imprensa católica

A Igreja Católica vê na imprensa e na sua influência sobre a formação da opinião pública um instrumento central da expressão da cultura e do pensamento, pelo que está ligada a vários títulos e movimentos editoriais. A imprensa católica acompanhou o crescimento e a especialização do sector, muito unida, no seu início, a membros da hierarquia e leigos católicos comprometidos neste campo. A atenção a este fenómeno parte dos próprios papas e já Leão XIII, em 1882, escreve a carta Cognita Nobis sobre a imprensa católica, favorecendo o aparecimento de publicistas e jornalistas católicos, nomeadamente entre os eclesiásticos.

Em 1895, a Santa Sé realizou um inquérito em vários países sobre a situação do jornalismo católico em cada um deles. O mesmo aconteceu em Portugal, num estudo do militante católico Manuel Frutuoso da Fonseca que concluiu que, entre 1840 e 1895, foram publicados 66 jornais católicos, embora algumas destas publicações tenham tido um número pouco significativo de exemplares (FONTES, 2002).

Nos finais do séc. XIX desenvolveu-se o chamado apostolado da “boa imprensa”, com destaque para o Congresso dos Escritores e Oradores Católicos (Porto, 1871-1872) e o Congresso dos Jornalistas Católicos Portugueses (Lisboa, 1905), realizado por proposta de Abúndio da Silva, iniciativa que estaria na origem da criação de comissões diocesanas da Liga da Boa Imprensa.

A primeira exposição da imprensa católica, realizada em dezembro de 1943, revelava a existência de mais de uma centena de títulos, incluindo entre os quotidianos O Jornal do Funchal. A tipologia da altura dividia as publicações em imprensa católica “oficial”, “oficiosa” e “independente”.

O decreto do Concílio Vaticano II sobre os meios de comunicação social, Inter Mirifica, publicado em 1966 pelo papa Paulo VI, retomava as preocupações com a promoção da “boa imprensa”, com a intenção de formar e promover uma opinião pública em consonância com a doutrina e os princípios católicos, para conseguir um “critério cristão” sobre todos os acontecimentos.

A imprensa na Madeira e o seu contexto político

O surgimento da imprensa na Madeira está intimamente associado à revolução liberal de 1820, que veio colocar em causa o primado ideológico e político do catolicismo, situação que se viria a agravar com a expropriação e expulsão das ordens religiosas, e com uma crescente intromissão reguladora do poder político na esfera religiosa. O processo de secularização laicizante das sociedades liberais gerou novos protagonismos e novas autonomias, o que levou a Igreja Católica a servir-se da imprensa para a sua afirmação e expressão doutrinal.

O advento do liberalismo representou na Madeira, como em todo o reino português, um momento particularmente delicado para a Igreja Católica, a qual procurou manter-se alerta, reagindo à dinâmica efetiva da maçonaria, que começou a tornar-se ativa e congregadora de muitas personalidades notáveis. Além disso, o ideário católico foi também colocado em causa pelo proselitismo protestante, num choque que acabaria num raro episódio persecutório. Esta dinâmica é retratada na imprensa católica e acabaria por servir de rampa de lançamento para o séc. XX, que levou ao arquipélago movimentos com novas estratégias para envolver mais os leigos e aproximar a Igreja Católica das populações.

Face à grande taxa de analfabetismo, a imprensa periódica chegava inicialmente a um grupo muito reduzido da sociedade madeirense, sobretudo no Funchal (além desta cidade, apenas se conhece a imprensa na Ponta de Sol e Santa Cruz), mas nem por isso deixou de ser um meio de divulgação cultural e de combate político.

