três utentes do Pico e do aqueduto, não se voltando a falar no assunto e continuando os jesuítas com parte do Pico, onde levantam então uma quinta para recreio dos professores e estudantes do colégio, depois a chamada Quinta do Pico. A fortaleza já em 1606 tinha um tenente, Alonso de Segura, que recebeu nesse ano 19$200 réis para lenha e azeite, “a dois cruzados por mês, que começou do tempo que começou a servir, até ao fim de fevereiro de 1606” (ARM, CMF, avulsos, 10-1141, 36v.). Afonso de Segura continuou como tenente do Pico, pelo menos, até 1608. O cargo foi depois oficializado por alvará real em João Peres, que ocupava o lugar desde janeiro de 1611, com abono para azeite e lenha para a casa da guarda da fortaleza do Pico (Ibid.). Aliás, nessa altura deviam estar a decorrer as obras, pois quando a câmara em 1613 solicitou ao governador materiais vários, como barras, padiolas, enxadas, cal e madeira para as obras dos muros das ribeiras da cidade, foi respondido que se não podiam emprestar, pois havia ordens do rei D. Filipe II para acabar as obras da fortaleza do Pico e que, para tal todo esse material era necessário (Ibid., T1, 413).

Ao longo desta época são constantes as referências que chegaram até nós sobre as importantes obras levadas a cabo na fortaleza do Pico. Sabemos que em 1606 se comprou uma caravela com 40 moios de cal, no montante de 56$000 réis, destinada às obras do Pico (Ibid., avulsos, 10-1141, 34). Nessa altura os trabalhos eram referidos como efetuados nas trincheiras da fortaleza e, por certo, para preparar os caboucos para as futuras grandes obras. Em 1618 abriam-se os caboucos para se levantarem as paredes, de que era apontador o capitão António de Salamanca Polanco, um dos representantes da família Leme, tendo assistido aos pagamentos também o vereador Gonçalo de Freitas Bettencourt. Trabalhavam então os cabouqueiros Sebastião Fernandes, pago a $990 réis; Gaspar Afonso, $400; Afonso Gonçalves, $600; Jorge Álvares, $600; António Gonçalves, $500; Pero Gonçalves Picão, $600; e Simão de Araújo e Pero Gonçalves, idem. Trabalharam ainda serventes e boieiros, que acarretaram a pedra para a obra. Igualmente se efetuaram nesta época vários trabalhos de carpintaria, como a fixação de umas prateleiras da casa das munições, pelo que se pagou $140 réis ao carpinteiro Domingos Fernandes (Ibid., Vereações, 1618, 23v.).

João Peres ainda era tenente do Pico em 1630, conforme refere Manuel Tomás (Tomás, Manuel) na Insulana, editada em 1635, mas escrita por aquele ano, como se refere nas autorizações de publicação deste poema e onde se tecem largos elogios a esta fortaleza e ao seu “famoso mestre-de-obras”, o engenheiro Bartolomeu João (c. 1590-1658) (João, Bartolomeu) (TOMÁS, 1635, 466), então encarregado da obra, pois que o projeto, como já se escreveu, é bastante anterior. Nessa altura já a fortaleza começava a apresentar a forma quase regular de planta retangular rematada por quatro baluartes, com três níveis de esplanadas e um fantástico desnível para sul, o que obrigou à construção de uma rampa de acesso à porta de entrada e, a uma passagem cavada na rocha para acesso à esplanada baixa, tendo sido uma obra de engenharia, efetivamente de grande dificuldade.

As obras conheceram novo impulso nos meados de 1623, dadas as informações recebidas da Holanda de que estava para sair uma armada de 16 navios e mais de quatro mil homens de guerra, com destino às possessões portuguesas (Piratas e corsários). O comandos da ilha reuniram-se, de imediato na câmara do Funchal, a 19 de maio desse ano disponibilizando-se verbas para a fortificação e determinando-se o aprovisionamento das principais fortalezas com farinha e biscoitos, sendo necessário encontrar-se, inclusivamente casas nas redondezas para se guardarem essas provisões. Para a fortaleza do Pico, então denominada S. Filipe do Pico, foi escolhida uma loja, propriedade de António do Carvalhal Esmeraldo.

