igreja presbiteriana na madeira

I- A Madeira, seja pela sua situação geográfica, seja pelo seu clima ameno, seja pela importância das suas produções de açúcar e vinho, sempre atraiu muitos estrangeiros, sobretudo ingleses e escoceses, que aí se fixaram, chegando o Reino Unido, no primeiro quartel do séc. XIX, por duas vezes, a ocupar militarmente a ilha. A sociedade inglesa conheceu nos sécs. XVIII e XIX um enorme despertamento religioso, com surgimento de novas formas de culto, novas expressões da fé e até de novas denominações religiosas. A vontade de difundir o evangelho, fazendo chegar a palavra divina a todo o ser humano, fez surgir as sociedades missionárias, nomeadamente a Sociedade Missionaria de Londres (hoje Conselho de Missões Mundiais), em 1795, e a Sociedade Bíblica Britânica e Estrangeira, em 1804. Esta começou em 1808 a publicar em português o Novo Testamento na tradução de Ferreira de Almeida, tendo distribuído 20.000 exemplares na Madeira, conforme refere Luís Aguiar Santos (AZEVEDO, vol. 3, p.448). Essa distribuição de Bíblias foi feita pelo agente local da Sociedade Bíblica e pelos soldados britânicos que ocuparam a Madeira entre dezembro de 1807 e outubro de 1814.

A Igreja da Escócia (The Kirk), fundada por John Knox, discípulo de João Calvino, era Igreja de Estado por Ato do Parlamento desde 1560. Em 1712 fora aprovada uma lei que permitia à Coroa e a certos senhores terratenentes nomear os pastores das congregações locais. Esta lei (que só foi revogada em 1874) causou muitos problemas ao longo de dois séculos, à medida que crescia a consciência de que era a paróquia que devia escolher e nomear os seus ministros, de que a fé era individual e de que o plano de salvação o era também. Estas questões estiveram na base da chamada “Disruption”, isto é, da grande cisão que em 1843 fez nascer a Igreja Livre da Escócia, afastando da The Kirk um terço dos seus membros e dos seus pastores. A visão das relações Igreja/Estado defendida pela Igreja Livre da Escócia, inspirada no pensamento de Thomas Chalmers (1780-1847), que se torna o primeiro presidente da assembleia geral da Igreja Livre, afirma uma posição de independência face ao Estado, visão que era comum a uma grande maioria de escoceses e a outras confissões religiosas britânicas, centrando a história da salvação na opção pessoal e recusando uma visão regalista e de conveniência politico ou diplomática da fé. Esta visão representava uma tendência já centenária entre os presbiterianos escoceses e entre todas as igrejas livres de matriz anglo-saxónica. Isso explica a razão por que os escoceses da Igreja Livre da Escócia se sentiam à vontade para evangelizar um povo católico, sem ter em conta as preocupações políticas que outras confissões de Estado, como era o caso da anglicana, sustentavam.

Igreja Escocesa do Funchal, ao Jardim Municipal
Igreja Escocesa do Funchal, ao Jardim Municipal

Com efeito, na Madeira existia desde 1822 uma capelania anglicana, que tinha um templo na Rua da Bela Vista e que assistia toda a comunidade inglesa e escocesa sem nunca se imiscuir nos assuntos religiosos internos portugueses e sem procurar fazer conversões. E a mesma posição tinha no continente a capelania luterana alemã. Por outro lado, parece que a “The Kirk”, em resposta ao número de escoceses residentes na Ilha da Madeira, abrira em 1842 uma casa de cultos na Travessa do Surdo (SILVA, vol. II p.136) e só mais tarde, já pela Igreja Livre da Escócia, é adquirido o terreno e construído o atual edifício na Rua do Conselheiro, junto ao Jardim Municipal.

Igreja Escocesa no Funchal, também chamada Igreja Central
Igreja Escocesa no Funchal, também chamada Igreja Central

II- A primeira comunidade não católica portuguesa a surgir em território nacional é a Igreja Presbiteriana na Madeira, fruto do trabalho de Robert Reid Kalley (1809-1888).