Neste contexto, a 2 de julho de 1821, Nicolau Caetano de Bettencourt Pita iniciava a publicação de O Patriota Funchalense, o primeiro periódico que apareceu na Madeira, com edição bissemanal. No total foram publicados 214 números. Esta publicação empenhou-se na defesa do evento revolucionário de 1820 e permite fazer uma leitura do papel assumido por alguns membros do clero da Diocese do Funchal face à mudança política. O jornal mostra, de forma geral, opiniões favoráveis à aceitação da revolução liberal, elogiando a abertura e a colaboração ativa de vários clérigos (alguns dos quais ali escreviam) na promoção das vantagens da nova ordem nacional. O redator de O Patriota Funchalense elenca os párocos de Santana, Estreito de Camara de Lobos, Campanário, Monte, São Jorge, Ponta Delgada, Machico e Gaula, sublinhando as virtudes e ideias liberais destes e outros membros do clero. Noutro número, tecem-se louvores ao vigário da Ribeira Brava, P.e Januário Vicente Camacho, que promoveu na sua paróquia a aclamação da Constituição.

Outra figura particularmente referida é a do P.e João Manuel de Freitas Branco, vigário de São Jorge que foi eleito deputado pela Madeira às Cortes de 1822. No mesmo concelho, o Cón. Jerónimo Álvares da Silva Pinheiro, vigário de Santana, abraçou com entusiasmo o movimento liberal, tornando-se um grande “propagandista revolucionário”. No seu Elucidário Madeirense, Fernando Augusto da Silva associa esta atividade à maçonaria, acusando o Cón. Silva Pinheiro de ter pertencido às sociedades secretas a quem atribui a revolução liberal, posição que justifica com os artigos que o sacerdote escrevia no Patriota Funchalense, sob o pseudónimo de “Estrela do Norte”.

A figura do “cura constitucional” era apresentada no jornal O Patriota… como a do verdadeiro homem da Igreja ao serviço da causa da nação, por oposição aos que se “atrevem” a não aceitar a nova ordem política.

Em 1823, a 17 de fevereiro, o P.e João Crisóstomo Spínola de Macedo, suplente nas eleições para as Cortes Constituintes, lança o segundo jornal publicado no Funchal, que tinha o título de O Pregador Imparcial da Verdade, da Justiça e da Lei, e que foi publicado durante 34 números.

O primeiro exemplar publica uma mensagem relativa às circunstâncias “terribilíssimas” que derivavam do que o sacerdote classificava como “desastrosos” acontecimentos políticos, numa crítica que se prolonga pelas quatro páginas do periódico (O Pregador Imparcial, Funchal, 17 fev. 1823, 1).

A lei de censura, estabelecida por decreto de 12 de junho de 1823, acabaria por silenciar a voz dos jornais que então se publicavam: O Patriota Funchalense, O Pregador Imparcial da Verdade, A Atalaia da Liberdade e O Regedor. A partir daqui, verificou-se um período de interregno na imprensa, que só retornou em 1827, com O Funchalense.

Joaquim Azevedo e José Ramos publicaram em 1991 um inventário da imprensa católica publicada entre 1820 e 1910. Em relação ao Funchal, além do referido jornal do P.e João Crisóstomo Spínola de Macedo, encontramos em 1858 o Almanach Ecclesiasticum, dirigido pelo P.e António Ribeiro de Vasconcelos. Esta publicação era impressa em Coimbra, mas destinava-se à Diocese do Funchal. No mesmo ano, era publicado A Verdade, órgão da Associação Católica. Em 1875 seria publicado um jornal católico com o mesmo título, dirigido por João Batista de Freitas Leal.

Entre 1866 e 1867 são publicados 13 números do Comércio do Funchal, sob a direção do Cón. Abel Martins Ferreira. Este jornal reaparece em 15 de maio de 1910 e é suspenso em 15 de agosto do mesmo ano.

O Cón. Alberto César de Oliveira dirige, entre 1872 e 1874, A Lâmpada, publicação de comentário à atualidade política e diocesana que viu serem publicados 51 números.

