infante d. henrique

Quinto filho de D. João I e de D. Filipa de Lencastre, ligado ao início dos Descobrimentos e da expansão marítima, nomeadamente a diversos feitos militares em Marrocos, ao povoamento e exploração dos arquipélagos atlânticos e ao avanço para Sul, contornando a costa ocidental africana. Atravessou três reinados (D. João I, D. Duarte e D. Afonso V) e um período de regência (infante D. Pedro). Participou na conquista de Ceuta (1415), tendo reunido no Porto as forças militares do norte do reino que integraram a expedição.

Armado cavaleiro em Ceuta após a conquista, onde lutou a 18 de fevereiro de 1416, foi encarregado de organizar a manutenção da praça e a ela voltou em 1418, na companhia de seu irmão D. João, comandando uma expedição que teve como objetivo o socorro da cidade perante o cerco dos reis de Fez e de Granada. Por volta de 1419, montou uma armada de corso que atuava no Estreito de Gibraltar, a partir de Ceuta. Regressou a Marrocos em 1437, para uma infrutífera e desastrosa missão: a conquista de Tânger. Em 1432, ainda em vida de seu pai e provavelmente à revelia deste, D. Duarte havia pedido pareceres aos seus familiares mais próximos (D. Henrique, D. João, condes de Barcelos, de Arraiolos e de Ourém) sobre a matéria. As opiniões dividiram-se e só o parecer oral de D. Henrique parece ter sido favorável à empresa marroquina, que D. João I pretendia comandar. Com a morte do rei, o assunto ficou alguns anos em compasso de espera. Foi D. Henrique quem comandou a armada que se reuniu em Ceuta, mas a conceção estratégica em terra revelou-se desadequada e o resultado obtido na expedição foi a derrota, com o cativeiro do infante D. Fernando, seu irmão (que só seria libertado caso os portugueses entregassem a praça de Ceuta). No final da vida, em 1458, regressou de novo ao norte de África. Desta vez, participou, com D. Afonso V, na conquista de Alcácer-Ceguer.

O infante também se destacou noutra frente, a do povoamento e da exploração dos arquipélagos atlânticos. Foram dois escudeiros de D. Henrique, João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira, que, em 1419-1420, desembarcaram no arquipélago da Madeira. Pouco tempo volvido, deu-se início ao povoamento e à exploração do mesmo. A ligação do infante ao arquipélago tornou-se mais profunda em 1433, quando D. Duarte lhe doou a sua exploração, ou seja, o senhorio da Madeira. Em 1439, recebeu autorização para colonizar o arquipélago dos Açores, começado a explorar entre 1427 e 1432, com a participação de servidores de sua casa, tais como Gonçalo Velho.

Paralelamente, o arquipélago das Canárias também foi merecendo os interesses de D. Henrique. Em 1424, enviou, no comando de um exército de 2.500 homens, D. Fernando de Castro, governador da sua casa, com vista à conquista da Grã Canária. A missão, na qual se gastaram entre 1/5 e 1/6 das receitas da coroa, foi mal sucedida. No ano seguinte, será Antão Gonçalves, guarda-roupa de D. Henrique, a chefiar nova expedição, que conheceu igual insucesso, bem como os protestos de Castela. Posteriormente, os corsários do infante também não pouparam o arquipélago, que será objeto de disputa entre Portugal e Castela e que permitirá obter escravos e outras mercadorias rentáveis, tais como o sangue-de-drago e a urzela, utilizados na tinturaria e também para fins medicinais. Em 1434, houve nova tentativa de conquista do arquipélago, igualmente sem sucesso.

Finalmente, no que se refere às viagens ao longo da costa ocidental africana, desde 1422 até 1434, neste último ano sob o comando de Gil Eanes, escudeiro do infante que conseguiu obter êxito, D. Henrique envio anualmente um navio para tentar passar o Cabo Bojador. As dificuldades eram várias e de ordem diversificada: o local representava o final do espaço marítimo conhecido, constituía um obstáculo à navegação por estar sempre envolto em nevoeiro e ser rodeado de recifes; os navegadores temiam navegar em mar alto, ao mesmo tempo que conheciam e receavam todas as pseudoinformações acerca do mar tenebroso. Não esqueçamos que circulavam lendas várias acerca do mar além do Bojador, o qual seria constituído por águas ferventes e habitado por um vasto conjunto de monstros. Em 1434, com a passagem do Cabo Bojador e o fim dos mitos medievais acerca do oceano, dá-se um ponto de viragem rumo às novas conceções geográficas, tornando psicologicamente mais fundamentadas as possibilidades de encontrar o lendário reino cristão do preste João, situado algures na Etiópia, e infligir ataques em várias frentes ao poderio muçulmano. Entre 1436 e 1441, houve um período de interrupção nas navegações para Sul. As explicações devem ser encontradas na derrota de Tânger; na morte de D. Duarte; bem como no clima de conflituosidade que se viveu em seguida e na necessidade de se apurarem as técnicas relativas às viagens. Em particular, verificaram-se alterações nos barcos: passaram a ser utilizadas as caravelas, que tornavam possível a navegação à bolina, a par do quadrante, instrumento que permitia medir a altura da Estrela Polar e, consequentemente, calcular a latitude. Ao mesmo tempo, foram sendo desenhados mais roteiros e cartas. Após esta interrupção, as viagens prosseguiram com sucesso. À descoberta de novos espaços juntava-se um proveitoso comércio de pessoas, ouro, óleo e peles de focas. Em 1460, quando D. Henrique faleceu, os seus marinheiros tinham chegado à Serra Leoa e encontrado o arquipélago de Cabo Verde.

A acumulação do seu património foi paulatina: em 1415, após a conquista de Ceuta, recebeu o ducado de Viseu e o senhorio da Covilhã; em 1418, a administração da Ordem Militar de Cristo; em 1433, o senhorio da Madeira, a isenção do pagamento do quinto das presas capturadas pelos seus corsários e o exclusivo da pesca do atum; em 1443, o monopólio da exploração comercial dos territórios a sul do cabo Bojador e o hábito da ordem de Cristo, sem abdicar do ducado de Viseu nem de outros bens temporais que tivesse ou viesse a ter, por bula de Eugénio IV. O mesmo papa autorizou o infante a possuir ilhas, confiando-lhe a espiritualidade das que não tivessem bispo nem houvesse memória de o terem tido. De menor monta, mas mesmo assim relevantes, foram direitos e monopólios de que beneficiou nas suas terras, nomeadamente em relação ao vinho, à madeira, ao sabão, e também a moinhos, à pesca e à tinturaria do pastel.

Bibliog.: COSTA João Paulo de Oliveira e, Henrique, O Infante, Lisboa, Esfera dos Livros, 2009; MATOS, Artur Teodoro de, Henrique o Navegador, Lisboa, CTT Correios, 1994; RUSSEL, Peter, Henrique, o Navegador, Ana Carvalho (trad.), Lisboa, Livros Horizonte, 2004; SOUSA, João Silva de, A Casa Senhorial do Infante D. Henrique, Lisboa, Livros Horizonte, 1991.

Isabel Drumond Braga

(atualizado a 26.08.2016)