hospitais

A ideia de construir um hospital na Madeira remonta ao início da colonização da ilha. Uma escritura de 25 de março de 1454 do próprio descobridor João Gonçalves Zarco, com a doação de terrenos para a edificação do novo estabelecimento hospitalar, é um indício desse propósito. A construção do edifício, junto da capela de São Paulo (Rua da Carreira) foi feita à custa do povo, em 1469. O hospital funcionou, aproximadamente, durante quinze anos e foi depois transferido para a freguesia de Santa Maria Maior, onde foi também instituída, em 1508, a Santa Casa da Misericórdia do Funchal, através de Carta de Lei do rei D. Manuel I. Presume-se que o edifício hospitalar tenha sido construído na rua que atualmente é denominada de rua do Hospital Velho.

Hospital de Santa Isabel: Com o objetivo de praticar a solidariedade social cristã, a Misericórdia cuidou dos pobres e enfermos da cidade, bem como dos que ali chegavam através do porto marítimo. O provedor e os Irmãos da Santa Casa solicitavam constantemente melhores condições, alegando a necessidade de mudar a localização do hospital, por este ser muito pequeno, situar-se muito perto da ribeira e ficar “(…) no peor sitio da cidade.” (SILVA e MENEZES, Elucidário, II, p. 702)

A ordem para construir um amplo edifício que satisfizesse as exigências da Misericórdia do Funchal chegou a 22 de julho de 1865. Nos terrenos junto ao Largo da Sé (onde atualmente se encontram algumas secretarias do Governo Regional) foi construído o Hospital de Santa Isabel. As obras avançaram com lentidão e a transferência dos doentes foi feita de acordo com a evolução das condições. O novo edifício da Misericórdia só ficou definitivamente em funcionamento a partir de 1726.

Ao longo dos tempos, aquele espaço foi adaptado não só para tratar dos doentes, mas também para receber todos os que necessitassem de ajuda, tendo ainda nascido ali a igreja, a casa dos Alienados, o Recolhimento das Órfãs e a Enfermaria Britânica. Esta enfermaria, dedicada ao tratamento dos ingleses que chegavam à ilha, veio a dar lugar, em 1837, às instalações da Escola Médico-Cirúrgica do Funchal, que funcionava anexa ao Hospital.

O estabelecimento hospitalar obedecia ao Regimento ou Regulamento do Hospital Real de Santa Isabel da Cidade do Funchal, elaborado pelo provedor Joaquim de Meneses e Athaide, confirmado por provisão régia em 1819. Dizia o regulamento que o hospital deveria ter enfermarias separadas, conforme as diferentes doenças e devidamente batizadas com nomes de santos. Enumerava as roupas, os móveis e os utensílios necessários aos doentes, ditava o protocolo de receção dos pacientes, mesmo que chegassem fora de horas e durante a noite. Como curiosidade, refira-se que havia também regras para as mulheres grávidas que quisessem ter os filhos de forma oculta. Estas deviam trazer a cara coberta, para não serem identificadas e assim permaneciam durante o tempo que ali ficassem, não sendo nunca obrigadas a uma identificação. O regulamento ditava ainda as regras para os capelões, médicos, cirurgiões, boticários, praticantes, enfermeiros e serventes, para as visitas aos doentes, alimentação, administração, contador fiscal e provedor. Do documento consta também um capítulo dedicado aos ordenados.

Ao longo de mais de dois séculos de funcionamento, a forma de administrar o hospital nem sempre agradou a todos os que por ali passavam. Há registos de cartas e relatórios a dar conta de aspetos negativos: a falta de asseio das enfermarias, a má condição dos utensílios na farmácia, a falta de condições dos medicamentos, alguns sem rótulos, outros com letra ilegível: “(…) uma botica n’ este estado serve apenas para representar a máxima incúria e imprevidência das administrações.” (RAMOS, p. 62)

Há ainda relatos contraditórios sobre as condições do Hospital de Santa Isabel. Algumas crónicas descrevem um edifício com “(…) amplas, desafogadas e bem ventiladas enfermarias, e que para a época em que foi erigido se podia considerar um dos melhores do país (…)”, mas há igualmente referência a críticas publicadas na imprensa da época, aludindo às “(…) péssimas condições higiénicas do hospital, da má situação em que se encontra o respectivo edifício e da sua insuficiente capacidade para a regular acomodação de todos os serviços hospitalares (…).” (SILVA e MENEZES, Elucidário, II, p. 704)

No século XX, os sinais de degradação do hospital eram já evidentes e bem conhecidos da população madeirense, que muitas vezes como sinal de repugnância, procurava tardiamente os tratamentos. A cedência do Hospital dos Marmeleiros, em 1928, à Santa Casa da Misericórdia do Funchal, foi a solução encontrada para resolver a situação da falta de condições do Hospital de Santa Isabel. Em 1930, os pacientes começaram a ser transferidos para o novo estabelecimento hospitalar, situado no Monte.