Inocêncio Camacho dirigiu durante 44 números, entre 1879 e 1880, o Religião e Progresso, que se apresentava na sua capa como jornal “religioso, literário, político e científico”, no qual se publicaram, por exemplo, explicações catequéticas sobre figuras bíblicas.

Em 1885 era publicado no Funchal O Domingo Catholico, periódico mensal da Obra de Santificação Do Domingo, instituição católica presente em Portugal e no Brasil.

O Cón. António Vicente Varela dirigiu durante 191 números (1889-1891) a publicação O Látego, folha política, noticiosa e literária.

A Quinzena Religiosa da Ilha da Madeira, órgão da Liga Dominical e da Obra Salesiana dirigido por João Macedo, é publicada a partir de 1900. Em 1911 passa a ser também o órgão da Juventude Católica da Madeira.

O órgão oficial da Diocese, Quinzena Religiosa (1901-1912, 254 números), tem como diretor o Cón. António Manuel Ribeiro, que viria a estar na origem do Jornal da Madeira (JM). Foi suspenso em 15 de Setembro de 1910, reiniciando-se a sua publicação em Fevereiro de 1911.

Entre 1901 e 1902 foram publicados no Funchal 25 números de A Cruz. Os seminaristas da Diocese editaram, entre 1907 e 1908, a revista de formação católica e social A Esperança.

A Ponta do Sol viu nascer, em 1909, o Brado d’ Oeste, uma publicação com direção e propriedade de Clemente de Freitas da Silva que se prolongou durante 858 números, até 1918. A partir de 1917 teve como diretor o P.e João Vieira Caetano.

Origem do Diário de Notícias e do Jornal da Madeira

Em 1876 o Cón. Alberto César de Oliveira surge com o primeiro jornal diário da Madeira, o Diário de Notícias (DN); 30 anos depois aparece o Jornal, fundado em 1906 pelo Cón. António Manuel Pereira Ribeiro, que desde 1932 passou a chamar-se Jornal da Madeira. As duas publicações viriam a tornar-se as principais referências da imprensa escrita na RAM nas décadas seguintes.

A primeira edição do DN do Funchal surgiu a 11 de outubro de 1876, dando origem ao jornal diário mais antigo da Madeira. Na redação e direção do DN, o Cón. Alfredo de Oliveira foi coadjuvado pelo escritor madeirense João de Nóbrega Soares

No dia 8 de fevereiro de 1882, seis anos após a primeira edição, Alexandre Fernandes Camacho Júnior, que era proprietário do Diário da Manhã, suspendeu o mesmo e adquiriu o DN, que voltou a mudar de proprietário dois anos depois, ao passar para as mãos de Tristão Câmara. Nos finais do ano 1896, o DN teve a sua sede no centro do Funchal concentrando lá a sua redação, administração e tipografia.

Por ocasião da implantação da República, em outubro de 1910, o matutino madeirense pertencia a João Martins, proprietário e editor. Em 1911, o jornal passa a incluir um novo secretário da redação e editor, Francisco da Conceição Rodrigues, um defensor dos valores democráticos, que veio a ocupar a direção do DN,.

Em março de 1926, a comissão executiva da Câmara Municipal do Funchal homenageou o DN dando esse mesmo nome a uma das ruas mais movimentadas do Funchal, denominação que se manteve até 1935.

Em 1927, foi a vez de Feliciano Soares assumir a direção do DN, seguindo-se o jovem advogado Alberto de Araújo, que se manteve no cargo até maio de 1974. Entretanto, o jornal tinha sido adquirido pela família Blandy, de origem britânica e ligada ao comércio do vinho na Ilha.

Armindo Abreu sucedeu a Alberto de Araújo na direção, mas ali permaneceu apenas um mês, tendo sido substituído pelo sociólogo José Manuel Paquete de Oliveira, que tinha sido chefe de redação do JM nos finais da década de 50 (antes de ser ordenado padre), sob a direção do Cón. Agostinho Gonçalves Gomes, então deputado na Assembleia Nacional.

