fortes da ponta do sol

De acordo com o desenvolvimento da costa e da produção açucareira, ao longo do séc. XVI e XVII a vila da Ponta do Sol foi dotada de uma pequena fortaleza situada na baixa, a nascente da igreja, junto ao pelourinho da vila. À fortaleza chamou-se Forte da Vigia, embora Paulo Dias de Almeida, em 1817, lhe atribua a evocação de S. João. Este forte foi destruído por uma levadia a 2 de novembro de 1799, que derrubou igualmente o pelourinho. No início do séc. XIX, refere-se um pequeno terrapleno, o então forte de defesa da vila a que chamavam o “Passo” e que teria sido desativado em 1831. Dependente da Ponta do Sol existia ainda o reduto da Madalena do Mar, também desativado nesse ano.

Palavras-chave: aluviões; artilharia; arquitetura militar; defesa.

Oeste P do Sol
Ponta de Sol, Vista de Oeste, Arqui. Rui Carita

De acordo com o desenvolvimento da costa e da produção açucareira, ao longo do séc. XVI e XVII a vila da Ponta do Sol foi dotada de uma pequena fortaleza situada na baixa, a nascente da igreja e junto ao pelourinho da vila (Pelourinhos). Esta área era ocupada por uma ampla praça, onde nesses séculos se efetuavam as revistas e os alardos (Ordenanças). O pequeno fortim deve ter nascido de uma vigia ali instalada (Vigias), embora estranhamente não se conheça, até aos inícios do séc. XVIII, qualquer referência à sua instalação. Temos, até então, referências à nomeação dos capitães de ordenanças, a avisos aos mesmos, mas não existem referências a fortificação ou artilharia.

Em abril de 1780, no entanto, temos a informação do provimento do capitão António Ferreira Gago, como comandante do forte do Passo, na Ponta do Sol. Tudo leva a crer, contudo, não ser o mesmo forte que era denominado poucos anos depois por forte da Vigia, por certo em memória duma casa de vigia ali construída anteriormente. A agravar a situação, Paulo Dias de Almeida (c. 1778-1832), em 1817, atribui a este último forte a evocação de S. João, por certo de uma capela existente nas suas imediações, informação essa que mais ninguém corrobora, sendo a existência da capela também desconhecida. Em 1724 era condestável da vila Manuel Pereira Jardim, que recebeu como carga do forte três bocas-de-fogo ligeiras, de calibres de cinco até oito libras, de ferro e montadas, assim como uma colher de cobre, quatro soquetes, um riscador, um saca-trapo e uma prancha de chumbo para os fogões. Saliente-se que não se menciona, no “Livro de Carga da Artilharia”, a existência de um forte, mas de um reduto, tratando-se o condestável como “da Vila” (ARM, GC, cód. 418, fl. 26), como acontece depois na primeira semana de julho de 1742, quando se refere que se mandou pagar ao “condestável da Ponta do Sol” uma pelica para lanadas, por $400 réis (ANTT, JPRFF, L. 840, Fortificação 1742, fls. 17 a 22).

P do Sol Leste
Ponta do Sol, Vista de Leste, Arqui. Rui Carita.

Segundo Adriano Ribeiro, Francisco Libânio de Cárceres, ao discorrer sobre a Ponta do Sol, descreve assim a praça da vila na “Revista Madeirense”: “Nesta praça, mesmo em frente da rua do Engenho Velho, no lugar onde hoje existe a boca da muralha, havia um reduto ou forte, a que chamavam a Vigia” (RIBEIRO, 1993, 193). Refere este autor que, no dia 2 de novembro de 1799, um repentino golpe de mar arrasou a dita vigia e derribou o antigo pelourinho que lhe ficava à ilharga.

No centro da praia, haveria ainda uma torre cilíndrica com frestas, que o mar também levou. Nos inícios do séc. XIX, Paulo Dias de Almeida queixava-se de que a vila a Ponta do Sol não tinha qualquer defesa, referindo que o velho forte de S. João fora levado “pela grande cheia” do aluvião de 1803, como já o teria sido pelo anterior aluvião de 1799. Tinha então ficado no chão o que restava do forte: uma peça reprovada, de calibre de 3 libras. Cita que existiam ainda, num terrapleno perto, mas também sem reparos, mais quatro pequenas peças, também de calibre de três, e uma de nove libras. A este pequeno terrapleno chamavam Forte do Passo, considerando-o outro pequeno forte ou reduto de defesa da vila.