Com o governador Luís de Miranda Henriques Pinto, entre 1638 e 1641, se ultimaram algumas das obras do Pico, que o governador se apressou a inscrever numa lápide, que tinha feito “o terço do baluarte de São Paulo e quase toda a cortina que fecha o baluarte de S. João e a cisterna com seus bocais, e o corpo da guarda, rotos na rocha e o revelim da porta, e as 4 casas dos armazéns da primeira praça” também “rotos na rocha e o princípio dos outros armazéns, e terraplenos desta primeira praça”. Efetivamente teriam sido as obras mais difíceis, principalmente o ângulo do baluarte São Paulo com o de São João e, de facto, a cisterna apresenta a data de 1639 no murete.

O provedor da Fazenda dessa altura, António Antunes Leite, em carta datada de 29 de agosto de 1632, em resposta a um pedido de informação sobre mais uma tentativa de se levantar forças na Madeira para combater no Brasil, contava que entre 1618 e 1621 ficou a cidade toda murada e que “fortaleza do Pico viu quase acabada” (IAN/TT, CC, 118-151), o que é um certo exagero. Entenda-se que o provedor só muito pontualmente saía do Funchal e que esta carta visava essencialmente a justificação da quase impossibilidade de, mais uma vez, se levantar uma companhia de soldados para combater no Brasil, numa altura de profunda crise, como era a que se vivia.

Voltamos a ter referência às obras nesta fortaleza e ao pessoal ali em serviço em 1642, quando era tesoureiro da fortificação Cristóvão Valente e tenente desta fortaleza, Luís de Mesa, nascido no Funchal e filho do castelhano Francisco de Mesa, que seria depois, em 1649, sargento-mor da ilha. No fim desse ano de 1642, o tenente recebeu para azeite e lenha da casa da guarda, 16$800 réis. A 21 de abril desse ano, por exemplo, foi pago ao carpinteiro António Gomes o conserto da ponte levadiça: $080 réis, sinal de já estar em serviço nessa data e precisar de conserto. Ainda nesse mês houve obras importantes nos quartéis do corpo da guarda, comprando-se a António Pestana, caixeiro, 14 tábuas de til por 1$4000 réis, ao mesmo tempo que se pagou aos carpinteiros Manuel Gonçalves e Manuel Fernandes, que executaram o trabalho. As obras continuaram em outubro, dessa vez envolvendo os pedreiros habituais das obras da fortificação: Manuel Pereira, acompanhado do seu moço José; João Lopes, idem, do Manuel; e Roque Francisco e António Gonçalves Ribeiro. Trabalharam ainda os carpinteiros Pero Gonçalves, António Mendes, António Gomes e Roque Faria. Na semana seguinte continuou Pero Gonçalves, mas os restantes carpinteiros foram substituídos por Francisco Alves e António Gonçalves Ribeiro. Era então condestável dos bombardeiros da fortaleza, em 1642, Mateus Rodrigues, embora só empossado oficialmente em 1647, dado o falecimento do anterior José Pires.

Nessa altura, ainda mantinham as freiras Santa Clara, a par dos padres do colégio dos jesuítas, propriedades na área do Pico, com complicados foros, inclusivamente à confraria do Santíssimo da matriz de S. Pedro, no Funchal. Assim, no final das contas da fortificação do já citado ano de 1642, um dos alvitres que ficou, foi a dívida em atraso à madre D. Isabel do Nascimento, do convento de Santa Clara, respeitante à pedra tirada da pedreira do Pico para as obras da fortificação, no valor de três mil réis.