Na génese deste periódico encontra-se o Jornal, com o subtítulo “Diário da Tarde”, que veio a público a 27 de março de 1906 pela mão do Cón. António Manuel Pereira Ribeiro; em 22 de novembro de 1923, passou a ser publicado com o título Jornal da Madeira, mas a 1 de janeiro de 1927 foi novamente publicado o n.º 1 de O Jornal, que a 6 de maio de 1931 passou a ter o subtítulo “Diário Regionalista”.

No dia 1 de maio de 1932 – data que é assinalada como a de fundação do periódico – foi adquirido pela Diocese do Funchal e continuou a publicar-se com o título O Jornal e o subtítulo “Diário da Manhã”, iniciando-se a sua Série II. A 1 de maio de 1952 voltou a ser publicado com o título Jornal da Madeira, mantendo-se a mesma numeração.

O JM apresenta-se como um órgão de comunicação social de inspiração cristã, na tradição do Jornal.

República e Igreja

Como aconteceu na revolução liberal de 1820, a nova situação política provocada pela implantação da República, a 5 de outubro de 1910, encontrou forte repercussão na imprensa católica. A reação partiu do próprio episcopado, com uma pastoral assinada por todos os bispos residenciais do continente e pelo coadjutor de Viseu, com data de 24 de dezembro de 1910.

A Igreja mostrava a preocupação de proteger a imprensa católica e pedia aos jornalistas que deixassem de lado quaisquer polémicas “irritantes”.

Na Madeira, em 1912 começa a ser publicado o Boletim Eclesiástico da Madeira, dirigido pelo Cón. António Manuel Pereira Ribeiro, que viria a ser bispo do Funchal entre 1915 e 1957, depois de ter sido vigário capitular durante três anos.

Numa circular de 23 de abril de 1917, D. António Manuel Pereira Ribeiro critica as notícias e informações tendenciosas de quem acusa de promover o “vírus do erro, da desgraça, da irreligião, da licenciosidade e do impudor” (Boletim Eclesiástico da Madeira, Funchal, maio de 1917, 45).

Neste ponto, a Madeira seguia o panorama nacional, com novas lideranças eclesiásticas: em diversas dioceses, sobretudo a partir de 1914, assistiu-se ao surgimento de boletins diocesanos que espelhavam de forma orgânica a ação mais autónoma dos bispos face ao regime.

O advento da República, com o seu anticlericalismo radical inicial e o regime de separação Igreja/Estado, veio a formar uma elite de militantes católicos no Funchal, com destaque para Juvenal Henriques de Araújo, Antonino Pestana e Manuel Pestana Reis. Surgiram associações caritativas e de ensino, como a Associação Protetora da Mocidade, com a Escola de Artes e Ofícios, fundada em 1921 pelo P.e Laurindo Pestana, e entregue, em 1925, aos Padres Salesianos, e a Liga de Ação Social Cristã (1922), a que se somou a chegada de novas congregações religiosas, como os Irmãos de S. João de Deus (1922) e as Irmãs Hospitaleiras do Sagrado Coração (1925).

O aumento da formação e militância, com os Círculos Católicos e a Juventude Católica, ajuda a um ressurgimento da imprensa católica, com destaque para a revista Esperança (1919-1938) e o jornal Correio da Madeira (1922-1932), onde foi redator, entre outros, o P.e Eduardo Clemente Nunes Pereira.

A tentativa falhada de ressuscitar o combate anticlerical inicial, materializada nos jornais A Luz (1919-1922), O Vigilante (1918-1920) e A Razão (1920-1921), não conseguiu impedir a instalação de congregações religiosas, sinal de um bom entendimento entre as autoridades civis e religiosas. A hierarquia católica acabou por acatar o novo regime e colaborar com as instituições políticas vigentes. A 22 de janeiro de 1917, uma pastoral dos bispos apelava à organização dos católicos e à apresentação de candidatos próprios nas eleições para deputados, atitude que pode ser vista como um novo paradigma de atuação da Igreja, que levou ao reforço da sua presença na sociedade portuguesa de então.