O imóvel onde funcionou, durante mais de 200 anos, o Hospital de Santa Isabel foi cedido, em 1933, para a instalação da Junta Geral do Distrito.

Hospitais rurais: Fundaram-se também, no século XVI, confrarias da Misericórdia nas vilas da Calheta, Machico, Santa Cruz e Porto Santo. No cumprimento da sua missão de caridade, todas prestavam auxílio a pobres, doentes e inválidos, mas nem todas tinham dependências hospitalares.

A Santa Casa da Misericórdia de Santa Cruz era exceção, naquela altura. Possuía um edifício com excelentes condições e, perante as enfermidades da época, criou um hospital com amplas enfermarias, sala para farmácia, quartos, casas de banho, casas de desinfeção e mortuária: “(…) serviços de hospitalização a enfermos pobres, em razoáveis condições de conforto, o que se não da em nenhum outro concelho rural do distrito.” (SILVA e MENEZES, Elucidário, II, p. 718)

Mais tarde, surgiram outros hospitais rurais na Madeira, mas com caráter temporário. Em 1856, a Santa Casa da Misericórdia de Machico arrendou um prédio para a instalação de um hospital, que desempenhou um importante papel na epidemia colérica e foi extinto em 1862. Casos idênticos surgiram na Ribeira Brava e na Ponta do Sol. A maioria funcionava em condições precárias e todos necessitavam de melhores recursos para prestar socorro aos doentes.

Hospital de São Lázaro: A construção do Hospital de São Lázaro remonta ao século XV. Ficava no sítio de Santa Catarina e era assim chamado porque servia, sobretudo, para receber todos os indivíduos com lepra, doença também conhecida por mal de São Lázaro. Por ordem da Câmara Municipal, todos os que padecessem da doença deveriam usar uma tableta nas ruas, para então serem identificados e encaminhados ao hospital.

Devido ao aumento do número de casos, foi construída uma nova gafaria, ou seja, um local de isolamento para os leprosos. Para o efeito, procedeu-se à ampliação do hospital já existente, com a ajuda de donativos de vários moradores no Funchal. A Câmara fornecia directamente o alimento dos doentes do Hospital de São Lázaro.

Segundo registos de alguns médicos, o estabelecimento servia para o propósito que foi criado: “(…) ali acham casa, cama, alimento, assistência de facultativo e remédios. O edifício como objecto de arte, a pesar de ter sido de seu princípio, destinado para este fim, é de péssima e insignificante construcção. É bem ventilado porque sempre é possível ter as janellas, ainda que pequenas, abertas, e reune as principais condições de salubridade.” (SILVA e MENEZES, Elucidário, II, p. 257)

A 5 de junho de 1912 a Câmara do Funchal extinguiu o hospital de São Lázaro, que naquela altura só tinha quatro doentes. No ano seguinte, deliberou-se que a Cadeia Civil fosse instalada no edifício do extinto hospital.

Hospital militar: Quando os elementos da guarnição militar da Madeira adoeciam, eram recolhidos no Hospital de Santa Isabel. Porém, a Misericórdia queixava-se da falta de recursos para manter uma enfermaria destinada especialmente aos militares e apontou para a necessidade de se construir um pequeno hospital independente e sujeito apenas às autoridades militares do Funchal. Surgiu assim a proposta para o Hospital Militar, que foi construído no início do século XIX. Sabe-se que foi criado no período decorrido entre 1820-1824: “Consta que foi primeiramente instalado num prédio urbano situado na rua do Castanheiro, conhecido pelo nome de Casa de D. Guiomar (…) onde não teve uma larga permanência, passando depois a funcionar numa casa á rua das Mercês.” (SILVA e MENEZES, Elucidário, II, p. 261)

Em 1849, uma portaria autorizou a mudança do hospital para uma casa da rua da Rochinha de Baixo, onde funcionou até 1938. Depois, as autoridades entenderam que as diversas dependências do Hospital Militar eram mais indicadas para instalar o liceu do Funchal. O internamento dos militares passou a ser feito novamente nas dependências do hospital da Misericórdia, agora a funcionar nos Marmeleiros.