Em 1654, o mestre das obras reais Bartolomeu João descreve as defesas da cidade do Funchal, na sua “Descrição da ilha da Madeira” (Col. herdeiros de Paul Alexander Zino), como sendo a fortaleza de S. João do Pico dos Frias uma “força inexpugnável, fabricada em uma penha, e monte muito alto e superior, e padrasto à cidade”, tendo a “sua cava”, natural, acrescente-se “e ponte levadiça”. A fortaleza tinha então “3 praças, umas superiores às outras, e que se defendem cada uma per si”, e a cisterna era capaz de 3 mil pipas de água, “cavada na rocha e de muito custo”. O armamento era então de 8 colubrinas, peças de longo alcance, de 13 libras de bala.

Como se pode ver pela aguarela de Bartolomeu João, a fortaleza estava longe de estar concluída, o que só iria acontecer ao longo da segunda metade do século. No desenho, por exemplo, encontrava-se prevista a capela, assinalada somente através de uma cruz de madeira. No entanto, a capela só seria guarnecida, por volta de 1730. O desenho apresenta a porta já dotada de ponte levadiça, suspensa por duas correntes a saírem de orifícios situados acima do cordão da muralha e, neste desenho, apresenta uma decoração que parece ainda de inspiração tardo-gótica, pelo que pensamos ter sido depois totalmente reformulada. As guaritas apresentadas são semelhantes à guarita do baluarte cavaleiro de S. Lourenço (Fortaleza e palácio de S. Lourenço), logo diferentes das atuais, que têm paralelo nas guaritas dos baluartes de Mateus Fernandes na mesma fortaleza e, igualmente nas que Bartolomeu João desenhou em S. Tiago. Parece assim que seriam então como as atuais, ou seja semelhantes às de Mateus Fernandes e que Bartolomeu João pretenderia transformá-las, o que não veio a acontecer.

Por esta data era comandante do Pico o tenente castelhano Benedito Catalão, “com 4 escudos de vantagem sobre o soldo de soldado da companhia do presídio, que estava exercendo havia 30 anos”. Este alvará foi assinado por D. João IV, a 4 de dezembro de 1655 e mostra inequivocamente as boas relações que alguns dos castelhanos do presídio tinham sabido cultivar na ilha. O primeiro provimento de artilheiros de que temos conhecimento, data de 28 de março de 1699, quando foi então provido como condestável da fortaleza Manuel Coelho de Sousa, com 24$000 réis e duas pipas de vinho por ano. Esta nomeação não invalida que ali não estivessem já artilheiros, assim como uma guarnição, de que era comandante, por exemplo, em 1668, o tenente João Vieira Pita, nomeado em 1648 alferes da companhia paga de São Lourenço e que nesse ano se envolveu na sedição que depôs o governador (VERÍSSIMO, 2000, 155-162). A sua colaboração estendeu-se a aceitar que o governador recolhesse àquela fortaleza sob prisão, pelo que veio a ser demitido e degredado por cinco anos para o Brasil.

Nos inícios do séc. XVIII e segundo o “Livro de carga da Fortificação” era condestável da fortaleza, Francisco Pereira da Silva que, em 1724, recebeu 14 peças de artilharia montadas; 2 de bronze e 12 de ferro, de calibres entre 5 e 24 libras, assim como os respetivos apetrechos. Como pormenor interessante foram-lhe carregados 3 reparos de quatro rodas, 6 travessas das ditas rodas; e 3 eixos, “tudo novo, sem ferrugem” (ARM, GC, 418, 13), das poucas referências a reservas, ou sobressalentes, como hoje diríamos, nestas cargas. Em 1730 tomou posse novo condestável: Luís Gonçalves, ao qual foi carregado, para além do já exposto, o acervo da capela, montada por estes anos: um retábulo de São João; 2 castiçais de pau; um frontal “lá posto”, cinco toalhas; um altar; uma casula; uma alva; um amito; um manípulo; estola e cordão com uma bolsa; corporais; patena; palanco; sanguinhos; galhetas; pedra de ara; uma cruz de pau; uma toalha de mãos; um armário; um missal; e uma estante (Ibid.). A 18 de novembro de 1754 teve provisão de condestável José Baião da Silva, com um acrescentamento de 2 pipas de vinho sobre o anterior ordenado de 24$000 que o lugar tinha e, falecendo este, teve alvará de D. José Felipe Nery da Silva com o mesmo ordenado.