Ideologicamente, é possível encontrar nalguma imprensa católica da época o legado filosófico e político do tradicionalismo legitimista de um grupo de homens, reunidos à volta da Nação Portuguesa (1914-1926) e do diário A Monarquia (1917-1925), que via na República um mal anunciado desde o liberalismo. Nascia, então, o Integralismo Lusitano, movimento de doutrina e de ação política, inspirado em França, com uma aproximação doutrinária e ideológica entre legitimistas e integralistas, apesar da dificuldade de entendimento no campo monárquico em geral em relação à questão dinástica.

A posição da Igreja e dos monárquicos viu-se reforçada pela chegada à Madeira, nos finais de 1921, do ex-imperador Carlos de Áustria, exilado com a esposa, Zita de Bragança Bourbon Parma, neta do rei D. Miguel, e os sete filhos de ambos. O ex-imperador era profundamente católico, tendo escolhido como capelão pessoal o Cón. Homem de Gouveia, visitando as igrejas da cidade e passeando sozinho com a mulher na baixa, tendo recolhido enorme simpatia durante a sua permanência na Ilha.

A Igreja na Madeira, no entanto, procurava distanciar-se das questões dos monárquicos e as posições mais radicais dos integralistas eram rejeitadas pela maioria dos elementos do Centro Católico, que se apresentavam, através do Correio da Madeira, a defender independência na política ativa, como propunham as pastorais dos bispos portugueses.

A polémica teve como um dos seus protagonistas Alfredo de Freitas Branco, o visconde do Porto da Cruz, o qual surge em vários periódicos a atacar os católicos que se aliavam à República contra as forças monárquicas.

O discurso republicano nestes anos passou, essencialmente, pelo DN do Funchal, cujo chefe de redação era Domingos Reis Costa, presidente da comissão executiva da Junta Geral e que seria deputado em 1925. Ao contrário do que aconteceia no JM, as notícias são, essencialmente, vinculadas a partir de jornais de Portugal continental.

Em 1921 começou a ser publicado o boletim da Diocese do Funchal, Vida Diocesana, com direção do P.e Manuel Gomes Jardim.

Autonomia

O discurso ligado ao integralismo lusitano, por sua vez, foi veiculado no arquipélago, essencialmente, pelo JM, propriedade da Gráfica Madeirense Lda., que tinha como principal acionista o diretor do jornal, Luís Vieira de Castro, assumidamente monárquico, que chegou a líder regional desta causa. No editorial do primeiro número de 1923, abordava-se o tema da descentralização, criticando-se o liberalismo que eliminara as atribuições conferidas pelos velhos forais.

O JM procura assumir nesta época um estilo mais claramente de imprensa específica regional, pretendendo libertar-se do noticiário nacional. A esta atenção pela atualidade local somou-se a promoção de uma nova orientação política, nomeadamente a luta regionalista. O periódico tem assim uma orientação ideológica e formativa, que o leva a dedicar mais espaço e atenção aos problemas regionais.

O movimento regionalista não se centrou apenas no combate pela autonomia, contando com personalidades que se evidenciaram no estudo e na promoção da história e da cultura madeirenses. Neste contexto, destacam-se as comemorações do V Centenário do Descobrimento da Madeira, que decorreram nos anos de 1922 e 1923, e o projeto de publicação do Elucidário Madeirense, de Fernando Augusto da Silva (em colaboração com Carlos Azevedo de Meneses), uma das personalidades ligadas à chamada tertúlia “O Cenáculo”, que retomava alguns textos publicados em vários jornais do Funchal como o Heraldo da Madeira, o Diário da Madeira e o DN. Fernando Augusto da Silva também coordenou a publicação comemorativa do centenário da Comissão de Propaganda e Publicidade (1922).

