gonçalves, josé vicente martins

Conhecido por Vicente Gonçalves, madeirense, foi professor universitário, matemático e autor de obras científicas. Notabilizou-se pelo rigor e modernidade que imprimiu aos seus cursos, pelo exemplo e contributo que deu para o desenvolvimento da investigação matemática em Portugal e pela sua divulgação junto da comunidade científica internacional e, ainda, pela relevância dos seus trabalhos científicos.

Vicente Gonçalves nasceu no Funchal, na freguesia da Sé, a 26 de agosto de 1896, filho de Maria José Gonçalves (natural da freguesia de Santa Luzia, concelho do Funchal, filha de Carolina Augusta e de pai oculto, doméstica) e de José Gonçalves (natural da freguesia e concelho da Calheta, filho de pais ocultos, trabalhador). À data do nascimento do seu único filho Maria e José Gonçalves residiam na rua da Conceição, na freguesia da Sé. O batizado realizou-se no dia 30 de agosto do mesmo ano na igreja paroquial da Sé Catedral do concelho e diocese do Funchal. Foram padrinhos António Lourenço Gonçalves (empregado no comércio) e sua esposa Sara Maria Louça Gonçalves.

Vicente Gonçalves frequentou a escola primária também na freguesia da Sé, tendo iniciado o curso complementar de ciências do ensino liceal, no ano letivo de 1907/08, no Liceu Nacional Central do Funchal. Este liceu, também designado Liceu Jaime Moniz, funcionava na altura na rua dos Ferreiros n.º 165. Este liceu era, à época, um espaço de dinamização sociocultural constituindo-se como um elemento enriquecedor da formação cívica e cultural dos seus alunos.

O curso dos liceus que frequentou era constituído por seis classes. As 5 primeiras tinham o seguinte tronco comum de disciplinas: português, francês, geografia e história, ciências físicas e naturais, matemática e desenho. A estas disciplinas juntavam-se inglês na 2.ª classe e latim na 4.ª classe. Da 6.ª classe constavam as disciplinas: geografia, ciências naturais, matemática, física, química e inglês. A análise do seu processo neste liceu sugere-nos dois comentários. Há uma melhoria notória da média das classificações da 6.ª classe (15 valores) em relação à média das classes anteriores (11, 10, 11, 12, 12 valores). Aparece um número considerável de faltas às aulas, para as quais não conhecemos explicação. Em 29 de julho de 1913, Vicente Gonçalves concluiu o exame de saída do curso complementar de ciências (7.ª classe), com inglês, com a classificação final de 11 valores. Do grupo docente do liceu na época (1911) podemos referir António Augusto (reitor), Dr. António Feliciano Rodrigues (secretário), Joaquim Carlos de Sousa, Padre José Fernandes Leitão e Tenente Joaquim Gregório Gonçalves.

Sobre esta fase da vida de Vicente Gonçalves são poucas as informações que conseguimos obter. A ausência de familiares diretos e a forma como eram feitos os registos nos finais do séc. XIX, limitou o conhecimento sobre a sua vida na ilha da Madeira. Vicente Gonçalves vem para o Continente para fazer os seus estudos universitários na Universidade de Coimbra, em 1913, com 17 anos de idade. Instala-se no n.º 14 da Avenida Dias da Silva, casa partilhada com outros colegas, nomeadamente com Manuel Esparteiro, amigo de toda a vida.

Face aos dados biográficos do registo, supõe-se que Vicente Gonçalves provinha de uma família modesta. À data o analfabetismo no distrito do Funchal era de 90%, embora o 1.º grau (constituído por três classes) fosse escolaridade obrigatória. O ingresso de Vicente Gonçalves no liceu já seria um privilégio atendendo à situação económica dos pais. Há factos da sua vida pessoal que nos levam a supor que teve algum tipo de apoio. A vinda para o Continente e as despesas da sua estada em Coimbra seriam por si só bastante difíceis de suportar com o orçamento familiar dos pais. Não deu explicações (como aconteceu com outros colegas universitários) e apenas no ano letivo de 1916/17 foi admitido a bolsa de estudo pela Junta Administrativa. Nunca se lhe conheceu outro tipo de trabalho nesta fase dedicando-se, exclusivamente, ao estudo. A formação moral que sempre revelou impede-nos de aceitar que manteria esta atitude se tal sobrecarregasse os pais.

A 14 de outubro de 1913 ingressa na Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra onde frequenta o curso de Ciências Matemáticas. Durante este período foi aluno de José Bruno de Cabedo, João J. Souto Rodrigues, Francisco Miranda da Costa Lobo, Henrique Figueiredo, Luciano Pereira da Silva, Diogo Pacheco de Amorim, entre outros. Concluiu o bacharelato (atual licenciatura) com distinção e a classificação final de 19 valores em 1917. Nesta altura voltou à ilha da Madeira e supomos que tenha sido pela última vez. Em 1939 está documentado o seu desejo em lá voltar, porém não há conhecimento que tal tenha acontecido.

De regresso a Coimbra, a 9 de outubro de 1917, toma posse do cargo de 2.º assistente provisório do 2.º grupo, para o qual foi indicado por Luciano Pereira da Silva. Foi o ponto de partida para uma carreira profissional de excelência. Entre janeiro e maio de 1919 cumpre serviço militar. A 22 de setembro de 1919 toma posse do cargo de 2.º assistente do 1.º grupo da 1.ª secção.

A 23 de julho de 1921 doutora-se em Ciências Matemáticas com a classificação de Muito Bom – 19 valores. O exame de doutoramento constou da defesa da dissertação e realizou-se na Universidade de Coimbra perante um júri constituído pelos Professores Doutores João Souto Rodrigues (presidente), Diogo Pacheco d’ Amorim (arguente) e João Pereira da Silva Dias (arguente). A dissertação intitulada Sobre quatro proposições fundamentais da teoria das funções inteiras é um trabalho na área da análise (complexa) matemática, que surgiu da leitura das Leçons sur les fonctions entières de Émile Borel e apresenta alguns resultados e (todas as) demonstrações originais, onde se reconhece o apreço de Vicente Gonçalves por enunciados e demonstrações elegantes, breves, claros e rigorosos.