Deve-se ao bispo governador D. Gaspar Afonso da Costa Brandão (1703-1784), como governador em exercício, os primeiros contatos para a construção de um armazém de pólvora da cidade do Funchal, afastado da fortaleza do Pico. Até ao incêndio das casas do governador em S. Lourenço ocorrido nos finais do séc. XVII, tinha sido naquela fortaleza, a partir do que foi transferido pelo governador António Jorge de Melo para a fortaleza do Pico. No entanto, a 12 de junho de 1758, escrevia o bispo-governador para Lisboa, queixando-se do perigo que representava para a cidade um armazém com toda a pólvora destinada ao provimento de todos os fortes, “e torres desta ilha, que passam de mil, cento e cinquenta barris, cada um de quatro arrobas”, embora assunto só depois acionado pelo governador seguinte (AHU, Madeira, 163 e 178-184). Foi assim construído novo armazém, fora da fortaleza do Pico e a alguma distância. O bispo governador D. Gaspar deu uma certa utilização a esta fortaleza, sabendo-se, por exemplo, ter ali estado preso João José de Bettencourt de Freitas, em 1770, por ter obstado a que fosse lida na igreja de Santa Cruz, antes da missa, a excomunhão do seu pai, juiz dos órfãos, assinada pelo mesmo bispo.

Nesse mesmo ano de 1770, por alvará real e a solicitação do governador João António de Sá Pereira (1730-1804), depois barão de Alverca, para repressão da vadiagem do Porto Santo, foram estabelecidas nesta fortaleza algumas oficinas de aprendizagem de ofícios mecânicos. Estas oficinas duraram pelo menos até ao primeiros anos do séc. XIX, data em que conhecemos terem sido procurados, de novo no Porto Santo, rapazes para as mesmas, estando desde 1802 sob responsabilidade do sargento-mor e, chegaram ali ser fabricadas armas de fogo de certa qualidade, com coronhas de diferentes madeiras da ilha, tendo três dessas espingardas sido enviadas para a corte, em Lisboa, “para instrução de suas altezas reais” (SILVA e MENESES, 1998, 46-47).

Paulo Dias de Almeida (c. 1778-1832), que levantou, em 1804, pouco depois de chegado ao Funchal, a planta e perfil desta fortaleza (DSIE, GEAEM, 133-3-44-4), na sua “Descrição da ilha da Madeira”, de 1817, critica francamente a mesma, achando-a uma praça que “de pouco serve”, por ser dominada de vários pontos e, pelo norte, “de muito fácil assalto”. Acrescia que “em ocasião de rebate” era guarnecida com milicianos, que antes de chegar o brigadeiro Jorge Frederico Lecor (c. 1775-1822) “não sabiam trabalhar com as peças”, porém com “a muita atividade daquele oficial os tem posto muito bem exercitados”. Sobre o paiol, refere este oficial que estava a pouca distância da praça e era “onde se deposita, a que desembarca e embarca” (BNP, Res. cod. 6705, texto est. 13 e DSIE, GEAEM, 7483-1A-12A-16). Em 1825 e de acordo com inscrição ali existente, o paiol seria reformulado pelo então tenente-coronel Paulo Dias de Almeida, como o conhecemos hoje. Em abril de 1836, era encarregado do paiol o major Luís Agostinho de Figueiroa, figura política de relevo nesses anos.

