gramáticos

Num arquipélago como o da Madeira há algumas razões geográficas e de ordem político-cultural que justificam o exíguo número de gramáticos. De entre algumas das características do arquipélago, refira-se que a orografia da maior e mais habitada ilha, a Madeira, até há poucos anos, não permitia deslocações terrestres curtas e confortáveis, sendo na sua maior parte efetuadas por barcos entre as zonas costeiras, de difícil acesso. A geografia dificultava, por isso, o contacto com a realidade linguística madeirense e o seu estudo. O arquipélago, antes da autonomia, não possuía uma universidade cujo trabalho científico oferecesse uma visão de excelência sobre a realidade linguística madeirense. O ensino liceal era, então, vocacionado para o estudo do português padrão e não era acessível a todos. De igual modo, os indivíduos que enveredavam pelos estudos superiores faziam-no no continente e eram maioritariamente oriundos de uma elite que aderia, sem diferenças de relevo, à cultura e aos movimentos vanguardistas da metrópole.

Os gramáticos madeirenses (que nasceram ou viveram na Madeira) são, assim, comuns entusiastas da língua e limitam-se a elaborar textos normativos e escolares sobre a língua portuguesa, latina, francesa e inglesa (Gramáticas madeirenses) com o propósito de servirem e complementarem a aprendizagem. Grande parte destas personagens está ligada ao clero, à docência e à advocacia.

Da expressão “gramáticos madeirenses” devemos depreender que o adjetivo “madeirenses” é uma marca de pertença toponímica e não de distinção intelectual ou de tomada de posição em relação a um determinado desvio linguístico.

Das personalidades madeirenses, poderemos estabelecer relações com grupos sociais dominantes: clero, P.e Manuel Álvares, P.e Fernando Augusto da Silva e o capelão anglicano Alexander J. D. D’Orsey; advocacia, Álvaro Rodrigues de Azevedo; docência, Francisco de Andrade Júnior, Marceliano Ribeiro de Mendonça, Abel Marques Caldeira (também jornalista), Francisco Manuel de Oliveira, Pierre Hector Clairouin. Poderemos também aferir outro tipo de agrupamentos, tendo em conta a produção de cada autor. Assim, temos os que elaboraram gramáticas da língua portuguesa (Francisco de Andrade Júnior e Álvaro Rodrigues de Azevedo), gramáticas de língua latina (Manuel Álvares e Marceliano Ribeiro de Mendonça), gramática de língua francesa (Pierre Hector Clairouin), gramática de língua inglesa (Francisco Manuel de Oliveira), gramática de língua portuguesa para anglófonos (Alexander J. D. D’Orsey), trabalhos sobre o léxico madeirense (Abel Marques Caldeira e Fernando Augusto da Silva). Com a exceção do P.e Manuel Álvares, todos os restantes autores exerceram a sua atividade na área do Funchal, indo ao encontro das necessidades educativas da cidade.

É de notar que algumas destas personalidades se encontram ligadas à evolução do ensino no arquipélago, quer através do Colégio dos Jesuítas do Funchal, até à expulsão da Companhia de Jesus em 1759, quer das instituições que a sucederam. Por Carta Régia de 6 de novembro de 1772, são criadas três aulas de latim, uma de grego, uma de retórica e uma de filosofia, no Funchal, e, a partir do início o séc. XIX, de outras aulas (desenho e pintura, aritmética, geometria, francês e inglês) que culminaram com a fundação do Liceu do Funchal, por decreto régio de 17 de novembro de 1836, no qual se estabelecia o ensino liceal na capital de cada distrito e nos arquipélagos adjacentes ao continente português (Madeira e Açores).

Entre os sécs. XVI e XIX existe um hiato de autores de gramáticas. Desde o aparecimento do P.e Manuel Álvares até ao séc. XIX não há notícia de gramáticas elaboradas por madeirenses.

O P.e Manuel Álvares nasceu na Ribeira Brava, supostamente por volta de 1526, uma vez que, à data, aquela diocese não registava os nascimentos, e era filho de Brígida Gonçalves e João Mealheiro ou Malheiro, antigos fidalgos naquela zona da Madeira, segundo o Elucidário Madeirense (1978, I, 115), ou de Brígida Álvares e Sebastião Gonçalves, gente humilde, como refere J. Pereira da Costa na introdução à edição fac-similada da De Institutione Grammatica (1972). De acordo com a Synopsis Annalium Societatis Jesu in Lusitania, entrou para o instituto da Companhia de Jesus a 4 de julho de 1546, com 20 anos, e morreu em Évora a 30 de dezembro de 1583, com 57 anos.