A 27 de agosto do mesmo ano casa-se com Maria Teresa Teixeira da Silva Botelho da Costa. Deste casamento não houve descendentes. A 13 de fevereiro de 1922 toma posse do cargo de 1.º assistente. Em 1927 faz concurso de provas públicas para professor catedrático. A dissertação intitula-se Teoria Geral da Integrabilidade Riemanniana. Toma posse do cargo de professor catedrático a 6 de setembro de 1927.

Vicente Gonçalves mantém-se na Universidade de Coimbra até outubro de 1942. Durante este período leciona várias disciplinas, entre estas: cálculo infinitesimal, análise superior, cálculo diferencial, matemáticas gerais, física matemática, geometria superior, complementos de álgebra e mecânica racional. Ocupou o cargo de Secretário Interino da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra de 17 de dezembro de 1928 a 6 de novembro de 1931. Em 4 de dezembro de 1941, Vicente Gonçalves foi eleito sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa.

A partir de 1 de novembro de 1942, Vicente Gonçalves muda para a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde permanece como Professor Catedrático até à jubilação em 25 de janeiro de 1967. A 1 de março de 1945 Vicente Gonçalves passou a sócio efetivo da Academia de Ciências de Lisboa, ocupando a cadeira número três da Casa de Lafões. Sucedeu a Pedro José da Cunha. Nesta Academia desempenhou várias atividades. Presidiu à comissão para apreciação dos trabalhos concorrentes ao Prémio Artur Malheiro, em 1963 e 1964, e deu parecer sobre vários trabalhos de investigação.

Ocupou o cargo de bibliotecário da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa a partir de 30 de janeiro de 1947 por dois biénios. No desempenho desta função procedeu ao intercâmbio de publicações com outras instituições congéneres, enriquecendo o espólio da biblioteca e promovendo a divulgação das publicações dos investigadores portugueses.

A convite do Conselho Escolar do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF), no ano letivo de 1947/48, Vicente Gonçalves passou a reger, neste Instituto e em acumulação de funções (o que não era comum na época), a 1.ª cadeira (Matemáticas Superiores: Álgebra. Princípios de Análise Infinitesimal. Geometria Analítica, mais tarde designada Matemáticas Gerais). Foi substituir Bento de Jesus Caraça, demitido, compulsivamente, em 1947. Lecionou esta disciplina até ao ano letivo de 1959/60, no entanto a sua colaboração com o ISCEF continuou através de outras atividades. Em 1961, fez parte da comissão organizadora dos pontos das provas escritas do exame de aptidão para a primeira matrícula no ISCEF; manteve-se no desempenho das suas funções na organização e direção do Curso Matemáticas Superiores Prof. Mira Fernandes, criado em 1956, com o objetivo de homenagear este professor aquando da sua jubilação. Colaborou ainda na publicação das obras completas do mesmo professor (projeto que só foi realizado parcialmente).

O Curso Matemáticas Superiores Prof. Mira Fernandes é um dos exemplos das iniciativas de Vicente Gonçalves em prol do incentivo à investigação matemática junto dos mais jovens (alunos e professores universitários). É também no prefácio do volume II de Estudos de Matemática, Estatística e Econometria (publicação com cinco volumes onde foram compiladas as lições proferidas no Curso atrás referido, excetuando as do ano letivo de 1961/62) que Vicente Gonçalves deixa transparecer a sua postura no que respeita à investigação. Destaca duas fases, a primeira de recolha e atualização da informação científica (junto da comunidade matemática estrangeira) e a segunda de seleção e composição dessa informação, ao que se segue a produção científica original. Vicente Gonçalves, neste prefácio, usa a expressão “temos de investigar”, ou seja, é perentório quanto a este aspeto.

A importância dada à investigação matemática, pela generalidade dos professores catedráticos dessa área, enquanto uma das vertentes da sua função de docentes universitários, até aos anos 30, 40 do séc. XX, era reduzida. Razão por que é tão relevante a atuação de José Vicente Gonçalves, bem como a de Aureliano de Mira Fernandes (1884-1958), para o envolvimento dos docentes mais jovens em atividades de investigação.

A obra escrita de Vicente Gonçalves é vasta e diversificada, inclui manuais para o ensino liceal, para o ensino superior e artigos científicos.

Escreveu cinco manuais de matemática para o ensino liceal, a saber: Compêndio de Álgebra para a 3.ª, 4.ª e 5.ª classes do curso dos liceus de 1935/36; Compêndio de Álgebra e Trigonometria para a 4.ª, 5.ª e 6.ª classes de 1937; Aritmética Prática e Álgebra para a 1.ª, 2.ª e 3.ª classes de 1937; Compêndio de Álgebra para o 3.º ciclo (7.ª classe) de 1937; Compêndio de Aritmética para o 3.º ciclo (7.ª classe) de 1939, todos editados pela livraria Cruz, em Braga, e todos com aprovação oficial. Em todos os manuais a linguagem usada é cuidada, rigorosa e precisa, porém mais simples nos manuais para as primeiras classes. A forma de expor é comum a todos os manuais. O leitor é encaminhado ao longo do texto, são apresentados muitos exemplos, exercícios com as respostas e problemas.

O Compêndio de Aritmética para o 3.º ciclo é um livro particularmente interessante por várias razões. Em primeiro lugar porque se trata de um texto sobre aritmética racional muito bem redigido, de grande qualidade científica e, em particular, recheado de referências históricas pouco conhecidas. Por outro lado, porque apesar do seu valor, não vendeu. Foi considerado, pelo editor, um fracasso comercial, fruto de diversas vicissitudes. Vicente Gonçalves refere-se a este manual, com o refinado sentido de humor que o caracterizava, como a “Greta Garbo”.