Hospital do Marmeleiros: A 24 de junho de 1905 iniciou-se a construção do sanatório dos pobres, nos Marmeleiros (Monte). Este edifício hospitalar era destinado a indigentes, como contrapartida da concessão de exploração de sanatórios a um sindicato alemão (Sanatórios), numa altura em que a Madeira era procurada como estância de turismo terapêutico, para tratamento da tuberculose. Devido a problemas com os alemães, o hospital foi cedido à Misericórdia do Funchal, em 1928. Os primeiros doentes eram admitidos em 1930, transferidos do Hospital de Santa Isabel.

Já sob a administração da Santa Casa, procedeu-se à conclusão do edifício, que se tornou numa das primeiras casas hospitalares do país, com instalações apropriadas para os doentes e pela administração de todos os serviços clínicos e de enfermagem. Mas com o passar do tempo e com o número crescente de doentes, as instalações tornaram-se insuficientes. Das novas obras de ampliação do edifício, inauguradas em 1940, resultaram novas enfermarias para acomodar mais 120 doentes; mais três salas de operações, amplas e bem equipadas; a canalização de águas e de esgotos; e melhores condições para os trabalhos de secretaria e de administração.

Hospital Dr. Nélio Mendonça: O Hospital dos Marmeleiros era a única unidade hospitalar em meados do século XX. Com o passar do tempo, as instalações e os serviços já não eram suficientes para uma população que estava a crescer e que precisava de melhores cuidados de saúde. Assim, surgiu a necessidade de se construir um novo edifício, mais central, com maiores e melhores instalações e equipamentos mais modernos. O Hospital Cruz de Carvalho foi inaugurado a 9 de setembro de 1973, com capacidade para 526 camas.

Depois da construção do novo hospital, os Marmeleiros passariam a ser conhecidos popularmente como “hospital velho”, em oposição ao “hospital novo” que passaria a centralizar os serviços de Saúde no Funchal. São os dois únicos hospitais existentes na Madeira. Passaram a designar-se, a partir de 2003, por Hospital Central do Funchal. Integram o Serviço Regional de Saúde, EPE, criado pelo Decreto Legislativo Regional nº 9/2003/M de 27 de Maio.

Na última década, o Governo Regional explorou a decisão de construir um novo hospital no Funchal, para oferecer melhores condições de trabalho aos profissionais e de assistência aos utentes. Em 2007 foi anunciada a construção na zona de Santa Rita. Porém, devido a problemas financeiros, o Executivo preferiu, em 2011, recuar no projeto e optou por aumentar as atuais instalações, que já têm sido alvo de obras de remodelação e ampliação. Por deliberação do Conselho de Governo no dia 4 de Setembro de 2009 o Hospital Cruz de Carvalho passou a designar-se Hospital Dr. Nélio Mendonça, em homenagem ao fundador e inspirador do Serviço de Saúde da Madeira.

Neste estabelecimento é possível tratar mais de 30 especialidades médicas. Já o Hospital dos Marmeleiros recebe apenas os serviços de doenças infeciosas, endocrinologia, imagiologia, psiquiatria, medicina interna e pneumologia. Ambos oferecem condições de internamento, hospital de dia, consultas externas e serviço de urgência.

Bibliog.: Arquivo Histórico da Madeira, Vol. I, pp. 107-11; RAMOS, Accurcio Garcia, Ilha da Madeira, Tomo II, Lisboa, 1879, pp. 57-124; Regimento ou Regulamento do Hospital Real de Santa Isabel da Cidade do Funchal Ilha da Madeira, ano 1816; SILVA, Fernando Augusto e MENESES, Carlos Azevedo, Elucidário Madeirense, vols. I e II; VERÍSSIMO, Nelson, “A questão dos sanatórios da Madeira”, Islenha, n.º 6, Funchal, 1990, pp. 124-143; Sobre o SESARAM http://www.sesaram.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=7&Itemid=10 (acedido a 24 de fevereiro de 2015)

 Cátia Teles

(atualizado a 22.07.2016)