Desde cedo, Manuel Álvares revelou uma predisposição especial para o estudo das línguas latina, grega e hebraica, o que o levou a aperfeiçoar-se nestas matérias, com os resultados que conhecemos: a elaboração da reconhecidíssima De Institutione Grammatica, que foi editada várias vezes em língua latina e em outras línguas. Esta obra do P.e Manuel Álvares é, a seguir a’Os Lusíadas, a obra portuguesa mais traduzida e reeditada, desde a sua primeira edição, em 1572, e perdurou ao serviço do ensino da língua latina durante dois séculos, o que é prova irrefutável da dimensão humanista e pedagógica do padre.

A contestação à De Institutione Grammatica adveio da edição, em 1753, do Novo Methodo da Grammatica Latina do P.e António Pereira de Figueiredo (1725-1797), em que defendia a simplificação do ensino da língua latina, fruto da evolução dos estudos sobre a língua, e do pedagogo e padre Luís António Verney (1713-1792), que criticava os excessos do método de ensino da Companhia de Jesus. Assim, a obra de Manuel Álvares começou a perder a autoridade pedagógica de que gozava, embora haja a registar as suas reedições em várias línguas até ao segundo quartel do séc. XIX. Por ter sido uma referência universal incontornável no campo pedagógico da Companhia de Jesus, o P.e Manuel Álvares merece sempre um apontamento especial.

Com a evolução dos métodos de ensino e das orientações políticas e sociais, começou a ser dada maior importância às línguas nacionais, especialmente a partir do séc. XIX, em pleno Romantismo, altura em que se inculca a defesa da consciência nacional e a recuperação das raízes da literatura portuguesa. É também no período romântico que o Estado português começa a responsabilizar-se pela educação, e, como consequência, é criado o ensino liceal em todas as capitais de distrito e dos arquipélagos. A este facto associa-se a divulgação da imprensa pelos territórios lusófonos.

Conjugados estes fatores, foi com naturalidade que surgiram na Madeira personalidades assinaláveis que produziram obras fundamentais para o apoio do ensino e divulgação da língua portuguesa.

Francisco de Andrade Júnior, filho de Francisco de Andrade, nasceu no Funchal a 6 de junho de 1806, onde veio a falecer a 23 de fevereiro de 1881. Foi secretário e reitor do Liceu do Funchal, além de um distinto professor. É também digna de nota a sua ação política como vereador da CMF. No Funchal, cursou todas as aulas oferecidas pelo sistema de ensino do seu tempo.

Após a criação do Liceu do Funchal, foi nomeado professor proprietário das cadeiras de gramática portuguesa e latina e clássicos portugueses e latinos, por dec. de 4 de setembro de 1838. Anteriormente já se encontrava ligado à educação e desempenhara as funções desse mesmo cargo por carta do Conselho Provincial de Instrução Pública, datada de 23 de março de 1838.

O facto de ser uma figura que fez da docência a sua carreira permitiu-lhe o estudo mais pormenorizado da língua portuguesa. Em 1844, editou, no Funchal, os Principios de Grammatica Portuguesa ou Principios e Preceitos Compilados dos Mais Acreditados Autores que Sobre este Assumpto Tem Tratado Até o Presente, e Explicados de Modo a Serem Comprehendidos por Pessoas de Todas as Intelligencias (Typographia Nacional); em 1849, a Grammatica Portuguesa das Escholas Primarias (Typographia Nacional), reeditada cinco vezes até 1879. Outras obras, fora do âmbito da língua, fizeram igualmente parte do seu legado, como o Relatorio Sobre as Escholas Municipaes de Instrucção Primaria do Concelho do Funchal (Funchal, 1849).

Outra figura incontornável, pelo seu legado humanístico, foi o advogado Álvaro Rodrigues de Azevedo. Filho de António Plácido de Azevedo e de Maria Amélia Ribeiro de Azevedo, nasceu em Vila Franca de Xira a 20 de março de 1825, com o nome de José Rodrigues de Azevedo. Para entrar na universidade, onde cursou direito, mudou de nome. Concluído o curso em 1849, estabeleceu-se em Lisboa durante seis anos. Pretendeu ser despachado para um lugar na magistratura judicial, embora sem sucesso. Passou para a ilha da Madeira, onde lecionou oratória, poética e literatura no Liceu do Funchal, por via de concurso público, distinguindo-se como professor de português e recitação. Durante 26 anos, regeu com grande empenho esta cadeira e retirou-se em janeiro de 1881 para Lisboa.