É ainda de referir a existência na Livraria Cruz de uma pasta com a correspondência comercial entre Vicente Gonçalves e o representante daquela editora, que permitiu perceber muito do processo de edição e de venda dos manuais, em especial, do último. Esta correspondência mostra o trabalho e empenho de Vicente Gonçalves na elaboração e posterior disseminação dos seus manuais. É ele quem coordena as operações, é ele quem decide o preço do manual, o número de ofertas, a forma e altura de divulgação, os locais e personalidades para quem devem ser enviados, etc..

Percebe-se a existência de uma certa preocupação pedagógica por parte do autor em melhorar os seus livros, chegando a ponderar a colaboração de alguém com prática de ensino para rever o livro que tinha em preparação (seria o sexto manual, mas que não chegou a ser publicado, nada se sabe sobre o paradeiro desse original). Nesta altura, entrou em vigor o regime do livro único para certas disciplinas, em particular para a Matemática, e, talvez, por isso Vicente Gonçalves terminou a sua atividade como autor de manuais para o ensino liceal.

Para o ensino superior Vicente Gonçalves escreveu 2 manuais, a saber: Lições de Cálculo e Geometria, publicado pela Imprensa da Universidade de Coimbra em 1930; e Curso de Álgebra Superior, cuja 1.ª edição é da Tipografia Atlântica de Coimbra em 1933. Curiosamente, no primeiro manual consta a indicação que se trata do volume I, mas não existiu volume II. Pequenas pistas levam-nos a pensar que este não era um livro que Vicente Gonçalves apreciasse. Já o Curso de Álgebra Superior o acompanha durante cerca de duas décadas. Este manual teve 3 edições: a 2.ª edição, com dois volumes (o 1.º de 1944/45 e o 2.º de 1950) da Tipografia Atlântida de Lisboa; e a 3.ª edição também com dois volumes (o 1.º de 1953) da Tipografia Delta de Lisboa.

A análise das várias edições permite afirmar que se trata de textos significativamente diferentes, podendo ser considerados como novos livros. Da 1.ª para a 2.ª edição o manual foi globalmente reorganizado. Os temas foram agrupados em duas grandes áreas, a análise real e a álgebra superior, e redistribuídos pelos capítulos. Há temas que desaparecem e outros que surgem de novo de umas edições para as outras, tendo em conta quer aspetos pedagógicos, quer aspetos de atualização científica, incluindo a atualização da terminologia e notações matemáticas. Esta atualização concretizava-se na referência a matemáticos contemporâneos portugueses e estrangeiros, na introdução de tópicos e resultados recentes da investigação matemática que tanto apareciam no corpo do texto, como em exercícios.

Tal como fazia com os manuais para o ensino liceal, Vicente Gonçalves enviava o seu Curso de Álgebra Superior a colegas portugueses e estrangeiros. Há correspondência que comprova este facto, assim como as referências elogiosas feitas à obra. A partir de uma carta de J. Sebastião e Silva de março de 1946, podem-se recolher as impressões deste matemático e pedagogo sobre a edição mais recente do Curso de Álgebra Superior, que recebeu em Roma, acompanhando uma carta de Vicente Gonçalves. Sebastião e Silva começa por indicar a sua impressão geral sobre o livro, bendiz esta iniciativa, embora dê a entender que talvez Vicente Gonçalves tenha ido um pouco longe de mais. Considera que “é uma vigorosa e audaz investida contra a rotina” e sugere que “Seria necessário entretanto ouvir os outros, os conservadores” para melhor decidir. Esta afirmação é muito curiosa, em virtude de contrariar a imagem de conservador que é atribuída por alguns a Vicente Gonçalves. Este manual é considerado por vários matemáticos como equiparável a outros cursos de álgebra redigidos por contemporâneos estrangeiros de Vicente Gonçalves de renome internacional (por exemplo, o Cours d’Algèbre de Niewenglowski). É de referir também que existiram e, eventualmente existem vozes discordantes desta posição, por exemplo Neves Real.

Os cerca de 100 artigos científicos (não contando traduções ou reimpressões) de Vicente Gonçalves podem ser organizados em: artigos (47); notas de Historiæ ac Pedagogiæ de Minutiis (notas de HPM) (26); discursos, notas prefaciais e outros textos (20). Os artigos são maioritariamente escritos em francês e, publicados quase exclusivamente em revistas portuguesas. Por ordem decrescente de número de publicações, referimos: Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (RFCUL); Portugaliæ Mathematica; Memórias da Academia das Ciências de Lisboa; Estudos de Matemática, Estatística e Econometria; Boletim da Academia das Ciências de Lisboa; Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra; Ciência (Revista da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa); Anais Científicos da Academia Politécnica do Porto, Anais da Faculdade de Ciências do Porto; Las Ciencias (Madrid); O Instituto (Coimbra); Associacion Española para el Progresso de las Ciencias, (Actas) Congresso do Mundo Português; Estudos de Matemática em Homenagem ao Prof. Almeida e Costa.

Os artigos científicos de Vicente Gonçalves enquadram-se, essencialmente, em três áreas da Matemática: a Análise, a Álgebra e a História da Matemática. Na sua obra existem ainda dois artigos sobre Programação Linear (decorrentes da arguição de trabalhos nesta área). As notas de HPM são uma secção da RFCUL e são constituídas por publicações curtas na área da Análise e da Álgebra, todas de Vicente Gonçalves, onde este apresenta, principalmente, melhoramentos, observações ou demonstrações mais curtas de resultados conhecidos.

Os discursos, notas prefaciais e outros textos estão publicados em (por ordem decrescente de número de publicações): Memórias da Academia das Ciências de Lisboa; Boletim da Academia das Ciências de Lisboa; Estudos de Matemática, Estatística e Econometria; Obras Completas de Mira Fernandes; Ciência (Revista da Associação de Estudantes da Faculdade de Ciências de Lisboa); Gazeta de Matemática; Associação Portuguesa para o Progresso das Ciências; Acta Universitatis Conimbrigensis; e Revista Matematica Hispano Americana.

