freitas, joaquim josé ferreira de

Joaquim José Ferreira de Freitas terá nascido no Funchal por volta de 1781. Pouco se conhece dos primeiros anos da sua vida; porém, sabe-se que a sua saída da Madeira ficou a dever-se à necessidade de realizar estudos que, naquela época, não poderia fazer no Funchal. Tendo frequentado um convento de Franciscanos, seguiu aVV e chegou a tomar ordens, mas logo abandonou esta opção de vida.

As ideias revolucionárias levaram-no a partir para França, que adotou como sua pátria, onde se colocou ao serviço de Napoleão Bonaparte. Conquistou a confiança de José Bonaparte, a ponto de se ter tornado o confidente predileto deste irmão do Imperador. Mais tarde, como comerciante, tornou-se no grande fornecedor de géneros para abastecimento dos exércitos franceses.

Em 1810, entrou em Portugal com o exército francês de Massena e com ele regressou a França, empregando-se na administração militar. A queda de Napoleão obrigou-o a enveredar por outro rumo.

Após dirigir um gabinete de leitura em Paris, rapidamente caiu na miséria. Viveu depois em Inglaterra, onde, em 1820, incitado pelo convívio com os emigrados portugueses, começou a dirigir o célebre semanário O Padre Amaro – que suspendeu, com 12 volumes, em 1826, iniciando então a publicação do Appendice ao Padre Amaro, o qual se editou até 1830, formando 6 volumes (esta publicação atravessou parte do período das fortes perturbações políticas dos anos de 1820 a 1834). Estas duas coleções constituem um repositório de interesse para a história política portuguesa da época. Data de então a sua celebridade no mundo político; colaborou com os melhores escritores emigrados e tornou-se, em pouco tempo, muito conhecido em Portugal e no Brasil. A defesa que fez da independência desta colónia valeu-lhe uma pensão de 600 libras anuais, concedida pelo Imperador D. Pedro.

Na mesma época, escreveu várias obras, entre as quais Memória sobre a Conspiração de 1817, Vulgarmente Chamada a Conspiração de Gomes Freire, que lhe foi encomendada, a troco de 500 libras, pelo Mar. Beresford, que queria defender-se da acusação de ter sido o causador da execução daquele general; a obra foi impressa em Londres e em Lisboa, no ano de 1822. Ainda neste ano, fundou O Cruzeiro, de que saíram poucos números. Redigiu também um jornal intitulado The American Monitor, com dois volumes editados.

Suspensa a pensão que lhe fora dada por D. Pedro, Ferreira de Freitas foi atacado por grave doença, caiu em profunda miséria; o seu funeral viria a ser feito por subscrição, tendo sido o primeiro contribuinte o próprio D. Pedro IV e o 1.º conde de Carvalhal, seu amigo.

Este escritor e jornalista, curiosa figura da emigração portuguesa – e polémica, tendo publicado panfletos inflamados nos quais defendia acerrimamente o regime constitucional –, usou também os nomes de Joaquim José Ferreira de Freitas e Joaquim Sebastiano Ferreira de Freitas. No entanto, ficou mais conhecido por “padre Amaro”, tendo sido por meio desta alcunha que se afirmou como escritor.

Da sua obra, destacam-se: o texto Bibliotheca Historica, Política e Diplomatica da Nação Portuguesa, publicado em Londres pela Sustenance and Strecht, de que saiu apenas um volume; e Coup D’Oeil sur l’Etat Politique du Brésil, em resposta ao livro Histoire do Brésil, de Alphonse de Beauchamp. O Elucidário Madeirense atribui-lhe a autoria da comédia O Bota Fora do Catavento ou A Cabeça de Bacalhao Fresco, referindo que este texto foi atribuído a Garrett; a obra – uma representação de comédia ligeira em dois atos, destinada a ridicularizar Ferreira Borges – é, de facto, de autoria incerta.

Morreu em Londres, a 20 de julho de 1831.

Obras de Joaquim José Ferreira de Freitas: Memória sobre a Conspiração de 1817, Vulgarmente Chamada a Conspiração de Gomes Freire, por um Portuguez (1822); Coup d’Oeil sur l’Etat Politique du Brésil (1823); O Bota Fora do Catavento ou A Cabeça de Bacalhao Fresco, Burletta em Dous Actos (1828) [autoria incerta]; Bibliotheca Historica, Politica e Diplomatica da Nação Portugueza (1830).

Bibliog.: SILVA, Fernando Augusto e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, vol. II, Funchal, DRAC, 1998.

António José Borges

(atualizado a 10.04.2016)