frutuoso, gaspar

(Ponta delgada 1522 – ribeira grande 1591) Tendo frequentado a Universidade de Salamanca a partir de 1546, aí tomou o grau de bacharel em artes, em 1549. Aparentemente devido ao falecimento paterno, regressou à ilha de S. Miguel e só em 1553 voltou a Salamanca, onde conseguiu o bacharelato em teologia, no ano de 1558. Ali, foi aluno do teólogo dominicano Fr. Domingos do Soto, que participou no Concílio de Trento, com o qual terá mantido um bom relacionamento intelectual. Após ter tomado o grau, regressou aos Açores, onde serviu na Igreja Matriz da Lagoa, até 1560. Voltou ao continente, nesse mesmo ano, presumivelmente por instâncias de Soto. Radicou-se em Bragança, onde foi coadjutor do bispo de Bragança durante o múnus do dominicano D. Julião de Alva, participou na redação das primeiras constituições do bispado e lecionou no Colégio dos Jesuítas daquela cidade. Também terá preparado o seu doutoramento em Teologia.

Embora não haja documentação que comprove a obtenção do grau (nem em Coimbra nem em Évora), a partir de 1565 foi sempre referido como doutor. Nesse ano, regressou aos Açores, desta feita para se fixar, como vigário, na Igreja de Nossa Senhora da Estrela, a matriz da Ribeira Grande. À frente da sua igreja, parece ter sido um homem atuante junto dos fiéis, chegando a pregar sermões com críticas à atividade dos vereadores, nomeadamente quando aqueles permitiam a saída de trigo rumo a Lisboa, deixando a ilha sem provimento. Foi ainda visitador, a ordens do bispo D. Manuel de Gouveia, do Mosteiro de Santo André, de Ponta Delgada, pertenceu à Misericórdia e foi confrade de várias outras irmandades. Homem culto, com uma biblioteca de algum valor, dedicou-se à escrita. Terá produzido 16 manuscritos de matérias teológicas, incluindo espécimes de parénese e de poesia, além da sua obra-mor, as Saudades da Terra, composta por seis livros, escritos entre 1580 e 1590.

Apesar de ter falecido repentinamente e sem ter deixado testamento, todo o espólio de Frutuoso ficou, por sua vontade, para os jesuítas micaelenses, que então estavam a construir um colégio em Ponta Delgada. Só em 1760, após a expulsão da Companhia de Jesus, a obra passou para a posse do governador de S. Miguel, António Borges de Bettencourt, e, por morte deste, para os seus herdeiros. Mais tarde, o marquês da Praia e Monforte adquiriu-a em hasta pública e ofereceu-a à Junta Geral do Distrito de Ponta Delgada.

Todo o texto, dedicado à história das ilhas atlânticas, foi apresentado em narrativa cortada por diálogos entre duas figuras alegóricas, Dederva e Mafa, e teve como fontes mais relevantes António Galvão, Damião de Góis, Garcia de Resende e João de Barros, sem esquecer autores da Antiguidade Clássica, documentos locais e testemunhos orais de contemporâneos do a. A obra apresenta-se da seguinte forma: livro 1 – espaço demarcado pelo Tratado de Tordesilhas, arquipélagos das Canárias e de Cabo Verde e problemas resultantes da disputa do arquipélago de Maluco com Castela; livro 2 – arquipélago da Madeira; livro 3 – ilha de S.ta Maria; livro 4 – ilha de S. Miguel; livro 5 – novela de cavalaria; livro 6 – restantes sete ilhas dos Açores. O primeiro livro a ser publicado, no Funchal em 1873, foi o 2, relativo à ilha da Madeira, e o último, o 6, em Ponta Delgada, em 1963. A primeira edição completa da obra datou de 1998. O texto é bastante significativo no que se refere aos dados que forneceu relativamente a questões dos foros económicos e sociais do povoamento dos arquipélagos.

Bibliog.: CARVALHO, Miguel Tremoço de, Gaspar Frutuoso: O Historiador das Ilhas, Funchal, Centro de Estudos de História do Atlântico e Secretaria Regional do Turismo e Cultura, 2001; MARQUES, A. H. de Oliveira, Antologia da Historiografia Portuguesa: Das Origens a Herculano, vol. 1, Lisboa, Europa-América, 1974; RODRIGUES, Rodrigo, “Nota Biográfica”, in Saudades da Terra, liv. 1, Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1998, pp. XI-LXVIII; SERRÃO, Joaquim Veríssimo, A Historiografia Portuguesa, vol. 1, Lisboa, Verbo, 1972.

Isabel Drumond Braga