gonçalves, josé antónio

(funchal, 1954-2000) Jornalista da imprensa escrita, com programas na rádio, textos para canções e documentários cinematográficos, José António de Freitas Gonçalves, nascido no Funchal em 1954, foi durante três décadas o principal animador literário madeirense, já fundando e orientando coleções e lançando iniciativas (mostras de artes e letras, feiras do livro, jornadas pedagógicas, etc.) e instituições (Associação de Escritores da Madeira, a que presidiu), já promovendo, no continente e no estrangeiro, a poesia do arquipélago.

Ao seu empenhamento se deve Poeti Contemporanei dell’Isola di Madera (ed. de Giampaolo Tonini, Veneza, 2001). Fica uma produção de 35 anos (1973-2008), entre as crónicas de Réstea de Qualquer Coisa e uma póstuma recolha de inéditos, Ausência (org. de Marco Gonçalves), com 18 títulos de poemas (1974-2004) – incluindo Tem o Poder da Água: Obra Poética, 1973-1995 (1996). Acrescentem-se a antologia bilingue Rente aos Olhos / Rasente gli Occhi (trad. de Silvana Urzini / Carlos Martins, Nápoles, 2006). Na prosa, ainda, Uma Entrevista com Amaro da Costa (1976) e O Sol na Gaveta: Registo de um Percurso Humano de João Carlos Abreu (2002). A Coleção Obras Completas de J. A. G. (1999) quedou-se por Giacomo Leopardi e o Suave Desprendimento do Infinito e À Espera dos Deuses.

Discursivo, este poeta-orador socorre-se de descrição adjetiva, em verso tendencialmente longo. Ritmado sem aconchego de metros, concatena-se segundo encavalgamentos que, nos anos 70, tanto apostavam em finais de artigo ou contração preposicional como na cisão de vocábulos, com que se perseguia um sentido sempre esquivo. Jogava-se, ainda, num efeito-surpresa, enquanto a ausência de pontuação encadeava o discurso da vida e da arte, com direito a ser ouvido, em tempos difíceis para a liberdade de expressão, ou, tão-só, para o desejo de ter voz. As minúsculas iniciais simulavam-no solidário e intérmino, como provindo de uma linhagem que exigia outros ecos. Um tom reto, nunca exaltado – embora sensível e comovido –, evola-se, entretanto, desta poesia, onde espaços entre palavras ou frases funcionam qual respiração de emissor pronominalmente localista (“do país onde vi as mãos me crescerem”, É Madrugada e Sinto, 1974), já partilhando dedicácias, glosando verso-mote em epígrafe – que é forma de leitura e homenagem – ou revertendo à anaforização.

Quanto a esta, e face ao título escolhido para balanço de largos anos, J. A. Gonçalves mantém-se igual a si mesmo. Tem o Poder da Água retira a sua força de ser título-anáfora apontando a fórmula do poema inaugural (“Rente aos Olhos”, em Movimento, 1973). Quem tem o poder da água? A dedicatória conjugal – com outras notações familiares em “Neste Texto Aflitivo” – cedo se identifica com o protagonismo daquela a que dedica amor igualmente veraz: a Ilha (não raro figurada em moldura funchalense). Assinalemos alguns passos reveladores dessa dupla mas unificada devoção: “a ilha é pequena. A minha voz perde-se no seu verde incansável.” Precisa-se à frente de uma antropomorfização: “é esta ilha órfã de nascença, minha irmã e minha amante, minha / candeia anunciada em minha voz, refletida em meu grito, / reproduzida dentro de mim. Terra verde e talvez virgem, há muito / tempo, no meu regaço antigo, / por que me perdi” (1974). Neste registo sobre a Criação, entrevê-se um perfil de anunciador, em que se funde a história da Ilha. Enquanto não chegam os parcos lugares ou ritos de eleição ilhoa, desembarca a peculiar sintaxe: “se entesando a minha raiva”; “estar a me sentir mais só”; “onde vi as mãos me nascerem” – questões, nem por isso menores, de colocação pronominal reflexa, enquanto alertam para o domínio do coloquial e até da gíria.