Antes, fora ainda procurador à Junta Geral e membro do conselho de distrito e da comissão administrativa da Santa Casa da Misericórdia do Funchal. Em 1870 recusou o cargo de secretário-geral do distrito e a comenda da Conceição. Distinguiu-se igualmente como membro do Partido Reformista, revelando aspirações liberais aquando das lutas de 1868, na Madeira.

Colaborou em muitos jornais e foi um dos redatores da Discussão e da Madeira, tendo publicado no primeiro destes periódicos um artigo de crítica literária sobre o Bosquejo Historico de Litteratura Classica, Grega, Latina e Portuguesa de António Cardoso Borges de Figueiredo. Publicou, também, nos números 181 a 183 do DN da Madeira um estudo intitulado “A Casa em que Christovão Colombo Habitou na Ilha da Madeira”.

Do seu legado bibliográfico devemos registar as seguintes obras: O Livro d’um Democrata (Coimbra, 1848), Esboço Critico-Literario (Funchal, 1866), Curso Elementar de Recitação (Funchal, 1869) e Romanceiro do Archipelago da Madeira (Funchal, 1880). Além destes títulos, Azevedo publicou A Família do Demerarista e o Almanach para a Ilha da Madeira, em 1867 e 1868, respetivamente. De entre as suas obras mais marcantes, destaca-se a publicação da parte do manuscrito de Gaspar Frutuoso, Saudades da Terra, dedicada à Madeira, cujas notas são de sua autoria, os artigos “Machico”, “Machim”, “Madeira” e “Maçonaria na Madeira”, publicados no Diccionario Universal Portuguêz, dirigido por Fernandes Costa, e o drama intitulado Miguel de Vasconcellos, gerador de polémica com Inocêncio Francisco da Silva. Faleceu em Lisboa a 6 de janeiro de 1898.

João de Nóbrega Soares, um dos mais conhecidos autores madeirenses, nasceu a 11 de junho de 1831, no Funchal, onde veio a falecer a 22 de setembro de 1890, com 59 anos. Durante a sua vida foi jornalista, escritor e professor. Da sua formação académica há a registar a frequência do Liceu do Funchal e da sua formação pessoal as viagens por África (1851 a 1853) e pela América do Norte (1854). Após estas viagens, dedicou-se ao ensino primário, vindo a ser nomeado escrivão da Santa Casa da Misericórdia e empregado da fiscalização dos tabacos. Na altura da sua morte era chefe de distrito da Guarda Fiscal.

Na vida deste autor, houve duas fases distintas na vida do autor. Uma primeira fase, até ao final da vigem à América do Norte, em que investiu na sua formação e uma segunda em que investiu na sua produção escrita, deixando textos de diversa índole, desde literária a pedagógica, passando pela jornalística. Revelou-se, deste modo, como um dos escritores madeirenses que mais géneros cultivou.

Da sua atividade jornalística destaca-se as colaborações nos periódicos madeirenses A Flor do Oceano, A Pátria, A Imprensa, Gazeta da Madeira, O Funchalense e Diário de Notícias. Fundou a Revista Semanal e dirigiu o Boletim Oficial.

Das obras didáticas são de referir Introdução à Geografia para Uso das Escolas Primárias (1859), Primeiras Noções de Moral para Uso das Escolas Primárias (1861), Corografia da Madeira (1862) e Grammatica da Lingua Portugueza (1884).

A sua produção literária inclui Lágrimas e Flores (1861), Qual dos Dois? (1862), Um Quarto com Duas Camas (1862), A Virtude Premiada (1863), Cenas e Comédias (1863), Contos e Viagens (1867) e Cenas e Fantasias (1868).

No vasto legado deixado por João Nóbrega Soares há ainda a destacar um conjunto de obras que nunca saíram do prelo: Breves Noções de História de Portugal, Dicionário Português, Corografia de Portugal e Domínios e Aritmética.