Na organização que estabelecemos, incluímos os seus estudos sobre História da Matemática nos discursos, porque vários deles surgem em discursos em congressos (nomeadamente no discurso inaugural da 1.ª secção do XXIII Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências de 1956) ou na Academia das Ciências. Note-se, no entanto, que estes escritos podem e devem ser considerados como artigos científicos, para além de primorosamente redigidos contêm conhecimento original. Há três textos que destacamos por se distinguirem dos outros, por razões diversas e que explicamos de seguida. O escrito “Henri Lebesgue e o conceito de integral L”, de 1942, é uma homenagem a este matemático aquando da sua morte. Trata-se de um texto belíssimo, recheado de metáforas e outras figuras de estilo que o tornam claramente diferente de um texto matemático e que ilustram como Vicente Gonçalves era multifacetado. “O espírito utilitário”, de 1948, onde Vicente Gonçalves analisa o estado do ensino universitário em Portugal. Lamentando o nosso atraso e o pouco interesse do Estado em mudar essa situação. O prefácio do volume II de Estudos de Matemática, Estatística e Econometria, de 1957/58, onde explicita a sua visão do que entende por investigação (matemática) e como fazer investigação (matemática).

Existem ainda dois artigos de opinião publicados no jornal diário portuense O Primeiro de Janeiro, descobertos e estudados mais recentemente. São surpreendentes pelo facto de serem os únicos (e estão relacionados) dirigidos ao público em geral, por fazerem críticas muito fortes ao estado do ensino superior e numa altura, 1930, em que o Estado Novo estava a exercer represálias contra muitos professores universitários que discordavam das suas políticas. Vicente Gonçalves à data era um jovem professor, ainda não tinha o prestígio que foi alcançando ao longo da carreira e, mesmo assim, nesse artigo apontou de forma clara, precisa e acutilante os “Males do ensino superior”. Este era o título de uma secção do referido jornal assinada por Vicente Gonçalves, a qual teve vida curta (cerca de dois meses), o que não é de estranhar dado o conteúdo crítico e o contexto político da altura. O primeiro artigo é de 16 de abril de 1930, o qual provoca algumas reações publicadas na mesma secção em 25 e 26 de abril e 11 e 18 de junho de 1930. Vicente Gonçalves apenas contrapõe uma vez em 14 de maio de 1930.

No primeiro artigo, o principal, o autor alerta para a corrupção, a incompetência, a falta de empenho, a falta de identidade profissional, a falta de iniciativa, a falta de vontade para mudar de muitos professores universitários. Nele, Vicente Gonçalves faz considerações de carácter geral relativamente ao estado do ensino superior em Portugal (por exemplo a fraca produção científica) e faz sugestões específicas do que seria necessário e urgente mudar, propondo mudanças concretas, como: dar mais seriedade aos concursos para lugares universitários eliminando “coeficientes pouco científicos”; concentrar o capital humano de maior qualidade, selecionado por um júri de reconhecido valor científico, numa só instituição universitária.

Pensa-se que o que despoletou esta reação forte e pública de Vicente Gonçalves foi o concurso para professor catedrático da Faculdade de Ciências de Coimbra, aberto em 1929, a que foram candidatos Ruy Luís Gomes e Manuel dos Reis e que esteve envolto em grande polémica. Durante bastante tempo havia a ideia de que Vicente Gonçalves, apesar da postura política neutra que a maioria lhe reconhece, era apoiante do regime. Discordamos desta ideia e consideramos que se houvesse dúvidas sobre isso este artigo seria suficiente para as dissipar.

Entre os estudos históricos encontram-se textos sobre, os seus contemporâneos, Henri Lebesgue, Aureliano de Mira Fernandes, Rey Pastor, Ramos e Costa, Pedro José da Cunha, Manuel dos Reis, J. Sebastião e Silva, António Almeida Costa e João Farinha. Nestes relata aspetos centrais da vida de cada matemático, destacando o que considera de mais relevante.

Para além destes estudos existem outros relativos a matemáticos do séc. XVI e do séc. XVIII, respetivamente: André de Resende e Pedro Nunes; Anastácio da Cunha e Monteiro da Rocha. Todos estes estudos são originais e recorrem a fontes primárias. Para perscrutar muitas dessas fontes, foi-lhe de grande valia o latim que estudou cedo, ainda na sua terra natal, e o ser bibliófilo o que o levou a ter livros raros e antigos.

Tiago Oliveira, em 1986, e Jaime Carvalho e Silva, uma década depois, alertam para a existência de dois textos inéditos de Vicente Gonçalves, estudos históricos, um sobre Pedro Nunes e outro sobre Francisco de Melo. Estes textos só foram encontrados quando o espólio de Vicente Gonçalves foi entregue pelos seus herdeiros, em 2005, ao Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (presentemente está à guarda do Arquivo da Universidade de Coimbra). Não são versões finais, mas textos quase terminados, cuja análise nos permite concluir que à data em que foram escritos traziam à discussão contributos originais que só décadas mais tarde (por exemplo, na tese de mestrado de L. Santos, de 2007) foram estabelecidos e publicados. Ainda agora há pequenos detalhes que se aclararam com estes textos. A forma como Vicente Gonçalves argumentava nos estudos históricos é muito peculiar e aproxima-se da forma de fazer matemática, como nos confidenciou um dos seus três sobrinhos (por afinidade).

A relevância dos seus trabalhos de índole histórica surgiu logo no primeiro, o qual foi apresentado no Congresso do Mundo Português, em 1940, Análise do livro VIIII dos Princípios Mathematicos de José Anastácio da Cunha. É atribuído a este estudo o mérito de ter contribuído para conferir a Anastácio da Cunha a primazia no estabelecimento da definição de convergência de uma série. Ainda com o objetivo de divulgar este feito junto da comunidade internacional, Vicente Gonçalves colaborou na iniciativa de José Gaspar Teixeira de fazer chegar uma cópia de uma tradução francesa dos Principios Mathematicos a Adolfo P. Yuschkevitch, historiador da matemática, soviético, que posteriormente publicou os primeiros artigos que divulgaram a importância dos estudos de Anastácio da Cunha no estrangeiro. Vicente Gonçalves, bibliófilo, possuía um destes exemplares e, reconhecendo a importância para a História da Ciência e, em particular, para a da Matemática emprestou-o para que fosse feito um microfilme. No contexto político da época esta iniciativa era arriscada para os envolvidos e, mais uma vez, Vicente Gonçalves mostrou a força do seu traço de homem de ciência.