A mesma opinião sobre a fortaleza do Pico não era partilhada pelo major António Pedro de Azevedo (1812-1889) , que no “Tombo Militar do Castelo de São João do Pico”, em 1860, refere ser este “o único ponto do interior da ilha da Madeira permanentemente fortificado” (ARM, Arquivos particulares). Acrescenta que teria sido levantado em 1639, o que sabemos não ser verdade, e destinado a funcionar como cidadela. Encontra-se a 111,5 metros de altura em relação ao nível do mar; a 1056 do forte da Pontinha; e 1760 da fortaleza de S. Tiago. Escreve que possuía alguns terrenos anexos e um portão de entrada, depois levantado em 1802, conforme consta de inscrição ali colocada, com uma pequena casa da guarda exterior. Esta casa pagava então em 1860 foro anual de $285 réis a Perpétua Maria, subenfiteuta de Nuno de Freitas Lomelino (1820-1880), “morgado das Cruzes” (DSIE, GEAEM, 133-3-44-4).

A partir dos levantamentos do tenente Paulo Dias de Almeida e depois dos oficiais ingleses das ocupações dos inícios do séc. XIX (LAWRENCE, RN, 1808), assim como o quase exaustivo trabalho ao logo de muito anos de permanência na Madeira do major António Pedro de Azevedo, existe inúmera documentação iconográfica militar desta fortaleza. O mesmo se passou com os forasteiros internacionais, que também quase exaustivamente a representaram, desde o desenho panorâmico do pintor e gravador Thomas Hearne (1744-1817), de 1772, hoje nas coleções da câmara do Funchal, passando depois pelos pintores e ilustradores que passaram pela Madeira, como William Westall (1781-1850), 1801 e 1805, o reverendo James Bulwer (1794-1879), em 1827, Andrew Picken (1815-1845), em 1840 e 1841, Lady Susan Harriet Vernon Harcourt (1824-c. 1900), em 1847, 1848 e 1849, Frank Dillon (1822-1909), em 1850, entre outros, que editaram a fortaleza do Pico nas litografias dos seus álbuns de viagem. A imposição visual da fortaleza na paisagem da cidade levaria a que igualmente fosse pintada por outros artistas, como o alemão Eduard Hildebrandt (1817-1868), em 1844, o russo Karl Briullov (1799-1852), em 1850 ou, mais recentemente, Max Römer (1878-1960) ou Maria Franco (1908-1975), já para não referir os fotógrafos.

Nos inícios do séc. XIX e com a vigência do absolutismo, mudou-se o nome à fortaleza, que passou a ser de São Miguel e que, nos inícios do séc. XVII, também tinha sido de São Filipe. No entanto, em breve voltava a ser denominada por São João. A fortaleza, entretanto seria palco de uma opção única na História da Madeira: a recolha de todas as pratas das confrarias da ilha, para posterior envio para Lisboa. O governador D. Álvaro da Costa, por certo depois de conferenciar maduramente com o prelado do Funchal, comunicou para a corte a ideia que lha tinha ocorrido nos finais do ano anterior, “visto o que se tinha passado nos Açores”, onde se haviam apeado os sinos de algumas igrejas para fundir moeda, depois de constatar a importância do acervo da “sé catedral” e demais igrejas da ilha, assim como da “casa da mitra”, que pensamos ser o paço episcopal e do extinto convento dos jesuítas. A ideia não era então só da guarda das pratas das confrarias na principal fortaleza da ilha, mas o seu envio para Lisboa, assunto que a expôs ao conde de Basto, a 16 de dezembro de 1831 (ARM, GC, 715, 117v e AHU, Ibid., 11971).

O bispo do Funchal emitiu então ordem aos administradores das confrarias para arrecadação das pratas, a 30 de janeiro de 1832, reiterando a mesma, com data de 14 de fevereiro seguinte. No entanto, muitos dos administradores recusaram-se pura e simplesmente a cumprir as ordens do prelado, assunto que o mesmo comunicou a 24 de fevereiro ao governador. O corregedor comunicava a 3 de março que não haviam ainda entregado as pratas as confrarias do Santíssimo da Madalena, da matriz do Estreito de Câmara de Lobos, da Ponta do Sol, do Porto da Cruz, de Câmara de Lobos, do Arco da Calheta, de São Vicente, da Ribeira da Janela, da Ribeira Brava, do Campanário, da Tabua e da Ponta do Pargo (Ibid., 71 v-72 v), mas, pelos vistos, muitas das confrarias já as haviam entregado, incluindo, as confrarias da sé e demais matrizes de freguesia do Funchal. O embargo marítimo colocado pelas forças apoiantes de D. Pedro, grande parte recrutadas em Inglaterra, não permitiu, entretanto, que tal saque se viesse a concretizar com a saída das pratas da ilha. O mesmo ocorreu, também, com a mais importante riqueza da ilha, como se escreveu, que era o vinho, pelo que idêntica ordem foi igualmente dada à alfândega do Funchal, e que igualmente não se conseguiu embarcar.