No seguimento das notas biográficas de João de Nóbrega Soares, devemos referir Ricardo Augusto Sequeira, revisor da Grammatica da Lingua Portugueza de Soares. Foi um presbítero e professor que nasceu no Funchal a 8 de junho de 1841 e faleceu a 27 de março de 1894. Além dos vários serviços prestados à Igreja, foi nomeado professor provisório de português e latim em 28 de fevereiro de 1868 no Liceu do Funchal e professor proprietário da cadeira de latim, por decreto de 10 de novembro de 1887.

De Alfredo Bettencourt da Câmara sabe-se que nasceu no Funchal a 21 de abril de 1857 e que exerceu, por muitos anos, o magistério primário particular com assinalável notoriedade e dedicação, chegando a ser professor do Colégio Lisbonense. A partir da prática do exercício docente, do gosto e do entusiasmo pelo estudo produziu a Grammatica Portuguêsa, em Harmonia com a Reforma Ortografica Ultimamente Publicada (Funchal, 1912) e os Exercicios Sobre a Conjugação dos Verbos Regulares e Irregulares, em duas partes (Funchal, 1915). Não se conhecem muitas mais informações sobre a sua vida. Faleceu no Funchal a 26 de janeiro de 1921, com 63 anos.

O seu irmão, José Bettencourt da Câmara, nasceu a 19 de abril de 1844 na Qt. do Descanso, propriedade do seu avô paterno, Tristão Joaquim Bettencourt da Câmara, na freguesia de Santa Luzia e faleceu na de Câmara de Lobos, a 19 de outubro de 1875, quando vinha de viagem do Estreito da Calheta para o Funchal, aos 31 anos de idade. É lembrado por ter sido o autor de valiosa colaboração em vários jornais, revelando notável aptidão para as letras. Dedicou-se em especial a estudos genealógicos e heráldicos, conhecendo largamente as linhagens das antigas famílias madeirenses. Pertencem-lhe algumas das notas das Saudades da Terra de Gaspar Frutuoso, que se ocupam de assuntos genealógicos. Sobre esta matéria preparava um trabalho valioso, que não chegou a concluir. É autor do artigo “A Philologia”, publicado n’O Recreio. Periódico Literário. Publicação Quinzenal dos Alunos do Liceu do Funchal (n.os 16, pp. 122-124; 20, pp. 155-156; 25, pp. 194-196), no qual está presente uma preocupação teórico-científica em torno das questões linguísticas, além das culturais e das literárias.

Francisco José de Brito Figueiroa Júnior, autor dos Apontamentos de Grammatica e Conjugação de Verbos (Funchal, 1905), tal como consta do frontispício da obra, era professor primário oficial em São Vicente, tendo, talvez, preparado este manual para facilitar o ensino da língua aos alunos que frequentavam a 4.ª classe.

Daniel Ferreira Pestana nasceu no Funchal a 13 de outubro de 1824 e morreu em Nova Goa no mês de novembro de 1906. Era filho de Manuel Ferreira Pestana e de D. Vicência Rosa de Jesus Guedes Pestana. Casou-se duas vezes, sendo que da segunda com a condessa de Torres Novas. Fez carreira militar na Índia, onde chegou, como ajudante de campo, na companhia de seu tio, o conselheiro José Ferreira Pestana. Aí gozou da maior consideração pela sua pessoa e foi muito estimado pelas várias e importantes comissões de serviço público. Em Portugal, chegou a ser ajudante de campo do marechal Saldanha. À data da sua morte, Daniel Pestana Ferreira era general. Colaborou com alguns jornais e publicou, na Índia, uma gramática de português, Principios de Grammatica Geral Applicada á Lingua Portguesa (1848), apontada no Diccionario Bibliographico Portuguez.

Paulo Perestrelo da Câmara nasceu no Funchal em 1810 e faleceu na cidade do Rio de Janeiro a 4 de fevereiro de 1854. Embora não se disponha de muitos dados biográficos, sabe-se que viveu em Lisboa e que em 1841 viajou para o Brasil. Regressou em 1853, mas permaneceu pouco tempo na Europa, regressando ao Rio de Janeiro, onde viria a falecer. Da sua obra literária, salientamos: Descripção Geral de Lisboa (Lisboa, 1839), Breve Notícia Sobre a Ilha da Madeira (Lisboa, 1841), Novo Tratado de Arithmética Comercial (Rio de Janeiro, 1846), Diccionário Geográphico, Histórico, Político (Rio de Janeiro, 1850, t. I e II) e Grammatica das Grammaticas da Língua Portuguêza (Rio de Janeiro, 1850).

