hospício da princesa dona maria amélia

O isolamento e a prevenção eram das poucas medidas que se sabia, de facto, em meados do século XIX, serem eficazes no combate à tuberculose, numa altura de total ausência de fármacos e outras medidas úteis de diagnóstico. Os sanatórios tiveram, por isso, um importante papel já que ao receberem doentes, mais do que curar, ajudavam a isolá-los, diminuindo os contágios. Além disso, eram espaços apropriados para que o repouso e a dieta colocassem o organismo em poupança energética e esperava-se que a alimentação e o clima adequados ajudassem as resistências do organismo a curar lesões. Por estes motivos, os sanatórios eram cuidadosamente construídos em locais estratégicos, como aconteceu com o primeiro sanatório em Portugal, construído na Madeira.

Data de 28 de agosto de 1852 a chegada à Madeira da rainha imperatriz D. Amélia (viúva do rei D. Pedro IV de Portugal, também D. Pedro I, imperador do Brasil) e da sua filha, D. Maria Amélia. A princesa estava gravemente doente, suspeitando-se de ter sido contagiada pelo seu pai, que morreu vítima de tuberculose, a 24 de setembro de 1834. Por isso, o médico da família real, António Barral, havia aconselhado uma viagem ao Funchal, onde a princesa deveria passar algum tempo. Por essa altura, o clima da ilha da Madeira era já reconhecido e recomendado, por ser benéfico para o tratamento da tuberculose.

A chegada ao porto do Funchal, a bordo da fragata da marinha de guerra D. Fernando, ficou marcada pela imponente receção dos madeirenses à família real, um momento que, de acordo com a descrição de Silva e Menezes no Elucidário Madeirense, impressionou a imperatriz e a princesa.

A passagem da jovem D. Maria Amélia pela capital madeirense não durou muito (faleceu a 4 de fevereiro de 1853), mas o seu nome acabou por ficar eternamente ligado ao Funchal, onde a sua mãe decidiu mandar construir um asilo hospitalar exclusivamente para tuberculosos. Uma ideia que surgiu em homenagem à memória da filha e também como forma de agradecimento aos madeirenses, justamente pela receção e hospitalidade com que haviam brindado a rainha e a princesa, durante a permanência na Madeira.

Numa altura em que também se arrancava o movimento sanatorial na Alemanha e na Suíça, Dona Amélia dava um passo marcante e pioneiro no Funchal: “ (…) a ideia da construção de um edifício apropriado que, pela sua situação, dimensões, amenidade do local e todos os requesitos de conforto, pudesse satisfazer inteiramente ao fim que tinha em vista nasceu no seu espírito, tomou vulto e dentro de pouco tempo passou a ser uma feliz e eloquente realidade” (Elucidário, VI)

Nos primeiros anos, o hospital funcionou provisoriamente num edifício alugado, na Rua do Castanheiro. A abertura teve lugar a 10 de julho de 1853 e antes de deixar a Madeira, a fundadora rainha D. Amélia visitou todas as instalações e dependências do recinto, deixando os regulamentos e instruções necessárias para o seu devido funcionamento.

A construção do novo edifício contou com o contributo de importantes figuras locais e estrangeiras. A rainha pediu ajuda ao médico António da Luz Pita que, enquanto representante de D. Amélia, comprou o terreno destinado à sua instalação (na atual Avenida D. Infante), interveio na montagem dos serviços e foi o seu primeiro diretor clínico (1853-1870).

O projeto do edifício é da autoria do arquiteto inglês E. B. Lamb, com modificações introduzidas pelo engenheiro e arquiteto madeirense João de Figueiroa de Freitas Albuquerque, que dirigiu toda a obra: “(…) exemplar ainda hoje intacto do que de melhor se fez na arquitetura hospitalar europeia da sua época.” (MATOS, Islenha, p. 8). A primeira pedra foi lançada a 4 de fevereiro de 1856.

Em 1862 chegaram ao arquipélago da Madeira Carlos Francisco Bertrand da Congregação da Missão, primeiro capelão do hospício, e as primeiras Irmãs de Caridade de São Vicente de Paulo, para tratar dos pacientes, conforme indicações precisas da fundadora, a rainha D. Amélia. A 4 de fevereiro desse mesmo ano, nove após a morte da princesa, eram admitidos os primeiros doentes no Hospício que lhe era dedicado.

Estava assim aberto o primeiro sanatório português, destinado ao tratamento de enfermos pulmonares. Recebia gratuitamente pacientes pobres, homens e mulheres. Tinha capacidade para receber 24 pessoas, 12 de cada sexo. Nos primeiros anos, chegaram mais indivíduos entre os 20 e os 30 anos e as senhoras chegavam em maioria.