Durante a República existiram condições para a proliferação dos periódicos, que assumiram um destacado papel no debate público e na promoção da cultura madeirense, como veículo de propaganda política e cultural. O regime de ditadura imposto pelos militares em 1926 introduziu a censura, conduzindo a uma perda de influência da imprensa, em particular a que estava ligada a sectores da oposição, como o trimensário humorístico Re-nhau-nhau, que se publicou de 1929 a 1977, e, a partir da década de 1960, o semanário Comércio do Funchal.

Um decreto do bispo D. David Sousa, de 24 de novembro 1960 e que entrou em vigor a 1 de janeiro de 1961, aumentou significativamente o número de paróquias da Diocese do Funchal, criando 50 que foram desmembradas das 52 já existentes e ficando a Diocese com 102 paróquias. Esta decisão repercutiu-se no número de boletins locais.

D. João Saraiva, seu sucessor, teria de enfrentar queixas e ações da Censura por causa da orientação do JM. No pós-25 de Abril, ganha relevo a relação entre o futuro presidente regional, Alberto João Jardim, designado como diretor do JM por D. Francisco Santana (1924-1982), bispo do Funchal entre 1974 e 1982, e este prelado, que centralizou a resistência ao gonçalvismo na Madeira.

As mudanças políticas que se seguiram ao final do Estado Novo começaram a ser mais visíveis a partir das comemorações do 1.º de Maio, uma manifestação preparada pelo chamado Grupo do Comércio do Funchal e pelo grupo dos “padres do Pombal”, sacerdotes considerados progressistas, com ligações ao movimento de operários católicos, que divulgavam as suas opiniões em vários artigos.

O JM, que passou a ser propriedade do Governo Regional, não deixou de divulgar os valores cristãos e contou, desde então, com uma tradição de textos de opinião e documentos oficiais assinados pelos vários bispos diocesanos, com uma atividade assinalável de D. Teodoro de Faria, e a direção, entre 1978 e 2003, do Cón. Tomé Velosa, que faleceu em 2010. Ao referido bispo deve-se a aposta num serviço diocesano próprio para as Comunicações Sociais e a criação de umde pastoral, que viu a luz do dia a 26 de março de 1989. Enviado gratuitamente para todas as paróquias, casas religiosas e movimentos apostólicos, o Boletim assumia-se como um órgão de informação sobre a vida da Diocese. Em nota pastoral de 1996, o prelado diocesano sublinhava que a evangelização não dispensa os meios modernos de comunicação social.

João Paulo II, o primeiro papa a visitar o arquipélago, a 12 de maio de 1991, recordou o 35.º Dia Mundial das Comunicações Sociais, que se assinalava nessa data, apelando a um sentido de responsabilidade moral por parte dos profissionais do sector.

D. António Carrilho, 32.º bispo do Funchal, sublinharia que a ação evangelizadora da Igreja se tornava mais visível com os meios de comunicação social, tendo promovido a criação de um Gabinete de Informação, uma preocupação que se estendeu ao renovado site da Diocese: www.diocesedofunchal.pt (acedido a 28 out. 2015).

Meios católicos

A análise dos dois últimos séculos revela a importância que a imprensa católica veio a ocupar na relação da Igreja com o todo da sociedade e na definição do seu papel no debate público; esta intervenção manifestou-se ao longo das sucessivas revoluções e transformações políticas que agitaram o universo católico, o seu sentido de crença e o exercício da cidadania, numa dinâmica que acompanhou o alargamento da rede de títulos a nível da informação geral, da propaganda religiosa e da doutrinação social, num inédito horizonte de laicidade e pluralismo.