O capelão anglicano Alexander J. D. D’Orsey foi diretor de um colégio no Funchal. No âmbito do ensino, interessou-se pelas regras do português e do inglês e publicou Colloquial Portuguese, or the Words and Phrases of Every Day, com seis edições, a primeira de 1854 e a última de 1891. O seu segundo trabalho, com a colaboração de Marceliano Ribeiro de Mendonça, foi A Pratical Grammar of Portuguese and English, com três edições.

Segundo informações do Elucidário Madeirense (1978, III, 371-372), Marceliano Ribeiro de Mendonça não possuía curso superior e também nunca viveu fora do arquipélago da Madeira, tendo sido brilhante, por ser intelectualmente dotado, e um assinalável e ilustre estudioso. Nascido no Funchal a 18 de abril de 1805, era filho de Jerónimo Ribeiro e de D. Julieta Rita de Mendonça. A finalização do seu curso secundário coincidiu com o tumultuoso período das guerras liberais entre os apoiantes de D. Miguel I e D. Pedro IV e com a subjugação da Madeira pelas forças do primeiro. Neste clima, Marceliano Ribeiro tornou-se um asilado na casa de um cidadão britânico durante seis anos, período em que se sentiu incentivado e motivado para o estudo das humanidades através do acesso a publicações pouco comuns no arquipélago, à época. Assim, dedicou-se ao estudo das línguas portuguesa e latina e da filosofia. O seu asilo findou em junho de 1834, com a implantação do governo constitucional.

Distinguiu-se como professor, extravasando os limites ilhéus. Exerceu a docência nas aulas do antigo Pátio, até ser convidado e indicado, em 1836, para ser parte integrante do corpo docente do Liceu do Funchal, onde lecionou português, latim e filosofia. Foi nomeado reitor do Liceu e comissário dos Estudos do distrito do Funchal, função em que deu particular relevo à instrução primária, através dos novos métodos de ensino que introduziu, da criteriosa seleção de professores e da elaboração de relatórios, que foram depois publicados na revista científica O Instituto. Estes passos revelam a sua orientação para um ensino primário abrangente às populações, bem como o compromisso para com a figura do professor, através de constantes estímulos, cujo exemplo maior foi a criação da Associação de Conferências, onde se discutia e pensava os assuntos que interessavam à instrução popular. Como administrador público, Marceliano Mendonça exerceu os cargos de presidente da CMF, secretário-geral do Governo Civil e vogal do Conselho de Distrito. Faleceu a 5 de agosto de 1866, com 61 anos, na cidade do Funchal.

Da sua obra, interessa-nos apontar a colaboração com periódicos madeirenses, a gramática Principios da Grammatica Geral Aplicados à Lingua Latina, a Philosophia, o Methodo Paralelo de Leitura e Escripta e o romance histórico Gaspar Borges.

Francisco Manuel de Oliveira nasceu no Funchal no dia 1 de abril de 1741 e faleceu por volta de 1819. No seu tempo, foi um escritor e poeta relativamente afamado no Funchal, sendo considerado pelas traduções feitas de poemas orientais a partir do inglês. Teve à sua responsabilidade a aula pública de filosofia racional da cidade do Funchal, por carta régia de 5 de janeiro de 1774, tendo sido jubilado, em Lisboa, por portaria de 3 de abril de 1799. Proferiu o discurso de abertura das aulas no ano de 1786 no Seminário Diocesano do Funchal. No que respeita à relação das suas obras é dada notícia das seguintes: Escolha de Poesias Orientaes… Seguidas de Outras Varias Rimas (Lisboa, 1793), Collecção Poetica, t. II (Lisboa, 1794), Oração na Inauguração do Seminario do Funchal (Lisboa, 1787), Ensaio Poetico Sobre a Harmonia do Mundo (Lisboa, 1805), Principios Elementares da Lingua Inglesa (Lisboa, 1809) e a tradução de Avisos Interessantes á Humanidade (Lisboa, 1788) de Servington Savery.