Nos inícios do séc. XX e com a visita real, organizaram-se salvas a Suas Majestades, com as velhas peças prussianas de 1870, tal como uns anos antes escrevera a atenta inglesa Isabella de França (1795-1880), no Journal da sua visita à Madeira em 1853, quando as peças da fortaleza do Pico tinham salvado “de cinco em cinco minutos, por três dias e duas noites”, pela morte inesperada da rainha D. Maria II, a 15 de novembro de 1853 (FRANÇA, 1970, 166). Infelizmente, há muito tempo que as mesmas não faziam tiro e, entretanto, tinha crescido o casario nas vertentes da Forteza, pelo que os prejuízos de vidros partidos nas salvas da visita régia de 1901 foram muito avultados, não voltando as peças do Pico a salvar.

Nos meados do séc. XX a fortaleza do Pico foi entregue à Marinha para ali instalar o centro de comunicações da Armada, instalação iniciada em 1929. Com as inúmeras antenas então levantadas, a população funchalense passou a designá-la por “Pico-Rádio”. Infelizmente nas obras depois levadas a cabo, entre 1940 e 1950, foi desmanchada a antiga capela, não se aproveitando sequer as cantarias. A fortaleza de São João Baptista do Funchal foi classificada de imóvel de interesse público pelo decreto 32.973 de 18 de agosto de 1943 e veio a ser entregue ao GRM em 2014, decorrendo concurso de ideias nos primeiros meses de 2015.