A este novo relacionamento dos católicos com a sociedade madeirense correspondeu a utilização de meios modernos, da imprensa às tecnologias da comunicação digital. A necessidade de promover a “boa imprensa” levou a um empenhamento direto de várias figuras eclesiásticas, a começar pelo próprio episcopado, nesta tarefa, com a criação de órgãos de comunicação próprios de dimensão regional, e de uma rede de boletins paroquiais que fortaleceu a dinâmica de reaproximação dos fiéis.

Na passagem para o séc. XXI, a presença da Igreja Católica na comunicação social fez-se cada vez menos através de meios próprios. O anuário católico da Conferência Episcopal Portuguesa registava em 2014 a existência de 513 meios de comunicação ligados à Igreja (jornais, revistas, boletins, rádios, editoras, tipografias, livrarias), dos quais três na Diocese do Funchal:

– O Posto Emissor do Funchal, oficialmente inaugurado a 28 de maio de 1948. É uma sociedade por quotas, pertencendo a maioria do capital social à Diocese do Funchal, que assume no seu estatuto editorial o quadro de valores e princípios da doutrina cristã.

– A Rádio Jornal da Madeira. Nascida em 1989, em complementaridade com a atividade do próprio JM, apresenta-se como um órgão de comunicação social de perspetiva cristã.

– A Paulinas Livraria do Funchal. Com o carisma de evangelizar através dos meios de comunicação mais modernos, na linha do seu fundador, o Beato Tiago Alberione, as Irmãs Paulinas instalam-se no Funchal em 1972, criando no ano seguinte a Livraria Paulinas. Este estabelecimento nasceu e desenvolveu-se como um polo de difusão da edição religiosa (livros e produtos multimédia) na Madeira. As Paulinas marcaram também presença na rádio, criando programas semanais de natureza religiosa: “A verdade vos libertará”, começado a emitir em 1974 na Rádio Madeira; “Ama e Viverás” inaugurado no Posto Emissor do Funchal em 1978; e “Amanhã é Festa” iniciado em 1981 na Antena 1 Madeira.

– O suplemento Pedras Vivas (JM), com 12 páginas, publicado ao domingo, que é o principal espaço dedicado à Igreja Católica na imprensa madeirense, num jornal detido na quase totalidade (99,98 %), pelo Governo Regional da Madeira. A 27 de agosto de 2015, a Diocese do Funchal anunciava, em comunicado divulgado através da sua página na Internet, o final da sua participação na empresa Jornal da Madeira, Lda., em ordem à sua privatização, reservando para si o título original de Jornal da Madeira e do suplemento semanal Pedras Vivas. A 1 de setembro de 2015 era publicado o primeiro número do novo matutino regional JM, já sem a participação da Diocese do Funchal. O periódico apresentou-se como “herdeiro de um legado histórico e civilizacional de tradição judaico-cristã que moldou o povo madeirense” (“Estatuto editorial”, JM, Funchal, 01 set. 2015, 1).

Imprensa regional

Alexandre Manuel, do Centro de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa, apresentou em 2013 um trabalho sobre a imprensa regional da Igreja Católica em Portugal, revelando que os seus cerca de 800 títulos são lidos por cerca de metade da população portuguesa com mais de 15 anos.

O estudo confirma que o caminho da imprensa católica em Portugal no séc. XXI foi cada vez mais de aposta na proximidade e na regionalização, face ao fracasso de projetos nacionais, em particular de um jornal de referência – a última experiência aconteceu, por iniciativa do Patriarcado de Lisboa, com o semanário Nova Terra, em 1975.

O percurso da imprensa católica na Madeira mostra, a este respeito, que a questão da presença da Igreja no debate público não se limita ao facto de dispor de “púlpitos” próprios para transmitir a sua mensagem, mas se reflete na aposta por estar representada nos locais onde se faz opinião.

O panorama geral da imprensa na Região foi traçado pela ERC – Entidade Reguladora para a Comunicação Social –, a qual contabilizava, a 7 de dezembro de 2009, um total de 728 jornais locais e regionais, dos quais apenas 11 (1,5 % do total) na Madeira.