Pierre Hector Clairouin nasceu em França e veio para o Funchal em 1857, onde lecionou francês. Veio a falecer nesta cidade a 20 de novembro de 1882. Do seu legado, merece particular relevo o Methodo Michaelense para o Ensino da Lingua Francesa (Funchal, 1861), de que se regista uma segunda edição sob o título O Nec Plus Ultra das Grammaticas Methodicas para o Ensino da Lingua Franceza (Lisboa, 1874).

António Gil Gomes nasceu na Madeira em 23 de junho de 1805. Em 1828, por ser afeto aos ideais liberais, emigrou para o Brasil, onde permaneceu seis anos, no Rio de Janeiro. Regressou, então, à Madeira, onde veio a falecer no dia 3 de julho de 1868. Durante a sua estadia no Brasil, foi professor e colaborador assíduo de vários jornais. É autor das Regras Elementares Sobre a Pontuação (Rio de Janeiro, 1831), da Refutação das Observações da Commissão Permanente da Pauta Geral das Alfandegas em Lisboa (Funchal, 1840) e da Compilação de Principios de Philosophia Racional (Funchal, 1843).

Jordão Apolinário de Freitas nasceu a 23 de junho de 1866, no Funchal, e faleceu em Lisboa a 12 de junho de 1950. Foi médico, funcionário público e escritor. Dedicou-se às letras e à investigação histórica e foi considerado em Portugal e no estrangeiro um historiógrafo erudito. Em 1900, foi nomeado oficial da biblioteca da Sociedade de Geografia, onde permaneceu até ser nomeado oficial da Biblioteca da Ajuda, chegando ao cargo de diretor, em 1928. Colaborou em diversas revistas portuguesas. Mais filólogo do que gramático, do seu trabalho registamos a publicação de Subsidios para a Bibliographia Portugueza Relativa ao Estudo da Lingua Japoneza e para a Biographia de Fernão Mendes Pinto. Grammaticas. Vocabularios. Diccionários (1905).

Ivo Xavier Fernandes nasceu no Funchal a 3 de dezembro de 1884 e faleceu em Lisboa a 27 de dezembro de 1966. Doutorou-se em filosofia e letras pela Univ. de Bruxelas e dedicou a sua atividade ao estudo de questões linguísticas, artísticas e históricas. Proferiu inúmeras conferências e manteve assídua e profícua colaboração em diversas revistas e jornais portugueses e brasileiros. Foi professor do ensino secundário e fez parte, em 1940, da comissão organizadora do Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa da Academia de Ciências de Lisboa. Este filólogo, linguista e gramático madeirense do séc. XX publicou quatro trabalhos: Apontamentos de História da Arte Destinados aos Liceus e Escolas Técnicas (Porto, 1930), Estudos de Lingüística (Porto, 1939), Topónimos e Gentílicos (Porto, 1941 – vol. I e 1943 – vol. II), Questões de Língua Pátria (Lisboa, 1923 – vol. I e 1947 – vol. II).

À relação dos gramáticos devemos acrescentar outras cinco personalidades relevantes do ponto de vista da dialetologia: Abel Marques Caldeira, Emanuel Ribeiro, Fernando Augusto da Silva, Maria de Lourdes de Oliveira Monteiro dos Santos Costa e Adão de Abreu Nunes.

Abel Marques Caldeira nasceu no Funchal a 23 de maio de 1896 e faleceu a 3 de maio de 1964, na mesma cidade. Foi o primeiro jornalista madeirense a usufruir de carteira profissional e foi redator do Jornal da Madeira durante 30 anos.

Entusiasta da aproximação entre os arquipélagos da Madeira e dos Açores, foi o mentor e executor de dois folhetos intitulado “Intercâmbio Insular” e “Notas de Viagem”, um conjunto de crónicas editadas em opúsculo pel’O Açoreano Oriental, denominado “Da Madeira ao Norte de Portugal”.

Além de Falares da Ilha e de alguns contos e outras publicações em jornais e revistas, é o autor de O Funchal no 1.º Quartel do Século XX (1964), obra importante para a descrição da capital madeirense no período compreendido entre 1900 e 1925.

Emanuel Ribeiro nasceu no Porto e residiu durante alguns anos na Madeira, onde exerceu o professorado na Escola Industrial. Da sua vida pouco mais se conhece. Do seu legado, em relação à Madeira, merece destaque o opúsculo “Terra! Terra!”, referente à descoberta do arquipélago, e dois trabalhos na área da linguística: “Palavras do Arquipélago da Madeira”, artigo publicado na Revista Lusitana em 1920, e Palavras do Arquipélago da Madeira (1929).

