fortes de câmara de lobos

O lugar de Câmara de Lobos foi das primeiras localidades da Madeira a serem povoadas e, na sequência do saque dos corsários de 1566 ao Funchal, das primeiras a serem fortificadas. A base da defesa do lugar foi o vasto forte de S. Sebastião, padroeiro da freguesia, levantado sobre o “quase ilhéu” da baía, espaço que, no entanto, nunca foi totalmente fechado, ficando-se por uma grande parada pontualmente murada. O lugar foi dotado também de muralha e, em 1817, existia ainda um pequeno reduto no lado poente da ribeira do Vigário. Existiu também uma bateria sobre o varadouro, designada por bateria do Canavial, que terá sido construída pouco depois, sendo arruinada depois com a aluvião de 1842.

Palavras-chave: artilharia; arquitetura militar; defesa; companhias de ordenanças; vigias.

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Câmara de Lobos, 1924, Arqui. Rui Carita.

O lugar de Câmara de Lobos foi das primeiras localidades da Madeira a serem povoadas, tendo João Gonçalves Zarco reservado para si e seus descendentes parte das encostas e vindo, inclusivamente, a família a usar o apelido de Câmara de Lobos. Dada a aspereza das encostas do lugar, poucos habitantes se teriam preocupado com as questões de defesa, deixando isso a cargo da câmara do Funchal, que nomeava o alcaide do lugar. Embora não haja notícias de problemas locais durante o saque dos corsários de 1566, que parece não se terem deslocado a Câmara de Lobos, o regimento de fortificação, chegado ao Funchal em 1572, ordenou a fortificação dos possíveis desembarcadouros insulares, referindo inclusivamente “como se havia feito” em Câmara de Lobos, sinal de já ali ter havido obras, provavelmente por 1567. As obras devem ter continuado nos finais do séc. XVI, durante a vigência do conde de Lançarote, conforme expôs Mateus Fernandes (c. 1520-1597) no final da sua permanência na Madeira, com especial destaque para a Ribeira dos Socorridos (Fortes da Ribeira dos Socorridos). Deve assim ter sido levantado um muro à volta da baía de Câmara de Lobos, prevendo qualquer tentativa de desembarque e o assédio direto às casas do lugar.

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Fortes de Câmara de Lobos, GEAEM, Arqui. Rui Carita.

O vasto forte de S. Sebastião, padroeiro da freguesia, deve datar dos inícios do século seguinte, sobre o quase ilhéu da baía, um espaço que nunca teria sido totalmente fechado, ficando-se por uma grande parada pontualmente murada. Sobre a falésia que dá para a igreja matriz, foram levantadas umas pequenas casas para o pessoal de serviço de vigias, como se deduz da informação do provedor António Antunes Leite, que descreveu depois, em Lisboa, as obras executadas durante a sua estadia no Funchal, entre 1618 e 1621, citando a fortificação de Câmara de Lobos e de outros lugares.

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Boca de Fogo, Pico da Cruz, 1770, Arqui. Rui Carita.

Os primeiros e quase únicos problemas surgidos com corsários na área de Câmara de Lobos ocorreram em 1625, com um ataque de piratas argelinos à vizinha Fajã dos Padres, entre o Campanário e a Quinta Grande, propriedade dos padres da Companhia de Jesus. Dado o alarme para Câmara de Lobos, ainda se formaram as companhias de ordenanças, mas ninguém acudiu. Explicou-se mais tarde que os barcos dos pescadores existentes no lugar não podiam fazer frente aos xavecos argelinos, para mais armados, razão por que não saíram da baía. Nessa sequência, sabemos de despesas várias com a fortificação de Câmara de Lobos, embora, por exemplo, em outubro de 1642, quando se pagaram 2$130 réis, não se mencione para quê. Em dezembro desse ano pagou-se aos carpinteiros Manuel Afonso e Manuel Francisco um reparo novo e o conserto de outro: 3$000 réis; tal como a Manuel Fernandes, caldeireiro, se pagaram duas colheres para as duas peças que estavam em Câmara de Lobos: 1$080 réis, ficando-se a saber que existiam pelo menos duas bocas-de-fogo.