Imprensa missionária

Em 2014, a Associação de Imprensa de Inspiração Cristã tinha como único associado registado da Diocese do Funchal a revista trimestral O Reino do Coração de Jesus, fundada pelos religiosos dehonianos em 1958. Aos católicos madeirenses, no entanto, chegam várias publicações das ordens e congregações religiosas no país, como a Boa Nova, a revista missionária mais antiga em Portugal, mensalmente publicada desde 1924 pela Sociedade Portuguesa das Missões Católicas Ultramarinas; Missões Franciscanas, mensário da Ordem Franciscana publicado desde 1937; Acção Missionária, jornal lançado em 1940 pela Congregação do Espírito Santo; Fátima Missionária, revista publicada desde 1955 pelo Instituto Missionário da Consolata; Além-Mar, revista publicada desde 1956 pelos Missionários Combonianos que, desde 1966, editam também uma revista para o público juvenil, Audácia.

Além destas publicações missionárias, cerca de centena e meia de congregações e institutos de vida consagrada masculinos e femininos, bem como as ordens terceiras, possuem, por norma, publicações informativas ou de carácter espiritual e formativo, com títulos de grande circulação como a revista mensal Família Cristã, publicada em Portugal desde 1954 pelos Paulistas.

Bibliog.: impressa: AZEVEDO, Joaquim e RAMOS, José, “Inventário da Imprensa Católica entre 1820 e 1910”, Lusitania Sacra, 2.ª série, n.º 3, 1991, pp. 215-264; “Estatuto editorial”, Jornal da Madeira, Funchal, 01 set. 2015, p. 1; FONTES, Paulo, “Imprensa Católica”, in AZEVEDO, Carlos Moreira de (dir.), Dicionário de História Religiosa de Portugal, vol. ii, Lisboa, Círculo de Leitores/Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa, 2000-2002, pp. 423-428; FREITAS, J. A., Resenha Cronológica do Jornalismo Madeirense, Funchal, Empresa do Diário de Notícias do Funchal, 1908; MACEDO, João Crisóstomo Spínola de Macedo, “Concidadãos”, O Pregador Imparcial da Verdade, da Justiça e da Lei, Funchal, 17 fev. 1823, pp.1-4; MANUEL, Alexandre, Da Imprensa Regional da Igreja Católica. O que É, Quem a Faz e Quem a Lê, Coimbra, Minerva, 2013; PITA, Gabriel de Jesus, “A Igreja Católica na Madeira do Liberalismo ao Estado Novo”, Newsletter do CEHA, n.º 15, out. 2012, pp. 18-20; PORTO DA CRUZ, Visconde do, Notas e Comentários para a História Literária da Madeira, 3 vols., Funchal, Câmara Municipal do Funchal, 1949-1953; RIBEIRO, António Manuel Pereira, “Circular”, Boletim Eclesiástico da Madeira, Funchal, maio de 1917, p. 45; SILVA, Fernando Augusto da e MENESES, Carlos de Azevedo, Elucidário madeirense, 4.ª ed., 3 vols., Funchal, Secretaria Regional da Educação e Cultura, 1978; SILVA, Paulo Sérgio Cunha da, D. António Manuel Pereira Ribeiro, Bispo do Funchal (1915-1957). Igreja e Sociedade nos Inícios do Século XX no Funchal, Lisboa, Universidade Católica Portuguesa, 2012; SOUSA, Rui Fernando Nunes de, “Catolicismo e Liberalismo n’O Patriota Funchalense (1821-1823)”, Lusitania Sacra, 2.ª série, n.º 3, 1991, pp. 155-214; digital: DIOCESE DO FUNCHAL, “Comunicado sobre o ‘Jornal da Madeira’”: http://www.diocesedofunchal.pt/arquivo-de-noticias/comunicado-sobre-o-jornal-da-madeira:766 (acedido a 24 fev. 2016).

Octávio Carmo