georgeida

Texto épico em verso, escrito por Francisco de Paula de Medina e Vasconcelos, e publicado em Londres, no ano de 1819. A obra, dedicada ao comerciante inglês Robert Page, relata as três invasões francesas a Portugal, que ocorreram entre 1807 e 1810, por ordem de Napoleão e sob o comando dos generais Junot, Soult e Massena. O autor elogia e engrandece o Monarca inglês George III por ter enviado as suas tropas em auxílio de Portugal, o que permitiu a vitória anglo-lusa e a derrota francesa. Em simultâneo, critica, de forma veemente, o caráter ambicioso de Napoleão, que provocou muita destruição, morte e guerra por toda a Península Ibérica.

Palavras-chave: epopeia; Francisco de Paula de Medina e Vasconcelos; George III; invasões francesas; Napoleão; Portugal.

Da autoria de Francisco de Paula de Medina e Vasconcelos, Georgeida é um extenso texto épico em verso, publicado em Londres em 1819 e dedicado a Robert Page, comerciante britânico residente na Madeira. Esta narrativa é um relato das três invasões francesas a Portugal ocorridas no final da década anterior à da data de publicação da obra, constituindo um panegírico à ação de George III, monarca inglês que dá título à obra e que auxiliou, com o envio de tropas britânicas, a defesa de Portugal. É, em simultâneo, um feroz ataque a Napoleão e à sua tentativa de dominar o território luso e de ter a hegemonia na Europa.

A obra inicia-se com uma dedicatória a Robert Page que, no entender do autor, foi o “Novo Mecenas” (VASCONCELOS, 1819, 2), um amador das belas artes, uma “alma benfazeja” e de nobres sentimentos, uma “poderosa mão beneficente” (Id., Ibid., 1) que financiou a publicação destes versos e, assim, permitiu retirá-los do esquecimento do tempo e do silêncio a que seriam votados se permanecessem inéditos. Confessando-se feliz e grato ao seu mecenas, Medina e Vasconcelos não deixa igualmente de louvar D. Fr. Joaquim de Menezes Ataíde, seu protetor, bispo de Meliapor e vigário apostólico do bispado do Funchal.

Segue-se um prólogo, no qual o autor se propõe cantar George III, “um dos mais Virtuosos Monarcas do Universo” (Id., Ibid., 4), sem se atemorizar com a grandeza do assunto. O autor esclarece que redigiu a obra em 1811, a partir de pesquisas em gazetas e periódicos, e reconhece que o seu texto contém imperfeições, pelas quais se desculpa, talvez por não ter feito a pesquisa mais correta, considerando ainda que a poesia épica o fez adornar o seu canto. Traça, em linhas gerais, os limites temporais da ação (desde a retirada da família real para o Brasil em 1807 até à expulsão definitiva dos Franceses em 1810) e reforça os seus propósitos: imortalizar as ações de George III, enaltecer as três grandes nações aliadas (Portugal, Espanha e Inglaterra) na luta contra as Invasões Francesas e denegrir Napoleão, a quem apelida de “o Monstro” (Id., Ibid., 5).

Depois de inserir um soneto dirigido ao amigo Anastácio Bettencourt Moniz (médico muito distinto e literato que gozava de prestígio entre os contemporâneos, pai do conselheiro Nicolau Anastácio) e respetiva réplica, Medina e Vasconcelos dá início à epopeia dividida em dez cantos (imitando Camões, em Os Lusíadas), sendo curioso verificar que cada um deles contém um argumento, i.e., uma espécie de sinopse, tal como se encontra no início de cada capítulo de Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, e.g..

No canto I, à boa maneira de Eneida e de Os Lusíadas, começa por enunciar, numa proposição, “As Armas e o Monarca Soberano / Por ínclitas Ações Famigeradas / Ouso afoito cantar…” (Id., Ibid., 8). Invoca a Verdade para o guiar na narração dos factos históricos e dedica a epopeia a George III. Inicia a narração com a exposição dos projetos de Napoleão de invadir Portugal, movido pela inveja do Monarca inglês, que dominava os mares. O Imperador encarrega Junot de aprisionar a família real lusa ou, em alternativa, espalhar a destruição pelo país. Honrado e leal, Junot parte, percorre Espanha à frente do exército e aproxima-se rapidamente da fronteira portuguesa. Tal como os seres mitológicos na epopeia camoniana, algumas entidades abstratas tomam parte na querela: a Vanglória protege Napoleão, enquanto a Providência e a Justiça auxiliam as forças aliadas. Será esta última que surge em sonhos a George e o convence a defender Portugal dos Franceses, anunciando um futuro glorioso para Inglaterra se frustrar os intentos de Napoleão.

O canto II relata o modo como o Rei inglês convoca o Parlamento e o persuade a apoiar a sua investida contra Napoleão e seus ideais destrutivos e, em simultâneo, a socorrer Portugal, a fim de evitar um futuro trágico. Num ápice, a Armada britânica chega ao Tejo e, em audiência com o ministro britânico em Lisboa, o regente D. João VI comunica a decisão de fugir do país, instalar a corte no Brasil e aí formar um novo império, salvando Portugal de França e entregando a defesa do reino à Armada britânica.