Por último, o artigo também de cariz histórico Modernas investigações sobre Limites dos Módulos das Raízes é o único que trata, diretamente, de um tópico matemático. É o discurso de abertura proferido na sessão de abertura da primeira secção do XXXIII Congresso Luso-Espanhol para o Progresso das Ciências, em 1956. Neste discurso é feita uma síntese sobre o que se sabia sobre este assunto até à data e encaminha-nos para percebermos a importância dos trabalhos de investigação matemática de Vicente Gonçalves, em particular neste tópico. A tradução francesa deste discurso é publicada em 1958 e está recenseada na Zentralblatt n.º 88, tendo sido Evelyne Frank a relatora. Esta matemática refere que se trata de um artigo de revisão onde se expõe e unifica a investigação sobre limites de raízes de polinómios. É referido que existem três tipos de problemas, a saber: encontrar fórmulas para os limites superiores das raízes de polinómios, usando os módulos dos coeficientes, usando os coeficientes, e encontrar fórmulas para os limites de determinadas raízes. Vicente Gonçalves está entre os poucos que trataram todos os tipos.

No artigo L’ Inégalité de W. Specht, de 1950, Vicente Gonçalves estabelece uma desigualdade que é um melhoramento de outra de Specht e que é mais tarde, em 1960, retomada por A. M. Ostrowski no artigo On an inequality of J. Vicente Gonçalves, no qual faz algumas referências elogiosas ao trabalho de Vicente Gonçalves. Também Morris Marden, na primeira edição do seu livro Geometry of Polynomials, de 1949, inclui na bibliografia (p. 296) este artigo de Vicente Gonçalves, bem como outros dois: Quelques Limites pour les Modules des ros d’un Polynôme, de 1957 e Recherches Modernes sur les Limites de Racines des Polynômes, de 1958. Na 2.ª edição, de 1966, Marden dá ainda mais visibilidade ao trabalho de Vicente Gonçalves, mantendo as referências na bibliografia, mas também no corpo do texto como acontece na página 130, exercício 4. Conhecem-se outros casos de igual jaez e prevê-se que outros possam existir, pois ainda há muita investigação a fazer sobre a obra deste matemático.

É ainda de destacar o facto de Vicente Gonçalves ter recebido, em 15 de dezembro de 1983, o Colar Académico pelos altos méritos científicos e pelos relevantes serviços prestados à Academia de Ciências de Lisboa, atribuído por unanimidade pelo plenário geral da Academia na sessão de 7 de dezembro de 1983 e entregue por sua Excelência o Presidente da República (à data General Ramalho Eanes) na sessão solene de encerramento das comemorações do II Centenário desta Academia. Este Colar Académico encontra-se no espólio de Vicente Gonçalves. Este espólio é um manancial de informação ainda pouco explorado e que, em nosso entender, importa continuar a analisar e que continuará a trazer contributos relevantes para a Matemática, sua história e ensino.

Listamos em seguida os outros matemáticos que se debruçavam na época (uns mais cedo que outros) sobre a localização de zeros de polinómios, para complementar o que já foi referido sobre o nível científico de Vicente Gonçalves e demonstrar a sua pertença à comunidade científica internacional da época: Carmichael, Mason, Jensen, Birkhoff, Fujiwara, Kuniyeda, Berwald, Kojima, Walsh, Anghelutza, Westerfield, William, Wall, E. Frank, Brauer, Parodi, Landau, Fejer, Allerdice, Nagy, Markovitch, Montel, Vythoulskas, Van Vleck, Biernacki, Hayashi, Egerváry e Specht. Também a correspondência existente no espólio de Vicente Gonçalves comprova as relações entre este matemático e outros estrangeiros, nomeadamente, com: P. Montel, W. Kahan, M. Fréchet, O. Perron e K. Knopp. De realçar que Vicente Gonçalves dominava várias línguas, entre as quais: latim, francês, inglês e alemão. As primeiras aprendeu no liceu, sendo além disso fácil o contacto com as línguas francesa e inglesa, na sua juventude na ilha da Madeira, devido a esta ser procurada por muitos turistas ingleses e outros. Já em relação à língua alemã, presume-se, que tenha sido autodidata.

Estas cartas constam, em geral, de troca de informações científicas diversas, ou sobre resultados em que estão a trabalhar. Percebe-se ainda que, em alguns casos, houve envio de artigos, do Curso de Álgebra Superior ou de volumes da Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, neste caso solicitando a troca com a homóloga da instituição a que o matemático pertencia. A carta de K. Knopp é um destes casos. Era uma prática comum em Vicente Gonçalves enviar os seus trabalhos a outros colegas. Acontecia com os manuais para o ensino liceal (que chegam por esse meio a Sá da Bandeira em Angola, ao Brasil e a Espanha); acontecia com o Curso de Álgebra Superior e acontecia com alguns dos seus artigos. Vicente Gonçalves possuía uma vasta rede de contactos, que incluía antigos colegas e amigos, ex-alunos, reitores de liceus e outras individualidades. Era a forma que privilegiava para dar a conhecer o seu trabalho. Agora, porquê enviar volumes da Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa? A razão é simples, mas de relevo.