Este asilo hospitalar não teria só a função de tratar os tuberculosos, mas seria também designado como centro de investigação da tísica pulmonar, procurando-se saber mais informações sobre a doença e ainda o modo como o clima da ilha da Madeira ajudava no tratamento. O corpo médico que ao longo dos anos passou pelo Hospício procurou acatar estes objetivos, no cumprimento da prática clínica. João Francisco de Almada, diretor clínico do Hospício, entre 1907 e 1942, e um dos mais ativos contra a tuberculose, sugeriu a propaganda dos benefícios do clima da Madeira na Revista Portuguesa, já depois de médicos como António Barral e Mourão Pita, também eles figuras determinantes para a fundação e para o funcionamento deste asilo hospitalar, terem publicado estudos científicos que salientavam as favoráveis propriedades climatéricas do arquipélago.

Muitos dos ilustres visitantes da Madeira não deixaram de passar pelo Hospício Princesa D. Amélia, “ (…) estando os livros dos visitantes cheios de nomes de indivíduos de todas as categorias sociais, desde reis e príncipes, de sábios e homens notáveis nas ciências e nas letras, até obscuros marinheiros de navios aportados ao Funchal.” (SILVA e MENEZES, Elucidário, II, p. 255)

A qualidade do edifício era evidente, desde a fachada até ao interior, não tendo sido descurado qualquer pormenor relativo ao cuidado e às acomodações. Entre a construção, destacam-se os alojamentos para as irmãs e outro para os padres, a sala de visita, a Capela de Nossa Senhora das Dores, as respetivas enfermarias feminina e masculina. O edifício possuía inovações, desde o sistema de água quente e fria, até à utilização e um inovador e pioneiro (no país) método de elevador, para mais facilmente transportar comida, loiça e roupa. Outra inovação seria o sistema de campainha, através de fitas atadas aos membros dos presumíveis cadáveres, para dar sinal ao guarda de qualquer movimento, em caso de morte aparente.

A edição da revista Das Artes e da História (1971) faz uma interessante descrição, em pormenor, do Hospício, sem esquecer o espaço exterior. “O Edifício acha-se rodeado de lindos jardins e parque apresentando um ar de grandeza e de attracção para o estabelecimento que circundam. Aqui se encontram altivas arvores indígenas e exóticas, das cinco partes do mundo, causando a admiração dos forasteiros que aportam a esta cidade.” (Das Artes, p. 30)

No que diz respeito à terapêutica, devido à falta de fármacos adequados na altura, os alimentos ocupavam um lugar de destaque e no Hospício eram tomadas todas as precauções necessárias para o cuidado de mantimentos como os caldos, o leite e as carnes, já que deles dependiam em parte o sucesso da terapia, de acordo com o conhecimento da medicina da época.

Quanto à prática clínica, a ausência de informações aprofundadas sobre a doença, impedia que os pacientes recuperassem totalmente. As terapêuticas ministradas pelo corpo clínico ambicionavam sobretudo combater alguns sintomas da doença, como a anorexia, a tosse, a diarreia e a febre. Os métodos aplicados eram essencialmente baseados em modas e tendências da época, como por exemplo através de clisteres, purgas e sangrias, processos muito aplicados naquela época.

O funcionamento do Hospício da Princesa Dona Maria Amélia foi sempre encarado como um exemplo no país e a obra estabelecida pela imperatriz D. Amélia continuou em atividade passado mais de um século: “O Hospício tem podido cumprir sempre os fins que a sua Augusta Fundadora lhe impôs, mercê da solidez dos meios com que o dotou.” (Centenário, p. 3)

A rainha Josefina da Suécia e da Noruega, irmã de D. Amélia, e os reis seus descendentes, deram solícito cumprimento ao legado da imperatriz, cumprindo o seu testamento, tendo em vista a manutenção e o apoio económico ao projeto fundado no Funchal, em homenagem à princesa D. Amélia.

Atualmente, o edifício já não funciona como asilo hospitalar destinado ao tratamento de doentes pulmonares, mas mantém outras valências, também elas previstas naquela altura pela sua fundadora, tendo em vista a ação social enquanto casa de caridade: orfanato, escola (infantário, pré e primeiro ciclo) e lar de idosos. O envolvente espaço exterior, rodeado de imponentes jardins, está aberto ao público e identificado no roteiro de pontos de interesse a visitar no Funchal. O edifício é hoje considerado como Imóvel de Interesse Público.

Bibliog.: Centenário do Hospício da Princeza Dona Maria Amélia, Lisboa 1962; Das Artes e da História da Madeira, n.º 41, Revista de Cultura da Sociedade de Concertos da Madeira, Funchal, 1971, pp. 29-32; Regulamento do Hospício da Princeza Dona Maria Amélia, Gazeta Médica de Lisboa, Lisboa: Imprensa Nacional. Tom o 1, n.º 9 (1853); MATOS, Campos, “Hospício da Princesa Dona Maria Amélia – O primeiro Sanatório Português”, Islenha, n.º 50, Funchal, junho de 2012, pp. 5-22; SILVA, Fernando Augusto e MENESES, Carlos Azevedo, Elucidário Madeirense, Volume II, pp. 249–256.

Ana Londral

Cátia Teles

(atualizado a 22.07.2016)