Estas velhas peças recolheram ao Funchal em 1831, conforme escreveu Libânio de Cáceres, já citado. Na revista de agosto de 1819 do governador Sebastião Xavier Botelho (1768-1840), como registou então o tenente-coronel Paulo Dias de Almeida, verificou-se que era necessário equipar a “Vigia com 1 peça” e reativar a “bateria do adro da matriz da Ponta do Sol” (BACL, Cartografia, 1 G. 4, nº 11). Parece deduzir-se assim que a Vigia seria o local elevado a oeste sobre a vila e a baía, onde nos finais do séc. XIX havia um miradouro e onde depois se levantou o tribunal, sendo o Passo, o terrapleno sobre o cais da Ponta do Sol, levantado por volta de 1848; foi-lhe dado o nome de Duque de Leuchtenberg (1817-1852), topónimo que subsistiu no acesso superior. O forte de S. João poderia ser a inicial torre do centro da praia, abaixo da igreja matriz, pois que havendo uma torre senhorial na Lombada da Ponta do Sol, que depois foi incorporada no solar dos Esmeraldos (Arquitetura militar e Arquitetura senhorial), muito provavelmente também haveria uma na sede da vila; mas os engenheiros militares seguintes, como José Júlio Guerra (1801-1869) e António Pedro de Azevedo (1812-1889), não fazem qualquer referência às defesas militares da Ponta do Sol, nada constando do tomo militar dos meados do séc. XIX.

Reduto da Madalena do Mar.

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Antiga Estrada Real, Arqui, Rui Carita.

O lugar da Madalena do Mar possuiu, igualmente, um pequeno reduto, que em 1724 tinha um artilheiro: Jorge Martins. A 4 de outubro desse ano recebeu a carga do reduto, então uma pequena peça de ferro, de calibre de cinco libras, um soquete e um saca-trapo. Mais tarde, a 6 de julho de 1733, ainda recebeu mais uma peça, agora de calibre de oito libras e igualmente de ferro. Esta peça deve ter sido a que foi retirada de S. Filipe em 1730, com destino a este lugar e que terá aparentemente levado três anos a chegar ao seu destino, tal como a transferida para o forte de S. Sebastião de
Câmara de Lobos e reduto do Caniço. Pelos meados do séc. XVIII, executaram-se obras no pequeno forte da Madalena do Mar, de que era ajudante Ambrósio Rodrigues de Sousa Rocha, que em 1758 pedia um soldo de 40$000 réis anuais pelo serviço prestado.

A história geológica da Madalena do Mar é um desastre contínuo, com aluviões sucessivas, por vezes de graves consequências, tendo a pequena povoação sido destruída várias vezes. Paulo Dias de Almeida referir-se-ia a este propósito que teria ali havido um pequeno forte, não levado pela aluvião, mas pelo mar: “houve um pequeno forte, e foi raso pelo mar” (CARITA, 1982, 64). Tinham ficado quatro peças de calibre de quatro libras, boas, e três de calibre três, reprovadas, todas sem reparos. Como podemos ver pela planta de José Júlio Guerra, em 1842 e entre as várias freguesias e lugares fortemente atingidas pela aluvião desse ano, encontrava-se a Madalena do Mar. Nos tombos militares, no entanto, não se faz referência a qualquer defesa no lugar, salvo a uma vigia na área do antigo forte, situada a oeste do lugar, alienada nos inícios do século XX (ARM, Arquivos Particulares. Ib.).

Bibliog.: manuscrita Arquivo Histórico Ultramarino, Madeira e Porto Santo, cx. 1, docs. 137-139; Arquivo Regional da Madeira, Arquivos Particulares, António Pedro de Azevedo, Tombo 11 dos Prédios Militares e plantas avulsas; Governo Civil, L. 418 e 534; Biblioteca da Academia de Ciências de Lisboa, Cartografia, 1 G. 4, n.º 11; Direção do Serviço de Infraestruturas do Exército, Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar, 1340-1A-12-15; Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Junta da Provedoria da Real Fazenda do Funchal, L. 840, Fortificação 1742; impressa: CARITA, Rui, Paulo Dias de Almeida e a Descrição da Ilha da Madeira, Funchal, DRAC, 1982; Id., A Arquitetura Militar na Madeira nos séculos XV a XVII, Funchal/Lisboa, EME/ Universidade da Madeira, 1998; RIBEIRO, João Adriano, Ponta do Sol, subsídios para a história do concelho, Ponta do Sol, Câmara Municipal da Ponta do Sol, 1993; SILVA, Fernando Augusto da, e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 3 vols., Funchal, DRAC, 1998.

Rui Carita

(atualizado a 03.03.2016)