Em 1950, Vicente Gonçalves cria a 2.ª série A (Ciências Matemáticas) da Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Esta publicação era um jornal científico com publicação anual. Vicente Gonçalves foi o diretor e redator da Secção de Ciências Matemáticas até ao volume IX (inclusive), isto é, até 1962. Nos 14 volumes que foram publicados, constam 249 artigos. Há artigos de 74 matemáticos, dos quais 33 estrangeiros. Os artigos estão escritos, maioritariamente, em língua estrangeira: 99 em inglês, 89 em francês, 10 em italiano, 11 em alemão e 6 em espanhol. Os restantes estão escritos em português, mas normalmente contendo um resumo alargado em francês, inglês ou alemão. Este é outro aspeto que Vicente Gonçalves não descurou, nem nos seus artigos, nem no que respeita a esta Revista, uma vez que é fundamental para facilitar a comunicação. Trata-se de uma publicação de prestígio que contou com a colaboração de nomes relevantes da comunidade matemática portuguesa e estrangeira, entre outros: J. J. Dionísio, J. Tiago Oliveira, Peter Braumann, A. Almeida Costa, F. R. Dias Agudo, A. Mira Fernandes, J. Sebastião e Silva, Hugo Ribeiro, Ruy Luis Gomes, F. Veiga de Oliveira, A. César Freitas e Evelyn Frank, Hari Ballabh Mital, Ricardo San Juan, Kiyoshi Iseki, Herbert Knothe, J. Levitzki, Gumbel, E. G-Rodeja F., A.M. Ostrowski, Baltasar R.-Salinas e A. Sade.

Com esta iniciativa e as diligências para a divulgar, Vicente Gonçalves promoveu durante cerca de um quarto de século (de 1950 a 1974), a comunicação, intercâmbio e divulgação da ciência, em particular da matemática, produzida por matemáticos portugueses e estrangeiros. Permitiu, em particular, aos investigadores mais jovens a divulgação da sua investigação no exterior. Este foi um dos contributos de Vicente Gonçalves para a internacionalização da matemática (portuguesa) na segunda metade do séc. XX, mas não foi o único. Em toda a sua obra Vicente Gonçalves dá a conhecer trabalho de matemáticos portugueses, seus contemporâneos ou não. São exemplos as referências, no seu Curso de Álgebra Superior, a um seu antigo professor, José Bruno de Cabedo, a Aureliano de Mira Fernandes e a J. Sebastião e Silva.

Para chegar à fase de haver produção científica em quantidade e qualidade para ser divulgada junto da comunidade internacional, foi necessário um trabalho prévio, persistente e cientificamente rigoroso no ensino universitário. Vicente Gonçalves foi também exemplar nisso. Em nossa opinião é o “ser professor”, ou seja, o modo como entende a profissão de professor universitário que mobiliza as vertentes de ensinante, investigador e autor.

Vicente Gonçalves era um professor empenhado e interessado nas suas lições. Estas eram expositivas, recorrendo ao quadro negro, que enchia por várias vezes em cada aula com teoremas, demonstrações, exemplos, etc.. Neste contexto e também nos seus manuais, a referência a matemáticos portugueses e estrangeiros, contemporâneos e ao seu trabalho e a introdução de referências à história da matemática eram uma constante e uma postura original na época. Uma vez mais, o facto de ser bibliófilo enriquecia as notas históricas que fazia, entre outras minibiografias de matemáticos, história da origem das notações e terminologia, explorar visões alternativas do passado e exercícios antigos.

Por vezes, no final da aula, havia alunos que se aproximavam de Vicente Gonçalves para solicitar esclarecimentos ou colocar questões, para o que este estava sempre disponível. Muitas vezes essas conversas sobre temas matemáticos prolongavam-se no caminho até casa de Vicente Gonçalves. Esta prática tinha-a vivido e aprendido, enquanto aluno, com o seu Professor José Bruno de Cabedo.

Vicente Gonçalves preparava as suas lições cuidadosa e detalhadamente, orientando também o trabalho a realizar pelos seus assistentes (entre eles, J. J. Dionísio na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e Fernando de Jesus no ISCEF). Existem notas (de aula) manuscritas por Vicente Gonçalves, onde registava os temas a tratar e a respetiva sequência, assim como o número de aulas a dedicar a cada um. Nelas aparecem esquemas e deduções analíticas. Estas notas datam de finais dos anos 50, o que faz pensar que a preparação das suas aulas era uma constante na sua atuação. É ainda de realçar que há notas de aula relativas às lições na Faculdade de Ciências de Lisboa e no ISCEF, o que leva a crer que Vicente Gonçalves preparava separadamente as lições. É também de referir que mesmo nos exames (orais) aproveitava para ensinar.

Outro aspeto da sua prática docente era a atenção que dava aos sumários das lições, dando a entender que estes eram, ou deviam ser, um instrumento de trabalho do aluno. Para além de os escrever de forma legível, os numerar e datar (o que não acontecia com todos os professores), indicava uma lista pormenorizada dos tópicos abordados na lição e, numerava-os de acordo com a numeração dos capítulos, secções, itens, etc. do manual, maioritariamente, o Curso de Álgebra Superior.

Subjacente a este aspeto logístico e também pedagógico, está aquela que consideramos a característica mais marcante de Vicente Gonçalves: “Existia uma proximidade temporal entre a matemática que o matemático Vicente Gonçalves fazia (e conhecia) e a que o professor Vicente Gonçalves ensinava” (Costa e Vitória, 1997, 23). Ou seja, os temas que abordava nas aulas sugeriam-lhe problemas de investigação que divulgava nos artigos científicos, mas que também introduzia nos seus manuais para o ensino superior e nas suas lições. Vai repetindo este ciclo ao longo do tempo. 

Os seus manuais surgem da preparação cuidada que faz das suas lições e, são revistos e reformulados fruto da pesquisa que vai desenvolvendo sobre os temas em foco, na tentativa de aprimorar os resultados, refinar as demonstrações e selecionar novos exemplos e exercícios. O facto de incluir nos seus manuais temas matemáticos recentes e apresentá-los aos alunos tem vantagens, entre outras: obrigar o aluno a pensar e a descobrir as passagens intermédias, que eram intencionalmente omitidas, e facultar exercícios (muitas vezes com soluções) com grau de dificuldade elevado. Estas são razões por que os seus manuais, nomeadamente o Curso de Álgebra Superior, não são considerados textos fáceis. Esta atitude promove o desenvolvimento de capacidades de resolução de problemas e o gosto pela investigação. Vicente Gonçalves procurava incutir nos mais jovens o gosto pela investigação matemática e levá-los a investigar.

