igreja anglicana

Armas da Igreja Inglesa da Madeira
Armas da Igreja Inglesa da Madeira

A ideia de levantar um templo anglicano devia datar dos finais do séc. XVII, a avaliar pelas queixas do reverendo John Ovington (1653-1731), na sua “Voyage to Surrat in the year 1689”, que a igreja católica perseguia os protestantes (ARAGÃO, 1982, 205), mas o isolamento da comunidade dos comerciantes britânicos e o pormenor de muito poucos acabarem os seus dias na ilha, foi adiando o assunto. Com o aumento da comunidade ao longo do séc. XVIII o assunto teria voltado a equacionar-se, mas não foi além de conseguirem adquirir um terreno para a construção do seu cemitério  e, o que é mais interessante, através do padre José Joaquim Teixeira, do Estreito de Câmara de Lobos (ARM, CMF, T11, 113-122v.). Com as ocupações inglesas, especialmente a de 1808 a 1814, tendo as forças militares permanecido no Funchal todos aqueles anos e, nos últimos, com forças de veteranos e com as respetivas famílias, o assunto voltou à ordem do dia. As forças britânicas foram aquarteladas no antigo edifício do colégio dos jesuítas e no convento da Encarnação, vindo a celebrar ali os seus serviços religiosos e que, tendo entretanto a soberania sobre a Madeira sido devolvida à coroa portuguesa, houve que legalizar a situação.

Foi nessa sequência que a comunidade anglicana voltou a solicitar a construção de uma igreja específica para as suas celebrações, apresentando em 1813 uma proposta, cujo “risco” seguiu para o Rio de Janeiro em abril desse ano, “para ser aprovada pelo nosso Adorado Soberano”, como refere o governador (ARM, GC, 516, 79 e 198, 91; AHU, Madeira, 12405-12408).

Igreja Inglesa
Igreja Inglesa

A feitoria inglesa já adquirira um terreno à Rua da Bela Vista em 1810, às freiras de Santa Clara, por 5.435 dólares (SILVA e MENESES, II, 1998, 136) e ainda haveria de adquirir mais uma parcela, então por 840, pelo que a autorização da corte no Brasil, datada de 20 de junho desse ano, para a “construção do edifício para a Nação Britânica fazer os seus ritos” foi quase imediata, censurando-se, inclusivamente que tal “já deveria ter sido outorgado, não se devendo ter colocado os entraves que se colocaram”. Em outro ofício da mesma data, a corte do Rio de Janeiro, enquanto se não fizesse a citada construção, autorizava a concessão do coro de baixo do convento da Encarnação para os Ingleses fazerem os seus ritos “como o falecido bispo já autorizara” (ARM, 200, 5-6) e, pelos vistos já deveria ocorrer desde que ali estavam. Também na mesma data, o então bispo vigário apostólico, D. Fr. Joaquim de Meneses e Ataíde (1765-1828) autorizava que os ingleses celebrassem o seu culto na igreja do Colégio (AHU, ib., 12420-1247), o que igualmente, por certo já acontecia.

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Devem ter surgido dificuldades várias com a construção e, em 19 de agosto de 1819, o governador Sebastião Xavier Botelho (1768-1840) logo nos primeiros dias do seu governo enviava para o Rio de Janeiro novamente outra planta da igreja anglicana, informando que já se encontrava em construção. Acrescenta o governador que o “frontispício não é de templo” como se usa no rito católico e não tem torre, nem sino, que anunciem a sua Religião. Mandei tirar a planta que envio” (ARM, 200, 5-6), embora não conste em nenhum arquivo português, ao que saibamos, qualquer planta. A primeira pedra teria assim sido lançada em 1819, constando na tradição que nas fundações foram lançadas as moedas de ouro que o ex-imperador Napoleão Bonaparte enviara da nau “Northumberland”, como retribuição, a 23 de agosto de 1815, ao cônsul britânico Henry Gordon Veitch (1782-1857), pela oferta de livros, frutas e de uma pipa de vinho. O edifício encontrava-se pronto, em linhas gerais, em março de 1822, data da primeira missa ali celebrada. Contribuíram depois para a construção para além do cônsul Henry Veitch, o rei Jorge III, o duque de Wellington, lord Nelson, duque de Bedford e depois ainda o rei Leopoldo I da Bélgica.