Robert R. Kalley, médico escocês, que aporta na Madeira por motivos de saúde de sua esposa em outubro de 1838, partilha já das ideias que iriam dar origem à Igreja Livre da Escócia e cedo se decide a anunciar o Evangelho aos madeirenses. Na Madeira funda escolas primárias com o fito de ensinar a ler a Bíblia em português, que aliás era o livro de texto desses estabelecimentos, cria um pequeno hospital, prega o Evangelho, traduz e escreve hinos e organiza em 8 de maio de 1845 a primeira comunidade presbiteriana portuguesa a qual ordena presbíteros e diáconos, um dos quais António Joaquim de Mattos, que 20 anos depois voltaria à Madeira como pastor (VALENTE, p. 478). Em 1843 iniciam-se as perseguições com o encerramento das escolas abertas por Kalley, com proibição de que Kalley falasse sobre assuntos de religião, com a prisão de Kalley por cinco meses e com a intimação, perseguição e prisão dos protestantes madeirenses, uma das quais, Maria Joaquina Alves, foi presa e condenada à morte por apostasia, heresia e blasfémia. A sentença só não foi executada porque o Tribunal da Relação de Lisboa a revogou. Mesmo assim Maria Joaquina ficou presa cerca de dois anos.

Kalley em 1842 (Centro Memória Vida Igreja Fluminense)
Kalley em 1842 (Centro Memória Vida Igreja Fluminense)

As perseguições atingem o seu auge em 9 agosto de 1846, data em que as forças católicas romanas estavam determinadas a acabar com o calvinismo da Madeira. Nesse dia, “o dia de S. Bartolomeu madeirense”, sob a orientação do cónego Carlos Telles de Meneses, e com a aquiescência do bispo católico romano e do Governador Civil Domingos Azevedo, a casa de Kalley é assaltada, a sua biblioteca queimada e os crentes madeirenses procurados em suas casas, espancados, perseguidos e presos. Kalley e mais de milhar e meio de protestantes logram escapar a esta perseguição e fugir da ilha da Madeira em barcos ingleses (no “William” fugiram 200 pessoas, no “Lord Seaton” 500, e muitas outras noutros barcos em Agosto, Setembro e Outubro de 1846) (TESTA, p.44). Nas semanas seguintes à fuga de Kalley as perseguições continuaram por todo o lado, sendo os chamados “calvinistas” ou “kalleistas”, ou os de tal suspeitos, procurados em suas casas, arrombadas as suas portas, queimadas as suas Bíblias, agredidos com violência, chegando até os perpetradores das perseguições a mutilar e matar um suspeito de protestantismo, o Sr. António Martins, de S. Roque (TESTA, p. 43). A posse de Bíblias era um dos indicadores da pertença ao movimento presbiteriano, pelo que as Bíblias tiveram de ser escondidas sob pena dos seus possuidores serem molestados e presos (MADEIRA NOVA, 1 de Outubro de 1938) . Uma dessas Bíblias está hoje exposta na Igreja Escocesa (Igreja Presbiteriana Central do Funchal), ao Jardim Municipal. Noutros casos, eram os suspeitos de calvinismo presos e julgados sem qualquer garantia de defesa, e excomungados pela igreja católica romana com a habitual cominação: “Que ninguém lhes dê lume, agua ou pão ou qualquer outra coisa que venham a necessitar. E ninguém pague o que lhes deve”.

Pastores Presentes na reunião da união entre as Igrejas presbiterianas da Madeira, Açores e continente
Pastores Presentes na reunião da união entre as Igrejas presbiterianas da Madeira, Açores e continente

As primeiras vítimas de excomunhão foram Nicolau Tolentino Vieira e Francisco Pires Soares, que tiveram de se esconder durante um ano nas serras (TESTA, p.30), e muitas outras se seguiram. Esta decisão eclesiástica sumária, e sem contraditório nem recurso, criou muitos problemas aos protestantes. Procurava-se, assim, erradicar os presbiterianos e o presbiterianismo da Madeira.

III- O bispo da Madeira à época, D. José Xavier de Cerdeira e Sousa, em carta pastoral de 30/10/1846 publicado num jornal da Madeira, pede que todos juntem as suas preces às da Igreja Católica Romana, em ação de graças, por se ter libertado o povo da Madeira da heresia propagada pelo “Lobo da Escócia” (TESTA, p.54). No entanto, estava errada a conclusão do Bispo do Funchal, uma vez que a “heresia” continuou e muitos protestantes ficaram na ilha e mantiveram a sua fé, continuando secretamente os serviços religiosos e o estudo da Bíblia. Na verdade há poucas informações relativas ao período entre 1846 e 1875, mas numa pastoral do novo Bispo do Funchal, que em 1849 sucedera ao anteriormente referido, escreve-se: “Os erros …… ensinados …. pelo Doutor Roberto Kalley ….. ainda agora são por algumas pessoas sustentados com pertinácia, e transmitidos às suas famílias …” (MANSO, p.1) . Com efeito, em 1853, um grupo de mil emigrantes vindos da Madeira chega a Illinois, nos Estados Unidos, afirmando à chegada serem de religião protestantes (TESTA, p.54) e em 1854 aporta no Funchal a barca “Nacooche” para levar mais “kalleistas” (MOREIRA, p. 194). Nessa época há notícia da intervenção do então Governador Civil José Silvestre Ribeiro contra um Sr. Wilkinson, que evangelizava no Machico (SILVA, vol. III, p.158). Sabe-se também que em 1855 o médico escocês Dr. Miller, casado com Jane Kalley, irmã de Robert, terá tentado reatar o trabalho evangelístico na Madeira e publica dois opúsculos. (ALMEIDA, vol. III, p. 352).