Muitos dos nossos mais conceituados matemáticos, professores (dos ensinos superior e secundário) e economistas (alguns figuras públicas da política nacional) foram seus alunos ou estudaram pelo seu Curso de Álgebra Superior, e referem a influência positiva e, por vezes decisiva, desse contacto com Vicente Gonçalves. É, claro que em contrapartida, vários alunos tinham muitas dificuldades, quer em acompanhar as suas lições, quer em estudar pelos seus manuais.

Entre os jovens matemáticos portugueses que influenciou, referimo-nos a título ilustrativo a João Farinha, Ruy Luís Gomes e Fernando R. Dias Agudo. A João Farinha (1910-1957) sugeriu o tema inicial para os seus estudos com vista ao doutoramento: frações contínuas. Em virtude de ter falecido muito cedo, não teve oportunidade de continuar as suas investigações. Ruy Luís Gomes foi seu aluno na Universidade de Coimbra e, segundo as palavras de José Morgado Jr., Ruy Luís Gomes afirmava que foi com Vicente Gonçalves que aprendeu a investigar em análise. Vicente Gonçalves foi arguente no júri da sua tese de doutoramento e teve um papel ativo no concurso para professor catedrático a que Ruy Luís Gomes concorreu e a que já nos referimos. Os dois matemáticos mantiveram correspondência científica, em particular, nos períodos em que Ruy Luís Gomes esteve preso por motivos políticos. Dias Agudo foi seu aluno na Universidade de Lisboa e reconhece a sua influência no gosto que lhe incutiu em aprofundar assuntos matemáticos que já então o interessavam.

Também professores do ensino secundário e economistas, seus antigos alunos, recordam Vicente Gonçalves como um mestre rigoroso, exigente e justo; referimos, mais uma vez apenas a título ilustrativo os madeirenses, Carmo Gomes, Sérgio Valentim Camacho e António Camacho Coelho.

A atuação de Vicente Gonçalves no incentivo ao estudo da matemática e à sua investigação sentiu-se quer direta, quer indiretamente. A influência direta resume-se (no sentido de ser limitada no tempo) às suas lições e atuação em atividades científicas em que participava, designadamente em cursos, em centros de estudos e investigação (como é o caso do Centro de Matemáticas Aplicadas ao Estudo de Energia Nuclear, da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa), em Congressos, etc.. É aqui também importante referir a sua atividade na Academia de Ciências de Lisboa, pois Vicente Gonçalves costumava ir mais cedo para as sessões de modo a poder conversar (sobre matemática) com os membros mais jovens. A influência indireta é, talvez mais relevante por ter perdurado no tempo, quer através dos seus escritos que são usados durante várias gerações de estudantes e matemáticos, quer através dos ensinamentos que perpassaram para os seus alunos, posteriormente, professores, investigadores ou economistas.

Carmo Gomes confidenciou-nos, em entrevista de 27 de julho de 1998, que não foram só conhecimentos científicos que aprendeu com Vicente Gonçalves e que procura passar aos seus alunos também essas aprendizagens: “(…) um dia [Vicente Gonçalves] apelou aos alunos que ajudassem a descobrir aquilo que impedia de chegarmos ao tão desejado ‘q.e.d.’. (…) A aula estava a terminar e não se descobriu o pequeno ‘lapso’ responsável pelo incómodo… O Mestre apagou os quadros cheios até mais não e disse serenamente ‘amanhã recomeça-se’. E esta foi a maior e melhor lição que aprendi com o Professor Vicente Gonçalves! (…) Explico aos meus alunos que esta lição de humildade aprendi com um Grande Senhor. Falo-lhes desse Homem, nosso conterrâneo (…)” (Costa, 2001, 114).

Vicente Gonçalves era, de facto, um homem excecional, tanto como professor, como investigador e como ser humano. Era um homem alto, magro, elegante, de porte senhorial. A sua vasta e diversificada cultura não passava despercebida aos que o rodeavam, nem o refinado sentido de humor, por vezes a tocar a ironia, que o caracterizava. Era uma pessoa serena, competente, muito exigente e justa. Os alunos apercebiam-se que tinham de trabalhar muito para poder acompanhar as suas lições. Dedicou a sua vida ao ensino e à investigação, embora isso não o impedisse de ter interesses culturais diversificados e passatempos. O gosto pela bibliofilia e pela filatelia levava-o a procurar ativamente os livros antigos e os selos que pretendia comprar para a sua extensa coleção. Ao longo da vida formou uma biblioteca valiosíssima com obras nacionais e estrangeiras. Era Vicente Gonçalves quem limpava e restaurava os livros e os selos. Tarefas delicadas e meticulosas. Estes aspetos combinam com a forma organizada e meticulosa como trabalhava no seu dia-a-dia, onde as rotinas eram a norma e necessárias ao seu bem-estar.

Neste ponto, é de crucial importância o papel da sua esposa. Maria Teresa, natural da freguesia de São Mamede, em Lisboa, pertencia a uma família tradicional e numerosa (11 irmãos), era filha de Bernardo Botelho da Costa (natural da freguesia de Granja Nova, concelho de Trancoso, juiz da Relação de Lisboa) e de Olinda Teixeira da Silva Botelho da Costa (natural de Benguela, Angola, doméstica) e residiam em Coimbra. Maria Teresa casou-se com Vicente Gonçalves com 19 anos de idade e desde aí zelava para que a vida do marido decorresse regrada e tranquila. Em Coimbra residiram na Avenida Dias da Silva n.º 19 e, quando mudaram para Lisboa, por volta de 1939, foram residir para a avenida 5 de Outubro, n.º 153, 3.º d.to, onde permaneceram cerca de 30 anos. Após o que mudaram para a rua Gomes Freire n.º 3, 4.º esq.º.

Recuperamos alguns detalhes das rotinas da vida pessoal de Vicente Gonçalves, a saber: as refeições eram servidas a horas certas e durante as longas horas que Vicente Gonçalves passava a estudar e a trabalhar no seu escritório, a esposa não permitia que alguém o incomodasse. Nem mesmo os sobrinhos, as crianças que lhes eram mais próximas, e com quem Vicente Gonçalves gostava de conviver e conversar, tinham permissão para o interromper. Fora dessas alturas Vicente Gonçalves apreciava estar em família e entre amigos, conversar, passear, principalmente junto à praia e ir à feira da ladra.