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O edifício levantado, depois sagrado como igreja da Santíssima Trindade, “The Holy and Undivided Trinity”, apresenta planta quadrada, centralizada, coberta por telhado de 4 águas de telha de canudo e zimbório, ligeiramente avançado para oeste, assente em tambor, rasgado por 8 janelas em meia laranja, com grade envidraçada em forma de leque e cobertura em “folha-de-flandres”, de domo bastante abatido. As fachadas são rebocadas e percorridas por embasamento pintado a vermelho, rematadas por friso denteado, cornija pintada de vermelho, interrompida regularmente por gárgulas em carrancas, e platibanda com friso superior também pintado a vermelho. A fachada principal apresenta 3 corpos, com o corpo central em galilé, acedida por 3 degraus de cantaria cinzenta, suportada por pilastras laterais e duplas colunas jónicas, com arquitrave também em cantaria do Porto Santo.

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Trata-se assim do primeiro edifício perfeito e assumidamente neoclássico levantado na ilha da Madeira. Segundo escreveu o cônsul Veitch, o aspeto exterior do templo, mais parecendo uma biblioteca ou uma câmara, foi devido ao conselho de um dos advogados do Funchal, no sentido de não ferir suscetibilidades à população católica. Também segundo o mesmo, o desenho da igreja foi feito pelo próprio, inspirando-se no templo do Santo Sepulcro de Jerusalém, o que não resiste a qualquer análise, pois ninguém sabe como era o mítico de Jerusalém.

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Trata-se de um projeto, por certo enviado de Inglaterra, da autoria de um arquiteto da época e que foi seguido à risca no Funchal, pois pelos edifícios dirigidos pelo cônsul Henry Veitch: quer o da Quinta do Calaça, hoje sede do Clube Naval, da quinta do Jardim da Serra ou quer o da sua última residência, hoje sede do Instituto do Vinho da Madeira, o cônsul não tinha conhecimentos de arquitetura para o que ali foi construído.

A primeira representação iconográfica que conhecemos é do pintor William Samuel Pitt Springett (1818-1870) (ìPitt-Springett), editada em 1843 e dedicada à irmã, Geo Stoddart, esposa do então cônsul britânico (PITT-SPRINGETT, 1843, XVI), que se limita a informar que era então padre da mesma o reverendo Richard Thomas Lowe (1802-1874), depois um dos mais célebres naturalistas do seu tempo. O reverendo Lowe seria afastado pouco tempo depois da igreja anglicana, em 1848, envolvido num cisma relacionado com uma certa aproximação ao culto católico e de que faz eco a atenta inglesa Isabella de França, sendo substituído pelo reverendo Thomas Kenworth Brown e montando então os seus serviços religiosos no Beco dos Aranhas, no célebre solar de D. Mécia (Arquitetura senhorial). Isabella de França refere mesmo ter assistido a um funeral a sair da capela do Beco dos Aranhas, em que o reverendo anglicano, “de sobrepeliz branca e barrete como o dos católicos, ia adiante do caixão numa espécie de passo de dança, e levava um livro com uma cruz grande e dourada na capa, que ele ostensivamente exibia, segurando-o com ambas as mãos junto do peito”. Refere ainda a escritora que nessa ocasião estava com ela e o marido um “cavalheiro português educado em Inglaterra”, que exclamara: “Ora aí têm uma paródia ao papismo” (FRANÇA, 1970, 60-61).

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O interior da igreja terá passado por várias campanhas de obras, mas que não devem ter alterado especialmente o projeto inicial, onde o vão central foi dotado de uma galeria, assente em 16 pilastras, embebidas na parede e colunas jónicas pintadas a marmoreado muito suave, que transforma o espaço quadrangular em circular, ressalvando a capela-mor, com duplo arco de volta perfeita, ladeada por púlpito em madeira e atril de águia. A cobertura é em cúpula apoiada sobre trompas de ângulo, com tambor com trabalhos de estuque, pintura a marmoreado e moldura dos vãos em denteados. A cúpula é pintada em “tromp l’oeil”, com flores inseridas em molduras geométricas, que lhe conferem grande profundidade e, ao centro, símbolo da Santíssima Trindade, como “o olho de Deus”, “que tudo vê”, igualmente um símbolo maçónico.

