hinduísmo

O hinduísmo nasceu na Índia, a partir das escrituras sagradas dos Vedas, que também estão na base da antiga ciência e filosofia de vida do yoga, da religião jaina (o jainismo), do budismo e, mais tarde, também do sikhismo (que surge no Norte da Índia, no século XV, a partir do hinduísmo e do sufismo, que é um ramo do islamismo). Têm em comum a procura da libertação humana através do caminho de união com Deus ou com a consciência una e suprema. O hinduísmo afastou-se do yoga, na medida em que se transformou numa religião teísta, com rituais, cultos e superstições, interpretando o conhecimento das escrituras sagradas que são textos ritualísticos por excelência.

É uma das religiões mais antigas do mundo, o que está bem patente na universalidade da sua estrutura ética e místico-filosófica e pela amplitude do seu código de união e de tolerância, e oferece aos seus fiéis quatro caminhos, margas ou yogas, para a libertação do ser humano na vida terrena. Estes são denominados karma-yoga (o caminho da ação ou das obras), jnana-yoga (o caminho do conhecimento ou do discernimento), bhakti-yoga (o caminho da devoção ou do amor a Deus) e dhyana-yoga (o caminho da meditação ou da contemplação). Trata-se de quatro métodos individuais de autoaperfeiçoamento, que podem ser associados ao sistema de castas, que que, no passado, tinha uma motivação filosófica relacionada com a educação, a preparação e a integração social: a casta dos brâmanes (os sacerdotes e instrutores), a dos kshatriyas (os militares e estadistas), a dos vaishyas (os comerciantes e agricultores) e a dos rudras (os servidores ou artesãos). Esta divisão subsiste na sociedade indiana, mas sem a rigidez de outrora.

Após a compilação dos Vedas, surgiram vários comentários a este texto sagrado, conhecidos como ensinamentos vedantas, que explicavam a sua finalidade e essência. No antigo hinduísmo, ou bramanismo, o conhecimento sagrado dos textos dos Vedas pertencia aos sacerdotes brâmanes, sendo transmitido de pai para filho, dentro da casta. Os ensinamentos dos Vedas, ou vedantas, dizem que, no início, o universo era Brahman (Deus) e que se conhecia apenas a si mesmo como tal. Depois, tornou-se no todo, por isso tudo o que existe é Brahman, ou seja, toda a criação é consciência. Daí o mantra original OM ou AUM, palavra que representa Deus, a unidade inicial da consciência cósmica, semente da criação de tudo o que existe. Por isso, a não-violência, ou ahimsa, é o mais fundamental dos princípios dos hindus, dado que todas as vidas, humanas e não humanas, são sagradas (valor primordial da religião indiana jaina, ou jainismo). Deste modo, os ideais filosóficos-religiosos indianos são: dharma (retitude ou virtude); artha (riqueza); kama (desejos controlados); e moksha (libertação); conduzindo ao estado de sat cit ananda, termo sânscrito que significa existência plena ou autorrealização do ser humano, em que sat está por eternidade, realidade ou existência, cit por consciência infinita e ananda por bem-aventurança ou beatitude, traduzindo o absoluto, o retorno humano à existência una. Esta atitude consciencial pode ser realizada através do estado de buddhi (consciência ou presença que perceciona as verdades subtis), termo que está na origem da denominação de Buda como ser iluminado.

Deus é o Atman, supremo, criador, preservador e modificador, que tem vários nomes e várias formas. Deste modo, o Homem, Deus e tudo o que existe são o mesmo Atman. Entende-se, por isso, a meditação como a necessidade de o Homem mergulhar na totalidade da existência cósmica, libertando-se da matéria, porque só o Atman é verdadeiro ou real, dado que a multiplicidade de manifestações na matéria é ilusão (maya). Desta forma, os conceitos fundamentais do conhecimento védico são: a vida eterna da alma e o princípio cíclico do corpo e de tudo o que existe. É a partir do conceito de bhakti-yoga, ou yoga da devoção, entendido como forma de meditação ou contemplação e união com o Uno (um dos quatro caminhos para a libertação enunciados no Bhagavad-Gita), que surge o movimento Hare Krishna. Os devotos deste movimento mundial pertencem à religião que tem origem na Índia, fazendo parte do contexto muito amplo e diversificado do hinduísmo, que é constituído por múltiplas tradições religiosas. O movimento Hare Krishna está inserido na tradição vaishnava (o vaishnavismo corresponde à linha estritamente monoteísta do hinduísmo). O termo “vaishnava” deriva de “Vixnu”, que significa o aspeto imanente de Deus presente na criação material; os devotos desta religião procuram viver em comunidade e sem objetivos terrenos, tendo como único propósito a transcendência da matéria e a união com o Deus uno. O movimento Hare Krishna surgiu do método desenvolvido por Sri Caitanya Mahaprabhu para restabelecer a conexão com Deus através do canto e da meditação, sobretudo com o “Maha-Mantra Hare Krishna”. Os Hare Krishna são considerados transcendentalistas porque procuram elevação espiritual, enquanto os hinduístas são vistos como materialistas porque aspiram a benefícios materiais. A organização Hare Krishna está presente em Portugal, tendo chegado à Madeira no início da déc. de 1990 (na forma de livros expostos na loja do ervanário Bio-Logos) e tendo, em 1998, dado início à venda de livros, de porta em porta, em todo o arquipélago, bem como na rua João Tavira, no Funchal. Na Madeira, tal como nos Açores, um monge devoto faculta o culto e a prática de meditação, para a elevação da consciência individual até ao estado de consciência de Krishna, ou consciência de Deus, e também palestras, cursos e conferências. Vários sacerdotes e monges do movimento em Portugal continental e no resto do mundo foram à Madeira dar ensinamentos espirituais.

Bibliog.: impressa: Astavakra Gita. O Cântico da Consciência Suprema, Sintra, Publicações Maitreya, 2007; SIVANANDA, Sri Swami, Bhagavad-Gita, Uttar Pradesh, The Divine Life Trust Society, 2000; FRAWLEY, David, Ayurveda and the Mind. The Healing of Consciousness, Delhi, Motilal Banarsidass publishers, 1998; JAIN, Jyoti Prasad, O Jainismo. A mais Antiga Religião Viva, Sintra, Publicações Maitreya, 2006; RANGANATHANANDA, Swami, Vedanta and the Future of Mankind, Kolkata, Advaita Ashrama, 2005; Sri Isopanisad. O Conhecimento Que Nos Aproxima de Deus, Los Angeles, The Bhaktivedanta Book Trust, 2005; WATTS, Alan, OM. A Sílaba Sagrada, Almada, Iman Edições, 2003; VIEIRA, Agostinho e NUNES, Naidea, A Psicologia da Não Mente. Psicologia e Espiritualidade, Lisboa, Editora Minerva, 2010; digital: “Movimento Hare Krishna: histórico, filosofia e informações”, Tradição Vaíshnava: http://www.pswami.com.br/vaishnava/raizes.html (acedido a 15 set. 2016).

Naidea Nunes

(atualizado a 01.02.2018)