A família possuía uma casa na praia de Santa Cruz, onde passava temporadas, muitas vezes com os sobrinhos e onde Vicente Gonçalves, protegido por um frondoso chapéu de palha dava largas a outro dos seus passatempos, a jardinagem. Plantava e cuidava de plantas e flores. Curiosamente, os resultados não eram brilhantes, pois, a procura de perfecionismo, levava-o a trocar várias vezes as flores e plantas de lugar, procurando as melhores condições de luz, terra, vento, etc.. Algumas dessas flores eram madeirenses, o que ajudava a matar as saudades da sua Ilha da Madeira.

Embora Vicente Gonçalves tenha vivido a maior parte da sua vida no Continente onde tinha o seu trabalho, os seus estudos, a sua investigação, os amigos e a família da esposa, nunca esqueceu a ilha da Madeira onde viveu 17 anos. Temos vários motivos para fazer esta afirmação. A ligação à terra natal e às suas origens reconhece-se em detalhes da sua vida adulta, como o gosto pela jardinagem e por vinhos e frutos da Madeira. Perduram no tempo a linguagem e pronuncia madeirense. O apreço pelas frutas, vinhos e flores da sua terra manteve-se. As frutas da Madeira eram comuns nas suas refeições. Naquela época não era vulgar venderem-se no Continente, o que nos leva a pensar que alguém lhas trazia, talvez amigos ou alunos madeirenses que viessem estudar para o Continente. Também na sua coleção de vinhos não faltava aguardente de cana e vinhos da Madeira.

Um elo mais forte que as flores, os frutos ou os vinhos são os seus pais. Sobre o pai temos a informação, não confirmada, de que faleceu cedo. Quanto à mãe sabemos que veio para o Continente viver com o filho e a nora, tendo falecido, em Lisboa, a 30 de maio de 1951. Vicente Gonçalves faleceu em Lisboa, a 3 de agosto de 1985. Os restos mortais encontram-se no ossário n.º 39238 do cemitério do Alto de São João em Lisboa.

A Academia de Ciências de Lisboa organizou a 12 de novembro de 1987, uma sessão de homenagem a Vicente Gonçalves, realizada na Casa de Lafões. A cerimónia revestiu-se de grande pompa. O elogio histórico foi feito por Tiago de Oliveira que lhe sucedeu na cadeira da Casa de Lafões.

A terminar, reafirmamos que a diversidade, a qualidade e a atualidade, à data e com o passar do tempo, da sua obra, o reconhecimento pelos seus pares (portugueses e estrangeiros), a influência junto de colegas e alunos e a coerência de percurso de vida que expusemos, é o que nos leva a afirmar que Vicente Gonçalves é uma figura notável e incontornável da História da Matemática em Portugal.

Bibliog.: COSTA, Cecília & VITÓRIA, José (1997), Nótula sobre Zeros de Polinómios Boletim da Sociedade Portuguesa de Matemática, 37, 21-34; COSTA, Cecília, “José Vicente Gonçalves: Matemático… porque Professor!”, Colecç. Memórias, n.º 37, Funchal, Centro de Estudos de História do Atlântico, Secretaria Regional do Turismo e Cultura, 2001; Id., “O processo de edição de manuais escolares, em Portugal, na década de 30: estudo de um caso: J. Vicente Gonçalves e a sua obra para o Ensino Liceal”, in D. Moreira & J.M. Matos (orgs.), História do Ensino da Matemática em Portugal, Beja, Secção de Educação Matemática da Sociedade Portuguesa de Ciências da Educação, 2005, pp. 149-157; Id., “Males do Ensino Superior: a opinião de J. Vicente Gonçalves em 1930. Revista Brasileira de História da Matemática”, 7(14), 2007, pp. 155-162; Id., “J. Vicente Gonçalves and the ‘Journal of the Faculty of Sciences of Lisbon University’: a contribution to the dessimination of portuguese mathematical studies”, Proceedings of the History and Pedagogy of Mathematics Meeting – HPM2008, Cidade do México, México, CD-ROM, 2008; Id., “Sobre a correspondência epistolar de A. Mira Fernandes a matemáticos portugueses”, Boletim da Sociedade Portuguesa de Matemática, n.º especial Mira Fernandes, 2010, 89-124; Id., “Iniciativas de Vicente Gonçalves para a divulgação da Matemática na segunda metade do século XX, comunicação apresentada no 2.º Encontro Nacional de História das Ciências e da Tecnologia, Instituto de Ciências Sociais, Lisboa, de 26-28 jul. 2010; COSTA, Cecília & Malonek Helmuth, “Testemunhos de reconhecimento: cartas de Oskar Perron e Konrad Knopp a Vicente Gonçalves”, Atas do V Encontro Luso-Brasileiro de História da Matemática, Câmara Municipal de Castelo Branco, Castelo Branco, Portugal, 2011, pp. 99-109; COSTA, Cecília, COSTA, Teresa & Ramos, Anabela, “Sobre um original de Vicente Gonçalves relativo a Pedro Nunes”, Boletim da SPM, 64 (Suplemento), 2011, pp. 21-22; COSTA, Cecília “O Curso de Álgebra Superior de Vicente Gonçalves. Impressões de Sebastião e Silva”, comunicação apresentada no 24.º Encontro do Seminário Nacional de História da Matemática, Escola Naval, Lisboa, Portugal, em 17 e 18 jun. 2011; Id., Sinopse crítica dos estudos históricos sobre Vicente Gonçalves, Boletim da SPM, 67 (Suplemento), 2012, pp. 47-49; Sobre um original de Vicente Gonçalves relativo à escolaridade de Francisco de Melo, in S. Nobre, F. Bertato & L. Saraiva (Eds.) Anais do 6º Encontro Luso-Brasileiro de História da Matemática, São João Del-Rei: Sociedade Brasileira de História da Matemática, 2014, pp. 207-223.

Cecília Costa

(atualizado a 19.08.2016)