08-AltarAs paredes encontram-se pintadas com palmeiras sobre fundo dourado, neorrenascentista, que pensamos já datar dos finais do séc. XIX, dentro do ao gosto pré-rafaelista. A igreja encontra-se assim decorada dentro da austeridade anglicana, preenchida por bancos corridos com pequeno apontamento de talha para o corredor central e dotada de uma importante coleção de pequenas almofadas de ajoelhar bordadas. As paredes apresentam-se preenchidas com várias lápides e placas evocativas da passagem pelo templo de vários dignatários anglicanos. Também na entrada existe uma listagem dos presbíteros anglicanos que passaram pela Madeira desde a ocupação inglesa dos inícios do Séc. 19, em 2 quadros negros colocados sobre as portas laterais da galilé.07-Interior_altar

A igreja tem sido alvo de inúmeras doações e aquisições, como devem ser o caso das 3 belas cadeiras ao gosto “Queen Anne”, com espaldar de couro lavrado com as armas da família Ornelas e Vasconcelos, por certo adquiridas na década de 50 do séc. XX, quando do leilão de parte do espólio desta família e onde igualmente o governo civil adquiriu diverso mobiliário (Palácio e fortaleza de S. Lourenço). A 8 de novembro de 1939, por exemplo, George Walter ofereceu à igreja um órgão executado em Borwicks, Londres, em 1889, por encomenda do seu pai Michael Grabham (1866-1938 ). Em 1974, também foi oferecido à igreja pelo marido e pelo irmão o piano de Mrs. Gwendoline Rae Short, organista do templo, falecida a 17 de novembro desse ano.09-orgao

O parque arbóreo que rodei a igreja anglicana da Santíssima Trindade é de grande qualidade (VIEIRA e PESSOA, 1966 e 1984, nº 92) e tem merecido um muito especial cuidado, aliás patente na colocação de uma placa de homenagem à entrada, “to the glory of God”, ao jardineiro João de Almada, M.B.E., responsável pelo cemitério e igreja desde 1949 e falecido a 6 de julho de 1997.

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Nos inícios do séc. XX fez-se reformulação da casa do presbítero e, em 1973, foi ali inaugurado um busto da rainha D. Filipa de Lancastre (1373-1415), mandado executar a pedido da comunidade britânica local para comemorar o sexto centenário da Aliança Luso-Britânica (1373-1973), escultura do mestre Pedro Augusto Franco dos Anjos Teixeira (1908-1997) (VERÍSSIMO e SAINZ-TRUEVA, 1996, 28).

Bibliog. manuscritos: Arquivo Histórico Ultramarino, Madeira e Porto, 12405-12408 e 12420-1247; Arquivo Regional da Madeira, Governo Civil, 198, 200 e 516; Câmara Municipal do Funchal, Registo Geral, tomo 11; impressa: ARAGÃO, António, A Madeira vista por Estrangeiros (coord. e notas), Funchal, DRAC, 1982; CANNE, Ellen e Florence du, The Flowers and Gardens of Madeira, Londres, 1904 e 1909; CARITA, Rui, História da Madeira, 7.º vol., O longo século XIX (1834-1910), Funchal, SREC e Universidade da Madeira, projeto CHRONOS, 2008; CARITA, Rui e TRUEVA-SAINZ, José Manuel de, Roteiro Histórico e Cultural da Cidade, Funchal, 1997; FRANÇA, Isabella de, Jornal de uma visita à Madeira e a Portugal, 1853-1854, com notas de Cabral do Nascimento e João dos Santos Simões, Funchal, Junta Geral do Distrito, 1970; NEWELL, Lieut.-coronel Herbert Andrews, The English Church in Madeira now The Churck of The Holy and Undivided Trinity, Oxford, University Press, 1931; OVINGTON, John, Voyage to Surrat in the year 1689, Londres, Jacb Tonson, 1696; SILVA, Padre Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, 4ª ed., vol. II, Funchal, SREC, 1978; PITT-SPRINGETT, William Samuel, Reccollection of Madeira, Dedicated to Mrs. Geo Stoddart, litografias de Thomas Picken, Londres (1843); VIEIRA, Rui e PESSOA, Fernando, Inquérito aos espaços verdes e exemplares botânicos notáveis do Funchal, Nov. 1966 e 1984 ( nº 92 ); VERÍSSIMO, Nelson e SAINZ-TRUEVA, José Manuel de, Inventário das Esculturas da Região Autónoma da Madeira, Funchal, DRAC, 1996, p. 28;

Rui Carita

(atualizado a 23.09.2015)