A partida das naus para o Brasil é descrita no canto III, perante a dor da população, num episódio que faz recordar as despedidas em Belém em Os Lusíadas. D. João VI dirige-se ao povo num discurso emocionado, e aquele, apesar do desgosto e das dúvidas quanto ao futuro, aclama e obedece ao príncipe regente, sem ousar criticá-lo. O próprio Tejo, personificado, se despede da família real e engrandece o Monarca inglês amigo, mas é castigado por Neptuno por ter saído dos seus limites, sendo socorrido pelas Tágides. Vingando-se dos Portugueses e do Tejo, Neptuno lança-lhes uma tempestade, tal como no episódio marítimo de Os Lusíadas, mas a Providência, qual Vénus e Tétis, socorre os Portugueses, cessando os ventos e acalmando os mares. Já em território luso, Junot inicia o seu plano, obrigando os Portugueses a pagar pesados impostos, perante a indignação da Religião.

A partir do canto IV, começam os abundantes episódios bélicos da obra. O autor relata os momentos de insurreição de diversas terras portuguesas, nomeadamente do Porto, de cidades e vilas de Trás-os-Montes (como Bragança), do Algarve e do Alentejo, que exaltavam o príncipe regente e se opunham à opressão de Junot, que entretanto já devastara templos e causara mortes. George auxilia Portugal, enviando tropas e generais, entre os quais se destaca Wellesley. Enfrentando os Franceses com armas e com o apoio dos Ingleses e dos Espanhóis que se rebelaram, os Portugueses vencem as batalhas de Roliça e do Vimeiro, ao ponto de os Franceses proporem tréguas (assinadas na Convenção de Sintra) e Junot se retirar de Portugal. Tinha terminado a primeira invasão francesa.

O canto V, dá início à segunda invasão, com os planos de nova investida de Napoleão, incitado pela Vanglória. O Francês incumbe Soult de chefiar o exército gaulês e conquistar Portugal “a ferro e fogo” (Id., Ibid., 83). Com o general francês a caminho, a Regência, entidade abstrata, exorta à valentia dos Portugueses, apelando aos valores românticos que devem defender (pátria, religião, Rei e liberdade). Madrid rende-se e acaba por capitular perante a força do exército francês, apesar dos esforços da Junta Central para tentar libertar a cidade.

O canto seguinte narra os confrontos bélicos entre Ingleses e Franceses em Espanha, saldando-se pela vitória dos primeiros, comandados por John Moore. Furioso com a derrota, Soult dirige-se para Portugal e aí enfrenta a oposição do general Silveira em Trás-os-Montes, em particular na defesa de Chaves e de outras terras junto ao Tâmega. Contudo, Soult conquista Braga e o Porto, mas George envia Wellesley em auxílio destas cidades.

No canto VII, assiste-se à chegada das tropas inglesas a Portugal, comandadas por Wellesley, que marchou a partir de Coimbra para expulsar os Franceses do Porto. Perante a vasta destruição de aldeias e de monumentos e a morte de muitos Portugueses, os Ingleses contra-atacam e, através da sua estratégia militar, reconquistam o Porto, libertando a cidade do jugo francês, e recuperam outras terras no Minho e em Trás-os-Montes. Após muitas lutas sangrentas, o exército anglo-luso expulsa as tropas francesas de Portugal, mas seguem-se outras batalhas em Espanha, onde os Gauleses cometiam muitos saques.

Todo o canto VIII, constitui um relato do auxílio que as forças anglo-lusas prestaram aos Espanhóis contra Napoleão. Após muitos avanços e recuos de parte a parte, batalhas ferozes (como as de Toledo e Talavera), conversações e estratégias militares, o exército aliado, comandado por Wellesley, consegue afugentar as tropas inimigas, as quais recuam deixando muitos cadáveres no campo de batalha e sofrendo inúmeras derrotas.

O canto IX dá conta da terceira e última investida do furioso Napoleão após a humilhação sofrida, encontrando-se novamente protegido pela Vanglória. Confia a Massena uma nova invasão e um novo plano: unir-se, com o seu exército grandioso, aos exércitos que se encontram ainda em Espanha e dirigir-se para Portugal, invadindo as suas províncias e destruindo vilas e cidades. Massena parte e rapidamente conquista Cidade Rodrigo e Évora, mas os Portugueses alcançam feitos louváveis, o que enfurece Napoleão. Massena avança sobre as fronteiras e conquista com sucesso a praça de Almeida e outras terras perante o desânimo luso. Mas as suas vitórias são efémeras, pois sofre uma estrondosa derrota na batalha do Buçaco, às mãos dos generais ingleses Wellington e Beresford.