Nos inícios do séc. XVIII, de acordo com o “Livro da carga da Fortificação”, de 1724, possuía o forte de S. Sebastião três peças de ferro montadas e um canhão pedreiro, uma peça muito mais antiga, referindo-se que com o seu “cavalete”, em vez de “reparo”, como era costume referir-se. A palamenta para tiro de artilharia era a mínima: uma colher de cobre e sua haste, se calhar ainda uma das que foram adquiridas em 1642; três soquetes, um saca-trapo; um riscador e três agulhas de artilharia. Era então condestável do forte João Andrade, ao qual foi carregada mais uma boca-de-fogo de 8 libras, em setembro de 1726. Este condestável foi substituído em 1730 por António Álvares Jardim, ao qual foi depois também entregue mais uma boca-de-fogo, proveniente da fortaleza de S. Filipe do Funchal. Entretanto, teriam sido feitos exercícios de artilharia e, em 1742, pagavam-se no Funchal $550 réis do carreto de quatro barris de pólvora para Câmara de Lobos.

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Fortes da Ribeira dos Socorridos e Câmara de Lobos,1841, Arqui. Rui Carita.

No início do século seguinte, Paulo Dias de Almeida (c. 1778-1832) queixou-se do abandono em que tudo se encontrava, e especificava que no “penhasco levantado” sobre o lugar, “na superfície dele tem um plano, que fecharam com uma arrumação de pedras, a que chamam Forte”. Ainda existia em 1817 o pequeno reduto no lado poente da Ribeira do Vigário, com uma peça de calibre sete, mas igualmente reprovada, assim como o reduto do Canavial, também arruinado, com duas peças de quatro e uma de sete, tudo reprovado, sem palamenta nem balas. Acrescentava ainda, que pensando que quanto mais alto uma boca-de-fogo estivesse, mais longe atingia, tinham levado uma das bocas-de-fogo de S. Sebastião para o Pico da Cruz, a que chamavam então a bateria do Pico e a mesma se encontrava ali, abandonada e sem reparo (CARITA, 1982, 60). Alertados por esta informação, em novembro de 1981, os militares do Grupo de Artilharia da Guarnição n.º 2 deslocaram-se ao local, constatando a existência ainda ali de uma boca-de-fogo de ferro semienterrada, com a boca destruída por um rebentamento; recuperada, passou a integrar o museu de artilharia ao ar livre em São Martinho.

Vista de Câmara de Lobos, Andrem Picken, 1840, Arqui. Rui Carita.
Vista de Câmara de Lobos, Andrew Picken, 1840, Arqui. Rui Carita.

O lugar de Câmara de Lobos teria possuído uma muralha a proteger o casario frente à capela da Conceição e Corpo Santo, como parece visível em algumas das litografias inglesas dos meados do séc. XIX, como a de Andrew Picken (1815-1845), de 1840, ou a publicada por Robert White em Londres, em 1851. Em 1841, o engenheiro António Pedro de Azevedo (1812-1889) desenhou o forte de S. Sebastião e o lugar, referindo depois no tombo militar encontrar-se tudo abandonado e sem parapeitos, e apresentar um importante rombo de 6,8 m de extensão na muralha. O terrapleno da fortificação tinha 57 por 26,8 m e elevava-se a 50 m do nível do mar, com casa da guarda, à direita do portão. Esse edifício tinha 12 por 5,28 m, com duas portas e duas janelas, e servia igualmente de residência ao fiel de munições. O armazém e depósito de munições tinha quase as mesmas medidas: 12 x 5,8 m, e o armamento não excedia as cinco bocas-de-fogo de pequeno calibre. Não batia, no entanto, bem a praia, pois só o poderia fazer utilizando tiros muito mergulhantes, que eram pouco eficazes.

Camara de Lobos 10932_I-2A-24A-111António Pedro de Azevedo tece ainda algumas considerações interessantes sobre Câmara de Lobos, referindo que, embora sem especial interesse para defesa, se deveria manter aquele reduto de S. Sebastião como apoio a outra melhor posição, que poderia ser a das salinas, frente ao forno da cal. Esperava-se um aumento da importância de Câmara de Lobos, dada a quantidade e abundância da produção de vinhos naquelas encostas, acrescida ainda da melhoria então efetuada nas comunicações com o Funchal, advinda da construção da Estrada Monumental. Não devem ter-se efetuado de imediato grandes obras e, a 10 de julho de 1895, foi o terrapleno do forte arrendado a João Gonçalves Angélica Júnior, a 1$108 réis por m2, e realugado por mais três anos em 1898, já pela renda anual de 15$200 réis.

Em 1916, um órgão de informação regional, para além de confirmar a sua existência, escrevia que a muralha do forte se “encontrava esburacada e carcomida pelo tempo” (FREITAS, Dicionário Corográfico CL). Este prédio militar, que possuía o n.º 39, foi, a partir de 1937, alvo de negociações com vista à sua cedência, por parte do Ministério das Finanças, à câmara municipal de Câmara de Lobos, por serem os terrenos necessários para a construção do bairro dos pescadores no Ilhéu.