Bibliog. impressa: BOTELHO, TCor. Art., João e VICENTE, SAJ Inf., Ramiro, Regimento de Guarnição n.º 3, das origens à atualidade, 1864-2008, Uma viagem ao passado pelas Unidades da Madeira, Funchal, outubro de 2008; CARITA, Rui, Paulo Dias de Almeida e a sua Descrição da ilha da Madeira de 1817/1827, Funchal, DRAC, 1982; Id., O Regimento de Fortificação de D. Sebastião, 1572 e a Carta de Bartolomeu João, 1654, SRE, Funchal, 1984; Id., História da Madeira (1600-1700), iii vol., As dinastias Habsburgo e Bragança, Funchal, SRE, 1992; Id., A Arquitetura Militar na Madeira nos séculos xv a xvii, Funchal/Lisboa, EME e Universidade da Madeira, 1998; Id., História da Madeira, As Ocupações Inglesas e as Lutas Liberais: O processo Político (1801-1834), Funchal, DRAC, 2002; FRANÇA, Isabella de, Jornal de uma Visita à Madeira e a Portugal, 1853-1854, anot. Cabral do Nascimento e João dos Santos Simões, Funchal, JGDAF, 1970; RODRIGUES, Paulo Miguel, A Política e as Questões Militares na Madeira. O Período das Guerras Napoleónicas, Funchal, CEHA, 1999;  SILVA, Fernando Augusto da, e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 3 vols., ed. fac-simile, Funchal, SRTC, 1998; TOMÁS, Manuel, Insulana, Antuérpia, Joam Mevresio, 1635; VERÍSSIMO, Nelson, Relações de Poder na Sociedade Madeirense do Século XVII, Coleç. História da Madeira, 1, DRAC, Funchal, 2000; cartografia e iconografia: ALMEIDA, Paulo Dias de, Planta e Perfil da Fortaleza do Pico, 1804 (DSIE, GEAEM, 133-3-44-4); Planta da Fortaleza do Pico, 1817 (BNL, res., cod. 6.705); Planta da Fortaleza do Pico, 1817 (c.), (DSIE, GEAEM, 7483-1A-12A-16); AZEVEDO, António Pedro de, Planta do Castello do Pico de S. João Baptista, 1841, 1865 e segs. (DSIE, GEAEM, 3/5/13; 3915-I-2-18A-110; 5585-1A-12A-16, etc.); BULWER, James, Views in the Madeiras, Londres, litografado por William Westall A.R.A, Londres, 1827; DILLON, Frank e PICKEN, T., Scketches in the Island of Madeira, London, Day and Son Lith, 1850; JOÃO, Bartolomeu, Descripção da Ilha da Madeira, Cidade do Funchal, Villas, Lugares, Portos e Enseadas, e mais secretos, feita por Bertolameu João Inginheiro della em tempo do Governador Bertolameu Vasconcelos da Cunha, capitão geral desta ilha no anno de 165[4], Coleç. dos Herdeiros de Paul Alexander Zino; HARCOURT, lady Susan Harriet Vernon, A Sketch of Madeira, Londres, Ed. Thomas McLean, 1850; HEARNE, Thomas, desenho panorâmico da cidade do Funchal, 1772 (Núcleo museológico da Cidade do Açúcar, Funchal); LAWRENCE, RN, G. B., Plan of the Fortifications, of Funchal in the Island of Madeira, Dez. 24 th 1808, which was given up to the British Forces under Admiral Sir Samuel Hood K. B. and Gen.l Beresford, Arquivo Histórico Militar, 47.ª sec., n.º 16750 (não assinado) e antiga col. particular Peter Cossart (assinado); PICKEN, Andrew, Madeira Ilustrated, London, Day and Son Lith to The Queen e Published by Mess.re Paul and Dominic Colnaghi and CP Publishers to Her Magesty, 1840; WESTALL, Richard e William, Foreign Scenery, a series of picturesque and romantic scenery in Madeira, the Cape of Good Hope, Timor, China, Prince of Wales’s Island, Bombay, Mahratta country, St. Helena and Jamaica, litografias de J. Pye e outros, Londres, 1811; manuscritos: Arquivo Geral de Simancas, Guerra Antiga, 130-55, 147-226 e 421-313; Secretarias Provinciales, Leg. 1472; Arquivo Histórico Ultramarino, Mapa do Presídio Militar pago da ilha da Madeira; do das Milícias da Ordenança que guarnecem e vigiam; das suas Fortalezas, Armas, Munições e apetrechos de Guerra existentes, Ano de 1754, doc. 47, 163, 178-184, 201, 389, 390, 506 e 11971; Arquivo Regional da Madeira, Alfândega do Funchal, 675; Câmara Municipal do Funchal, avulsos, 10-1141; cod. 322 e 421; Registo Geral, Tombo 1, 2 e 5; Vereações 1618, Vereações 1623/25; Governo Civil, Livro de Carga das Fortificações 1724-1730 (L. 3º), cod. 418, 526 e 715; Descrição da Ilha da Madeira, Paulo Dias de Almeida, 1817 (aquisição 2010); BNP, Descrição da Ilha da Madeira, Paulo Dias de Almeida, 1817 Res. cod. 6705;  Index Geral do registo da antiga Provedoria da Real Fazenda, acrescentado com algumas notícias e sucessos da Ilha da Madeira desde o ano de 1419 do seu descobrimento até o de 1775 da extinção da mesma Provedoria, Reserv., cod. 8391; IAN/TT, Cartório dos Jesuítas, 34-32; Chancelaria D. Filipe I, liv. 28; Corpo Cronológico, parte I, 118-151; Junta da Provedoria da Real Fazenda do Funchal, 837, 963, 965A, 974 e 980.

Rui Carita

(atualizado a 18.08.2016)