Alguns dos Participantes do II Congresso Evangélico na Madeira (1957)
Alguns dos Participantes do II Congresso Evangélico na Madeira (1957)

Os presbiterianos madeirenses mantinham comunidades clandestinas no Funchal, mas também nas outras áreas em que Kalley tinha evangelizado, no Santo da Serra, Machico, S. Roque e Santo António (SILVA, vol. III, p.157). No Serrado das Ameixeiras (Santo da Serra), havia um edifício a que chamavam “casa de oração”, ou “casa do Ti Baptista”, que era um centro de encontro clandestino dos protestantes, onde se lia e explicava a Bíblia (GOUVEIA, p. 98). Entretanto, a colonia escocesa, que tem a sua própria capelania ligada à Igreja Livre da Escócia, continua, muito discretamente, a apoiar os protestantes convertidos por Kalley. Neste período encontram-se nos arquivos de comungantes da capelania escocesa no Funchal quatro apelidos portugueses (TESTA, p.55). No Funchal, o Rev. Robert Angus, capelão escocês, reinicia um trabalho com os portugueses, público mas discreto, e que está na origem do regresso à Madeira do primeiro pastor português.

Interior da Igreja Escocesa
Interior da Igreja Escocesa

IV – Em inícios de 1875, devido aos esforços do referido Rev. Robert Angus, chega do continente para dirigir a Igreja da Madeira o pastor António Joaquim de Mattos (1822-1891), convertido por Kalley, que fora estudar Teologia na Escócia, fora pastor das comunidades presbiterianas portuguesas em Jacksonville e Springfield e, desde 1870, na comunidade presbiteriana de Lisboa. Em Janeiro de 1876 Mattos escreve a Kalley pedindo que este lhe envie livros de cânticos (“Salmos e Hinos”) e explica que muitas pessoas na Madeira ainda se lembram dos cânticos antigos. Angus, por seu lado, escreve para a Comissão Continental da Igreja Livre da Escócia dizendo que com o trabalho de Mattos a assistência às pregações tinham passado de 40 para 70 e depois para 120 pessoas (LANGUM, p.116). A visibilidade do trabalho deste obreiro volta a trazer problemas e voltam as perseguições e ataques ferozes dos prelados católicos e da imprensa, nomeadamente do periódico “O Popular”. Mattos, que tinha nacionalidade americana, pede a ajuda do Consulado, mas sem êxito. É intimidado e é preso em novembro de 1876, libertado sob caução de $60, e proibido de pregar (LANGUM, p.122). Porém, o trabalho não vai morrer, e muitos obreiros emprestam ao longo do tempo o seu esforço à animação e assistência da comunidade madeirense, nomeadamente João Rendell (que chega em 1877), H. Maxwell Wright (vistas ocasionais), Martinho Vieira e outros. Em 1883 a Comissão Colonial da Igreja Livre da Escócia decide retirar o seu pastor do Funchal, o Rev. John Munro Allan, até que surgissem condições mais favoráveis. Em protesto, o Rev. Allan resigna (TESTA, p.56). Nesse mesmo ano de 1883 chega ao Funchal o Sr. Manuel Melim (1828-1903) que toma conta do trabalho entre os presbiterianos nacionais. Só em 1892 a Igreja Livre da Escócia envia novo obreiro para a comunidade escocesa do Funchal, o Rev. A. Drummond Patterson, que vai ficar 32 anos. Patterson, que como estrangeiro tinha maior liberdade de movimentos, vai apoiar Melim, que pode assim abrir uma missão no Machico e outra em Santo da Serra. Apesar dessa maior liberdade de movimentos, Patterson também teve vários problemas com a justiça madeirense, tendo mesmo sido acusado do crime por propagar as suas crenças e só foi despronunciado por acórdão da Relação de Lisboa de 11/3/1899 (MADEIRA NOVA, Ano VIII, Série II, 57, de 7/1/1933).