Por fim, no canto X, o narrador descreve os planos finais de Massena para conquistar Lisboa, enquanto as tropas de Wellington recuam estrategicamente para depois encurralar os inimigos. Preso num labirinto, Massena assiste à doença, à fome e à deserção das suas tropas e começa a blasfemar contra Deus, perante a indignação do narrador. Os exércitos gauleses sofrem nova derrota junto ao rio Soure e são expulsos de outras zonas do país, não sem deixar um rasto de destruição como forma de vingança. O próprio Massena foge durante a batalha do Sabugal, sendo secundado pelo seu exército, o que será um motivo de desonra e vergonha para o general. Também em Espanha o exército anglo-castelhano expulsa os Franceses e, em França, Napoleão vocifera contra a Vanglória devido às derrotas sofridas, perdendo o seu apoio e proteção.

Após a vitória final das nações aliadas, o autor, nas últimas páginas de Georgeida, tece ferozes reflexões e opiniões pessoais, maldizendo a desmedida ambição de Napoleão, a sua avareza e crueldade, caracterizando-o como cego e inumano, homem pior que Nero e prevendo a sua queda e punição futuras. Até imagina o dia do Juízo Final, no qual o Imperador prestará contas a Deus e receberá a sentença de habitar os “negros abismos”. Imagina que Napoleão se arrependerá, mas tardiamente, não havendo perdão possível para uma “alma ingrata” a Deus, “sempre escrava / Da ambição, da vanglória e do capricho” (idem, 184), uma alma “ingrata, criminosa, torpe”, que ditou leis injustas aos homens a partir de França para os enredar no labirinto das suas “vãs paixões desenfreadas” (Id., Ibid., 184-185). Já em cantos anteriores previra a destruição dos projetos de Napoleão, um “monstro em França” (Id., Ibid., 116), que apenas pretendeu devorar a humanidade.

Às críticas, seguem-se os elogios finais a George, que praticou a justiça, esmagou o vício, preservou a virtude e a inocência, foi filantropo, esteve sempre pronto para ajudar Portugal em prol da razão e da justiça, protegeu os seus vassalos e valorizou a arte e as ciências. Em momentos anteriores da narrativa, o autor já tentara imortalizar as proezas notáveis de muitos heróis sob o comando deste Monarca inglês, prevendo que os seus sucessos ecoariam pelo mundo e seriam invejados. Ao engrandecer o Rei, enaltece também a nação britânica por ter auxiliado Portugal, mostrando a sua constância, lealdade, honra e filantropia. Agradece igualmente à Providência, que protegeu Portugal e guiou os caminhos do Monarca inglês, assim como aos guerreiros britânicos e portugueses “que por suas ações, suas proezas, / Sendo humanos, divinos se tornarão” (Id., Ibid., 188). O autor exalta o príncipe regente D. João VI e, de um modo geral, a valentia dos guerreiros ingleses, portugueses e espanhóis, mitificando-os e elevando-os a uma categoria quase divina e semi-imortal. Termina Georgeida exaltando a felicidade de um Portugal em paz, com a ajuda de Deus.

É curioso verificar que, ao longo de toda a obra, Medina e Vasconcelos introduz diversas notas de rodapé laterais explicativas das suas opções metodológicas e ideológicas e das expressões utilizadas. Justifica, por exemplo, o elogio a um herói vivo, quando os cânones clássicos “obrigam” a que o herói épico já esteja morto (George é o maior dos heróis mortais vivos que serve de exemplo aos vindouros). Não se coíbe, nas referidas notas, de criticar Napoleão, embora não tanto como desejaria, para manter ainda uma certa imparcialidade. Porém, a partir de finais do canto V e com o avolumar das atrocidades que narra, promete não mais se conter nas críticas ao Francês. Para poupar o leitor, rejeita relatar todos os horrores da guerra que pesquisou e mantém sempre, nas referidas notas, uma tentativa de aproximação ao rigor factual, com referências a datas e validação das fontes consultadas.

Em suma, o autor quis construir uma narrativa épica de acordo com os preceitos clássicos, não só ao nível da estrutura externa, como da interna (partes constituintes, mitificação do herói, episódios bélicos, mitológicos e históricos, reflexões pessoais em final de canto), inserindo igualmente valores românticos próprios da época em que viveu. No entanto, como observa Inocêncio Francisco da Silva, “Medina e Vasconcelos, tanto em Georgeida como em Zargueida, parece não ter tido o talento suficiente para a empresa épica e, por isso, os dois poemas são apenas medíocres, se bem que não faltem episódios agradáveis à leitura e que não deslustram a musa” (PORTO DA CRUZ, 1951, II, 6-7).

Bibliog.: PORTO DA CRUZ, Visconde do, Notas e Comentários para a História Literária da Madeira, vol. ii, Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 1951; SILVA, Fernando Augusto da, e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 4.ª ed., vol. ii, Funchal, Secretaria Regional de Educação e Cultura, 1978; VASCONCELOS, Francisco de Paula Medina e, Georgeida. Poema Dedicado ao Illustríssimo Senhor Roberto Page, Cavalheiro da Real Ordem da Torre e Espada, Comerciante Britânico na Ilha da Madeira, Londres, impresso por Stephen Couchman, 1819.

João Carlos Costa

(atualizado a 01.02.2017)