Com O Esconderijo do Caruncho (1975), sucede reflexão, um compromisso pessoal mais forte. O protesto oratório afina argumentos retóricos: “os peixes choram, trazem as algas cheiro / humano.” Mas não há que olvidar o polo terroso: murcharam “as canas da fome”, sobrevêm “os invasores do verde, da pele tenra da ilha”, definida como “gota de vinho verde num cálice de azul imenso” (ainda, memória crística e demonstração metafórica a que nos habituará Gonçalves). É uma relação cada vez menos epidérmica – do feminil inocente ao abruptamente pisado – e mais discreta do que as citações possam fazer supor. O verde, impositivo (até se saturar em Antologia Verde, 1991, a sua ilha verde), rima esperança / criança, e, de orador, o poeta entrevisto anunciador torna-se profeta da sua terra.

Ou seja: na recorrência agora vocabular – dos “caramujos e lapas vivas” ao bordado, vinho, funcho, banana, calhau, etc. – fazendo comungar os pares arado / terra crua e praia / azul do mar (1973) ou “a pedra, o arado, o barco” (Pedra Revolta, 1975) e ritmos musicais típicos (Ilha 2, 1979), procede, por um lado, num sempre retomado “Conto Histórico” (1973), à evocação da ilha-infante, com maior evidência na “Canção para Vinícius de Moraes”; mas, por outro, à boleia de dizer outrem ou outra realidade, é o poeta que se diz quando infante – sem palavra criadora – na ilha.

Quem tem, por conseguinte, o poder da água, do vento, das nuvens? Já não a esposa, irmã, amante, ou a Mulher; nem a entidade Ilha, com seus amigos e predadores, ou eventuais profetas na sua terra. Tem esse poder, sobre ela discorrendo, e mais variamente em Os Pássaros Breves (1995), quem empresta voz à que ainda não fala – falando, por seu turno, através desse histórico silêncio –, e a mil e um dedicatários se entrega para se recontar.

É o espetáculo, o “retrato breve”, com flagrantes emotivos dos homens e das coisas (“numa jarra a rosa perturbada inclina-se / sobre a sala nua / um silêncio súbito envolve / o branco das paredes”, em Ilha 2), de orador português à luz da história madeirense, o qual, via primeiro modernismo à Álvaro de Campos, em “arte mágica” com outros entretecida, reivindica um espaço na lírica nacional. Morreu no Funchal, em 2005.

Obras de José António Gonçalves: “Conto Histórico” (1973); Movimento (1973); Réstea de Qualquer Coisa (1973); É Madrugada e Sinto, (1974); O Esconderijo do Caruncho (1975); Pedra Revolta (1975); Uma Entrevista com Amaro da Costa (1976); Ilha 2 (1979); Antologia Verde (1991); Os Pássaros Breves (1995); Tem o Poder da Água: Obra Poética, 1973-1995 (1996); À Espera dos Deuses (1999); Giacomo Leopardi e o Suave Desprendimento do Infinito (1999); O Sol na Gaveta: Registo de um Percurso Humano de João Carlos Abreu (2002); Rente aos Olhos / Rasente gli Occhi (2006); Ausência (2008).

Bibliog.: AA. VV., Margem 2, n.º 3, maio de 2008; FOURNIER, António, posfácio a J. A. G., Arte do Voo. Antologia Poética, Vila Nova de Gaia, Editora Ausência, 2008, pp. 155-184; RODRIGUES, Ernesto, “Na Fronteira Madeirense: José António Gonçalves”, Verso e Prosa de Novecentos, Lisboa, Instituto Piaget, 2000, pp. 99-110.

Ernesto Rodrigues

(atualizado a 01.09.2016)