Pastores da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal na Madeira (Novembro 1968) primeiro plano: Rev. Rui A. Rodrigues, Rev. Vasco dos Santos, Rev. José Salvador, Rev. Augusto Esperança. e Rev. Vieira da Silva e Rev. Manuel Sousa Campos Segundo Plano: Rev. Brother, Rev. Nigel Power, Rev. Manuel P. Cardoso (em 1968 pastor estagiário); Rev. C. Vasconcelos; Rev. F. Bronkema: Rev. José Manuel Leite; Rev. Pedro Barbosa e Rev. Mário Neves
Pastores da Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal na Madeira (Novembro 1968)
primeiro plano: Rev. Rui A. Rodrigues, Rev. Vasco dos Santos, Rev. José Salvador, Rev. Augusto Esperança. e Rev. Vieira da Silva e Rev. Manuel Sousa Campos
Segundo Plano: Rev. Brother, Rev. Nigel Power, Rev. Manuel P. Cardoso (em 1968 pastor estagiário); Rev. C. Vasconcelos; Rev. F. Bronkema: Rev. José Manuel Leite; Rev. Pedro Barbosa e Rev. Mário Neves

Em toda esta época há ainda a destacar o trabalho itinerante do evangelista presbítero Manuel Gomes Perneta (1832-1930), de S. Roque, que apodavam de “bispo dos calvinistas”. Era muito novo quando os protestantes foram expulsos da Madeira, e quer ele quer sua família tinha aderido ao presbiterianismo com Kalley. Perneta e os seus ficaram na ilha, mantendo e cultivando a sua fé, dando dela vivo testemunho quer clandestinamente quer às claras. Manuel Gomes Perneta é um dos mais martirizados pela sua persistência, sendo várias vezes insultado, agredido e preso (MADEIRA EVANGÉLICA, 12, 20/8/1927). Morreu em 1930, com 98 anos, e o seu funeral, oficiado pelo Rev. Viterbo Dias, reúne 1200 pessoas. Era a despedida dos protestantes à “última relíquia dos tempos do dr. Kalley,” escreve o MADEIRA EVANGÉLICA (Ano IV, 15/8/1930). Neste virar do século, em razão do esforço evangelístico das figuras mencionadas, o protestantismo presbiteriano volta a crescer na ilha. São inauguradas escolas primárias em Santo António e S. Gonçalo, eleitos e ordenados novos diáconos e presbíteros, e, em Maio de 1907, é criada no Funchal a União Cristã da Mocidade, depois ACM- Associação Cristã da Mocidade (MADEIRA EVANGÉLICA, 12, 20/8/1927).

Grupo de jovens à entrada do Hospital Evangélico, 1953
Grupo de jovens à entrada do Hospital Evangélico, 1953

Bibliog.: ALMEIDA, Fortunato, História da Igreja em Portugal, nova edição preparada e dirigida por Damião Peres, 4 volumes, Porto-Lisboa, Portucalense Editora, 1967-1971; AZEVEDO, Carlos Moreira de (dir.), História Religiosa de Portugal, 3 vols., Lisboa, Circulo de Leitores/Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, 2000-2002; GOUVEIA, Jacinto Cláudio Baptista de, “A Igreja Presbiteriana da Madeira e os Perseguidos de Robert Reid Kalley: os que partiram e os que ficaram”, in Islenha, 52, Funchal, 2013, p.95-100; LANGUM SR., David J., António de Matos – Um Pioneiro Protestante, Lisboa, Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal, 2009; MADEIRA EVANGÉLICA, Funchal, 1927-1939; MADEIRA NOVA, Funchal, 1925-1970; MANSO, D. Manuel Martins, Instrução Pastoral, Funchal, 1852; MOREIRA, Eduardo, Vidas Convergentes, Junta Presbiteriana de Cooperação em Portugal, 1958; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos Azevedo de, Elucidário Madeirense, Fac-símile da edição de 1940-1946, 3 vols., Funchal, RAM/Direcção Regional dos Assuntos Culturais, 1998; TESTA, Michael, Robert Reid Kalley – O Apóstolo da Madeira, 2ª edição, Lisboa, Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal, 2005; VALENTE, David, “A Igreja Evangélica Presbiteriana de Portugal: contributo para a história da sua formação”, in Lusitânia Sacra, 2ª Série, nº. 16, 2004, pp.477-510.

David Valente

(atualizado a 23.09.2015)