De Fernando Augusto da Silva há a registar os três volumes do importantíssimo Elucidário Madeirense. Nasceu no Funchal a 29 de setembro de 1863, onde veio a falecer a 19 de outubro de 1949. Da sua vida destaca-se o facto de ter sido padre, além de um reconhecido investigador, professor e escritor. A sua obra mais emblemática no que se refere ao registo de dados da língua falada na Madeira terá sido o Vocabulário Madeirense, publicado em 1950 pela Junta do Distrito do Funchal.

No cômputo geral, dos gramáticos abordados, o P.e Manuel Álvares é o marco mais relevante das personalidades da Madeira ligadas à área da linguística, por ter publicado uma gramática da língua latina adotada por muitas instituições em diversos países, desde o séc. XVI até princípios do séc. XIX. Quanto aos restantes autores, a produção de manuais de apoio, ou gramáticas, decorre das necessidades encontradas no exercício de funções letivas. Os autores que registaram expressões não dicionarizadas em uso no português falado no arquipélago da Madeira merecem referência por terem contribuído para o conhecimento do(s) dialeto(s) do arquipélago, assinalando especificidades desconhecidas do resto do país.

Bibliog. impressa: ANDRADE, Adriano Guerra, Dicionário de Pseudónimos e Iniciais de Escritores Portugueses, Lisboa, Biblioteca Nacional, 1999; ANDRADE, António Alberto Banha de, Dicionário da História da Igreja em Portugal, vol.1, Lisboa, Resistência, 1979; CALDEIRA, Abel Marques, Falares da Ilha: Dicionário da Linguagem Popular Madeirense, 2.ª ed., Funchal, Editorial Eco do Funchal, 1993; CÂMARA, José Bettencourt da, “A Philologia”, O Recreio, Periódico Literário, Publicação Quinzenal dos Alunos do Liceu do Funchal, Funchal, n.º 16 (26 nov. 1863, pp. 122-124), n.º 20 (28 jan. 1864, pp155-156), n.º 25 (13 jul. 1864, pp 194-196); CLODE, Luiz Peter, Registo Bio-Bibliográfico de Madeirenses: Sécs. XIX e XX, Funchal, Caixa Económica do Funchal, 1983; FERNANDES, Rogério, Educação e Ensino Popular na Madeira (Séc. XVIII-1840), Coimbra, s.n., 1992; KEMLER, Rolf, “A Primeira Gramática Impressa na Ilha da Madeira: Os Principios de Grammatica Geral applicados á Lingua Latina (Funchal, 1835)”, Boletín de la Sociedad Española de Historiografía Lingüística, n.º 7, 2010, pp. 41-71; SILVA, António Carvalho, “Apontamentos Sobre Gramáticas Madeirenses (1)”, Islenha, n.º 18, jan.-jun. 1996, pp. 101-109; Id., “Apontamentos Sobre Gramáticas Madeirenses (2)”, Islenha, n.º 19, jul.-dez. 1996, pp. 159-170; Id., “Apontamentos Sobre Gramáticas Madeirenses (3)”, Islenha, n.º 26, jan.-jun. 2000, pp. 68-77; Id., “Apontamentos Sobre Gramáticas Madeirenses (4)”, Islenha, n.º 31, jul.-dez. 2002, pp. 221-231; SILVA, Carlos Manique da, “Da Vontade Unificadora do Estado à Adaptação da Escola Pública às Realidades Locais: o Papel dos Governadores Civis e dos Comissários de Estudos (Anos de 1840-1860)”, Revista da Faculdade de Letras História, vol. 10, série 3, 2009, pp. 151-160; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos de Azevedo de, Elucidário Madeirense, 4.ª ed., 3 vols., Funchal, SREC, 1978; SILVA, Innocencio Francisco da, Diccionario Bibliographico Portuguez, vol. 1, Lisboa, INCM, 1858; digital: “Foreign Chaplaincies: English Church at Madeira”, Project Canterbury: http://anglicanhistory.org/europe/madeira1859.html (acedido a 29 abr. 2013); “João de Nóbrega Soares (1831-1890)”, Blog da Biblioteca Municipal do Funchal, 9 jul. 2008: http://bmfunchal.blogs.sapo.pt/22886.html (acedido a 29 abr. 2013).

Paulo Figueira

(atualizado a 12.08.2016)