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Canavila, S.S. Câmara de Lobos, Arqui. Rui Carita.

Depois de diversos contactos, na sessão camarária de 4 de julho de 1940 foi presente um ofício da Secção de Finanças do Concelho de Câmara de Lobos informando que havia sido superiormente fixada em 3.000$00 a compensação a pagar pela Câmara Municipal de Câmara de Lobos pela sua cedência a título precário, tendo-se realizado o respetivo auto de cessão, muito provavelmente, a 12 de abril de 1941. O velho bairro dos pescadores, entretanto foi totalmente demolido na década de 90 do séc. XX.

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Planta de Câmara de Lobos, Arqui. Rui Carita.

 

Nos inícios do séc. XIX, provavelmente e depois de 1817, pois que Paulo Dias de Almeida não a refere, foi construída a bateria do Canavial, que foi totalmente destruída pelo aluvião de 1842, referindo António Pedro de Azevedo, em 1863, que a mesma estava em ruínas, embora fosse capaz de duas bocas-de-fogo, mas que “junto do calhau do mar”, “as levadias por vezes a têm destruído”, pelo que seria de pensar numa outra posição (CARITA, 1982, 60 e ARM, Arquivos Particulares, A. P. Azevedo, Tombo 11). Tinha então 10 por 10 m e confinava com um armazém de Tibúrcio Justino Henriques e outro de Roque Teixeira de Agrela. Com a destruição resultante do aluvião de 1842, um proprietário local, José de Cairos, alugara o espaço e refizera parcialmente os muros, passando a pagar à fazenda uma renda de 30$000 réis pelo novo espaço no porto da vila. Em 1899, e segundo o tenente-coronel de engenharia José Travassos na seguinte descrição do “Tombo dos Prédios Militares”, já não restavam quaisquer vestígios da antiga bateria do Canavial.

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Visita Guiada, Nº 4, 1983, Arqui. Rui Carita.
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Câmara de Lobos, Cabo Girão, 1851, Arqui. Rui Carita.

Bibliog.: manuscrita: ARM, Arquivos Particulares, António Pedro de Azevedo, Tombo 11 dos Prédios Militares e plantas avulsas; Governo Civil, 418; Direção do Serviço de Infraestruturas do Exército, Gabinete de Estudos Arqueológicos de Engenharia Militar, cod. 5517 e 5582, 1A-12A-16 e 10932-I-2A-24A-111;ANTT, Cartas Missivas, cod. 2-53; Corpo Cronológico, P1, cod. 118-151; Junta da Antiga Provedoria da Real Fazenda do Funchal, 837; impressa: CARITA, Rui, Paulo Dias de Almeida e a Descrição da Ilha da Madeira, Funchal, DRAC, 1982; Id., Câmara de Lobos, Visita Guiada n.º 4, Funchal, Centro Regional de Cultura/Cine Forum do Funchal, 1983; Id., O Regimento de Fortificação de D. Sebastião, 1572 e a Carta de Bartolomeu João, Funchal, SRE, 1984; Id., “As defesas de Câmara de Lobos”, Girão n.º 5, 2.º semestre de 1990, pp. 181-184; Id., História da Madeira, vol. IV: O século XVIII: Arquitectura de Poderes, Funchal, SRE, 1996; Id., História da Madeira, vol. VII, O longo Século XIX: do Liberalismo à República. A Monarquia Constitucional, Funchal, SER/Universidade da Madeira, 2008; Id., A Arquitetura Militar na Madeira nos séculos XV a XVII, Funchal/Lisboa, EME/Universidade da Madeira, 1998; PICKEN, Andrew e MACAULEY, James, Madeira Illustrated with a Description of the Island, Londres, Day & Haghe, 1840; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 3 vols., Funchal, DRAC, 1998; VERÍSSIMO, Nelson, Relações de Poder na Sociedade Madeirense do Século XVII, Funchal, DRAC, 2000; WHITE, Robert, Madeira, his climate and scenery, containing medical and general information for invalids and visitors; a tour of the island, etc.; and an appendix, London, Cradock & Co. Paternoster Row / F. Wilkinson & Co. Madeira, 1851; digital: FREITAS, Manuel Pedro, Dicionário Corográfico de Câmara de Lobos, http://www.concelhodecamaradelobos.com/dicionario/forte_sao_sebastiao.html (acedido a 24 set. 2015).

Rui Carita

(atualizado a 03.03.2016)